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Da relevância do Abrigo do Lagar Velho e do achado Lagar Velho I

No documento DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA VIDA (páginas 151-161)

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

4.1. Da relevância do Abrigo do Lagar Velho e do achado Lagar Velho I

O Abrigo do Lagar Velho e a investigação sobre o Paleolítico Superior em Leiria

O sítio Abrigo do Lagar Velho, no que respeita ao conhecimento sobre o Paleolítico Superior em Leiria, apresenta uma relevância arqueológica irrefutável, uma vez que a investigação relativa a ocupações humanas com esta cronologia, foi despoletada e potenciada pela sua descoberta. Saliente-se que neste momento se conhecem dezassete sítios arqueológicos, com cronologia atribuída ao Paleolítico Superior na região, por oposição à situação de inexistência absoluta de conhecimentos sobre vestígios enquadráveis nesta cronologia, em período anterior à identificação deste sítio.

Na nossa perspectiva, e tendo em conta a análise efectuada relativamente ao enquadramento dos projectos de investigação e processos de intervenção, esta situação absolutamente antagónica, deve-se a posturas científicas e institucionais diferentes, decorrentes do interesse e potencial revelado pela descoberta do Abrigo do Lagar Velho, e que provocou uma maior atenção, para esta área geográfica, por parte da comunidade científica e das instituições que tutelam o património arqueológico, dado que a mesma revelou com a descoberta do sítio e do fóssil, um claro potencial para ocupações humanas enquadráveis neste período.

Este potencial foi amplificado pelo reconhecimento, por parte da comunidade arqueológica, da existência de diversas zonas com características geológicas e geomorfológicas, que habitualmente se encontram associadas a ocupações humanas enquadráveis no Paleolítico Superior, designadamente, a existência de vales cársicos, com abrigos sob rocha e grutas, bem como, de zonas com presença de jazidas de sílex.

Salientemos desde já que se o potencial da região nos parece ser real, a inexistência de um maior número de trabalhos arqueológicos que validem o potencial arqueológico atribuído, na sua larga maioria, em consequência apenas de trabalhos de prospecção ou de acompanhamento em áreas adjacentes aos sítios arqueológicos, dificulta a análise dos dados, condicionando os resultados apresentados e a sua discussão. Aliás esta parece-nos ser uma das maiores problemáticas, no que concerne à aferição da relevância da região para o conhecimento das ocupações humanas durante este período.

No Vale do Lapedo, apenas foram escavados contextos estratigráficos associados a três abrigos sob rocha, sendo que se revelaram particularmente importantes, pela

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informação que permitiram obter, os contextos associados ao Abrigo do Lagar Velho e ao Abrigo do Alecrim, com contextos associados aos tecnocomplexos Gravettense e Solutrense. No que concerne ao Abrigo do Lagar Velho, os dados arqueológicos identificados, apresentam uma relevância inquestionável no quadro do Paleolítico Superior Português. Os resultados aqui obtidos permitiram aprofundar os conhecimentos sobre as ocupações humanas, integráveis nos tecnocomplexos Gravettense e Solutrense, bem como, sobre questões paleoambientais e de evolução geomorfológica regional. Podemos assim percepcionar, com mais alguma clareza, as vivências culturais, sociais e simbólicas dos grupos de Homo sapiens que ocuparam este espaço. A sequência sedimentar integra ocupações com cronologias, entre cerca de 30 a 20 000 BP, evidenciando-se distintas ocupações do espaço, com utilizações e tipologias funcionais diversificadas. Saliente-se o seu uso como espaço funerário, associado ao esqueleto LV I, a que se atribuiu uma cronologia, de cerca de 24 500 BP, integrando-o no tecnocomplexo Gravettense.

Enquanto não se desenvolverem novos estudos no Vale do Lapedo, pode-se afirmar, que os grupos humanos do Paleolítico Superior atribuíram, pelo menos, aos sítios do Abrigo do Lagar Velho e ao Abrigo do Alecrim, funções diversificadas e representativas das estratégias de ocupação e exploração do território por parte destes grupos. Estas actividades e funções podem ser inferidas a partir da análise dos contextos geoarqueológicos dos sítios, dos vestígios arqueológicos materiais e dos elementos paleoantropológicos recuperados. Destacamos, especialmente, a existência de material orgânico preservado, designadamente nos sítios que revelaram níveis antrópicos in situ, ou seja, no Abrigo do Lagar Velho (e.g. faunístico, osteológico humano, antracológico) e no Abrigo do Alecrim (e.g. faunístico, antracológico), quer nos supracitados, uma vez que poderá apontar para a existência, no Lapedo, de outros abrigos sob rocha, com contextos arqueológicos bem preservados, e com potencial informativo importante, a nível, paleoecológico e arqueológico, mas igualmente paleoantropológico.

