2. DO INADIMPLEMENTO CONTRATUAL
2.3. MODALIDADES DIVERSAS DO INADIMPLEMENTO
2.3.1. Da responsabilidade pré-contratual e pós-contratual
A questão suscitada no presente tópico pode ser bem resumida a uma pergunta simples: quais os limites da responsabilidade negocial? A existência de um negócio jurídico parece não mais representar um limite claro para definir os contornos de atuação de uma responsabilização que se pretenda plena.
Pois bem, a própria cláusula geral da boa-fé objetiva, ou mesmo qualquer obrigação assumida em sede contratual, pode impor às partes deveres que exorbitem as esferas da pura e simples relação contratual.
Observando a fase pré-contratual, Jorge Mosset ITURRASPE aponta que o que se denomina responsabilidade pré-contratual estende-se por toda a fase de tratativas, mesmo antes de realizada a oferta. Neste momento, destaca o autor
argentino, é possível a qualquer das partes incorrer em responsabilidade, e no dever de reparar, inclusive por eventual nulidade no negócio jurídico234.
Segundo a lição de Marcos Jorge CATALAN, o primeiro que se questionou do citado instituto foi Rudolf Von IHERING, atentando, justamente, para as hipóteses em que o contrato já nascia viciado, e desse vício tinha conhecimento apenas uma das partes235. É a clara hipótese em que a invalidação da avença aproveita a uma das partes, trazendo prejuízo ao seu contratante.
Mas as hipóteses de responsabilidade pré-contratual estão longe de serem limitadas, ou passíveis de redução a esta hipótese. Há que se destacar, aqui, o importante escólio de Judith MARTINS-COSTA:
Assim, há incidência de deveres pré-negociais derivados do mandamento de agir segundo a boa-fé no período de tratativas que, uma vez violados ensejam, havendo dano e relação causal, o dever de indenizar. […] existe entre os interessados uma relação jurídica obrigacional de fonte legal, sem deveres primários de prestação, que pode conter deveres de proteção236.
Prossegue a autora destacando a existência de vários exemplos do instituto, tais como os deveres de sigilo, de não gerar representações falsas, de prestar adequada informação237, ou até mesmo de não gerar gastos desnecessários na fase de tratativas, criando legítima expectativa da contratação238. Certo é que não existe um rol taxativo de tais deveres, ou de como possa se dar a responsabilidade pré-contratual, mas uma linha mestra que os vincula à mesma noção.
Em sentido semelhante, conclui Orlando GOMES que:
Mas, se um dos interessados, por sua atitude, cria para o outro a expectativa de contratar, obrigando-o, inclusive, a fazer despesas para possibilitar a realização do contrato, e, depois, sem qualquer motivo, põe termo às negociações, o outro terá o direito de ser ressarcido dos danos que sofreu […]. Aquele que é ilaqueado em sua boa-fé, frustrado na sua fundada esperança de contratar, tem direito à reparação dos prejuízos sofridos, isto é, ao interesse contratual negativo – negative Vertragsinteresse –, de acordo com a explicação de Ihering239.
Note-se, bem assim, que os deveres descritos não encontram respaldo literal no CCB. No entanto, não é lícito excluir estes deveres como expressões da
234 Cf. ITURRASPE, Jorge Mosset. Contratos. Santa Fe: Rubinzal-Culzoni Editores, 1998. p. 420.
235 Cf. CATALAN. Descumprimento… op. cit. p. 117.
236 MARTINS-COSTA. Comentários… op. cit. p. 175.
237 Cf. Ibid. p. 176.
238 Cf. GOMES, Orlando. Contratos. Rio de Janeiro: Forense, 2009. p. 72.
239 Ibid. p. 72.
boa-fé objetiva na fase pré-contratual. É imposto aos tratantes – assim como é aos contratantes – o dever de se comportar conforme ditames de lealdade, probidade, e correção, sob pena de responderem pelos danos que vierem a causar240. Vale dizer, todas as hipóteses da responsabilidade dita pré-contratual são, em maior ou menor medida, violações aos deveres impostos pela boa-fé241.
Nesse ponto, deve ser retomada uma premissa acima lançada: é o dano o elemento unificador do direito de reparar. Em todas as hipóteses tratadas pelos autores acima mencionados – invalidade do contrato, violação de dever decorrente da boa-fé e pura lesão ao tratante –, o ponto nodal é a existência de uma violação a um legítimo interesse da parte, a qual pode acarretar em um dano indenizável242.
Para a responsabilidade pós-contratual, aplica-se o mesmo princípio. Ensina Jorge Mosset ITURRASPE que “[…] o fundamento desta responsabilidade pós-contratual é, também, o exercício de uma prerrogativa jurídica de modo irregular, antifuncional, contrariando a boa-fé, a moral e os bons costumes”243.
Não se pode admitir, porém, que a responsabilidade pós-contratual seja confundida com deveres advindos do próprio contrato. Se a conduta a ser seguida após o término da relação obrigacional é prevista no próprio negócio jurídico, não há sentido em falar de responsabilidade pós-contratual. Essa obrigação, ao fim e ao cabo, é meramente contratual, como as demais244.
O que se denomina de responsabilidade pós-contratual é uma projeção dos mesmos deveres que engendram a responsabilidade pré-contratual. Vale dizer, se a boa-fé deu origem aos deveres geradores da responsabilidade pré-contratual, ela mesma deve ser apontada como fundamento dos deveres que ensejam a pós-contratual245.
Os deveres que aqui se impõem são aqueles que extrapolam as esteiras do contrato, tal como os deveres de sigilo e de respeito que permanecem para além dos lindes da relação contratual havida246. Assim, é possível se pensar em um sem número de relações contratuais em que mesmo encerrado o processo obrigacional, a boa-fé ainda se mantenha como núcleo irradiador de direitos e deveres.
240 Cf. CATALAN. Descumprimento… op. cit. p. 120-121.
241 Cf. MARTINS-COSTA. A boa-fé… op. cit. p. 506-507.
242 Cf. ITURRASPE. op. cit. p. 427.
243 Cf. Ibid. p. 428.
244 Cf. CATALAN. Descumprimento… op. cit. p. 125-126.
245 Cf. FRADA, Manuel A. Carneiro da. Contrato e deveres de proteção. Coimbra: Almedina, 1994.
p. 103-104.
246 Cf. CATALAN. Descumprimento… op. cit. p. 126.
Tanto em um quanto em outro caso – embora existam importantes vozes em sentido contrário – parece bastante evidente que se está diante de uma hipótese de responsabilidade extracontratual, ainda que muito próxima à responsabilidade contratual. É bem verdade que subsiste, em ambos os casos, o que Judith MARTINS-COSTA denomina de situação de confiança qualificada247, em que o vínculo que liga as partes mostra-se mais efêmero que o contratual, mas, ainda assim, mais forte do que o vínculo que liga duas pessoas aleatórias248.
É nessa esfera de especial confiança que vincula ambas as partes que se desenvolve o âmbito tanto da responsabilidade civil pré e pós-contratual. Em ambos os casos, o dano causado deve ser indenizado, na exata medida em que ocorreu a violação de uma legítima expectativa da contraparte.