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Da natureza: uma leitura de resistência (O que é o homem) é o homem)

As relações entre os membros na família de Fabiano, as relações fora do núcleo familiar e, em ambos os casos, as conjecturas dadas solitárias, em um remoer constante, permitiram, no primeiro e no segundo capítulo deste trabalho, uma análise das relações sociais e culturais da obra.

Mantivemos sempre a tendência de perguntar pelo humano. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, traz no seu bojo uma dimensão profundamente humana. Essa obra nos sugere o alcance da natureza do homem, perspectiva reconhecida tanto no âmbito nacional quanto no internacional do mundo literário.

Os aspectos interdisciplinares ali envolvidos demonstram, em ficção, aquilo que as ciências humanas e políticas teorizam. Sendo assim, remetem-nos às manifestações próprias do homem, naquilo que compreende sua trajetória, culminando na compreensão do seu aspecto transcendental.

A obra despertou, portanto, nossa atenção, a partir da dimensão do espírito, presente na estrutura antropológica. As situações extremas expressas nos personagens, como demonstrações de tenacidade daqueles as vivenciam, determinam o desenvolvimento do drama em que se inserem. Apesar de se apresentar sob enfoque marxista, partindo, pois, de uma visão materialista, a obra não pôde deixar de transmitir aspectos espirituais presentes nos sonhos e nos medos dos personagens. Estes aspectos têm origem na intelectualidade humana.

O homem é mais que simples matéria, ele demonstra em sua constituição o avesso da materialidade. Sua trajetória vai desde a operação sofisticada de reconhecimento de si como sujeito, presente na percepção de sua ação reflexiva, até a produção de opiniões, que são transmitidas pela linguagem verbal. Estaremos estudando essa característica humana, isto é, a procura de expressão e o seu oposto, ou seja, a falta de expressão, situação que é uma constante na obra. As circunstâncias dessa falta é que constituem a trama de Vidas Secas.

A produção da linguagem falada, um caminho tomado pelo pensamento para expandir-se, liga as manifestações do espírito às relações no mundo, pelo princípio

da Razão. A reflexividade do homem, esse atributo que permite as convicções e possibilita a opinião, faz com que ele passe de um estado que o caracterizaria como um corpo apenas na superfície, o estar-no-mundo, para uma presença consciente. De um estar-no-mundo passa ao ser-no-mundo. Essa atuação consciente é dada pelo domínio do psiquismo na organização humana, que relaciona matéria e espírito. O psiquismo funciona como um registro das impressões do mundo exterior, recebe as influências do mundo externo e as encaminha para o espírito, que as retém. Poderíamos ver o psiquismo como um funcionário, cuja função é receber, registrar as impressões e passar a uma escala mais abrangente, aquela que as recebe e dela faz aplicações. Passa, portanto, pela dimensão espiritual a capacidade de comunicar, pois ali se elaboram as linguagens. Dizemos linguagens, porque não falamos apenas a verbal, existem outras formas de comunicação.

As outras modalidades de linguagem que o homem cria pelo gesto, por figuras desenhadas ou esculpidas, pelo olhar, se forem comparadas com a linguagem verbal vão revelar-se tão ou mais eficientes que esta, porém todas elas aparecem como representações de um conteúdo intelectual que se constitui em marca humana. Essa operação denomina-se discurso filosófico, que significa uma transposição de percepções em símbolos.

Entretanto, as possibilidades comunicativas e o processo pelo qual o homem se percebe como ser inteligente exige metodologia de estudo na compreensão da estrutura. Os pontos de articulação nos três níveis construtores da Antropologia Filosófica são reveladores nesse sentido.

Assim, o somático, o psíquico e o espiritual complementam-se. Estudá-los é revitalizar o ciclo, repetindo-o em trajetória inversa. Trata-se da conjunção da realidade exterior e física, o somático, com as manifestações espirituais, cuja intermediação dá-se por meio do psíquico. A estrutura antropológica entendida como suporte, logo, servindo de instrumento metodológico, ativa a mediação do conjunto de suas estruturas com as situações do mundo exterior. Queremos dizer que a ficção, baseada nessas representações de mundo, tem como suporte os níveis da estrutura antropológica.

O nível espiritual completa-se pela noção do noético-pneumático, Verdade e Bem. É nesse estágio que aparece o nível da compreensão finita, dimensão do

homem relacionada à infinita. É essa emanação de Deus que o homem é instigado a procurar.

Por isso, a comunicação verbal que se constitui na via pela qual o cristão frui a Palavra Divina, a representação explícita de Cristo, filho de Deus, esboça a imensa penúria daqueles sertanejos. O fato da família não ser capaz de se expressar verbalmente constitui a grande dimensão do drama, já que os impossibilita de ascenderem espiritualmente. Decorre deles um desempenho aquém do convencional, quando a manifestação do espírito exige transcendentalidade, uma situação além do normal, uma conquista.

O romance trata, portanto, da profundidade prevista no complexo homem, representado por Fabiano e sua família. As circunstâncias envolvem as questões sociais, influenciando a estrutura noético-psíquica. Daí, decorrem as inferências à ética, à justiça e à caridade, momento em que surge a resistência: como resposta da constituição humana aos desmandos produzidos pela própria reflexividade na busca do poder.

Enquanto participantes dessa espécie, dependemos da linguagem verbal para a comunicação, conhecemos a complexidade de sua elaboração e a dificuldade de sua equivalência com aquilo que conseguimos inferir. Visto por esse ângulo, a expressão também é um ato de resistência. Provavelmente, por isso, outras modalidades de linguagem não verbais apareçam nesse esforço de comunicação, já que a instância espiritual é uma usina produtiva. As relações com o mundo exterior, em circuito com os níveis de compreensão, apresentam-se em dialética, que surge da intensidade das ações.

Estaremos, portanto, nesse capítulo, ressaltando os processos e as iniciativas de comunicação que derivam para o que é chamado de mística natural, com capacidade para evoluir para mística cristã. Esta última apresenta-se como compreensão de Cristo como Verbo. Esses passos da contemplação159 negados aos

sertanejos, consistem a trama de Vidas Secas. Todas as necessidades da família estão compreendidas gradativamente nessa falta de percepção. A questão central é se a condição de vida social e política é capaz de sufocar a natureza humana.

159 Processo da inclinação do homem em sua compreensão finita à dimensão infinita do Espírito Absoluto.

Das estratégias de manutenção da vida surge outra forma resistente na obra, por isso Vidas Secas pode ser considerada como literatura de resistência, segundo Alfredo Bosi 160. Assim, faremos correlação de pressupostos teóricos dessa noção

com aqueles que constituem os processos reflexivos humanos, provindos da estrutura espiritual. As coincidências, com toda a certeza, surgirão em resposta ao nosso interesse.

Partimos daí, para entendermos a trajetória de Fabiano, personagem do drama de Graciliano, que por ser humano demonstra seu desempenho a partir da intuição intelectual. O mundo, o espírito e o Absoluto são os pólos e as relações entre eles dão-nos conta do que é o homem. A curiosidade e a tendência à busca definem o caráter filosófico de um ser de razão, é sua consistência. Esta surge baseada na segura proposta de conhecer para se orientar.

Os passos do conhecimento para vida orientam a família sertaneja para uma percepção mais ativa. Esse artifício gera recursos para a manutenção do corpo físico e das condições psicológicas, reafirmando que somos um circuito, cujo ápice está na possibilidade infinita de alcance.