Relativamente aos dados arqueológicos associados aos restantes vales cársicos, consideramos como mais relevantes, para a compreensão da sequência crono-estratigráfica do Paleolítico Superior da região, os sítios integrados no Vale das Chitas: Abrigo da Palha e ao Abrigo do Poço. Foram atribuídas cronologias de Paleolítico Superior final enquadráveis no tecnocomplexo Magdalenense a ambos. As intervenções de sondagens de diagnóstico e escavação, realizadas em áreas adjacentes aos sítios acima referidos, no âmbito de processos de arqueologia preventiva permitiram obter informação inédita, sobre a ocupação humana na região, durante o Paleolítico Superior, e em particular, sobre o Magdalenense, contudo o seu enquadramento num processo de arqueologia preventiva condicionou os resultados, não tendo sido escavadas as áreas com maior potencial.

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No Vale das Chitas situa-se aquele que nos parece ser o mais importante conjunto de jazidas de sílex, na região em análise, e que seguramente terá tido um papel de relevo no que concerne às estratégias de aprovisionamento de matérias-primas, por parte dos grupos humanos do Paleolítico Superior, contudo, não se realizaram trabalhos de diagnóstico aprofundados em nenhuma destas. Esta área geográfica parece-nos fulcral para a compreensão das ocupações humanas do Paleolítico Superior da região de Leiria, bem como a construção da sequência crono-estratigráfica regional, entre outras, pelas seguintes ordens de razão: pela existência de preservação sedimentar em abrigos sob rocha com ocupação humana; pela presença de vestígios arqueológicos com cronologias distintas; pela existência de sítios associados a distintas estratégias de exploração de recursos, nomeadamente recursos alimentares malacológicos (e.g. Abrigo da Palha e Abrigo do Poço); pela presença de elementos de arte móvel em osso; pela preservação de material orgânico, inclusive em contextos off-site (e.g. faunístico, mamalógico e malacológico, e antracológico); e, ainda pela presença de excelentes fontes de matéria-prima.

No momento presente, não existem dados comprovados de ocupações humanas durante o Paleolítico Superior, nem no Vale do Leão, nem no Vale do Ribeiro dos Murtórios, no entanto, estas áreas parecem-nos apresentar um evidente potencial arqueológico, pelo que se deveriam programar trabalhos arqueológicos, visando a realização de sondagens de diagnóstico nos abrigos sob rocha e grutas referenciadas, com preenchimento sedimentar, passível de poder conter estratificação e contextos arqueológicos preservados, de modo a aferir a sua importância efectiva.

Relativamente aos sítios referenciados com cronologias atribuídas de Paleolítico Superior, em contextos de ar livre, apenas existem dados comprovados, através da realização de sondagens arqueológicas, para os sítios de Quinta do Fagundo 2 (Magdalenense), Cortes S4 (Magdalenense), Cruz da Areia/ Telheiro 1 (Tardiglaciar/ Magdalenense), Portela II (Gravettense), e Telheiro da Barreira/ Telheiro (Magdalenense Final/ Epipaleolítico). Refira-se que estes sítios foram todos intervencionados no âmbito de processos de arqueologia preventiva. Os dados arqueológicos obtidos nestes sítios, parecem-nos, no entanto, contribuir para uma melhor compreensão da sequência diacrónica das ocupações do Paleolítico Superior na região.

Considerando a distribuição espacial dos sítios arqueológicos referenciados na presente dissertação, parecem existir distintas estratégias de ocupação e exploração do território, relacionadas com a ocupação do território e com a exploração de recursos de diversos tipos (e.g. aprovisionamento de matérias-primas, estratégias alimentares, locais de acampamento temporário e residenciais), associados a uma diversidade de biótopos e quadros geomorfológicos: zonas costeiras, estuarinas, de planalto, junto a linhas de água, em paisagens de carso. Ressalve-se, contudo, que esta apreciação, apesar de genérica,

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deverá ser confrontada futuramente, tendo em conta, que os dados apresentados resultam essencialmente de trabalhos de prospecção. Note-se ainda, que grande parte do território em estudo, não foi prospectada de modo sistemático e intensivo. Parece-nos relevante que as ocupações, com vestígios arqueológicos mais representativos, identificadas nos últimos anos, não se encontrem em áreas, nesta região habitualmente definidas como apresentando um maior potencial, ou seja, em vales fluviais com paisagens de carso (Zilhão & Trinkaus, 2002a; Carvalho & Carvalho, 2007; Pereira, 2010: 63), o que nos parece tornar ainda mais premente a prospecção generalizada do território, de modo a podermos ter uma percepção mais clara da distribuição efectiva das ocupações.

