3.3 Ondas de Acesso à Justiça
3.3.2 Da segunda onda
II - não seja proprietária, titular de aquisição, herdeira, legatária ou usufrutuária de bens móveis, imóveis ou direitos, cujos valores ultrapassem a quantia equivalente a 5.000 (cinco mil) Unidades Fiscais do Estado de São Paulo - UFESP´s.
III - não possua recursos financeiros em aplicações ou investimentos em valor superior a 12 (doze) salários mínimos federais139.
Estes mesmos requisitos – advirta-se – podem ser alterados em várias situações contempladas pelos parágrafos do próprio artigo 2º da Deliberação, sempre com vistas a integrar um maior número de pessoas em situações economicamente delicadas no rol de assistidos pela Instituição.
Pedindo-se a devida vênia para não entrar em pormenores, quer-se com estes dados corroborar o entendimento pelo qual a regra do artigo 5º, LXXIV, da Constituição Federal realmente se destina à Defensoria Pública, que exige comprovação da necessidade e, inclusive, aponta critérios para a prestação do serviço de assistência jurídica integral, sendo a afirmação de hipossuficiência, a que atine o artigo 4º da Lei nº 1.060/50, meramente a “etapa judicial” necessária ao aperfeiçoamento do serviço prestado, não havendo que se falar em indeferir a simples gratuidade judiciária quando a própria assistência jurídica, muito mais rica e exigente, já fora concedida pelo órgão estatal responsável pelo seu controle140.
Finalmente, quanto aos modelos de prestação de assistência jurídica, será o assunto desenvolvido em item vindouro.
Para a boa compreensão do panorama em que os autores entenderam ter se verificado esta segunda tendência do movimento de acesso à justiça, são apresentados, inicialmente, argumentações acerca da impropriedade do processo civil tradicional (individual) para a devida tutela de determinadas categorias de direito, motivo pelo qual houve a necessidade – e nisso apontam terem os Estados Unidos da América o ordenamento jurídico mais avançado sobre o tema – da criação de novos instrumentos jurídicos possibilitando a representação de um número indeterminado/determinável de pessoas e que a autoridade da coisa julgada sobre eles recaísse142.
Em seguida, apontam os autores o modelo de “Ação Governamental”, que ainda constituiria “o principal método para a representação dos interesses difusos”143. Neste sistema, haveria um alto membro do corpo governamental com capacidade postulatória e legitimidade para patrocinar os interesses difusos em juízo, missão esta que seria ocupada, com primazia, pelo Ministério Público e instituições análogas, o que não é visto com bons olhos pelos autores, que entendem ser tais órgãos suscetíveis de pressões políticas, bem como sem a qualificação técnica extrajurídica (“tais como contabilidade, mercadologia, medicina e urbanismo”) que muitas vezes a reivindicação de novos direitos reclama144.
Outras alternativas governamentais buscadas pelos países mundo afora apontadas pelos autores são a figura do “advogado público”, pioneiramente instituído, em 1974, pelo Estado norte-americano de Nova Jersey, e seguido por outras unidades federativas estadunidenses, e a criação do “Ombudsman do Consumidor”, na Suécia, em 1970145. Sem embargo dos reconhecidos avanços e dos elogios tecidos a estas novas manifestações, os autores ainda observam a presença de “limitações inerentes” no sistema governamental, “mesmo quando funcione do melhor modo possível”146, daí porque prosseguem examinando outras possíveis experiências.
Pela técnica do “Procurador-Geral Privado”, termo cunhado pelo Juiz Norte-Americano Jerome Frank, um indivíduo ou grupo deles podem propor ações defendendo direitos públicos ou coletivos, podendo se verificar, até mesmo, o
142 Idem, p. 49-51.
143 Idem, p. 51.
144 Idem, p. 51-52.
145 Idem, p. 53-55.
146 Idem, p. 55.
financiamento destas ações por determinados grupos como “casos-teste”147. Diversas previsões legais, espraiadas por ordenamentos de vários Estados, têm permitido a técnica148, que, no caso brasileiro, poderia ser bem visualizada no campo da Ação Popular, regulada pela Lei nº 4.717/1965149.
A técnica seguinte analisada pelos autores é a do “Advogado Particular de Interesse Público”, que corresponde, grosso modo, ao reconhecimento da legitimidade de associações privadas para o manejo de ações judiciais tendentes a resguardar os direitos pelos quais aquelas se dispõem a velar150. Enfatizam, ademais, haver fiscalização estatal no que concerne a tais associações, a fim de que não restem os titulares dos direitos por elas pretensamente protegidos deixados à deriva151.
Verifica-se o crescimento do advogado de interesse público, nos EUA, a partir de 1970, tendo sido fundadas, inclusive, “sociedades de advogados de interesse público”, variáveis “em tamanho e especialidades temáticas a que atendem”, sendo “o tipo mais comum” o de “uma organização de fins não lucrativos, mantida por contribuições filantrópicas”152.
Embora existam críticas lançadas contra o modelo, Cappelletti e Garth reconhecem que a instituição “é, sem dúvida, importante ao promover o acesso à justiça para os interesses difusos, dentro dos limites dos recursos disponíveis”153.
Finalizando o exame da segunda onda, os autores apresentam a existência de uma solução mista, que combina “o êxito dos advogados de interesse público” com o financiamento de sua atuação pelo Poder Público. Vale dizer, “a ideia consiste em usar recursos públicos, mas confiar na energia, interesse e fiscalização dos grupos particulares”154. A este modelo, deu-se o nome de “Assessoria Pública”.
O modelo de Assessoria Pública foi, por fim, combinado com “outras teses, tornando-se, em nosso entendimento, a melhor proposta de reforma já apresentada
147 Idem, ibidem.
148 Idem, p. 56.
149 A Constituição Federal de 1988, estendendo o âmbito de extensão da ação popular, e mantendo a legitimidade para a medida, prevê que “qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência” (Artigo 5º, LXXIII).
150 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant G.; NORTHFLEET, Ellen Gracie. Op. cit., p. 56-59.
151 Idem, p. 57-58.
152 Idem, p. 62-63.
153 Idem, p. 64.
154 Idem, ibidem.
para essa área, nos Estados Unidos”155, salientando-se, nesse diapasão, que apenas a integração de todas estes modelos apontados é que pode contribuir para a devida e eficiente representação dos direitos difusos156.
Tendo em vista o fato de já se ter demonstrado, ainda em que linhas gerais, o funcionamento do sistema brasileiro de legitimidade e de coisa julgada para as ações coletivas, dois dos principais pontos processuais que tiveram de se adequar ao modelo coletivo de litígios, dá-se por encerrado a análise desta segunda onda de acesso, passando-se, doravante, aos cuidados da terceira.