2.2 PROPRIEDADE RURAL: FUNÇÃO SOCIAL E
2.2.1 Da Propriedade
“A propriedade é um guarda-chuva para um conjunto de instituições, influenciando valores liberais como autonomia, utilidade, trabalho, pessoalidade, comunidade e justiça distributiva” (ALEXANDER, 2011, p.1025). O direito de propriedade, ao menos no seu melhor, adapta as diferentes configurações de direitos e instituições de propriedade. Cada uma destas é projetada para corresponder ao equilíbrio específico entre os valores de propriedade mais adequados ao seu cenário social característico. Assim, a propriedade rural tem algumas peculiaridades, como a exigência do cumprimento de sua função social, o que se pode chamar direito negativo ou não absoluto do proprietário, o qual deve ter a consciência de que o bem-estar da coletividade está acima de seu direito pessoal, sendo assim passível de fiscalização por parte do ente público.
O marco legal do conceito de propriedade privada na história da humanidade foi a aprovação do Código Napoleônico ou Código Civil, em 1804, que regulamentou a Constituição Francesa de 1791, fruto de processo revolucionário que se iniciou em 1789 com a queda da Bastilha e perdurou até 1799. Tendo como lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, lançou-se no início da Revolução o Estatuto dos Direitos do Homem e do Cidadão, apresentando a propriedade como um dos pilares da “liberdade do cidadão”, que se libertaria da tutela e da opressão dos governantes imperiais (CAMARENA, 1984, p.145).
Essa onda liberal, “caracterizada por ser secularizada e racional” (BELLO, 2012, p.224), defendia o direito absoluto de propriedade. Ela teve como fundamento e foi influenciada por pensadores da corrente iluminista como Thomas Hobbes, John Locke, James Harrington, Immanuel Kant, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, David Hume, entre outros, que viveram nos séculos XVII e XVIII e formularam teorias com ideais libertários, sobre a vida em sociedade, o papel do Estado e da propriedade.
Perscrutando as teorias de Thomas Hobbes, James Harrington e John Locke, no tocante ao conceito de propriedade, concluiu-se que a noção de “individualismo
possessivo” é a hipótese central da teoria política “liberal-democrática”, demonstrando que a relação entre o “individualismo” e a “posse” é fundamental para a estruturação do pensamento político hegemônico, de organização socioeconômica alicerçada em propriedade (MACPHERSON, 1979, p.12).
Além do individualismo possessivo, outro ponto convergente é o sentimento de liberdade, que Hobbes ([1642], 2004, p.131) chama de “liberdade dos modernos” e significa não interferir, impedir ou criar obstáculos na vida do cidadão no âmbito privado/individual, em especial em sua propriedade privada.
Apesar das convergências quanto ao individualismo possessivo, busca de liberdade e jusnaturalismo, a divergência entre Thomas Hobbes e John Locke está na relação “estado natureza/estado; civil/contrato social”. Ou seja, em como harmonizar as leis naturais que regem a vida e os recursos naturais, tais como a terra, o ente criado com poder sobre os demais, e o regramento que deverá ser respeito.
Para Thomas Hobbes, é importante ter um poder de estado civil forte e atuante, com autoridade para agir como apaziguador, porque o ser humano tem natureza selvagem, ainda irracional (“homem como lobo do homem”). Para o autor, não existe uma ordem natural entre os indivíduos e estes somente vêm a se racionalizar com o processo de formação do estado civil, respeitado por todos e com supremacia para agir, garantindo segurança e organizando a vida em sociedade (BELLO, 2012, p.226). Entretanto, John Locke entende que o estado de natureza humana configura um estado de paz, no qual os homens vivem em quase plena harmonia, e o estado civil é representado pelo modelo liberal democrático, que assegura a proteção dos seus direitos naturais contra as garras do Estado (BELLO, 2012, p.226).
