Além do relato dos fatos políticos ocorridos durante os mandatos de Collor e Lula, recorreu-se a dados econômicos e sociais para fundamentar as conclusões a respeito do contexto brasileiro experimentado nesses dois períodos. Inicialmente, observaram-se os valores do PIB per capita; tal medida divide o valor total do Produto Interno Bruto (PIB) pelo número de habitantes da nação. Esse indicador é usado como um “termômetro” do ritmo do crescimento da economia.
economia, avaliação do governo Lula e certo componente partidário foram mais importantes e serviram de escudos para proteger Lula das acusações de corrupção no cenário da reeleição. Destacou ainda que a identificação partidária e a preferência ideológica podem ter atenuado o impacto da corrupção por se tratar da escolha entre candidatos de partidos políticos distantes no espectro ideológico.
29De acordo com Soares e Terron (2008), os programas sociais de transferência direta de renda,
em especial o Bolsa Família, foram associados ao grande crescimento da votação em Lula nos municípios mais pobres do Norte e Nordeste. A pesquisa dos autores confirmou que a participação do Bolsa Família sobre a renda local foi um determinante do novo contorno das bases geoeleitorais, e o fator de maior peso na explicação da votação municipal. Nas eleições de 2002, Lula alcançou bons resultados nas regiões centro-sul do país, porém, nas eleições de 2006, o percentual de votos válidos nessas regiões diminuiu. Em contrapartida, aumentou nas regiões Norte e Nordeste, onde o Programa Bolsa Família distribuiu mais recursos. Os resultados revelaram um novo padrão de distribuição espacial dos votos, o Bolsa Família causou uma mudança na base eleitoral, Lula derrotou o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, no segundo turno, com praticamente o mesmo percentual de votos que o elegeu em 2002 (respectivamente 60,8% e 61,3%).
Gráfico 01 - Taxa (%) de variação anual PIB per capita - Brasil (1989- 1992)
Fonte: IBGE. Departamento de contas nacionais.
Gráfico 02 - Taxa (%) de variação anual PIB per capita - Brasil (2003 - 2006)
Fonte: IBGE. Departamento de contas nacionais.
Com base nesses resultados, pode-se afirmar que, no início da década de 1990, o Brasil passou por uma crise econômica, pois de 1989 a 1992 os valores do PIB per capita decresceram, o que denunciou uma retraída no desenvolvimento econômico do país. Em contrapartida, de 2003-2006 o Brasil experimentou aumento no que diz respeito aos
valores dessa taxa, o que provocou uma aceleração no ritmo da economia.
Outro indicador utilizado para diagnosticar o nível de desenvolvimento econômico de uma nação é o índice de Gini, o qual mede a distribuição de renda vivenciada em um país. Essa medida foi desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini, em 1912. Tal coeficiente é calculado através da curva de Lorenz, trata-se de uma representação gráfica construída a partir da ordenação da população pela renda. O coeficiente de Gini varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo do zero, menor é a desigualdade de renda; e quanto mais próximo de um, maior a concentração de renda em um país.
O gráfico a seguir apresenta os valores do coeficiente de Gini obtidos pelo Brasil no período de 1989-1992, no qual se observou uma constante queda nessa medida, passando de 0,634, em 1989, para 0,580, em 1992. Isso demonstrou uma melhoria no padrão de distribuição de renda da sociedade brasileira, apesar do índice continuar com valor elevado.
Gráfico 03 - Evolução da desigualdade na renda familiar per capita segundo o coeficiente de Gini - Brasil (1989-1992)
Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).30
No período de 2003 a 2006 (gráfico a seguir), o coeficiente de Gini também apresentou quedas nos seus valores, demonstrando uma
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No ano de 1991, não houve Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) no Brasil. Portanto, o índice de Gini não pode ser calculado.
diminuição da desigualdade de renda entre os brasileiros. O grau de concentração de renda no país caiu, visto que os valores passaram de 0,581 para 0,559. Nesse segundo período, observou-se uma trajetória de suaves quedas, se comparado ao decréscimo ocorrido no período de 1989-1992, que foi mais significativo. Cabe enfatizar que, em 2006, o Brasil atingiu o nível mais baixo de desigualdade de renda em relação aos 30 anos anteriores. No entanto, mesmo com tais avanços, a distribuição de renda brasileira foi considerada a 10ª pior numa lista de 126 países, conforme apontou o relatório de 2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Os dados apresentados mostraram que a desigualdade de renda brasileira caiu de forma contínua nos dois períodos, impactando sobre a redução da pobreza e da extrema pobreza. Porém essa desconcentração alcançou seu maior nível no segundo período analisado.
Gráfico 04 - Evolução da desigualdade na renda familiar per capita segundo o coeficiente de Gini - Brasil (2003-2006)
Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Como terceiro indicador de desenvolvimento econômico, observou-se a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Constitui-se como uma maneira de mensurar os níveis de inflação ocorridos no Brasil. O mesmo é considerado o índice oficial de inflação do país, sendo utilizado pelo Governo Federal como referência para verificar as metas inflacionárias. Esse indicador reflete o custo de vida de famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos, residentes nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo
Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém, além do Distrito Federal e do município de Goiânia.
O gráfico a seguir apresenta as variações anuais sofridas pelo IPCA durante o período de 1989 a 2006. De imediato, constatou-se a crise inflacionária ocorrida nos primeiros anos, alcançando o pico em 1993, quando o acumulado do índice chegou a 2.477,15%. A partir de 1995, os níveis de inflação começam a cair, o que anunciou uma fase de estabilidade econômica no país. Em 2006, o acumulado do IPCA ficou em 3,14%.
Quando Collor assumiu a presidência, em 1990, altas taxas de inflação já imperavam no Brasil. Para barrar esse aumento, foi elaborado um novo programa anti-inflacionário, denominado Plano Collor, que foi composto de diversas medidas impactantes. Tal programa conseguiu que a inflação recuasse no curto prazo, mas depois as taxas voltaram a subir, atingindo seu auge em 1993, quando Collor já havia sofrido
impeachment.
Gráfico 05 - Variação anual do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - Brasil
Fonte: IBGE.
Até 1994, as altas taxas de inflação se configuraram como um grande problema brasileiro. Com a economia estagnada, os valores do PIB per capita sofreram duras quedas. Somente com a criação do Plano Real e a mudança da moeda para o real (R$), em 1994, a inflação começou a ser controlada. A partir de então, o contexto brasileiro passou a apresentar um maior crescimento econômico, amparado por um processo de estabilização econômica. Os indicadores econômicos
expostos nesse capítulo, referentes ao primeiro mandato de Lula, respaldam esses avanços.
3 ANÁLISE DOS DADOS
Nessa parte do trabalho, apresentamos a dimensão empírica da investigação. Inicialmente, em uma seção metodológica, explicitamos detalhes sobre as bases de dados utilizadas, bem como os procedimentos empregados na análise. Na sequência, apresentamos e examinamos a frequência de participação dos brasileiros em formas de protesto, nos dois períodos estudados, à luz de uma interpretação contextual. Nas seções que se seguem, com a realização de testes estatísticos de hipóteses, tratamos de aspectos individuais relacionados à participação política. Por fim, tecemos uma análise geral sobre os resultados encontrados, com o objetivo de destacar os determinantes individuais que se mostraram mais significativos para explicar o envolvimento em modalidades de protesto.