CAPÍTULO I: ENQUADRAMENTO TEÓRICO
I.3. Da Necessidade de Uma Abordagem Multidisciplinar
A resposta ao fenómeno da violência doméstica não se deve cingir à atuação de uma única instituição ou entidade. De acordo com ROSA LOGAR (2006, p. 4) qualquer intervenção
isolada nesta área é ineficaz. Por outro lado, na linha de pensamento de ADAM CRAWFORD
(1998, p. 170), a resposta perante um fenómeno multifacetado com causas distintas deve apresentar um cariz setorial. Assim, a realidade complexa do flagelo de violência doméstica carece de uma atuação que englobe vários setores da sociedade enquanto modelo de intervenção e resposta.
Esta tipologia de intervenção deve ser percecionada como uma estratégia que visa incrementar a quantidade e a qualidade dos serviços prestados, adequando as respostas à problemática da violência doméstica (LOGAR, 2006, p. 53). Neste sentido, através de uma abordagem multissetorial e devidamente coordenada, deve-se procurar atingir os seguintes objetivos (ASSOCIAÇÃO DE MULHERES CONTRA A VIOLÊNCIA, 2013, p. 84):
8 A definição genérica de femicídio aponta para o “assassinato de mulheres e raparigas tendo por base o seu
género, perpetuado ou tolerado por atores públicos e privados. Abrange, inter alia, o assassinato de mulheres como resultado da violência entre parceiros íntimos, a tortura e o assassinato misógino de mulheres, o assassinato de mulheres e raparigas em nome da honra, o assassinato de mulheres e raparigas em contexto de conflitos armados e os casos de femicídio relacionados com gangues, crime organizado e tráfico de drogas e de seres humanos” (EIGE, 2017, p. 17). Na definição de femicídio desenvolvida com propósito estatístico, “o assassinato de mulheres por parceiro íntimo e a morte de mulheres como resultado de práticas que lhes são nocivas. O parceiro íntimo é entendido como o paceiro atual ou anterior da vítima, independentemente de coabitarem na mesma residência” (EIGE, 2017, p. 23).
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➢ Reconhecer a complexidade da problemática e as suas consequências, procurando produzir mudança social e contribuir para a sua prevenção; ➢ Aumentar a eficácia do sistema de suporte, procurando aumentar a segurança
e proteção das vítimas e indo ao encontro das suas reais necessidades; ➢ Implementar modelos de atuação, numa perspetiva de defesa de direitos
humanos;
➢ Minimizar a revitimação através da implementação de modelos integrados de intervenção, com procedimentos de partilha de informação e de encaminhamento;
➢ Aumentar o empowerment das vítimas, promovendo o seu acesso a recursos e mobilizando um conjunto de respostas que procuram garantir o gozo efetivo dos seus direitos;
➢ Aumentar a responsabilização do agressor, assegurando que seja criminalmente penalizado e incentivando o envolvimento dos diversos recursos da comunidade na contenção dos seus comportamentos de violência. Tendo presente este desiderato, é necessário envolver e articular as instituições públicas competentes neste âmbito com as mais diversas entidades e serviços existentes na comunidade ao nível local9. Segundo SHEPARD et al. (2002) a probabilidade de se atingirem resultados positivos é maior quando existe uma resposta coordenada da comunidade, onde o sistema de justiça, a polícia, os serviços de saúde e outras organizações de cariz voluntário cooperem entre si com o intuito de proteger as vítimas e responsabilizar os agressores. Paralelamente, as próprias vítimas e as suas respetivas famílias devem colaborar com as instituições envolvidas (MAGALHÃES, 2018, p. 77), uma vez que possuem um papel importante e central na proteção da vítima.
A implementação de abordagens multidisciplinares relativamente ao fenómeno da violência doméstica é um aspeto defendido por diversos autores. Nesta senda, ALAN CLARKE
e SARAH WYDALL (2013, p. 393) reconhecem que a violência doméstica detém uma natureza
complexa que necessita de uma abordagem sofisticada que integre diversas instituições e entidades. Estes autores referem ainda que uma política abrangente de resposta a esta problemática deve incidir sobre as necessidades das vítimas e sobre os comportamentos dos agressores. Na mesma linha de pensamento, TERESA MAGALHÃES (2018, p. 78) classifica
9 De acordo com ROSA LOGAR (2006, p. 56) as abordagens multidisciplinares têm uma maior eficiência a um
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como obrigatória a intervenção multidisciplinar perante qualquer situação de violência doméstica. Com efeito, a autora elenca que “só uma articulação adequada poderá permitir uma colaboração efetiva na proteção da vítima (diagnóstico da situação, orientação do caso, prevenção da revitimação e promoção de evidências) e na investigação criminal (denúncia do caso e preservação de evidências), bem como evitar a vitimação secundária (garantindo abordagens corretas e sem repetições desnecessárias)”. Por seu turno, SOFIA NEVES e
ELISABETE BRASIL (2018,p.182), ao afirmarem que “deve emergir o paradigma de que as
respostas existentes estejam técnicas e pessoalmente disponíveis, de que sejam multidisciplinares, céleres, especializadas e contínuas”, exaltam também a necessidade de se adotarem abordagens coordenadas e articuladas.
A conceção e implementação de intervenções multidisciplinares não se tornam automaticamente eficazes, podendo, inclusivamente, em alguns casos, não passar de uma “iniciativa de boa vontade” atingindo, para os efeitos pretendidos, poucos ou até nenhuns resultados práticos (LOGAR, 2006, p. 54). No entanto, é necessário salientar que, no limite,
“a qualidade da resposta adotada pelos vários serviços da comunidade envolvidos pode significar a diferença entre a vida ou a morte da vítima” (ALLEN, 2006, p. 65).
Concluindo, é reconhecido que não se pode lidar eficazmente com o fenómeno de violência doméstica de forma isolada. Neste sentido, e a natureza complexa e multifatorial desta problemática assim o exige, urge a necessidade de se implementarem modelos de intervenção e resposta que articulem os vários setores da sociedade, nomeadamente, o sistema de justiça criminal, as forças de segurança, os serviços de saúde e todas as restantes organizações, instituições e entidades que se revelem preponderantes na resposta perante este flagelo social. A edificação de abordagens multidisciplinares permite não só uma visão holística relativamente ao fenómeno de violência doméstica, mas também favorece uma intervenção abrangente que incida principalmente na proteção e segurança das vítimas e na responsabilização dos agressores.