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4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.2. Dados sobre a documentação do Processo de Enfermagem no SAPE

Os utentes dependentes podem estar associados a vários programas de saúde no aplicativo SAPE, pelo que as frequências relativas ultrapassam o percentual de 100%. Na tabela 6 dá-se uma panorâmica de quais os programas de saúde em que os utentes dependentes se encontram inseridos.

52 Tabela 6.

Programas de Saúde associados aos dependentes

Programas de Saúde (N=161)

Frequências

N %

Tratamento de Feridas/ Úlceras 21 13,0

Saúde Idoso 107 66,5

Grupo de Risco: Diabetes 50 31,1

Grupo de Risco: Hipertensão 90 55,9

Hipocoagulados 9 5,6

Saúde do Adulto 8 5,0

No que concerne aos programas de saúde associados aos utentes dependentes, através da visualização da tabela 6 constatamos que a maior proporção está associada ao programa de saúde idoso (66,5%), seguindo-se os programas de Grupos de risco da Hipertensão (55,9%) e Diabetes (31,1%). Por sua vez o programa que tem menos utentes associados é o de Saúde do Adulto (5,0%).

O programa de Saúde Idoso (66,5%) é o programa com maior percentual de utentes associados, uma vez que a maioria dos utentes tem idade superior a 65 anos. Mais de metade dos utentes encontram-se associados ao programa Grupo de Risco: Hipertensão (55,9%). As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal (DGS, 2012). Um dos fatores de risco para este tipo de doenças é a hipertensão arterial e a sua prevalência tende a aumentar com a idade (Macedo et al., 2007). O programa Grupo de Risco: Diabetes surge associado a 31,1% dos dependentes em estudo. A Diabetes assume um papel significativo nas causas de morte, sendo a quarta causa em Portugal (DGS, 2012). Em 2011 mais de um quarto da população portuguesa no escalão etário dos 60-79 anos apresentava Diabetes (Observatório Nacional da Diabetes, 2013), verificando-se uma correlação direta entre o incremento da sua prevalência e o envelhecimento dos indivíduos (DGS, 2012). Tendo em conta que a média de idades da nossa população é de 79,53 anos e que a quase totalidade (91,9%) tem idade igual ou superior a 65 anos, facilmente se depreende que o programa de Saúde do Adulto apresente um valor relativamente baixo (5,0%), uma vez que a idade limite para se associar a este programa são os 64 anos.

Do aplicativo SAPE constam os seguintes AC: AC Higiene, Vestuário, Alimentar-se, Uso do Sanitário, Transferir-se, Posicionar-se e Deambular. Salientamos que neste programa a documentação é feita pela presença de fenómenos de enfermagem que possam ser alvo da

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atenção dos enfermeiros e cuja intervenção produza ganhos em saúde quer para o utente, quer para o PC. No entanto poderemos ter enunciados de diagnósticoapenas de caracterização dos utentes. Os utentes que não apresentam documentado o AC podem ser considerados independentes quanto a esse fenómeno ou em alguns casos inferirmos ausência de registos. Em seguida apresentamos a distribuição das frequências absolutas e relativas nos diferentes AC (tabela 7).

Tabela 7.

Focos de atenção dos sete AC

Variáveis Frequências Autocuidado Higiene (N=161) N % Sim 130 80,7 Não 31 19,3 Autocuidado Vestuário (N=161) Sim 123 76,4 Não 38 23,6 Autocuidado Alimentar-se (N=161) Sim 83 51,6 Não 78 48,4

Autocuidado Uso do Sanitário (N=161) Sim 96 59,6 Não 65 40,4 Autocuidado Transferir-se (N=161) Sim 62 38,5 Não 99 61,5 Autocuidado Posicionar-se (N=161) Sim 54 33,5 Não 107 66,5 Autocuidado Deambular (N=161) Sim 141 87,6 Não 20 12,4

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No que respeita aos focos de atenção no domínio dos AC, verificamos que o foco de atenção mais documentado nos utentes dependentes foi o AC Deambular (87,6%), seguido do AC Higiene (80,7%), sendo o AC Posicionar-se (33,5%) o menos documentado.

