7 DOS CRITÉRIOS DE APURAÇÃO DE HAVERES
7.2 Da suposta venda forçada e a qualquer tempo
Neste sentido, se não houvesse tanta divergência acerca dos elementos que devem compor o cálculo dos haveres, como veremos mais adiante, provavelmente as partes não levariam as disputas às últimas consequências, posto que já saberiam o resultado do seu desfecho.
Sendo assim, não haveria motivo para investir no litígio se o desfecho fosse certo, claro e indiscutível.
O que se quer dizer é que, fixando adequadamente os critérios, mas também delimitando ao máximo a controvérsia, especificando exatamente quais contornos a avaliação deve assumir, as partes teriam mais previsibilidade sobre o desfecho do conflito, fazendo com que o litígio, talvez, fosse mais evitado.
O que ocorre, no entanto, é que na prática as partes não conhecem o resultado que será alcançado na “apuração de haveres”, sendo que o valor que será apontado pelo perito judicial é ignorado desde o início, ainda que as partes tenham algum conhecimento sobre os critérios fixados pelo Juiz.
Tendo o Novo CPC/2015 determinado que o Juiz fixe os critérios que deverão ser utilizados para a “apuração de haveres”, o que parece estar sendo seguido, resta saber se esta disposição é suficiente para aniquilar controvérsias, garantindo aos envolvidos que os critérios legais, quando ausente previsão contratual, trarão um resultado mais previsível e evitarão surpresas desagradáveis que podem prejudicar os seus negócios.
Esta alteração da qualidade de sócio para credor da sociedade, nos casos de retirada, pode se dar a qualquer tempo, sem necessidade de justificativa, significando verdadeira “venda forçada” da participação societária do sócio retirante à sociedade.
O mesmo acontece com relação ao sócio falecido.
Isso porque, prescrevendo a lei que a retirada pode se dar a qualquer tempo, independentemente de motivação, a sociedade se obriga a comprar, de modo compulsório, a participação societária do sócio que se retirou, ainda que pelo valor patrimonial.
Esta é uma primeira questão, bastante debatida no bojo das discussões sobre a forma como os haveres devem ser calculados, para justificar o afastamento da geração de lucros futuros no valor a ser pago ao sócio na “dissolução parcial”, conforme se verá mais adiante.
No entanto, não é sobre esta questão que se quer debater, neste primeiro momento. O que se discute é se a possibilidade de retirada, a qualquer tempo e sem justificativa, foi uma boa escolha do legislador.
Sabemos que ninguém é obrigado a se associar ou se manter associado, conforme artigo 5, inciso XX da Constituição Federal78.
A permissão de se retirar a qualquer tempo e sem condicionantes, obrigando a sociedade a realizar o pagamento da respectiva quota parte, em verdadeira “venda forçada”, no entanto, pode prejudicar a continuidade do negócio de uma empresa, impactando na sua preservação, antes protegida.
Este prejuízo não é só financeiro, relativo ao efetivo pagamento dos haveres.
O prejuízo também pode se dar com relação à interação social e moral no bojo da sociedade.
A possibilidade de poder se retirar a qualquer tempo e sem condicionantes, portanto, pode atrapalhar o planejamento econômico e impactar negativamente nos negócios da sociedade.
Basta imaginar um sócio que, receoso dos outros sócios deixarem a sociedade antes dele, passe a buscar sua retirada antecipadamente, apenas para evitar se tornar devedor do outro sócio.
Ainda que o parágrafo único do artigo 1.029 do Código Civil/2002 permita que, nestes casos, os sócios remanescentes possam optar pela “dissolução da
78 Art. 5º da CF/1988: XX - ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado.
sociedade”79, fato é que será destes a responsabilidade pela liquidação da sociedade, encargo que também é um fardo.
Esta permissão de se retirar da sociedade a qualquer tempo e sem justificativa pode levar à chamada “Teoria dos Jogos”, fazendo com que os sócios “joguem” uns com os outros enquanto exercem a atividade empresarial, mantendo-se “alertas” de forma constante sobre os eventuais movimentos de retirada dos demais sócios, o que pode prejudicar o bom andamento da atividade comercial, seu planejamento, seus investimentos e o pagamento de seus credores.
Esta situação pode ser pior ainda quando a sociedade enfrenta alguma dificuldade, ainda que de cunho pessoal e não financeiro.
Neste sentido, Renato Ferreira dos Santos e Rafael de Moura Rangel Ney citam Joel Gonçalves de Lima Jr. para explicar a “Teoria dos Jogos” no pedido de retirada com apuração de haveres acrescido de juros na Sociedade Anônima, que pode ser utilizada aqui por analogia:
... os agentes econômicos (acionistas) tenderão a desertar antes que os outros desertem, o que é explicado pela Teoria dos Jogos. Vale dizer, se os acionistas não desertarem já, correrão o risco de que os outros acionistas desertem antes, hipótese em que deixará de tomar o proveito da condição de acionista retirante para amargar a condição de acionista remanescente.
