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A análise sobre a ordem civil moderna formulada por Carole Pateman tem

como cenário os teóricos que identificam a concepção individualista da sociedade e

de Estado, que rompe em definitivo com os pressupostos tradicionais da Idade

Média.

Com isso, os escritos desses teóricos são orientados por uma tentativa de

liberar-se da autoridade religiosa, procurando substituí-la por uma abordagem

racional dos indivíduos e da vida prática em nome da laicização da política e, por

outro lado, reconhecendo a autoridade absoluta do Estado, baseado sobre um

              

49 A condição de igualdade a que todos os indivíduos são submetidos é, na verdade, “uma necessidade posta por uma ordem determinada de relações de produção, ordem esta que não poderia operar se os homens fossem tornados materialmente iguais e que, por isso, encontra como solução criar uma igualdade ‘artificial’, que não iguala efetivamente, mas faz desaparecerem, para o que importa, as diferenças concretas entre os indivíduos. (...) Quando o indivíduo se encontra completamente despojado de qualquer bem, (...) uma única coisa sempre lhe resta: é a propriedade de sua força de trabalho, um atributo seu, algo que concretamente não pode dissociar de si mesmo, mas que se apresenta à sua vontade como algo exterior. (...) Assim, ao mesmo tempo em que, do ponto de vista econômico, o trabalho se torna mercadoria, (...) do ponto de vista do direito, o homem é reduzido à forma do sujeito de direito e se torna proprietário de uma mercadoria que é ele mesmo. A constituição do homem como sujeito de direito é, portanto, ao mesmo tempo, a sua constituição como objeto de direito”. Cf. KASHIURA JÚNIOR, Celso Naoto. Crítica da igualdade jurídica: contribuição ao pensamento jurídico marxista. SP: Quartier Latin, 2009, pp. 47-48.

contrato ou uma vontade geral.

Mas, as narrativas clássicas sobre o contrato aludem genericamente a

“indivíduos” celebrando o pacto original e o principal motivo do contrato reside no

fato de que esses participantes precisam deliberar “porque os pais foram privados de

seu poder político” (PATEMAN, 1993, p. 121)

50

.

Nessa celebração, porém, os homens não deliberam resguardados pela

condição de pais ou de maridos, pois o patriarcado moderno “é fraterno na forma e o

contrato original é um pacto fraternal” (PATEMAN, 1993, p. 120).

Ao contrário, os homens que derrotam o pai reivindicando sua liberdade natural e, vitoriosos, fazem o contrato original, estão agindo como irmãos, isto é, como parentes fraternos ou filhos de um pai e, ao pactuarem em conjunto, estabelecem-se como uma fraternidade civil (PATEMAN, 1993, p. 121).

Desse modo, fraternidade e política comungam um elo estreito, embora,

no geral, não se explique a utilização do termo fraternidade associada, por exemplo,

com liberdade e igualdade, tal como aparece no lema da Revolução Francesa.

E se o patriarcalismo clássico articulado por Filmer foi o último

remanescente a considerar o direito político similar ao direito paterno, a saída teórica

residia na transformação do patriarcado, mas não a sua negação.

A trilha teórica perseguida cria, então, a partir da decomposição do corpo

paterno da tese de Filmer, a idéia de um contrato celebrado segundo a imagem dos

indivíduos, masculinos, que, ao pactuarem, instituem uma fraternidade civil, pois são

unidos por alguns interesses.

Eles são unidos (assim nos conta a história social conhecida) pelo interesse comum em manter as leis civis que assegurem a sua               

50 A concepção paterna do Estado é muito antiga e foi reafirmada para sustentar a autoridade das monarquias absolutas. E o pensamento liberal afirmou-se exatamente buscando destruir esta imagem do “rei-pai”. Locke busca refutar, no seu Primeiro Tratado sobre o Governo, um dos representantes mais famosos do absolutismo paternalista, Filmer, o qual na obra O Patriarca identificara a autoridade régia com a autoridade paterna e afirmara que o poder dos reis descendia diretamente do poder dos antigos patriarcas. Cf. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

liberdade. Enquanto homens, eles também têm um interesse comum em manter os termos do contrato sexual, em garantir que a lei do direito sexual masculino permaneça operante (PATEMAN, 1993, p. 154).

Porém, a forma como as narrativas sobre a gênese do direito político é

contada esconde habilmente o fato de o direito sexual ter sido incorporado ao direito

paterno. E se a maioria dos teóricos clássicos defende a vida conjugal e familiar

como integrantes do estado natural, mesmo no patriarcado moderno, superada a

versão do poder político como poder paterno, a criação da sociedade civil pressupõe

um vínculo entre relação conjugal e parentesco com fundamentos naturais e, por

isso, delegado à esfera privada e apolítica.

Assim, no contexto do patriarcado moderno, a criação da sociedade civil

(esfera pública), instaurada por indivíduos, aparece como uma vitória sobre o

patriarcado e, com isso, “a lei do direito do sexo masculino se generaliza para todos

os homens, para todos os membros da fraternidade” (PATEMAN, 1993, p. 163).

Sem dar importância política à questão da relação conjugal, pois esta é

apresentada como natural e privada, de uma “perspectiva patriarcalista, o direito

político ou é o direito paterno ou o direito civil público” (PATEMAN, 1993, p. 164).

E embora o contrato de casamento tenha sido deslocado para a esfera

privada, no patriarcado moderno o poder natural dos homens “como ‘indivíduos’

abarca todos os aspectos da vida civil. A sociedade civil (como um todo) é patriarcal”

(PATEMAN, 1993, p. 167).

Ora, ainda que as narrativas clássicas tenham deslocado o contrato

sexual para o contrato de casamento, as mulheres estão submetidas aos homens

em ambas as esferas privada e pública, pois “o direito patriarcal dos homens é o

principal suporte estrutural unindo as duas esferas em um todo social” (PATEMAN,

1999, p. 167).

Mas, devemos frisar que o indivíduo civil e a esfera civil somente podem

ser considerados como universais em contraposição à esfera privada, que Pateman

reconhece como o fundamento natural da vida civil:

Do mesmo modo, o significado da liberdade e da igualdade civil, garantida e distribuída imparcialmente a todos os ‘indivíduos’ pela legislação civil, pode ser compreendida somente em contraposição à sujeição natural (das mulheres) na esfera privada (PATEMAN, 1993, p. 168).

Carole Pateman defende, então, que a liberdade civil, veiculada como

universal, é somente uma “metáfora”, pois, na verdade, a idéia de universalidade

está estruturada na subordinação material e psicológica existentes na esfera privada

(sujeição das mulheres), que em geral não é considerada em si mesma, mascarando

a existência das reais desigualdades e das relações de subordinação entre

“indivíduos” que são tratados como “iguais”.

Em conseqüência, “liberdade, igualdade e fraternidade compõem a trilogia

revolucionária porque a liberdade e a igualdade são atributos da fraternidade que

exerce a lei do direito sexual masculino” (PATEMAN, 1993, p. 169).

Nesse propósito, o contrato de casamento tradicional revela-se como

principal meio de renovação cotidiana das diretivas do patriarcado, ofertando

individualmente ao homem seu legado patriarcal.

E, por isso, “quando uma mulher se torna uma ‘esposa’, seu marido

ganha o direito de acesso sexual ao seu corpo (já chamado de ‘direitos conjugais’ na

linguagem legal) e a seu trabalho como dona-de-casa” (PATEMAN, 1993, p. 170).