3.5.1 Da Suspenção do Poder Familiar
Os deveres esparsos na legislação brasileira impostos aos pais no exercício de seu munus público do poder familiar devem ser atendidos, pois é interesse do Estado não só a proteção da família como a do menos.
Em razão disso, aqueles pais que se comportam de forma diversa da prevista legalmente com relação aos filhos ou a seu patrimônio, podem ter o poder familiar suspenso por determinação judicial. Esta é a previsão do art. 1.637 do Código Civil:
Art. 1.637. Se o pai, ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres a eles inerentes ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo algum parente, ou o Ministério Público, adotar a medida que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus haveres, até suspendendo o poder familiar, quando convenha. Assim, em proteção ao menor, qualquer interessado, seja algum parente ou o Ministério Público, poderá requerer a suspensão do poder familiar dos pais que abusam de sua autoridade para com o menor ou dilapidam seu patrimônio. Tal suspensão poderá se concentrar em um só dos pais, ficando outro com a guarda do filho, ou poderão os dois pais serem destituídos da guarda, sendo nomeado judicialmente curador para o menor.
As causas da suspenção não foram elencadas na lei. Assim, ficará a arbítrio do juiz no caso concreto determinar qual situação ensejará ou não a suspensão do poder familiar, devendo tê-la sempre como medida excepcional, visto que é direito do menor, segundo o art. 19, ser criador e educado no seio da sua família.
Além disso, o prazo da suspensão também ficará a critério do juiz. Será levado em consideração no caso o tempo que durar a causa que ensejou a suspensão. Assim, esta só será suspensa quando quem foi destituído (um só dos pais ou ambos) comprovar que tem condições de cuidar do menor.
A suspensão poderá ainda se dar total ou parcialmente, com relação à pessoa do filho e a seus bens materiais. Será parcial a suspensão que se der sobre a destituição de poder de gerir o patrimônio do menor ou sobre o direito de ter o filho em sua companhia.
Se a suspensão se der no âmbito patrimonial, fica o destituído privado de administrar e de usufruir dos bens dos filhos. Se a suspensão se der em relação à perda da companhia do filho, este ficará sobre os cuidados do genitor que não teve o poder de família destituído. Caso ambos os pais tenham sido destituídos, se nomeará tutor ao menor.
Além das causas elencadas no caput do art. 1.637, o parágrafo único ainda elenca outra hipótese de suspensão do poder familiar:
Art. 1.637 [...]
Parágrafo único. Suspende-se igualmente o exercício do poder familiar ao pai ou à mãe condenados por sentença irrecorrível, em virtude de crime cuja pena exceda a dois anos de prisão.
O pai ou a mãe que tenha sido condenado em crime cuja pena seja maior que dois anos de prisão terá também destituído do poder familiar. Como o caráter da suspensão é temporário, entende-se que tal destituição só perdurará enquanto o genitor estiver cumprindo a pena. No mais, caberá ao juiz analisar nas peculiaridades do caso concreto o momento em que cessará tal suspensão.
3.5.2 Da Extinção do Poder de Família
A suspensão é tida com medida temporária de perda do poder familiar para com aquele genitor que não cumpre com seus deveres. A extinção constitui uma medida definitiva de retirada ou perda do poder familiar dos genitores, nas hipóteses elencadas no Código Civil.
O art. 1.635 do Código Civil elenca as causas de extinção do poder familiar: Art. 1.635. Extingue-se o poder familiar:
I - pela morte dos pais ou do filho;
II - pela emancipação, nos termos do art. 5o, parágrafo único; III - pela maioridade;
IV - pela adoção;
V - por decisão judicial, na forma do artigo 1.638.
Inicialmente vale atentar que o objeto do poder familiar é a guarda, e os deveres de cuidado para com a pessoa do filho menor de idade e para com o seu patrimônio. Extinguindo-se assim, a vida do filho ou, atingindo este a maioridade, extingue-se também o objeto do poder família.
Assim, na interpretação do artigo em epígrafe, em seus incisos I, segunda parte, II e III, que tratam da morte do filho, da emancipação e da maioridade, tem-se a extinção do poder familiar pela simples perda do seu objeto. Nas palavras de Gonçalves (2012, p. 426) a morte do filho, a emancipação e a maioridade fazem desaparecer a razão de ser do instituto, que é a proteção da menor.
A morte dos pais faz cessar o poder familiar, levando à nomeação de tutor para o menor. No entanto, se morre apenas um dos genitores, o outro assumirá sozinho o pátrio poder.
Segundo o inciso IV, a adoção também faz extinguir o pátrio poder, visto constituir medida irrevogável e acarreta à criança adotada a perda de todos os vínculos com a família de origem5. Assim, esta não terá sobre a criança mais nenhum tipo de dever, seja ele pessoal ou patrimonial, que serão transferidos à família adotante.
O inciso V elenca como forma de extinção do poder familiar a decisão judicial fundada nos casos do art. 1.638. São eles as hipóteses de perda do poder familiar do pai ou da mãe que: castiga filho imoderadamente, deixa o filho em abandono, pratica atos contrários à moral e aos bons costumes ou incide, reiteradamente, nas faltas previstas no art. 1.637.
Castigar o filho imoderadamente significa perda do poder familiar em proteção à criança do pai que ultrapassa os limites dos castigos físicos, tornando-os severos e violentos. Tais atitudes vão na contramão do Princípio da Dignidade da pessoa Humana que norteia o ordenamento jurídico brasileiro e é base da Constituição brasileira de 1988, que prevê em seu art. 227 ser dever não só da família, mas também do Estado e da sociedade colocar a criança e o adolescente à salvo da violência do crueldade e da opressão.
Deixar o filho em abandono é conceito amplo, que pode ser levado sob o ponto de vista material, intelectual e moral. Todos esses casos constituem crimes, configurando assim tipos punidos pelo Código Penal. Além disso, o abandono de menor o priva da convivência familiar prevista na Constituição Federal, constituindo, assim como o caso anterior, violação ao art. 227 da Magna Carta.
A ação ou comportamento dos pais considerados como má influência para os filhos configuram as chamadas, práticas de atos contrários à moral e aos bons costumes. Os pais devem servir de exemplo para os filhos, assim devem comportar- se de modo digno e idôneo para que isso reflita na personalidade futura de sua prole.
Por fim, reiteradas faltas que ensejam a suspensão do poder familiar levarão à sua extinção. A suspensão é medida temporária de perda do poder familiar e 5Art. 39. [...]
§ 1º A adoção é medida excepcional e irrevogável, à qual se deve recorrer apenas quando esgotados os recursos de manutenção da criança ou adolescente na família natural ou extensa, na forma do parágrafo único do art. 25 desta Lei. (grifo nosso)
Art. 41. A adoção atribui a condição de filho ao adotado, com os mesmos direitos e deveres, inclusive sucessórios, desligando-o de qualquer vínculo com pais e parentes, salvo os impedimentos matrimoniais. (Estatuto da Criança e do Adolescente)
cessa com a prova pelo genitor de sua capacidade de exercê-lo. Aquele que retoma o poder familiar e, no entanto, reiteradas vezes reincide no erro, demonstra que não tem condições de exercer o munus público do poder familiar.
No entanto, assim como nos casos de suspensão, deverá haver cautela e análise do magistrado caso a caso, visto se tratar de situação excepcional, onde sempre se leva em conta o superior interesse do filho.
4 GUARDA COMPARTILHADA: INSTRUMENTO ESSENCIAL AO EXERCÍCIO