Em termos de documentação no SAPE, na elaboração do enunciado de diagnóstico de enfermagem, que aqui se reportam aos AC, é necessário atribuir um juízo, que neste caso é o grau de dependência de cada AC, que pode ser reduzido, moderado e elevado. Na tabela 8 apresentamos a distribuição das frequências relativas e absolutas do grau de dependência de cada um dos AC.

Tabela 8.

Grau de dependência dos utentes nos diferentes AC

Variáveis Frequências

Autocuidado Higiene (N=130) N %

Dependência em grau reduzido 39 30,0

Dependência em grau moderado 48 36,9

Dependência em grau elevado 43 33,1

Autocuidado Vestuário (N=123)

Dependência em grau reduzido 37 30,0

Dependência em grau moderado 43 35,0

Dependência em grau elevado 43 35,0

Autocuidado Alimentar-se (N=83)

Dependência em grau reduzido 41 49,4

Dependência em grau moderado 23 27,7

Dependência em grau elevado 19 22,9

Autocuidado Uso do Sanitário (N=96)

Dependência em grau reduzido 26 27,1

Dependência em grau moderado 27 28,1

Dependência em grau elevado 43 44,8

Autocuidado Transferir-se (N=62)

Dependência em grau reduzido 22 35,5

Dependência em grau moderado 15 24,2

Dependência em grau elevado 25 40,3

Autocuidado Posicionar-se (N=54)

Dependência em grau reduzido 20 37,0

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Dependência em grau elevado 23 42,6

Autocuidado Deambular (N=141)

Dependência em grau reduzido 53 37,6

Dependência em grau moderado 48 34,0

Dependência em grau elevado 40 28,4

Pela análise da tabela 8, constatamos que os dependentes com elevado grau de dependência se encontram maioritariamente no AC Uso do Sanitário (44,8%) e minoritariamente no AC Alimentar-se (22,9%). Encontramos mais utentes dependentes em grau moderado no AC Higiene (36,9%) e menos no AC Posicionar-se (20,4%). Relativamente aos dependentes em grau reduzido é no AC Alimentar-se (49,4%) que encontramos mais dependentes e por seu lado é no AC Uso do Sanitário (27,1%) que se verificam menos dependentes.

Baseados no total da pontuação obtida nos graus de dependência em cada um dos AC e nos pontos de corte, procedemos à classificação do grau de dependência global, cujas distribuições se apresentam na tabela seguinte (tabela 9).

Tabela 9.

Classificação dos Graus de dependência global

Variáveis Frequências

Graus de dependência (N= 161) N %

Grau Reduzido 31 19,2

Grau Moderado 32 19,9

Grau Elevado 98 60,9

A maioria dos utentes apresenta um grau de dependência global elevado (60,9%), sendo a menor proporção a dos dependentes em grau reduzido (19,2%), contudo o percentual de utentes com grau moderado é muito próximo (19,9%). A média de pontuação obtida é de 8,55 pontos, o mínimo 1 ponto, o máximo 21 pontos, sendo o desvio padrão de 6,264 pontos. Os valores encontrados no nosso estudo são corroborados por outros estudos. No âmbito do grau de dependência dos 214 idosos dependentes em estudo, Lage (2007) constatou que 45,6% das mulheres e 41% dos homens apresentavam dependência total nas AVD, sendo a média dos idosos de 43,9%, por sua vez 12,5% das mulheres e 20,5% dos homens eram independentes. Nas AIVD a média de idosos com dependência total era superior a 68,8%,

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correspondendo 69,9% às mulheres e 61,6% aos homens, não se verificando idosos independentes nestas atividades.

Reportando-nos ao estudo de Petronilho et al. (2010), com uma amostra de 40 doentes que sofreram evento crítico de saúde gerador de dependência no AC, realizado em unidades de medicina, ortopedia, neurocirurgia/TCE, medicina física/reabilitação e neurologia, de instituições de saúde, da Região Norte de Portugal, em que a média da pontuação do grau de dependência dos doentes relativa aos AC se situava entre o grau moderado e elevado, destacando-se o grau de dependência elevado principalmente no domínio do AC associado à atividade física (andar e transferir-se) e usar o sanitário, sendo o AC Alimentar-se o que apresentava a dependência em menor grau. Comparativamente ao nosso estudo constatamos que também no AC Uso do Sanitário é onde se encontram os utentes que apresentam maior grau de dependência e é igualmente no AC Alimentar-se que se obteve um maior valor no grau de dependência reduzido.

