CAPÍTULO II – TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL E GESTÃO
2.1 Da Teoria Histórico-Cultural à Teoria da Atividade
A Teoria Histórico-cultural e a Teoria da Atividade (originada com base na primeira) foram formuladas respectivamente por L. S. Vygotsky e por A. N. Leontiev, psicólogos russos, no contexto da segunda década do século XX, ou seja, da Rússia pós-revolucionária. Juntamente com Vygotsky, S. L. Rubistein e A. R. Luria realizaram estudos visando explicar o desenvolvimento da mente humana com base no materialismo dialético. Porém, a utilização da categoria teórica da atividade foi feita inicialmente por Vygotsky, como escreveu Leontiev: “a idéia da análise da atividade como método na psicologia científica do homem foi formulada nos primeiros trabalhos de L. S. Vygotsky” (1983, p. 82).
Conforme Libâneo (2004), o conceito de atividade presente na teoria histórico-cultural está relacionado com a tradição da filosofia marxista. A atividade, cuja expressão maior é o trabalho, é a principal forma de mediação nas relações que os sujeitos estabelecem com o mundo objetivo. A mediação cultural no processo do conhecimento faz com que o indivíduo se aproprie ativamente da experiência sócio-cultural. Assim, a atividade de ensino propicia a apropriação da cultura e o desenvolvimento do pensamento humano, assegurando transformações qualitativas no desenvolvimento do pensamento teórico, que se constitui junto aos respectivos hábitos e capacidades.
os homens, ao desenvolverem sua produção material e seu intercâmbio material, transformam também, com esta sua realidade, seu pensar e os produtos de seu pensar. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência (MARX & ENGELS, 1991, p. 37).
Vygotsky, ao estudar o desenvolvimento da mente humana, preocupou-se em trabalhar e restaurar o conceito da consciência. Para ele, “a construção da consciência acontece de fora para dentro por meio da relação com os outros” (KOZULIN, 2002. p. 113). Segundo Vygotsky (1896-1934), a atividade socialmente significativa pode servir como princípio explanatório em relação à consciência humana e ser um gerador de consciência humana, ou seja, a atividade é geradora da consciência humana.
A concepção de ser humano presente na teoria de Vygotsky é a concepção materialista dialética: o ser humano é um ser ativo, prático, social e histórico, que se constitui objetiva e subjetivamente na atividade prática (práxis). Percebe-se então que o conceito de atividade humana é fundamental na teoria de Vygotsky sendo esse conceito essencial no processo de mediação, outro princípio explicativo importante em sua teoria. A atividade humana compreende dois tipos básicos: 1) externa, prática, material, social; 2) interna, subjetiva, psicológica (mental), individual. A atividade mental se constitui como reprodução mediada da atividade externa. Portanto, a atividade mental é uma subjetivação da atividade externa. Assim, explicou Vygotsky:
qualquer função psicológica superior foi externa – significa que ela foi social; antes de se tornar função, ela foi uma relação social entre duas pessoas. Meios de influência sobre si – inicialmente meio de influência sobre os outros e dos outros sobre a personalidade (VYGOTSKY, 2000, p. 24-25).
Ao nascer, o ser humano é dotado de funções psicológicas inferiores (naturais); sendo ele ativo, por meio da atividade, em relações sociais com os outros e com a mediação cultural, vão aparecendo as funções psicológicas superiores (culturais). Portanto, o desenvolvimento psicológico humano ocorre a partir da influência da sociedade sob a mediação da cultura. Na interação com os outros, em contextos demarcados social e historicamente, ocorre o processo de interiorização das ferramentas culturais. Pela interiorização (internalização), a atividade coletiva é convertida em atividade individual. Portanto, o ser humano se constitui psicologicamente na atividade e a partir das influências dos outros.
O mecanismo do comportamento social e o mecanismo da consciência são os mesmos [...] estamos cientes de nós mesmos por estarmos cientes dos outros, e da mesma maneira como conhecemos os outros; e assim é porque nós, em relação a nós mesmos, estamos na mesma posição em que os outros estão em relação a nós (VYGOTSKY, 1979, p. 29-30).
Nesse sentido, Vygotsky explica a relação mediada entre os seres humanos e a sociedade: o sujeito ativo, que pode ser um indivíduo, um grupo ou subgrupo de indivíduos; o objeto, para o qual se dirige a atividade do sujeito, que é também o material sobre o qual, e com o qual o sujeito realiza suas ações; os artefatos mediadores ou ferramentas/objetos (materiais); o contexto da atividade, no qual o sujeito se encontra em interações contínuas com outras pessoas. Essa relação mediada comporta a seguinte representação esquemática comum:
Figura 4 - Relação mediada do sujeito humano com o objeto
Fonte: (DANIELS, 2003, p.114).