Tendo presente que se visa, em última instância, discernir a relevância do Abrigo do Lagar Velho e do achado Lagar Velho I, após mais de uma década de investigação, tal exercício implica, quanto a nós considerar as implicações da descoberta, quer do sítio arqueológico quer do seu achado mais proeminente, Lagar Velho I, nos domínios científicos, mas, igualmente, em termos da percepção pública sobre a importância destes achados, mormente, pelas consequências de tal entendimento, no investimento afecto à sua investigação.

Analisada a questão relativa ao processo de investigação do sítio, verifica-se que, na prática, o Abrigo do Lagar Velho, não é objecto de escavação, com uma finalidade explicita de obtenção de novos dados científicos, desde 2003, época em que o mesmo deixou de ter financiamento, por parte do extinto, em 2007, Instituto Português de Arqueologia. Por outro lado, a equipa associada ao programa multidisciplinarCIPA, foi parcialmente desmembrada, não estando os responsáveis científicos pelos trabalhos realizados no Abrigo do Lagar Velho, J. Zilhão e F. Almeida, integrados em nenhuma instituição de investigação nacional. Descrevem-se estes factos porque nos parecem ser claros sobre o desinvestimento sucessivo, neste sítio arqueológico, em tempos um projecto-piloto da instituição tutelar, o IPA. Os projectos de investigação programada, apresentados por F. Almeida, entre 2006 e 2009, não obtiveram financiamento, e a investigação do sítio, bem como, de outras jazidas do Paleolítico Superior de Leiria, que se enquadravam nestes, ficou obviamente comprometida.

Os trabalhos de arqueologia preventiva, com diversos enquadramentos e tipologias, apesar de poderem ser objecto de muitas críticas, particularmente em termos de desenvolvimento metodológico, processual e de condicionamento dos resultados, são responsáveis, por contribuírem, de modo inequívoco, para o conhecimento sobre a ocupação humana na região durante o Paleolítico Superior (Carvalho & Carvalho, 2007; Almeida, 2009a, 2009b). No âmbito destes trabalhos foram identificados, ou intervencionados, entre outros sítios:

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1. Novas jazidas de sílex, tais como Mata da Curvachia 1, Vale de Santa Margarida

1, e Arroteia 1;

2. Sítios arqueológicos em contextos cársicos, tais como o Abrigo da Palha e o Abrigo do Poço;

3. Contextos e sítios arqueológicos de ar livre, designadamente, os sítios do Telheiro/ Cruz da Areia, da Portela 2, e Quinta do Fagundo 2;

4. Outras áreas com elevado potencial arqueológico, nomeadamente: o Vale do Leão, o Vale do Ribeiro do Fagundo e o Vale do Ribeiro das Chitas (Braz & Gaspar, 2003; Carvalho, 2005; Carvalho & Pajuelo, 2005; Braz et al., 2006; Carvalho & Carvalho, 2007).

No que concerne a projectos desenvolvidos com a finalidade de garantir a divulgação e salvaguarda do património arqueológico, tais como o Museu Regional de Arqueologia e o projecto para o Parque Arqueológico e Natural dos Vales do Lapedo e da Ribeira das Chitas, suscitados pela importância atribuída ao Abrigo do Lagar Velho, pela comunidade científica e pelas entidades executivas, quer municipais, quer estatais, não tiveram desenvolvimento, não se prevendo que o venham a ter no presente contexto, dado que nos parece ter havido uma absoluta mudança de perspectiva sobre a relevância deste património, nomeadamente, no que respeita às entidades governativas, com poder decisório, o que se comprova pela não atribuição de financiamento aos projectos, pela extinção do Instituto Português de Arqueologia, pelo desmembramento da equipa associada ao CIPA, e pelo abandono do projecto do Museu Regional de Arqueologia.

