AGRESSORES COMO MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA.
A Lei Maria da Penha, em seu artigo 35, inciso V, prevê a possibilidade de que a União, Distrito Federal, os Estados e os Municípios, no limite de suas competências, criem e promovam centros de educação e reabilitação de agressores.
De tal forma que o artigo 45 da mesma Lei acrescentou o parágrafo único ao art. 152 da Lei 7.210/84 (Lei de Execução Penal), o qual apresenta o seguinte teor: “ rt. 152.[...] Par grafo nico. os casos de violência doméstica contra a mulher, o juiz poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recupera o e reeduca o.”
Igualmente, há o entendimento do enunciado 26 do Fórum Nacional dos Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher (2018):
O juiz, a título de medida protetiva de urgência, poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor para atendimento psicossocial e pedagógico, como prática de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher (FONAVID, 2018).
Corroborando esse entendimento, há decisões definindo essa medida como protetiva de urgência, também, em razão de que o artigo 22 da Lei Maria da Penha, em seu parágrafo primeiro, não é taxativo, permitindo, então, a aplicabilidade de outras medidas previstas na legislação, preservando a segurança da ofendida, devendo a providência ser comunicada ao Ministério Público.
O rol de medidas protetivas aplicáveis em face do agressor é exemplificativo (art. 22, caput, da Lei nº 11.340/2006), e se assim o é, nada impede que o magistrado, desde que de modo fundamentado, como ocorre na espécie, imponha outras medidas além daquelas descritas pelo legislador à violência doméstica e familiar (HC: 170802 MT, Rel. Des. Rondon Bassil Dower Filho, Segunda Câmara Criminal, julgado em 01/02/2017, DJe 10/02/2017).
No trecho alhures apresentado, o Relator não reconheceu a ilegalidade apresentada pelo impetrante, o qual alegou que o comparecimento em grupos de reabilitação não teria fundamento legal. O réu já tinha medidas protetivas deferidas contra ele e foi preso em flagrante pela prática de lesão corporal em contexto de Violência Doméstica e familiar. Ainda no voto o relator apresenta uma das finalidades da inserção do agressor ao grupo reflexivo:
(...), é de se notar que a providência adotada, a par de atender os comandos constitucionais (ex vi art. 226, § 8º da CF), busca incutir no paciente o senso de respeito à integridade física e psíquica da mulher, revelando-se, nessa medida, crucial para promover o seu desenvolvimento humano e garantir a harmonia familiar (HC: 170802 MT, Rel. Des. Rondon Bassil Dower Filho, Segunda Câmara Criminal, julgado em 01/02/2017, DJe 10/02/2017).
Porém, como já mencionado alhures, recentemente, com a sanção da Lei 13.984/2020, o artigo 22 da lei 11.340/06 passou a ter dois novos incisos, quais sejam, os VI e VII, nos quais são permitidas a adoção de medidas que obrigam o autor de violência doméstica e familiar contra a mulher tais como o “comparecimento do agressor a programas de recupera o e reeduca o” e “acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio”.
Por conseguinte, a partir deste novo marco legal, restou definindo expressamente, então, como medida protetiva de urgência a possibilidade de obrigar/impor ao autor de crime de violência doméstica e familiar contra a mulher que este participe dos grupos de reeducação de agressores.
A medida é imprescindível para que seja possível identificar as razões pelas quais os homens agridem suas companheiras. Ainda no entendimento de Valéria Fernandes (2015, p. 173) “Conhecer os fatores que levam o homem a praticar violência de gênero e desconstruir conceitos errôneos incorporados é uma forma de dar efetividade ao processo protetivo”.
No mesmo sentido, Bianchini (2013) leciona:
Os centros de reflexão para homens agressores inserem-se no grupo de programas de intervenção que pretendem produzir um efeito ressocializador no condenado, utilizando técnicas como a psicoterapia. É sabido que muitos dos homens agressores também foram eles próprios, vítimas de violência quando crianças, e tendem a reproduzir essa cultura da brutalidade. O grande desafio desses centros é quebrar esse ciclo vicioso.
Denota-se o quanto é preciso trabalhar com homens, principalmente aqueles que já praticaram a violência doméstica, para modificar o pensamento machista e a ideia de posse que o homem nutre em relação à mulher. O pedido de inclusão no Programa de Reeducação do Agressor, prima, não apenas, pela interrupção imediata da violência, a qual as vítimas vinham sendo afligidas, (...), visa prevenir futuras agressões (Silva e Barbosa, 2018).
Não obstante isso, a punição do agressor, somente, através da privação de liberdade, não apresenta índices satisfatórios, no que tange a questão da reincidência. Mesmo após o cumprimento da pena, há casos de novas agressões seja em antigos ou novos relacionamentos, o que evidencia a necessidade de mudar o comportamento e conceitos retrógrados do homem. Fernandes (2015, p.173) destaca:
Com as medidas protetivas e a reeducação do agressor, o processo ressurge como um instrumento de transformação da realidade. Rompe-se com a tradicional função do processo. Nasce um processo inovador, capaz de interferir na realidade de famílias violentas, transformando homens e mulheres e cumprindo uma função de pacificação social (FERNANDES, 2015, p.173).
Resta demonstrado a necessidade de buscar medidas diversas da prisão, que tenha a capacidade de mudar concepções e atos de homens violentos. Visto que tão somente a prisão não é efetivamente capaz de ressocializar o agressor. Muitas vezes, enquanto preso, o homem nutre o sentimento de vingança pela
mulher ou pode até, em novos relacionamentos, apresentar o mesmo comportamento agressivo. Maria Berenice Dias leciona:
A imposição de medida restritiva de direitos, que leve o agressor a conscientizar-se de que é indevido seu agir, é a melhor maneira de enfrentar a violência doméstica. Só deste modo se poderá dar um basta às diversas formas de violência cometidas contra a mulher de forma tão reiterada e há tanto tempo. Ninguém duvida que a violência doméstica tem causas culturais, decorrentes de uma sociedade que sempre proclamou a superioridade masculina, assegurando ao homem o direito correcional sobre a mulher e os filhos (DIAS, 2007, p. 139).
Não restam dúvidas que a ressocialização do agressor através dos projetos de reeducação é uma medida eficaz e inovadora, pois além do trabalho de empoderamento realizado com a vítima, é trabalhado diretamente com o agressor, desconstruindo os conceitos machistas e rompendo o ciclo vicioso da violência.
Dada a suma importância desse instituto, atualmente, está elencada como medida protetiva de urgência na Lei Maria da Penha.
3.2 DA ADMISSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DO