Hobbes conclui que a propriedade surge com o estado civil, o qual faz o regramento e a devida cessão do público para o particular, ou legitima a posse. Isso, para o autor, não seria possível no estado de natureza humana, quando postula que “[...] toda propriedade privada da terra, deriva, originariamente da distribuição arbitrária pelo soberano”. Porém, para John Locke, o homem tem o direito à propriedade e capacidade para se organizar em comunidade de modo natural, aceitando um governo comum para garantir a preservação da propriedade, como mediador e não impositor (BELLO, 2012, p.227).
De acordo com a teoria de John Locke existe uma relação direta do trabalho empregado na transformação, lavra e benfeitorias, e a valoração da propriedade, ou seja,
[…] sustenta que o fundamento da propriedade individual devia ser procurado no trabalho, empregado para apropriar-se de uma coisa ou para transformá- la, valorizando-a economicamente, e que o trabalho provoca a diferença de valor nas coisas que nos rodeiam (BOBBIO, [1963], 1997 p.192).
Locke compreende que não há limites em relação à extensão da propriedade, visto que “Deus deu a terra para todos”, que haveria uma igualdade de oportunidade no direito à terra, tendo em vista que aderiu à doutrina do jusnaturalismo, ou seja, do direito natural do homem, que é preexistente ao Estado. Assim, Locke (2006) entende que a terra pode ser apropriada pela razão e individualismo, logo, pelo trabalho e esforço de cada indivíduo, sendo a sua propriedade aquela que ele “lavra, planta, melhora, cultiva e de cujos produtos desfruta.” (LOCKE, [1689], 2006, p.37). Quanto ao direito à propriedade, Locke distingue quatro limites a serem observados: produzir, consumir, explorar pelo trabalho (não se limita também ao trabalho externo à propriedade) e o direito do proprietário só deve durar enquanto dura o esforço aplicado pelo seu trabalho (BOBBIO, [1963], 1997, p.198).
No entanto, Immanuel Kant defende que a propriedade é um direito universal do ser humano, que deve ser exercido de acordo com as capacidades e habilidades de cada indivíduo. Kant sustenta que a terra é uma propriedade do gênero humano e que, se não for apropriada, não é propriedade, e que este direito pode ser exercido de forma individual ou em grupos. Toda ocupação de terra, de forma mansa e pacífica, deve ser considerada e respeitada, e a consciência do “gênero humano” deve reconhecer sua legitimidade. Além disso, o direito de propriedade deve ser regido pelo direito igual de outrem, inclusive com direito absoluto e sem limite de extensão, e vai até onde seu poder alcançar (DURKHEIM, 2002, p.185).
Por outro lado, Rousseau percebe que o “homem é naturalmente um ser social” e o individualismo puro não existe do ponto de visto antropológico. Com base nessas premissas, teoriza o surgimento da propriedade em quatro estágios distintos:
a) no estado de natureza, onde os homens foram movidos por sentimentos e sensações e se adaptaram às adversidades e disponibilidades da natureza; b) num segundo momento, em que dominaram as plantas e os animais comestíveis por meio de trabalhos esporádicos de forma coletivizada; c) passaram por uma “primeira revolução”, construindo abrigos, moradias e constituindo família, mudando assim seu modo de viver; e d) promoveram uma “segunda revolução”, pela atuação simultânea na agricultura, que é o cultivo de plantas e animais e no manuseio dos metais, produzindo as primeiras ferramentas e armas, surgindo assim o trabalho. Logo, o esforço para a transformação de um bem em outro com mais utilidade, fixando-se e apropriando-se do espaço para tal. Assim, foram sendo geradas desigualdades e disputas pelas posses, visto que as melhores terras ficaram escassas e que somente com o advento da criação do Estado surgiram as propriedades privadas, com a missão de protegê-las (ROUSSEAU, [1762], 2004, p.23-24; 36, 59).
