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1 – DA PROBABILIDADE DO DIREITO E DO PERIGO DA DEMORA – RISCO DE DANO IRREPARÁVEL

III – DOS FUNDAMENTOS

III. 1 – DA PROBABILIDADE DO DIREITO E DO PERIGO DA DEMORA – RISCO DE DANO IRREPARÁVEL

Em relação aos requisitos para a concessão da tutela provisória de urgência, o art. 300 do Código de Processo Civil determina que:

Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil

do processo. […] § 2º A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após justificação prévia.

Portanto, de acordo com o referido artigo, exige-se a existência de elementos que evidenciem a probabilidade do direito, além da comprovação de que não sendo protegido imediatamente, de nada adiantará uma proteção futura, diante do perecimento do direito.

No caso em apreço, caso o pedido não seja imediatamente apreciado, o prejuízo causado à saúde dos consumidores que adquirirem a carne que esteve em contato com amônia, poderá ser devastador, dado as consequências graves em caso de ingestão produtos tóxicos, no caso de eventual contaminação a ser constatada por perícia isenta e imparcial.

Ainda que se avente a possibilidade de contato da amônia com a carne, como permissiva, neste caso descrito, não se teve controle do contato e quantidade da amônia disposta, nem o tempo em que isso aconteceu, com os produtos que neste momento estão sendo encaminhados ao consumo humano.

Essa situação exige a adoção de medidas imediatas pelo Poder Judiciário, visando a evitar danos sérios e graves à incontáveis consumidores que vierem a adquirir o produto posto em circulação.

A narrativa dos fatos até aqui apresentada demonstra a presença indubitável dos requisitos do periculum in mora e do fumus boni juris, necessários para a concessão da tutela de urgência.

Assim, tal situação fática está a exigir a adoção de tutela cautelar por parte deste Juízo, o que deve ser determinado imediatamente, em consideração ao receio de grave lesão à incontáveis consumidores.

provisória. Parágrafo único. A efetivação da tutela provisória observará as normas referentes ao cumprimento provisório da sentença, no que couber”.

Segundo a previsão do art. 297, o juiz poderá determinar as medidas que considerar adequadas para a efetivação da tutela provisória, isso porque, tratando-se de tutela provisória de urgência, é inegável a necessidade de imediata satisfação.

No caso em apreço, o deferimento do pedido cautelar atenderá aos princípios da PRECAUÇÃO e PREVENÇÃO, tão caros às SAÚDE PÚBLICA e ao Meio Ambiente.

E também não trará prejuízos a Requerida, uma vez que se pretende seja ela fiel depositária da carne, para as destinações devidas a posteriori.

IV – DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA

Já se sabe que o Código de Defesa do Consumidor é um microssistema para defesa de pessoas vulneráveis. Nesta esteira, além de regras de direito material, ele também possui em seu bojo regras de direito processual, dentre elas a possibilidade de inversão do ônus da prova em favor dos consumidores, instrumento que visa, claramente, facilitar a defesa dos direitos dos consumidores em Juízo.

Segundo dispõe o artigo 6º, VIII, do referido Código, é um direito básico do consumidor a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive, com a inversão do ônus da prova, a seu favor, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência.

Neste caso, conclui-se que o ônus da prova deve ser invertido em favor da massa de interesses consumeristas defendidos pelo Ministério Público, os quais, poderão sofrer graves danos à sua saúde.

No mais, já foi sedimentado na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça que é possível a inversão do ônus da prova em ação civil pública, eis que deve ser

levado em conta quem é a parte material da demanda, não a processual. E, sendo a primeira os consumidores, fica clara a necessidade de aplicação da regra processual em comento. Neste sentido, veja-se o teor da decisão da 1º Turma do Superior Tribunal de Justiça, tendo como relator o Ministro Sérgio Kukina:

“ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. DIREITO DO CONSUMIDOR. OFENSA AOS ARTS. 165, 458, 535, II, DO CPC/73 NÃO DEMONSTRADA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. PRERROGATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO NO ÂMBITO CONSUMERISTA. INATACADO FUNDAMENTO BASILAR DO ACÓRDÃO RECORRIDO. SÚMULA 283/STF. OBRIGAÇÃO DE IMPLANTAR SETOR DE RELACIONAMENTO, A FIM DE DISPONIBILIZAR AO CONSUMIDOR FÁCIL ACESSO A CANAL DESTINADO AO CANCELAMENTO DA LINHA TELEFÔNICA. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO COMPROVADO. 1. Afasta-se a alegação de ofensa aos arts. 165, 458, 535, II, do CPC/73, na medida em que o Tribunal de origem dirimiu, fundamentadamente, as questões que lhe foram submetidas, apreciando integralmente a controvérsia posta nos autos, não se podendo, ademais, confundir julgamento desfavorável ao interesse da parte com negativa ou ausência de prestação jurisdicional. 2. De acordo com a jurisprudência desta Corte, "o Ministério Público, no âmbito de ação consumerista, faz jus à inversão do ônus da prova, a considerar que o mecanismo previsto no art. 6º, inc. VIII, do CDC busca concretizar a melhor tutela processual possível dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos e de seus titulares - na espécie, os consumidores -, independentemente daqueles que figurem como autores ou réus na ação" (REsp 1.253.672/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 9/8/2011). 3. O recurso especial não impugnou fundamento basilar que ampara o acórdão recorrido, de forma que a irresignação esbarra no obstáculo da Súmula 283/STF, que assim dispõe: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles.". 4. A Corte de origem ratificou a sentença de piso que, a partir do exame do acervo probatório dos autos, concluiu pela inexistência de setores de relacionamento para o cancelamento de linhas telefônicas, razão pela qual condenou a parte recorrente a implantar referido serviço, bem como ao pagamento de danos materiais, a serem apurados em liquidação de sentença, caso o consumidor comprove o fato gerador do direito reclamado. Rever tal conclusão, demandaria, necessariamente, novo exame do acervo fático- probatório constante dos autos, providência vedada em recurso especial, conforme o óbice previsto na Súmula 7/STJ. 5. A inexistência de similitude fático-jurídica entre os acórdãos recorrido e paradigma impede a análise da alegada divergência jurisprudencial. 6. Agravo interno a que se nega provimento. AgInt no REsp 2012/0094924-1. Relator(a): Ministro SÉRGIO KUKINA. Órgão Julgador: PRIMEIRA TURMA. Data do Julgamento: 22/08/2017. Data da Publicação/Fonte: DJe 31/08/2017.

Desta forma, deve ser invertido o ônus da prova em favor dos consumidores, a fim de que a Empresa Frigorífico JBS S/A, adote as providências necessárias para custear a realização de nova perícia isenta e imparcial, a ser determinada por este Juízo.