Refiram-se como exemplos positivos, em termos de investimento público, os projectos concretizados, designadamente: a criação do Centro de Interpretação Abrigo do Lagar Velho, a existência da Oficina Municipal de Arqueologia – Casa dos Pintores, e a exposição Habitantes e Habitats – Pré e Proto-História na Bacia do Lis, todos materializados até ao ano de 2008.

Refira-se de igual modo, que a relevância do sítio arqueológico Abrigo do Lagar Velho garantiu a sua classificação como Monumento Nacional, contudo, o processo que se iniciou em 1999 ainda não se encontra concluído, o que nos parece ser revelador do excesso de burocracia institucional, associada a estas questões de salvaguarda de património. Esta questão repercutiu-se em consequências nefastas, ambientais e de enquadramento paisagístico do sítio e do Vale do Lapedo, devido à existência de novas edificações, que afectam a envolvente do sítio arqueológico, sendo que o Abrigo do Lagar Velho se mantém ainda como propriedade privada, não estando prevista, pelo que sabemos, a sua aquisição por parte do estado.

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O contexto sepulcral e o esqueleto Lagar Velho I

Considera-se que a importância científica do esqueleto Lagar Velho I, que quanto a nós, corresponde à sepultura de um indivíduo infantil da espécie Homo sapiens, cuja datação indirecta de cerca de 24 500 BP, o enquadra no Gravettense, se mantém. Contudo, o interesse da comunidade científica sobre este fóssil não tem sido consistente, sendo o mesmo objecto de acesa controvérsia e polémica, quer no que respeita aos métodos de estudo paleoantropológico adoptados, quer quanto à consistência dos resultados obtidos e sua proposta geral interpretativa.

No que respeita ao esqueleto LVI, parecem-nos persistirem algumas dúvidas relacionadas com a compreensão do contexto funerário, designadamente, questões suscitadas pela análise dos dados arqueológicos, sendo que consideramos existirem algumas incongruências em termos dos resultados apresentados.

No caso de LV I consideramos ser clara a existência de uma sepultura, existindo conexão anatómica dos elementos esqueléticos, e presença de objectos depositados no âmbito de um ritual funerário, que inclui, a presença de peças de adorno pessoal, e de elementos que poderão ser interpretados como de âmbito ritual, tais como a presença de ocre, definida como associada ao envolvimento do indivíduo por uma mortalha tingida, e os vestígios associados a materiais antracológicos detectados sob o esqueleto, e interpretados como relativos à prática um fogo ritual. Ressalvamos, no entanto, que a noção de sepultura ou a definição de um contexto funerário, não é de todo consensual ou de aferição simples (Vandermeersch, 2006; Pettitt, 2011), e que existem, no caso em análise, discrepâncias interpretativas, quanto à natureza da depressão e/ou fossa na qual foi inumado o indivíduo LV I (Angelucci, 2002a; Duarte, 2002).

No presente caso de estudo, verificaram-se processos tafonómicos associados ao esqueleto, bem como, múltiplos processos pós-deposicionais que afectaram o contexto da jazida, entre os quais, e a título de exemplo, a terraplanagem da zona, que afectou o fóssil, e a acção de recolha de elementos osteológicos, em contexto da prospecção inicial, que segundo a equipa se encontrariam em sedimentos soltos (Zilhão & Trinkaus, 2002a).

Estas questões parecem-nos dificultar, sobremodo, a aferição das relações crono-estratigráficas de LVI, assim como, a apreciação da validade das interpretações sobre o seu contexto sepulcral, designadamente por:

1. Não ser possível avaliar a relação com os contextos sedimentares que se encontrariam, imediatamente sobrejacentes, à área do contexto sepulcral, e que foram removidos quase na sua totalidade;

2. Não ser possível determinar de modo claro as características morfológicas da depressão na qual foi inumado o indivíduo;

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3. Complexificar o processo de validação, de funções e relações, atribuídas aos elementos arqueológicos que foram considerados como associados ao ritual e/ou ao contexto funerário.

Saliente-se não existir concordância clara, no seio da própria equipa, designadamente, no caso, dos restos faunísticos de Cervus elaphus, cuja relação com a sepultura foi considerada inconclusiva, em termos de análise zooarqueológica, mas, que foi considerada como provável, em termos de tafonomia da sepultura, e que foram interpretados, para efeitos de conclusões finais, como correspondentes a oferendas rituais (Moreno-Garcia, 2002: 144-145; Duarte et al., 1999; Zilhão, 2001b; Zilhão & Almeida, 2002: 38; Zilhão & Trinkaus, 2002a: 565).

