4 A CELEBRAÇÃO DE CONTRATOS BANCÁRIOS POR PESSOAS COM
4.8 Da Responsabilidade Civil do Curador e/ou do Apoiador
Segundo Pablo Stolze, a palavra originária do latim “respondere” gerou o termo “responsabilidade” em português que está, por natureza, ligada ao conceito de que, uma vez praticado um determinado ato, essa causa implicará em uma consequência para al-guém. Logo, no sentido jurídico, responsabilidade implica em uma obrigação de reparo a algum dano cometido contra alguém151.
A responsabilidade civil está subdividida em três componentes essenciais. O pri-meiro membro corresponde a conduta, ou seja, a ação ou omissão um ser humano ocor-rida de forma voluntária. O segundo elemento é o dano, que é considerado uma lesão de cunho patrimonial ou não ocorrida por meio de uma conduta específica. Por último, esta-ria o nexo de causalidade, sendo este último o elo entre os dois primeiros visto que o nexo causal é o liame existente entre a ação ou omissão denominada conduta e o seu respectivo dano causado, de modo que essa ligação entre ambos é essencial152.
A responsabilidade atribuída aos deficientes sempre foi aplicada de forma a con-siderar a pessoa com deficiência mental alguém inimputável e, consequentemente, sem capacidade para exercer os atos civis. Esse entendimento clássico resultava em falta de incidência de responsabilidade, o que deixava a pessoa que havia sofrido o dano sem quaisquer reparos. Diversos doutrinadores, entre eles Clóvis Beviláqua e Spencer Vam-pré, acreditavam que a situação era injusta e defendiam o posicionamento favorável a responsabilidade do deficiente mental se ocorrido um dano.
150 DINIZ, Maria Helena. Influência da Lei nº 13.146/2015 na Teoria das Incapacidades do Direito Civil Brasileiro. Revista Thesis Juris, v. 5, n.2, p. 263-288, 2016.
151 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de direito civil: Responsabilidade civil. 15.ed. Editora Saraiva, 2017, v.3. p. 57.
152 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de direito civil: Responsabilidade civil. 15.ed. Editora Saraiva, 2017, v.3. p. 57.
A doutrina faz uso dos Princípios de Garantia, de Inclusão e de Assistência Social para justificar a incidência de responsabilidade civil perante a pessoa com mal de Alzhei-mer, pois não seria considerado justo fazer com que houvesse um dano e a ele não fosse atribuído nenhuma espécie de sanção.
O Código Civil de 1916, em seu artigo 1521153, aplicava a responsabilização pelo dano ao curador quando houvesse obrigação de zelar pelo bem-estar da pessoa com deficiência. Caso contrário, o entendimento era de que não haveria um responsável civil pelo caso. Com o avançar dos anos, o Código Civil de 2002 entrou em vigor e introduziu, por meio de seu artigo 928154, a aplicação dos conceitos de subsidiariedade e mitigação à responsabilidade, sob a ótica de que a pessoa incapaz teria que assumir responsabili-dade civil pelo dano causado, caso não houvesse um curador com tal função, pois ha-vendo, seria caso de incidência de responsabilidade objetiva155.
Nesse sentido, aborda-se brevemente a distinção existente entre reponsabilidade objetiva e subjetiva, cuja diferença está pautada simplesmente na existência ou não do elemento culpa. A responsabilidade objetiva decorre de lei ou decisão judicial e inde-pende de culpa, ao contrário da responsabilidade subjetiva, cuja presença de dolo ou culpa é essencial para sua caracterização, tendo a vontade do indivíduo em realizar o devido fim contribuído para o dano causado156.
Porém, de antemão, suscita-se a dúvida acerca da necessidade de sanidade men-tal prévia para responsabilização do agente e para garantia de nexo causal entre a con-duta ilícito e seu agente. Com esse pensamento, no caso da pessoa com doença de Alzheimer em seu estágio cinco, seis ou sete, a princípio, não seria possível responsabi-lizá-la em razão de uma falta de discernimento decorrente do grau da doença157.
153 BRASIL. Lei nº 3.071/16 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
154 BRASIL. Lei nº 10.406/02 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
155 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de direito civil: Responsabilidade civil. 15.ed. Editora Saraiva, 2017, v.3. p. 36-40.
156 GONCALVES, Carlos R. Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. 11.ed. São Paulo: Saraiva, 2015, v.4. p.48 a 52.
157 BRASIL. Lei nº 10.406/02 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
De acordo com o artigo 928 do Código Civil Brasileiro de 2002158, a pessoa capaz (isto é, aquela com doença de Alzheimer até o estágio quatro) teria responsabilidade sobre quaisquer danos que viesse a causar a um terceiro. Por outro lado, o incapaz rela-tivo (ou seja, aquele com doença de Alzheimer a partir do estágio cinco) teria a respon-sabilidade atribuída a seu responsável, ou seja, ao curador, caso esses tivessem o dever expresso de zelar pelo bem-estar do deficiente.
No caso do curador, existe um artigo específico que lhe atribui, ainda, uma responsabilidade objetiva. Tendo como base o artigo 932 do Código Civil159, o incapaz relativo com doença de Alzheimer teria, independente de culpa, a responsabilidade por seus atos transferida subsidiariamente para seu curador, de modo equivalente à forma como ocorre com a tutela.
Em resumo, as pessoas com doença de Alzheimer até o quarto grau estariam configuradas no contexto cível como plenamente capazes e, assim sendo, seriam responsáveis por quaisquer possíveis danos no molde do artigo 927 do Código Civil160
ao passo que as pessoas com doença de Alzheimer entre os estágios cinco e sete já seria enquadrada como incapaz relativa, responderia pelo artigo 928 do Código Civil e teria, subsidiariamente, atribuída também responsabilidade a seu curador.
Dessa forma, o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterou a teoria da responsabilidade civil frente a doenças mentais, tais como o Alzheimer. Para aqueles que eram classificados como incapazes no passado, capazes no presente e cuja obrigação era atribuída ao curador, a responsabilidade civil passa ter efeitos diretamente sobre os portadores de Alzheimer de até quarto grau. Porém, para aqueles que possuem níveis mais avançados da doença de Alzheimer e que estão encaixados como incapazes relativo, a responsabilidade subsidiaria e mitigada não se aplica, em tese, de forma geral.
158 BRASIL. Lei nº 10.406/02 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
159 BRASIL. Lei nº 10.406/02 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
160 BRASIL. Lei nº 10.406/02 (Código Civil). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 set. 2017.
A curatela é configurada como instrumento extraordinário, excecional e restrito a atos patrimoniais e econômicos, logo, caso o curador não tenha a plena vigência sob todos os atos de seu curatelado, é possível incidir em afastamento da responsabilidade objetiva do curador. Enfatiza-se aqui que, em tese, caberia uma ação regressiva contra o curatelado, caso o motivo que levou a ocorrência do dano não tenha deixado sequela161.
Por fim, o Estatuto da Pessoa com Deficiência trouxe benefícios ao permitir uma liberdade maior à pessoa com deficiência de Alzheimer, buscando sua devida inclusão e igualdade, entretanto, o ordenamento existente a respeito de responsabilidade de pessoas com deficiência não sofreu alterações, mas deve levar em consideração a tênue, mas importante modificação trazida para ambos os conceitos e área do Direito Civil.
161DINIZ, Maria Helena. Influência da Lei nº 13.146/2015 na Teoria das Incapacidades do Direito Civil Brasileiro. Revista Thesis Juris, v. 5, n.2, p. 263-288, 2016.