4 DA RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA
4.4 Da Responsabilidade Civil Objetiva no Código de
O Código Civil de 1916, como dito acima, apresenta casos de fidelidade à doutrina objetiva da responsabilidade civil, muito embora não o assuma expressamente, indo e voltando ao conceito de culpa, ora expressamente a solicitando, ora a presumindo, seguindo à risca o quanto disposto no Código de Napoleão e navegando pelas idéias sublimadas no início do século.
Há aqueles autores que defendem, vale dizer, que os casos previstos no Código Civil são todos relativos à responsabilidade subjetiva, justamente porque a culpa impera não só no artigo 159124 do Diploma Substantivo, que regra a generalidade dos casos de responsabilidade civil, como também nas demais disposições, mesmo que de forma apenas presumida.
Todavia, são vozes que não ecoaram, não tendo ganho muitos adeptos. Não se esconde, de fato, que CLÓVIS BEVILÁQUA conhecia a doutrina do risco. O primeiro caso identificado com toda a certeza no Código Civil é aquele relativo às coisas jogadas de prédios e construções, pelas quais se responsabiliza o habitante, nos exatos termos do artigo 1.529, verbis:
... Aquele que habitar uma casa ou parte dela, responde pelo dano proveniente das coisas, que dela caírem ou forem lançadas em lugar indevido...
124 ",Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano .. ,"
Segundo o autor citado, que elaborou o Código de 1916:
... Pouco importa que não haja postura municipal ou regulamento de higiene proibindo atirar coisas para fora de casa em lugar não destinado a esse mister. O ponto de vista do Código Civil é o dano à pessoa ou aos bens de outrem. A responsabilidade é objetiva e recai sobre o habitante da casa, que se não excusa, alegando que o ato prejudicial foi praticado por outra pessoa ....125
Também no Código Civil de 1916, fazendo surgir vivas discussões, sobressai o artigo 1.521126, que regula nos seus incisos, assim como no Código Civil Francês, as várias hipóteses de responsabilidade por fatos de terceiros, a exemplo dos pais pelos filhos menores sob o seu pátria poder, do tutor pelo tutelado, do empregador pelo seu empregado, etc., casos em que não há que se cogitar da culpa para que se estabeleça o dever de indenizar.
As discussões suscitadas dizem com o problema da presunção de culpa que albergava, notadamente, os seus três primeiros incisos. Dizia-se, com efeito, que o pai que não olhasse pelo filho teria sido negligente, presumindo-se a sua culpa quando de um dano causado pelo menor, principalmente à vista da dificuldade que seria enfrentada para a prova da falha.127
125 BEVILAQUA, Clovis in "Codigo Civil dos Estados Unidos do Brasil", 6" ed., VoI. V, Livraria Francisco Alves, p. 309.
126 "Art. 1521. São também responsáveis pela reparação civil: I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob seu poder e em sua companhia. II - O tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições. III - O patrão, amo ou comi tente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou por ocasião dele (art. 1.522). IV - Os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos, onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos. V - Os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até à concorrente quantia ... "
127 MARIA HELENA DINIZ, por exemplo, aduz que é necessário ao dever de indenizar a prova de que " ... Os pais sejam negligentes na vigilância, isto é, incorram em culpa in vigilando, que se presume havendo a inversão do ônus probandi (RT,490:89), incumbindo aos pais provar que cumpriram o dever de vigilância para se livrarem da responsabilidade. A culpa in vigilando, nas palavras de Munir Karam, consiste na falta de atenção especial dos pais, necessária em relação aos filhos menores. Os pais somente escaparão da responsabilidade se comprovarem ausência de culpa. Isto é assim porque se trata de uma presunção juris tantum, suscetível de ser afastada se os pais demonstrarem que sua conduta foi incensurável quanto à vigilância e educação do menor (RT, 484:63, 490:89) ... " (ob. cit., pags. 433 e 434).
A interpretação gradativa do dispositivo pela doutrina e pelos tribunais não deixou dúvidas, todavia, de que se trataria de casos de responsabilidade objetiva, como bem coloca GUILHERME COUTO DE CASTRO:
... A questão, hoje, é indagar se ainda é correto falar-se em presunção de culpa, ou se as hipóteses são de responsabilidade objetiva. É imperioso, para responder à pergunta, diferençar presunção de culpa e responsabilidade sem falta. A presunção de culpa é escala intermediária entre a responsabilidade subjetiva e a objetiva. Quando se está diante de verdadeira e simples presunção, o fenômeno corrente é o da inversão do ônus da prova, restando ao interessado demonstrar que obrou em conduta escorreita, de modo a afastar qualquer imputação. Assim, só há presunção de culpa, verdadeiramente, quando sua natureza é iuris tantum; se a presunção não admite prova em contrário - é iuris et de iure - ou se somente a admite em estritas hipóteses, a regra é de responsabilidade objetiva. Simples reflexão lógica, portanto, conduz ao abandono da ótica a sustentar, ainda hoje, a existência de mera presunção de falta nos casos de responsabilidade por ato de terceiro....128
Outro caso interessante de responsabilidade objetiva no Código Civil de 1916, que também suscita as mesmas discussões a respeito da presunção de culpa levantadas quando do comentário ao artigo anterior, é o da responsabilidade do dono do animal pelos danos que ele causar, obrigação que decorre da teoria da guarda, também aplicada a uma série de outras situações129.
Tal caso, assim como o primeiro, é tipicamente de responsabilidade objetiva, mitigada pelos excludentes contidos expressa e exclusivamente no próprio artigo 1527, conquanto insistam alguns juristas na tese de que se basearia ele na presunção juris tantum de culpa do dono do animal130.
128 CASTRO, Guilherme Couto de. A Responsabilidade Civil Objetiva no Direito Brasileiro, Forense, 2. ed. p. 14.
129 Art. 1527. o dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar: I - que o guardava e vigiava com o cuidado preciso. II - Que o animal foi provocado por outro. III - Que houve imprudência do ofendido. IV - Que o fato resultou de caso fortuito, ou força maior ... " 130 Acena neste sentido boa parte da legislação argentina, como nos dá conta MARTIN DIEGO PIROTA, in verbis: " ... Así reza el artículo 1124 deI Código Civil: 'El proprietario de un animal, doméstico o feroz, es responsable deI dafío que causare. La misma resonsabilidad pesa sobre Ia persona a Ia cual se hubiere mandado el animal para servirse de él, salvo su recurso contra el proprietario'. El artículo transcripto consagra Ia responsabilidad extracontratual y objetiva deI
De resto, no Código Civil, sobram os direitos de vizinhança, lembrados como exemplos de responsabilidade sem culpa no trabalho de GUILHERME COUTO DE CASTRO, colocando, a exemplo, que bastaria o nexo de causalidade entre a construção e um dano que· dela derivasse, para que se configurasse a responsabilidade da parte do dono da obra131.