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1.2: Dados ergonômicos

CONCEITUAÇÃO DO PROJETO

III. 1.2: Dados ergonômicos

Para a criação de um banco e uma cadeira para uso público é fundamental o entendimento e a aplicação correta de noções ligadas à ergonomia e acessibilidade, importantes para que esses equipamentos sejam confortáveis e não ofereçam riscos à integridade física dos usuários. Contudo, projetar qualquer tipo de produto é necessário ter em mente qual abordagem ergonômica e antropométrica é a mais indicada para esse caso específico. Escolher uma abordagem ergonômica adequada para o projeto de mobiliários urbanos é uma tarefa difícil, dada a dificuldade de restringir o público-alvo: qualquer pessoa deve poder utilizá-los, de crianças a adultos, então é necessário abarcar uma gama enorme de dimensões.

No projeto de mobiliário urbano também é necessário que o uso do mobiliário seja fácil de entender, ou seja, que qualquer usuário seja capaz de saber como utilizá- lo à primeira vista. Esta é a ergonomia ligada à cognição. Tendo em vista que as tipologias a serem projetadas, bancos e cadeiras de praça, são muito comuns, isto não será um problema. A antropometria e o conforto do assento, por outro lado, deverão ser levadas em conta como importantes elementos a serem definidos.

Para além de reunir dados antropométricos da população e emprega-los diretamente, é necessário saber qual estratégia ergonômica utilizar para cada caso específico. Como aponta Iida (2005), “nem sempre os dados encontrados em tabelas podem ser diretamente aplicados. Além disso, há casos em que é mais conveniente usar a média (50%) e, em outros casos, o extremo superior (95%) ou inferior (5%) da distribuição das medidas”. Uma série de tabelas contendo dados antropométricos das diversas populações estão disponíveis para consulta, mas sua maioria foi realizada fora do Brasil, portanto com populações que possuem medidas diferentes das nossas. Por esse motivo é preciso ter cuidado para aplicar dados condizentes com os usuários daquele produto, mesmo no caso de um projeto de mobiliário urbano em que, naturalmente, os usuários mais frequentes serão as populações vizinhas.

Iida (2005) aponta que o princípio segundo o qual “os projetos são dimensionados para a média da população” é o mais adequado para o uso em mobiliário urbano. Segundo ele:

Esse princípio é aplicado principalmente em produtos de uso coletivo, que devem servir a diversos usuários, como o banco do ponto de ônibus. Isto não quer dizer que seja ótimo para todas as pessoas. Mas, coletivamente, causa menos inconveniências e dificuldades para a maioria. Assim, em produtos de uso coletivo, costuma-se adotar a média dessa população de usuários, principalmente quando não for possível defini-los com mais precisão.

O mesmo autor apresenta o que ele chama de “seis princípios gerais sobre os assentos”, dos quais quatro serão valiosos para o atual projeto no que diz respeito à abordagem dos dados ergonômicos e antropométricos, convertidos posteriormente em dimensões e angulações dos assentos.

1. As dimensões do assento devem ser adequadas às dimensões antropométricas do usuário: a altura poplítea (da sola dos pés à coxa), que corresponde à altura do assento, deve ser respeitada, do contrário a parte inferior das coxas sofre pressão, causando desconforto. A profundidade do assento deve permitir que a borda fique ao menos 2 cm afastada, evitando que a parte interna da perna seja comprimida. A norma NBR 13962 recomenda largura de 40 cm e profundidade útil entre 38 e 44 cm do assento. 2. O assento deve permitir variações de postura: para aliviar as pressões

sobre os discos vertebrais e as tensões dos músculos dorsais de sustentação, é preciso considerar a possibilidade de mudança de posturas. “Assim, os assentos, de formas ‘anatômicas’ em que as nádegas se ‘encaixam’ neles, permitindo poucos movimentos relativos, não são recomendados”.

