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Dado, Informa¸ c˜ ao, Conhecimento e Mensagem

No documento Um modelo de Arquitetura da Informa¸c˜ (páginas 79-83)

5 Ciˆ encia da Informa¸c˜ ao e Investiga¸c˜ ao Cient´ıfica

5.1 Ciˆ encia da Informa¸ c˜ ao

5.1.3 Dado, Informa¸ c˜ ao, Conhecimento e Mensagem

O estudo “Mapa do Conhecimento de Ciˆencias da Informa¸c˜ao” coordenado por Zins (2007a) partiu de defini¸c˜oes ad hoc para dado, informa¸c˜ao, conhecimento e mensagem que s˜ao os conceitos fundamentais para as diferentes concep¸c˜oes de CI. Um dos question´arios enviados ao painel definia:

Dado: conjunto de s´ımbolos que representam percep¸c˜oes emp´ıricas (ex.: a imagem de uma cadeira, a voz de uma crian¸ca);

Informa¸c˜ao: conjunto de s´ımbolos que representam conhecimento emp´ırico (ex.: “o painel ´e composto por 55 membros”);

Conhecimento: conjunto de s´ımbolos que representam pensamentos que o indi- v´ıduo justificadamente crˆe que ´e verdade (ex.: 2 + 2 = 4);

Mensagem: conjunto de s´ımbolos que representam algum conte´udo significativo (ex.: “eu tenho dez dedos). Esta defini¸c˜ao ´e em sentido amplo.

As defini¸c˜oes acima foram usadas como ponto de partida. A rela¸c˜ao l´ogica entre esses conceitos pode ser vista na figura 5.1. Os participantes do painel podiam discordar dessas defini¸c˜oes iniciais, desde que apresentassem outra defini¸c˜ao e sua abrangˆencia.

A compreens˜ao do termo “dado” est´a intimamente ligada ao contexto espec´ıfico de uma disciplina. Na disciplina de Banco de Dados, dado ´e o elemento sem significado, sem semˆantica e sem contexto. Quando o dado ´e atribu´ıdo como valor a cada uma das vari´aveis (colunas) de um Banco de Dados, compondo um registro (linhas) de uma tabela, torna- se uma “informa¸c˜ao”. Para um estat´ıstico, dado ´e uma cole¸c˜ao de fatos sobre os quais

Figura 5.1: Rela¸c˜ao l´ogica entre os conceitos de dado, informa¸c˜ao, conhecimento e mensagem

Fonte: Zins (2007a, 349)

tirar´a conclus˜oes. Na Ciˆencia da Computa¸c˜ao ´e tudo aquilo que pode ser manipulado pelo computador.

A abordagem fenomenol´ogica de Husserl define dado como a condi¸c˜ao em que as coisas se d˜ao, ou seja, em que se revelam na sua essˆencia. Trata-se de alguma realidade ou qualidade da realidade que ´e dada a um sujeito cognoscente sem media¸c˜ao de nenhum conceito. Se ‘´X” ´e dado, entende-se que ´e dado imediatamente a uma consciˆencia. Se ´e dado a uma consciˆencia, considera-se que tem que “aparecer” e isto se equipara a um “fenˆomeno”. O conjunto de fenˆomenos dados recebe o nome de “o dado” (MORA, 2001).

Informa¸c˜ao ´e um conceito usado habitualmente na sociedade com o significado gen´erico de conhecimento comunicado. ´E um conceito que se popularizou especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial com o uso das redes de computadores. O surgimento da Ciˆencia da Informa¸c˜ao em meados dos anos cinquenta ´e prova disso (CAPURRO; HJORLAND, 2003).

Pensar em Arquitetura da Informa¸c˜ao, considerada como uma disciplina da Ciˆencia da Informa¸c˜ao, requer antes de tudo compreender o que ´e informa¸c˜ao. Quando se fala em informa¸c˜ao, a primeira impress˜ao ´e que seu significado ´e imediatamente compreendido pelo interlocutor, como se realmente houvesse consenso no seu entendimento. No entanto, percebe-se a dificuldade de determinar um significado que possa ser igualmente aplicado pelas diferentes disciplinas (FLORIDI, 2004).