(NEY, SANTOS, 2015)
Quando isso acontece, os sócios que se retiram antes dos demais passarão à qualidade de credores, deixando os sócios remanescentes na qualidade de seus devedores, o que parece ser uma posição menos vantajosa, principalmente se considerarmos a oportunidade dos sócios retirantes de se dedicarem a novos negócios, enquanto os sócios remanescentes restarão imbuídos no compromisso de manter a empresa funcionando para fazer frente ao pagamento do sócio credor.
Ora, a constituição de uma sociedade objetivando um fim comum, através de contrato plurilateral, advém do princípio da autonomia da vontade das partes. Uma vez constituída, a sociedade assume deveres e obrigações, que não poderiam ser simplesmente abandonadas pelo sócio retirante, a não ser por uma justa causa.
Permitir que uma das partes “rescinda” este contrato a qualquer tempo e sem motivo, padece de importantes críticas, principalmente no que diz respeito à chamada
79 Parágrafo único do artigo 1.029 do CC/2002: Nos trinta dias subseqüentes à notificação, podem os demais sócios optar pela dissolução da sociedade.
perda da affectio societatis, que seria a perda da vontade dos sócios de se manterem na sociedade que constituíram por livre e espontânea vontade, objetivando a consecução de um fim comum, conforme explicam Erasmo Valladão e Marcelo Von Adamek. Vejamos:
Na realidade, o que pode embasar o pedido de dissolução parcial da sociedade pelo sócio que deseja se retirar de sociedade, não é propriamente a quebra da affectio societatis, mas a inviabilidade de um sócio nela continuar, por efeito de alguma justa causa assim considerada judicialmente (CC, art.
1.059, par. ún.);ou por efeito de descumprimento dos deveres de lealdade, boa-fé e colaboração pelos demais sócios; ou em razão de qualquer outra hipótese de dissolução total não-impositiva, desejando os demais sócios prosseguir na exploração da atividade social. (ADAMEK, VALLADÃO, 2021, p. 157)
Marcelo Guedes Nunes também alerta para esta situação:
Os efeitos do pagamento do reembolso na continuidade da empresa é o que denomino aqui controvérsia sobre o desinvestimento. A preocupação é a de que a sociedade não poderia ficar sujeita à vontade potestativa de um sócio de se retirar e, com isso, forçar o desinvestimento de uma parcela do capital social. (NUNES, 2015. p.244)
Com relação à “dissolução parcial” pelo falecimento, disposta no artigo 1.028 do Código Civil80, o desinvestimento compulsório referente às quotas do sócio falecido parece ser indiscutível, pois o evento não é voluntário, mas é possível sustentar a posição de que a sociedade também não pode ser considerada culpada pelo evento.
De qualquer maneira, a escolha pelo legislador de permitir a venda forçada da participação societária do sócio retirante a qualquer tempo, obrigando a sociedade a
“adquirir” sua participação societária, apesar de causar certo desconforto se analisada do ponto de vista debatido, é a mais acertada.
Isso porque o que faz atividade empresarial ser hesitosa, gerando os frutos que dela se espera, gerando riqueza, pagando impostos, contratando funcionários e impactando positivamente para a economia do país é justamente a sinergia dos seus sócios, que estão imbuídos do mesmo objetivo.
80 Art. 1.028. No caso de morte de sócio, liquidar-se-á sua quota, salvo: I - se o contrato dispuser diferentemente; II - se os sócios remanescentes optarem pela dissolução da sociedade; III - se, por acordo com os herdeiros, regular-se a substituição do sócio falecido
Havendo qualquer espécie de conflito, ainda que de cunho pessoal e não financeiro, presume-se que a sociedade não atingirá, pelo menos adequadamente, seu fim social.
Manter forçosamente um sócio que não deseja mais compor aquela sociedade, contra sua vontade, terá efeito ainda mais devastador na sua atividade empresarial, pois o sócio insatisfeito não promoverá a manutenção e a evolução daquela empresa como ente gerador de riqueza, que seria a obrigação de todos os sócios.
Esta manutenção forçada, se ocorrer, pode promover ainda mais conflitos por comportamentos inapropriados, inadequados e até ilegais, posto que o sócio descontente poderá concorrer deslealmente com a empresa, causar prejuízos internos, promover a desunião de colaboradores, dentre outras.
Assim forçoso reconhecer que o legislador não teve outra saída, senão autorizar a retirada do sócio com a “dissolução parcial” da sociedade, sem necessidade de motivação, promovendo verdadeira venda forçada de sua participação societária em desfavor da sociedade.
Esta conclusão, no entanto, servirá de princípio básico para entender melhor a forma como a empresa deve ser avaliada na “dissolução parcial”, evitando seu desvirtuamento, bem como que seja onerada para além do desinvestimento compulsório da exata participação social destacada, obedecendo-se rigorosamente a previsão legal e a escolha do legislador pela “avaliação patrimonial”, conforme se verá mais adiante.