Consideramos dever ser motivadora de reflexão, e atenção futura em casos similares, pelas consequências graves que implicou, a utilização de consolidante durante o processo de escavação do fóssil. Estas consequências deverão ser tidas em conta, particularmente, em termos de procedimentos metodológicos futuros de escavação de elementos esqueléticos humanos, e de igual modo, durante a escavação de elementos orgânicos que sejam passíveis de permitirem a obtenção de datações para os contextos arqueológicos. Saliente-se que, a equipa responsável pela análise dos resultados das datações por radiocarbono do sítio Abrigo do Lagar Velho, notou, que devido a ter sido aplicado consolidante nos ossos humanos, em campo, antes da sua exumação, não foi possível eliminar a contaminação provocada pela cola, não tendo assim sido possível obter datações absolutas directas para o esqueleto. Os autores (Pettitt et al., 2002: 136) afirmam que a qualidade de preservação do osso era pobre, e que apresentava baixo conteúdo de carbono, pelo que consideraram impossível assegurar a remoção de todos os elementos contaminantes presentes nas amostras.

Até ao momento, não foram divulgados resultados ou informações relativas a novas tentativas de obter uma datação absoluta para o fóssil, o que nos parece que deveria ser tentado, designadamente, a partir de uma amostra dentária, ou de um fragmento de osso, que apresentasse maiores probabilidades de preservação de colagénio, bem como, uma menor probabilidade de contaminação, a tentar eventualmente em fragmentos que não tenham sido consolidados. Saliente-se que os métodos de datação têm sofrido uma grande evolução, permitindo obter resultados mais seguros, com base em amostras de menor dimensão, e com preservação de baixa qualidade (Grün, 2006; Mellars, 2006; Finlayson, 2006).

Com base nos resultados da análise paleodemográfica, morfológica e paleopatológica efectuada ao esqueleto foi apresentada a proposta interpretativa, que defende que a existência de uma combinação complexa de características dentárias e

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esqueléticas em LV I se relaciona com a existência de contactos biológicos, precedentes, entre indivíduos de espécies com características anatómicas distintas (Homo sapiens e

Homo neanderthalensis). Com base nas mesmas análises, apresentadas por uma extensa equipa de investigadores que analisaram separadamente distintas porções do esqueleto, os resultados poderiam de igual modo ser interpretados como reveladores da existência de múltiplas percepções, que poderiam ser consideradas como contraditórias, e serem objecto de reanálise, ou, tal como foi a opção, no presente caso, ser considerados como indicativos da existência de um ―mosaico de características anatómicas modernas e arcaicas‖ (Zilhão & Trinkaus, 2002a: 566), para o qual se apresentou uma explicação de cariz filogenético.

Parece-nos que seria de todo o interesse que LV I fosse objecto de uma nova análise paleodemográfica, morfológica e paleopatológica, efectuada por uma equipa distinta, que pudesse reequacionar os dados existentes e apresentar resultados, que pudessem ser comparados com os apresentados pela equipa liderada por J. Zilhão e E. Trinkaus (2002a). Saliente-se que desde a publicação da monografia apenas foram submetidos a uma nova análise as peças dentárias, sendo de notar, que entre o estudo apresentado em 2002 (Hillson & Coelho, 2002) e o estudo publicado em 2010 (Bayle et al., 2010) se reconhecem discrepâncias em termos de resultados, o que nos parece que justifica claramente a necessidade de Lagar Velho I ser novamente observado, designadamente, porque entre 2002 e 2011, surgiram novas metodologias de análise. Ressalve-se, contudo, que as criticas relativas a problemas metodológicos, apontadas ao estudo de LV I (e.g. Tattersall & Schwartz, 1999), da responsabilidade de J. Zilhão e Trinkaus (2002a), nomeadamente, em termos do estabelecimento de comparações com amostras integrando indivíduos adultos, serão difíceis de ultrapassar dado que a amostra comparativa, em termos de fósseis infantis para o Paleolítico Superior se mantém escassa (Pettitt, 2011).

Relativamente à aferição sobre a relevância do fóssil LV I, passados mais de doze anos sobre a sua descoberta, este achado, tal como no caso do Abrigo do Lagar Velho

No documento DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA VIDA (páginas 151-161)