A Teoria Matem´atica da Comunica¸c˜ao advoga que algumas das caracter´ısticas da informa¸c˜ao s˜ao intuitivamente quantitativas. Informa¸c˜ao pode ser codificada, guardada e transmitida. O objetivo principal da Teoria Matem´atica da Comunica¸c˜ao ´e encontrar meios eficientes para codificar e transmitir dados. Trata a informa¸c˜ao como um fenˆomeno

f´ısico. Para a TMC informa¸c˜ao ´e apenas uma sele¸c˜ao de um s´ımbolo entre um conjunto de s´ımbolos poss´ıveis. O conceito de informa¸c˜ao ´e utilizado de maneira inteiramente t´ecnica. N˜ao lida com a informa¸c˜ao propriamente dita, mas com a medida de sua liberdade de escolha quando seleciona uma mensagem. N˜ao trata da semˆantica, do significado da informa¸c˜ao. Preocupa-se antes com a forma e a transmiss˜ao dos sinais. Possui grande aplica¸c˜ao nas Tecnologias de Informa¸c˜ao e Comunica¸c˜ao pois computadores s˜ao m´aquinas sint´aticas (FLORIDI, 2004).

Para Sloman n˜ao ´e poss´ıvel dar um conceito expl´ıcito de informa¸c˜ao, considerando suas no¸c˜oes b´asicas. Pode-se, entretanto, inferir um conceito impl´ıcito, pelo menos par- cialmente, a partir da especifica¸c˜ao de alguns fatos (contexto) sobre a informa¸c˜ao. Slo- man defende ainda um conceito mais abrangente de informa¸c˜ao, evitando-se uma vis˜ao puramente f´ısica do processo de extra¸c˜ao, transforma¸c˜ao e guarda da informa¸c˜ao. Se en- tendermos que informa¸c˜ao ´e “manipular bits”, o conceito fica extremamente limitado ao mundo dos computadores (SLOMAN, 2004).

A palavra informa¸c˜ao no uso cotidiano remete a alguma coisa nova, de modo particular um fato, um acontecimento de que se tem not´ıcia ou de que se necessita tomar conheci- mento. H´a quem defenda que informa¸c˜ao seja algo subjetivo e h´a quem argumente que ´e algo objetivo, est´avel e independente das experiˆencias individuais. A soma de dois e dois ´e quatro, ainda que o interlocutor desconhe¸ca as opera¸c˜oes aritm´eticas b´asicas (BATES; ENGLE, 2005).

Bates, professora em´erita em Estudos da Informa¸c˜ao da Universidade da Calif´ornia, apresenta um conceito revolucion´ario de informa¸c˜ao qual seja “o padr˜ao de organiza¸c˜ao de mat´eria e energia”. Esta defini¸c˜ao contempla tanto a organiza¸c˜ao de objetos f´ısicos, como uma rocha ou as ondas de som que trafegam pelo espa¸co, por exemplo, como tamb´em dos seres vivos. Isto engloba aspectos subjetivos e objetivos do conceito de informa¸c˜ao. H´a coisas que existem fora e al´em da mente humana e, portanto, tˆem uma existˆencia objetiva e possui algum tipo de organiza¸c˜ao, independente do sujeito. Por outro lado, cada indiv´ıduo tem uma experiˆencia com os diversos padr˜oes de organiza¸c˜ao de forma diferenciada, construindo seu pr´oprio senso (subjetivo) do que seja o mundo `a sua volta (BATES, 1999; BATES; ENGLE, 2005).

O estudo de (ZINS, 2007b) sobre CI, conclui que os fenˆomenos dados (D), informa¸c˜ao (I) e conhecimento (K) tˆem dois modos distintos de existˆencia: um subjetivo e outro objetivo. O conhecimento subjetivo ´e equivalente ao conhecimento do assunto e existe internamente ao indiv´ıduo. O conhecimento objetivo equivale ao conhecimento como ob-

jeto, como coisa e ´e externo ao indiv´ıduo. A fim de tornar o entendimento mais claro, prefere os termos “conhecimento universal” e “conhecimento coletivo” para se referir ao co- nhecimento objetivo. H´a ainda uma distin¸c˜ao entre conhecimento p´ublico. Conhecimento privado pertence ao ´ıntimo do indiv´ıduo (pensamentos, sentimentos, sonhos) e conheci- mento p´ublico refere-se aos pensamentos que o indiv´ıduo considera como conhecimento e est˜ao entre os conte´udos conhecidos por outras pessoas.