Além disso, Rousseau (2004) fez uma analogia entre liberdade natural e posse da terra, e liberdade civil e sua propriedade, concluindo que sem estado civil não há propriedade, apenas posse. Para a propriedade existir três hipóteses são requisitadas: a) que a terra esteja desocupada; b) que sua utilização seja voltada para a subsistência; e c) que sua exploração seja real e efetiva. Portanto, diferentemente de Locke, para quem o Estado só deveria agir para proteger a propriedade, Rousseau (2004) preconiza a atuação efetiva do Estado, inclusive interferindo em sua organização, visando à vontade do conjunto da sociedade (ROUSSEAU, [1762], 2004, p.36).
Karl Marx (2003), ao analisar a teoria de Locke, compreende que os princípios de igualdade e racionalidade para o direito de propriedade não existem mais e que provavelmente nunca existiram. Isso decorre do fato de que o capitalismo funciona de forma exploratória e poucos têm condições de possuir propriedade. Além disso, a distribuição de riquezas e recursos naturais tem sido realizada com base no princípio da racionalidade instrumental, a serviço da exploração capitalista, acumulativa e excludente. Marx (2003) também enfatiza que as propriedades privadas são ilegítimas, tendo em vista que os meios de produção de bens e serviços não mais interessam a seus produtores por não gerarem tanto lucro quanto desejariam; assim,
preferem em muitos casos estocar e não plantar para aumentar seus lucros. Nesse sentido, isso representa uma completa deturpação do princípio da racionalidade, perdendo a propriedade a sua função social com relação à coletividade, razão pela qual deve-se abolir a forma de propriedade privada em favor de uma gestão por ente público, o qual de forma justa fará a organização do trabalho em prol da coletividade (MARX, [1847], 2003, p.135).
Diante dos modelos apresentados, pode-se dizer que todos tiveram suas contribuições, porém poucos sobreviveram ao longo da histórica, como ensina Marx ([1847], 2003, p.135).
Em cada época histórica, a propriedade tem se desenvolvido de modo diferente e numa série de relações sociais inteiramente diversas. Por isso, definir a propriedade burguesa resume-se a fazer a exposição de todas as relações sociais da produção burguesa. Querer dar uma definição de propriedade como se se tratasse de uma relação independente, de uma categoria à parte, de uma ideia (sic) abstrata e eterna só poderia ser uma ilusão de metafísica ou de jurisprudência.
Dessa forma, deve-se pesar a dificuldade de teorizar a propriedade e creditar todas as teorias que sobreviveram ao longo da história, bem como cumpre a necessidade de estudá-las, independentemente de sua aplicabilidade na realidade. Isso por conta de sua utilização na formação da consciência e nas ações da humanidade, com seus erros e acertos. Porém, considera-se que todas têm um ponto em comum, a sobrevivência da espécie e sua felicidade. De formas variadas, o fato concreto é que a propriedade privada é um dos pilares da sociedade, “refletindo diretamente na sua representação política, em função do poder local e da produção/consumo que lhe confere uma importância econômica, que a diferencia dos demais segmentos.” (BELLO, 2012, p.230).
No que se refere ao contexto brasileiro, portanto, o marco da propriedade privada foi a aprovação da Lei Imperial n.º 601/1850, chamada de “Lei de Terra”, que regulamentou a CF de 1824, e em seu artigo 179 definiu a propriedade como direito inviolável e que somente seria repassada a particular na forma de venda. Todavia, funcionava desde 1530 o sistema de sesmarias, que consistia numa autorização de uso ou legitimação de posse cedida pela Coroa Portuguesa que permanecia com seu domínio sobre a terra, podendo requerê-la de acordo com o
interesse da Corte. Este sistema foi revogado em 17 de julho de 1822, pouco antes da Independência do Brasil. Da suspensão das sesmarias até a regulamentação da “Lei de Terra”, pelo Decreto n.º 1.318/1854, um período de 32 anos, conhecido como “regime de posse”, prevaleceu a total falta de controle do Regime Imperial sobre as terras existentes.
