2 “Meu campo” vist o de dent ro
MI CRORREGI ÃO DE ARAÇUAÍ
2. Da prát ica do barro e um pouco de t eoria
Não é meu obj et ivo, nest a par t e, f alar sobre ar t e. Compar t ilho da opinião de que não é desej ável f alar sobr e ar t e, sobr e a exper iência ar t íst ica, de modo sat isf at ór io, ainda mais, nos limit es da linguagem r equer ida por um t r abalho como est e. É possível, sim, f alar sobr e a pr át ica do bar r o do Vale do J equit inhonha, ent endendo pr át ica aqui como uma f or ma de saber / f azer de car iz popular , ancor ado em seu cot idiano.
Conf or me disse Ulisses, não dá par a int er pr et ar a ar t e dele – nem a de ninguém: “não sei por que as pessoas f icam quer endo int er pr et ar o meu t r abalho. Não dá par a int er pr et ar . As pessoas na escola de ar t es f icam quer endo, mas não dá. Você est á vendo aqui? [most r ando uma peça, f ot o abaixo] Cada pont inho desses que est á desenhado aqui é uma let r a. É minha let r a. Você não ent ende minha let r a. E eu não ent endo a sua. Não dá par a int er pr et ar ” (apud Mat t os, 2009, gr if o meu)109.
109 Mesmo assim, Fr ot a int er pr et a: “a boca ent r eaber t a pr of er indo as palavr as secr et as do pact o f eit o ent r e o homem e a nat ur eza. Expr essionist a, sur r ealist a, ou par t icipant e de uma exper iência out r a, que convive com o sobr enat ur al com a maior nat ur alidade, consider ando-o mais ver dadeir o que os f at os per cept íveis por t odos nós no dia-a-dia?” (2005, p. 405-406).
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Figur a 16: peça de Ulisses Per eir a Chaves, publicada no ar t igo cit ado.
Segundo Fr ot a, Ulisses t er ia lhe deixado clar a a “sua consciência da nat ur eza aur át ica da obr a de ar t e, que declar a t ext ualment e ser invisível por que em per manent e mut ação, e que sabe ser insubst it uível e incomunicável a não ser pela sua pr ópr ia pr esença f ísica” (2005, p. 405-406).
Ulisses é um dos ar t ist as que se r econheceu, e f oi r econhecido, como ar t ist a, e não, “apenas”, como ar t esão; colabor ando par a est e r econheciment o suas car act er íst icas pessoais: invent ividade, cr iat ividade, aquelas que se devem à sua subj et ividade, per mit indo o r econheciment o de aut or ia individual110.
As or igens das t écnicas cer âmicas no Vale são r econhecidament e indígenas, advindas de t écnicas como a do acor delado, que “consist e na sobr eposição de cor dões
110 Sobr e as quest ões de aut or ia, par a as sociedades t r ibais, podendo, me par ecem, ser est endidas às sociedades t r adicionais, como o Vale, Pr ice escr eve que “t ur vam ainda mais as águas j á escur as do canal por onde passam os obj et os no seu caminho da obscur idade t r ibal par a a aut ent icação Ocident al como ar t e – com consequências pr of undas e ocasionalment e gr ot escas par a os cont at os ar t íst icos t r anscult ur ais” (2000, p. 143).
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de ar gila em espir al, unidos um ao out r o com o auxílio dos dedos, e alisados com um sabugo de milho ou pedaço de cuia par a dar o acabament o f inal” 111. Tal t écnica é lar gament e usada “na const r ução de peças ut ilit ár ias, como pot es e ut ensílios domést icos, e t ambém na const r ução de escult ur as de gr ande por t e, que são const r uídas j á ocas”, as peças pequenas mant idas ent r e as mãos dur ant e a conf ecção e as maior es colocadas no chão sobr e ant igos pedaços de f undo de panelas, t ábuas et c. (Lima apud Dalglish, 2006, p. 38).
A at r ibuição de uma or igem é uma pr eocupação const ant e nos est udos de t écnicas e saber es, que f or am r ecent ement e cunhados sob o t er mo “pat r imônio imat er ial”112. Assunt o, par a muit os, f ascinant e, sem dúvida; ent r et ant o, par a os ar t esãos, de impor t ância menor , se é que t em alguma. A quest ão da or igem, como nós moder nos sabemos, r emet e dir et ament e à quest ão da ident idade, igualment e quest ão moder na. Par a os ar t esãos de Car aí, essa quest ão “não é uma quest ão”. A r enit ent e busca pela “ident idade ét nica” cont empor ânea, pela aut o af ir mação, volt a e meia emer ge e incomoda, vinda, sobr et udo, do lado de cá. Quem per gunt a e anseia pela cor r et a ident if icação e delimit ação de uma r ef er ência ou or igem ét nica est á,
111 Teóf ilo Ot oni, em f amosa car t a dir igida a J oaquim Manuel de Macedo (aut or de A Mor eninha), “Not ícia sobr e os selvagens do Mucur i”, cont a que os índios max acali “são indust r iosos; a olar ia é um dos r amos da sua indúst r ia, e em t al escala, que nas povoações das mar gens do J equit inhonha cozinha-se exclusivament e em panelas da f ábr ica dos machacalis” (apud Duar t e, 2002, p. 92).