Engeström (2002) refere-se a essa explicação da relação mediada entre sujeito e objeto como uma formulação teórica desenvolvida pela primeira geração da teoria da atividade, representada por Vygotsky. Segundo Engestrom, ainda que seja uma explicação centrada na idéia de mediação, a limitação consiste em analisar o indivíduo sem considerar todo o contexto no qual está inserido.
Na segunda geração da teoria da atividade, representada por Leontiev, surge uma explicação mais aprofundada que visa superar aquilo que foi considerado como uma restrição da teoria de Vygotsky, ou seja, da primeira geração. Leontiev, em seus trabalhos acerca dos problemas do desenvolvimento do psiquismo humano, afirmou:
Este enfoque encontrou sua expressão na concepção da atividade psíquica como uma forma peculiar de atividade, como um produto e um derivado da vida material, da vida externa, que se transforma [...] na atividade da consciência; aqui se vai a explicação como tarefa central de investigar a própria estrutura da atividade e sua interiorização (LEONTIEV, 1983, p. 105).
Leontiev focou especial atenção na estrutura da atividade, a fim de identificar e explicar seus elementos, afirmando as seguintes teses:
1 – a atividade humana é de dois tipos, externa e interna, mas a estrutura de ambas é comum; ARTEFATOS MEDIADORES (FERRAMENTAS)
2 – o desenvolvimento da consciência vincula-se estreitamente com a produção social de um sistema de significados verbais e, também, com a produção concomitante de sentidos pessoais;
3 – a consciência humana se desenvolve por um processo mediado pela comunicação dos indivíduos com outras pessoas.
Os elementos que compõem a estrutura da atividade humana são: necessidade, motivo, objetivo, ações, operações, condições. Assim, a atividade surge sempre de uma necessidade; a necessidade estimula o motivo; o motivo dirige-se a um objeto, visando resolver ou satisfazer a necessidade. O objeto da atividade ou motivo da necessidade é atingido por meio das ações. Por sua vez, as ações se dão em determinadas condições concretas e por meio de várias operações. Em síntese, “a atividade correspondente a um motivo, ação correspondente a um objetivo, e operação dependente de condições” (KOZULIN 2002, p.131. O próprio Leontiev define a atividade humana como um conjunto de processos.
aqueles processos que, realizando as relações do homem com o mundo, satisfazem uma necessidade especial correspondente a ele. [...] Por atividade, designamos os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo como um todo se dirige (i, e. objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar essa atividade, isto é motivo (LEONTIEV, 1992, p. 68).
A sociedade é composta por inúmeros sistemas de atividades, sendo que o sujeito participa das atividades sociais. Seu desenvolvimento psicológico apresenta uma dependência em relação ao lugar que ele ocupa concretamente no sistema de relações. Pela participação nas relações sociais, o sujeito realiza uma determinada atividade dirigida à apropriação de capacidades sociais objetivadas em forma de instrumentos, necessárias para a realização dessa atividade. Essas capacidades sociais a serem apropriadas estão condensadas na cultura, nos objetos culturais, materiais e mentais, social e historicamente produzidos para atender às necessidades humanas no desenvolver histórico da humanidade. Segundo Leontiev, um ser humano, no processo de sua vida em sociedade, realiza diferentes tipos concretos de atividade. O que distingue uma atividade de outra é seu objeto. Ou seja, cada atividade tem um objeto específico a ela. Só esse objeto é capaz de atender à necessidade ligada a determinada atividade. Como escreveu Leontiev:
A principal coisa que distingue uma atividade da outra, porém, é a diferença de seus objetos. É exatamente o objeto de uma atividade que lhe dá uma direção determinada. De acordo com a terminologia que propus, o objeto de uma atividade é seu verdadeiro motivo (LEONTIEV, 2004, p. 62).
Conforme Leontiev (1992), é na atividade que ocorre a transformação de um objeto em sua forma objetiva para sua forma subjetiva, na qual a atividade humana surge em um
contexto social, jamais fora dele, dependendo do lugar que esse indivíduo ocupa na sociedade e das condições em que ele vive.
Figura5 - Representação esquemática da estrutura da atividade humana
Fonte: Pontelo e Moreira, 2007. Disponível em www.senept.cefetmg.br.