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Capítulo II – Construção teórica do estudo

2.3 Da perspectiva Funcionalista: o modelo profissional

A perspectiva funcionalista constrói a sua problemática em torno da dicotomia profissão/ocupação. Aos funcionalistas interessa, sobretudo, definir o que é uma profissão e a partir daí construir um modelo, um ideal-tipo de profissão, sendo as profissões existentes classificadas quanto às suas características, modelo de funcionamento e organização, a fim de examinar a sua aproximação ou afastamento do modelo pré-definido.

Deste modo, próximas do conceito de profissão apareceram “… novas noções, como “semiprofissão”, “quase profissão” e “não profissão”, para classificar grupos ocupacionais que se afastam do tipo idealmente definido, bem como escalas para medir quanto profissionalismo possuíam determinadas ocupações (Rodrigues, 2002:7).

Nos trabalhos de Carr-Saunders e Wilson (1934), a principal preocupação foi reconhecer as particularidades que diferenciam “as profissões tomadas como factos naturais, do conjunto das ocupações”, (Rodrigues, 2002:8). Diz-nos a autora que uma profissão surge quando um determinado número de pessoas começa a efectuar uma técnica alicerçada sobre uma formação especializada, dando resposta a necessidades sociais. A constituição das profissões decorreria de:

“(i) uma especialização de serviços, permitindo a crescente satisfação de uma clientela; (ii) a criação de associações profissionais, obtendo para os seus membros a protecção exclusiva dos clientes e empregadores requerendo tais serviços, isto é, estabelecendo uma linha de demarcação entre pessoas qualificadas e não qualificadas, fixando códigos de conduta e de ética para os qualificados;

(iii) o estabelecimento de uma formação específica fundada sobre um corpo sistemático de teorias, permitindo aquisição de uma cultura profissional” (idem).

Apoiada em alguns autores, Lurdes Rodrigues, reforça ainda, dizendo que: “Em todos os países civilizados o Estado regula a prática do direito e da medicina. A razão para tal é que os profissionais de direito e medicina prestam serviços que, sendo vitais ou fiduciários no mais alto grau, podem ser requeridos em qualquer altura por

qualquer membro do público mesmo ignorante na matéria”, (Saunders e Wilson, (1934:479), citado por Rodrigues, 2002:8)47.

Na sua distinção entre profissões e ocupações, os funcionalistas, atribuíam às profissões, o conhecimento complexo expertise e a ética profissional, justificando assim, um conjunto de privilégios, que as ocupações não podiam reclamar para si.

Inicialmente, o conceito de profissão esteve muito ligado à ideia de vocação, uma espécie de chamamento que incitava o indivíduo ao exercício de uma determinada actividade. Tinha a par de uma conotação religiosa, uma carga política; quando uma pessoa se declara vocacionada, tem que estar disponível para responder às solicitações de um público que precisa do seu apoio na prestação de um serviço. A profissão seria exercida como uma função meramente social, exterior ao quadro que determina a teoria económica do utilitarismo.

Parsons, na sua perspectiva funcionalista enfatiza nas profissões as suas características altruístas, orientadas para o serviço à colectividade e para o bem-estar dos clientes, sub estimando o interesse próprio. Do seu ponto de vista, os profissionais existem para servir, colocando o conhecimento ao serviço da sociedade que os reconhece como profissionais, em detrimento de uma lógica economicista das profissões, defendida pela corrente interaccionista.

Reportando-nos às raízes etimológicas da palavra, profissão, deriva do latim professione, do verbo profiteri, que significa confessar publicamente, testemunhar ou declarar abertamente. A palavra nasce, portanto, ligada a um modo de vida assumido em cerimónia pública e assim reconhecido: uma vocação.

São exemplo, os primeiros professores das universidades, membros do Clero, a quem era exigido que fizessem uma profissão de fé, numa cerimónia pública, envolta em rituais adequados ao momento.

Deste modo, profissão opunha-se a ofício, porque enquanto a profissão assumia um saber reconhecido e confessado em público, o ofício, ligado à ideia de manufactura,

47 Carr-Saunders, A. M., e P. A. Wilson (1934), “Professions”, Encyclopaedia of Social Sciences, vol. 12, Londres, Macmillan.

comércio, sugeria um conhecimento mais restrito, mais secreto, revelado apenas aos de dentro, ou seja, aos aprendizes dos artesãos.

No entanto, de acordo com Dubar, “… “ofícios” e “profissionais” participam do mesmo “modelo” de origem: as corporações, isto é, “corpos confrarias e comunidades” no seio dos quais os membros estavam unidos por laços morais e por um respeito às regulamentações pormenorizadas dos seus “estatutos” …” (Dubar, 1997:124).

Nesta perspectiva, a figura do profissional aparece como “alternativa a empresários motivados exclusivamente por ganhos financeiros”48, como encarna um “ideal de serviço” fundado sobre uma competência, representando o progresso da expertise ao serviço da democracia” (Rodrigues, 2002: 8).

Parsons (1939) na sua reflexão sobre esta temática argumenta que as profissões são motivadas por razões altruísticas e não por motivos economicistas, uma vez que:

“ … em contraste com os “negócios”, nesta interpretação a profissão é caracterizada pelo “desprendimento”. Não encara o profissional como apostado apenas em conseguir lucros pessoais, mas, sim, em prestar serviços aos seus pacientes ou clientes ou a valores impessoais como seja o avanço da ciência. […] o estudo das profissões, pela eliminação do elemento “interesse próprio” no sentido vulgar, parecia proporcionar uma abordagem favorável para análise da [sociedade moderna]”, (1939:458, citado por Rodrigues, 2002:8- 9)49.

Para melhor compreender o fenómeno das profissões Parsons faz a analogia entre médico e doente e transpõe esta semelhança para as outras profissões. Assim, a relação entre os profissionais e os clientes assenta numa base de reciprocidade assimétrica, caracterizada pelo conhecimento versus ignorância o que possibilita a sua institucionalização fundamentada no princípio da autoridade versus confiança. Adverte no entanto, que esta assimetria comporta um potencial risco de exploração, que por sua vez motivam um sistema de controlo social sustentado pelo idealismo e pela “mística do

48 Num estudo de 1939, Parsons problematiza a contradição existente entre a ideia de altruísmo das profissões, defendida pelas teorias funcionalistas e a corrente veiculada pela teoria económica e do utilitarismo que advoga “que todo o comportamento é interesseiro” (Freidson, 1998: 34).

profissionalismo”. Neste processo, como salienta Rodrigues, o papel do profissional assenta na articulação entre normas sociais e valores culturais, das quais se destacam:

• “dupla competência, pela articulação do saber prático fundado na experiência ou na ciência aplicada com o saber teórico adquirido durante uma formação longa e sancionada”;

• “competência especializada, fundada numa especialização técnica que limita a autoridade do profissional, unicamente, a um domínio legítimo da sua actividade”;

• “desinteresse ou desprendimento, pela articulação da norma da neutralidade afectiva com o valor da orientação para os outros, do interesse empático para com o cliente”, (Rodrigues, 2002: 10).