112 O “Dossiê 3 – Of ício das Paneleir as de Goiabeir as”, do I PHAN (I nst it ut o do Pat r imônio Hist ór ico e Ar t íst ico Nacional), “t r at a do pr imeir o r egist r o de um bem cult ur al concr et izado pelo I PHAN, que inaugur ou o Livr o de Regist r o dos Saberes e t ambém o inst r ument o legal de r econheciment o e pr eser vação dos bens cult ur ais de nat ur eza imat er ial, cr iado em agost o de 2000” (Dossiê de Regist r o do Of ício das Paneleir as de Goiabeir as, MinC/ I phan, p. 11). Na apr esent ação, diz-se que f oi aplicada, pela pr imeir a vez, a met odologia do I nvent ár io Nacional de Ref er ências Cult ur ais. Após uma br eve apr esent ação, a pr imeir a seção, int it ulada “Hist ór ia e Pr é-hist ór ia”, busca as or igens indígenas do of ício, ut ilizando dados ar queológicos e relat os de viaj ant es do per íodo colonial. For ma semelhant e de pr ocediment o é encont r ada, na lit er at ur a, par a a cer âmica do Vale do J equit inhonha.
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sobr et udo, do lado de cá: os que pr of er em os discur sos acer ca dos ar t esãos e de sua ar t e. Ar t e “pr imit iva”? Ar t e “popular ”? Ar t e “de or igem indígena”?
Aqui e ali, ouvimos r ef erências nat ivas às or igens ou à inf luência indígena na ar t e do bar r o, cer t ament e j á f azendo uso de nosso discur sividade. Quando per gunt ei pelas r oupas das bonecas pr oduzidas por Ana Rodr igues, ar t esã f alecida, ir mã de Ulisses, disser am-me que ela dizia que er am índias, essa é a r oupa delas mesmo, é
assim que ela f azia.
Figur a 17: bonecas de Ana Rodr igues, demais peças de Ulisses Pereir a. Acer vo da f amília.
O r econheciment o de que as t écnicas de um det er minado saber – “pat r imônio imat er ial” – t êm or igens indígenas cer t ament e cont r ibui par a o aument o de seu valor no mer cado, t ant o o valor de venda das peças, como o valor simbólico que lhe é at r ibuído.
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Passamos, assim, par a uma discussão f undament al: as quest ões em t or no da ar t e dit a “pr imit iva”, “popular ”.
Pr ocur o of er ecer uma sínt ese dessa discussão, t endo em f oco, sempr e, a pr át ica do bar r o no Vale do J equit inhonha. Consider o essa sínt ese necessár ia par a que o leit or possa apr eciar a complexidade e a amplit ude da discussão, que não poder ia ausent ar -se complet ament e dest e t r abalho, mesmo que não const it ua seu f oco.
A pr imeir a quest ão, nat ur alment e, é def inir e classif icar essa f or ma de ar t e. Pr ice, ant r opóloga que est uda os quilombolas do Sur iname e sua ar t e, há mais de 20 anos, cont a que os manuais ut ilizados em cur sos super ior es de Hist ór ia da Ar t e, na Eur opa e nos EUA, t r azem ver dadeir as pér olas sobr e a ar t e dit a “pr imit iva”, t al como é t r at ada pelos dit os hi[e]st or iador es da ar t e. Analisando as obr as consider adas clássicas na ár ea, conclui: “par a a hist ór ia, est as ar t es que não são ‘ocident ais’, nem são ‘or ient ais’, casam-se mal com os esquemas que os er udit os t êm por hábit o ut ilizar . Se r epr esent am de uma vez nossos começos pr é-hist ór icos e a at ividade ar t íst ica de povos que nos são cont empor âneos, em que lugar da hist ór ia ger al da ar t e devemos colocá-los? Par alelament e, como devemos conceit uar sua evolução hist ór ica int er na?” (1996, p. 207-208).
Os ant r opólogos t ambém passam (ou passavam) por dif iculdades par ecidas. Ao negar que povos sem escr it a t enham r egist r os hist ór icos, muit o do r egist r o ant r opológico t em sido escr it o no pr esent e et nogr áf ico, “t empo at empor al”, que “r ef let e e per pet ua a ideia de que nessas sociedades apenas os cost umes se t r ansf or mam (excet o, é clar o, sob a pr essão da moder nização, quando as sociedades apenas deixam par a t r ás sua ident idade ágr af a e se deixam absor ver pelo mundo ocident al)”. De uma t al per spect iva, “a ar t e pode ser ‘t r adicional’ ou ‘cont empor ânea’; ‘aut ent icament e pr imit iva’ ou ‘cont aminada por inf luências ext er nas’ (Pr ice, 1996, p. 210).