Assim, com a “Lei de Terra” regulamentada, o principal objetivo era identificar as terras devolutas, aquelas que tinham sido abandonadas no sistema de sesmarias, além das não demandadas, para fazer a devida destinação, além de regularizar as posses existentes. Para isso, os possuidores deveriam demarcar suas terras e registrá-las junto aos padres das paróquias, o que ficou conhecido como “Registros Paroquiais” ou “Registros do Vigário”. Além disso, com a necessária identificação das terras disponíveis, o processo de colonização poderia ser desencadeado, distribuindo terras de forma onerosa aos imigrantes, em especial europeus (GUIMARÃES; MOTTA, 2011, p.260).
O caráter absolutista da propriedade na CF de 1824 e na Lei de Terras de 1850 foi ratificado com o Código de Processo Civil (CPC) de 1916, que em seu artigo 524 assegura ao proprietário o direito de usar, gozar e dispor de seus bens e o de reavê-los do poder de quem quer que injustamente os possua, portanto, sem limitações quanto ao uso, em sintonia com o Código Napoleônico de 1804. Contudo, no CPC de 2002, artigo 1.228, foi relativizado o direito à propriedade, com o cumprimento da FSPR, em consonância com a CF de 1988 e a legislação vigente (SILVA, 2008, p.40).
O marco legal para a propriedade rural, que estruturou o direito agrário, foi a Lei n.º 4.504/1964, chamada Estatuto da Terra, que regula os direitos e obrigações concernentes aos bens imóveis rurais, para fins de execução da reforma agrária, definindo a FSPR sob pena de desapropriação no caso de seu descumprimento. O Estatuto definiu os imóveis em propriedade familiar, empresa rural, minifúndio e latifúndio, integrando um conjunto de conceitos que se interpenetram e dão corpo ao sistema, o qual é incorporado ao ordenamento jurídico como direito especial. A reforma agrária visa combater o minifúndio com área insuficiente para manter a dignidade da família, e o latifúndio, que é uma grande propriedade improdutiva, convertendo-a em propriedade familiar e mantendo a empresa rural (CISNEIROS, 1973, p.37).
A propriedade para fins do Estatuto da Terra é chamada de imóvel rural, conforme seu artigo 4.º, sendo “o prédio rústico de área contínua, qualquer que seja a sua localização, podendo estar também no perímetro urbano, que se destine ou possa se destinar à exploração agrícola, pecuária, extrativa vegetal, florestal ou agroindustrial”. Também a lei 8.629/1993, chamada de Lei Agrária, classificou os imóveis rurais em: “pequena propriedade, compreendida entre 1 e 4 módulos fiscais (MFs); média propriedade, acima de 4 a 15 MFs; e a grande propriedade, acima de 15 MFs” (BRASIL, 2011, p.62).
Considera-se MF, para fins de classificação de imóveis rurais, a área de terra necessária para que uma operação agrícola seja economicamente viável para uma família. São definidos de acordo com as condições agrícolas específicas de cada município e, portanto, variam em dimensão entre 5 e 110 hectares; ou seja, a pequena propriedade tem dimensões de 5 a 440 hectares, a média acima de 20 a 1.650 hectares, e a grande acima de 75 a 1.650 ha. As áreas com MFs maiores estão na região da Amazônia Legal (AML), onde a reserva legal (RL) a ser preservada é de 80% do imóvel (PAULINO, 2014, p.138). De acordo com Brasil (2016), existem no país 5,7 milhões de imóveis rurais de propriedade particular cadastrados, abrangendo área de 521 milhões de hectares, em torno de 62% do território nacional. No entanto, cabe salientar que esses proprietários possuem obrigações junto à sociedade e todos devem cumprir a função social da propriedade, fundamentada na sequência.