3. O assento deve ter resistência, estabilidade e durabilidade: o assento deve ter resistência para suportar cargas e ser estável, para que não tombe facilmente. As pessoas se sentem inseguras em assentos instáveis, e isso as torna tensas. “Durabilidade é a característica do assento de não se danificar

com o uso contínuo. Recomenda-se que essa durabilidade seja de pelo menos 15 anos”.

5. O encosto e o apoia-braço devem ajudar no relaxamento: como as pessoas, quando sentadas, apresentam uma protuberâncias para trás na altura das nádegas, deve-se deixar um espaço vazio de 15 a 20 cm entre o assento e o encosto. “Um suporte situado entre as 2ª e 5ª vértebras lombares permite maior liberdade de movimento ao tronco. O encosto deve ter cerca de 35 a 50 cm de altura acima do assento”.

É importante frisar que essas medidas ergonômicas não são um consenso, de modo que autores e normas costumam se contradizer quanto às medidas a serem adotadas, como afirma Iida (2005):

Observa-se que as alturas mínimas do assento recomendadas pelos autores de ergonomia (Diffrient, Panero & Zelnick e Grandjean) são respectivamente de 35, 36 e 38 cm.

No caso brasileiro, a altura mínima da regulagem seria de 37 cm, correspondendo à altura poplítea de 5% das mulheres (ver Tabela 4.9). Entretanto as normas brasileiras (NBR 139628) recomendam a faixa de 42 a 50 cm, resultando em uma regulagem de apenas 8 cm, quando o ideal seria de 37 a 53 cm, ou seja, o dobro da faixa recomendada pela norma. Nesses casos, as pessoas de menor estatura devem providenciar apoio para os pés, para compensar a diferença, entre a regulagem mínima da cadeira e as suas próprias medidas poplíteas. Por exemplo, para a cadeira de 42 cm e altura poplítea de 37 cm, o apoio deve ter 5 cm de altura, ou melhor, deveria ter duas alturas diferentes, entre 5 a 10 cm, para facilitar mudanças de posturas.

Por esse motivo é importante consultar tabelas que contenham dados antropométricos detalhados ou as normas específicas relativas ao produto que está sendo projetado. A partir do esquema e da tabela a seguir, retirados do livro

Ergonomia – projeto e produção, é possível ter uma noção mais específica das

dimensões antropométricas do brasileiro. Não se pode ignorar, contudo, que ainda que essas medidas sejam muito específicas e pareçam limitar o projeto, existe sempre uma margem dimensional dentro da qual é possível trabalhar.

Na NBR 9050 (Norma Brasileira Regulamentadora), de 2004, referente à “acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos”, também há recomendações relativas às dimensões básicas dos bancos. Segundo ela, a altura do assento deve estar entre 38 e 43 cm, e a profundidade entre 42 e 51 cm. Essa norma também estipula uma distância entre o assento e o encosto, que deve estar entre 18 e 26 cm.

Fonte: NBR 9050

Além das diretrizes citadas anteriormente, também é importante olhar para os dados e estudos realizados por Henry Dreyfuss e publicados no livro “The measure of man and woman”, traduzido para o português como As Medidas do Homem e da Mulher: Fatores Humanos em Design. Lá é possível encontrar detalhadamente as medidas e angulações para diversos tipos de assentos, e ainda que os dados antropométricos não sejam relativos à população brasileira, é possível extrair dele ângulos e variações posturais a serem usados no projeto do produto.

Na figura a seguir, Dreyfuss reuniu diversos dados antropométricos para estimar as angulações e medidas ideais a serem empregadas em produtos cujo público-alvo são indivíduos de percentis extremos – “mulher do percentil 1” e “homem do percentil 99”. Ele relaciona essas medidas a diversos tipos de assentos, como cadeira de escritório, cadeira de descanso, poltrona e cadeiras reclináveis. A tipologia mais semelhante com a do atual projeto é a de cadeira de descanso. Neste caso ele estipula que a inclinação do encosto deve ser de 105° a 115°.

Variações do sentar | Fonte: As medidas do homem e da mulher