A diferen¸ca estabelecida entre o subjetivo e o dom´ınio universal, permite definir os trˆes conceitos chave – dado, informa¸c˜ao e conhecimento em dois conjuntos distintos. O primeiro conjunto refere-se ao dom´ınio subjetivo e segundo ao dom´ınio universal. No dom´ınio subjetivo:

Dado – est´ımulos sensoriais percebidos pelos sentidos ou seu significado;

Informa¸c˜ao – conhecimento emp´ırico. Informa¸c˜ao ´e um tipo de conhecimento e n˜ao um est´agio intermedi´ario entre dados e conhecimento;

Conhecimento – um pensamento na mente do indiv´ıduo, caracterizado pela cren¸ca justificada que ´e uma verdade. Pode ser emp´ırico ou n˜ao.

No dom´ınio universal, dados, informa¸c˜ao e conhecimento s˜ao artefatos humanos, repre- sentados por sinais emp´ıricos. Podem assumir diferentes formas tais como sinais gravados, pinturas, palavras impressas, sinais digitais, feixes de luz, ondas sonoras, etc.:

Dado – conjunto de sinais que representam est´ımulos emp´ıricos ou percep¸c˜oes; Informa¸c˜ao – conjunto de sinais que representam conhecimento emp´ırico;

Conhecimento – conjunto de sinais que representam o significado (ou o conte´udo) dos pensamentos que o indiv´ıduo justificadamente acredita que sejam verdadeiros. Zins (2007b) verifica que parte da comunidade cient´ıfica tem uma abordagem meta- f´ısica do problema, refletindo postulados metaf´ısicos tais como “o conhecimento ´e eterno” e “conhecimento ´e uma entidade/objeto independente”. Os membros do painel, por una- nimidade, aplicam uma abordagem n˜ao metaf´ısica ao conceituar os termos, entretanto, a abordagem metaf´ısica emerge principalmente nas revis˜oes te´oricas.

A abordagem n˜ao metaf´ısica pode ser dividida naquelas que tratam do fenˆomeno D-I- K exclusivamente centrado nos seres humanos, e nas que incluem o mundo biol´ogico, n˜ao humano (animais, plantas.), e f´ısico (planetas, robˆos, etc.). Esses ´ultimos usam express˜oes

tais como “organismo” ou “agente inteligente” no lugar de “ser humano”. Aparentemente a maioria dos membros do painel usa a perspectiva humano-exclusiva.

Observando pelo aspecto do fenˆomeno tendo o ser humano como centro, surgem trˆes classifica¸c˜oes relevantes. A primeira ´e entre abordagem cognitiva exclusiva versus n˜ao exclusiva. A segunda ´e entre uma abordagem “proposicional” e “n˜ao proposicional”. A terceira classifica¸c˜ao ´e do dom´ınio subjetivo versus objetivo (ou universal). A abordagem exclusiva versus n˜ao exclusiva por sua vez divide-se nas que referem D-I-K exclusivamente como um fenˆomeno cognitivo e as que abarcam aspectos biol´ogicos ou f´ısicos, mutatis mutandis.

Quase todas as defini¸c˜oes apresentadas no painel refletem, expl´ıcita ou implicitamente, uma concep¸c˜ao proposicional. Embora esse termo seja usado apenas por Zins (2007b), percebe-se que no entendimento dos painelistas h´a uma distin¸c˜ao entre v´arios tipos de co- nhecimento: conhecimento pr´atico, conhecimento adquirido e conhecimento proposicional. Este ´ultimo ´e o conhecimento cuja concep¸c˜ao se refere a D-I-K na forma de proposi¸c˜oes. Foram compiladas centro e trinta defini¸c˜oes fornecidas por quarenta e cinco acadˆe- micos que participaram do painel. A maior parte das defini¸c˜oes est´a baseada em s´olidos fundamentos filos´oficos e te´oricos; entretanto, h´a uma diversidade muito grande, levando `a conclus˜ao que a comunidade acadˆemica fala diferentes l´ınguas. A abordagem mais co- mum, no contexto da CI e segundo a compila¸c˜ao feita por Zins (2007b), ´e caracterizada pela abordagem n˜ao metaf´ısica, humano-centrada, cognitiva e proposicional.

No documento Um modelo de Arquitetura da Informa¸c˜ (páginas 79-83)