Na investigação levada a cabo por Martins (2011), com uma amostra de 121 famílias com um familiar dependente, avaliando onze AC, verificou que a nível global da dependência nos AC, 82,6% dos dependentes necessitam de ajuda para a realização das atividades inerentes ao AC, que 9,9% necessitam de equipamento e 7,4% são totalmente dependentes. A nível dos AC, o Uso de cadeira de rodas e o AC Tomar a medicação, foram aqueles em que se verificou maior percentual de dependentes. Por seu lado os AC em que os utentes eram independentes foram os AC Virar-se e o AC Elevar-se. Estes resultados não coincidem com os do nosso estudo, provavelmente, porque o número de AC em análise na investigação atrás citada era mais elevado do que no presente estudo, tendo sido estudados onze AC, enquanto neste estudo foram apenas sete.

Reportando-nos ao estudo de Leonardo (2011), com uma amostra de 241 famílias com dependentes nos AC, em que os dependentes foram categorizados em função de quatro tipos de dependência (dependente, não participa; necessita de ajuda de pessoa; necessita de equipamento e completamente independente) para os onze AC. Esta autora concluiu que o maior grupo de dependentes necessita de ajuda, em seguida surgem os completamente independentes, seguindo-se os dependentes e, por último, os que necessitam de equipamento. Os AC em que os utentes apresentam valores mais elevados na dependência foram os AC Uso de cadeira de rodas e o AC Tomar banho, relativamente aos AC em que os utentes eram independentes foram os AC Virar-se e o AC Elevar-se. A autora considera contudo que apesar de serem em menor número, os dependentes nos autocuidados virar-se, elevar-se e transferir-

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se, apresentam uma dependência elevada, exigindo mais recursos, tempo, disponibilidade e esforço por parte dos prestadores de cuidados.

No estudo realizado por Silva et al. (2012), a uma amostra de 49 PC, utilizando o Índice de Katz e o Índice de Barthel, verificaram que para o primeiro, 38,8% dos utentes eram totalmente dependentes e 12,2% independentes. Para o Índice de Barthel, constataram que 48,0% dos utentes apresentavam uma dependência total e apenas 4,0% eram independentes. Apesar do grau de dependência ser avaliado por outros instrumentos, uma vez mais se destaca um elevado grau de dependência nos utentes.

Para testar a hipótese 1, cruzamos a variável média de localização do grau de dependência dos utentes com as suas características sociodemográficas e com as do PC, recorrendo aos testes não paramétricos, uma vez que se trata de uma variável ordinal. Importa relembrar que a variável grau de dependência dos utentes foi categorizada em três classes, utilizando como pontos de corte os 0-2 pontos para o grau de dependência reduzido; 3-5 pontos para o grau moderado e maior e igual a 6 para o grau elevado (Tabela 10).

Tabela 10.

Resultado dos testes estatísticos relativos à hipótese 1

Variáveis Teste Valor do teste df p

Grau de dependência /Sexo do dependente

Mann-Whitney 2841,500 0,271

Grau de dependência/Classe etária do dependente

Mann-Whitney 909,000 0,706

Grau de dependência/Estado civil do dependente

Kruskal-Wallis 3,926 3 0,270

Grau de dependência/Área geográfica do dependente

Kruskal-Wallis 3,347 4 0,502

Grau de dependência/Sexo do PC Mann-Whitney 1521,500 0,027 Grau de dependência/Classe etária

do PC Mann-Whitney 2277,000 0,000 Grau de dependência/Escolaridade do PC Kruskal-Wallis 0,031 2 0,985 Grau de dependência/Condição perante o trabalho Mann-Whitney 2096,500 0,026 Grau de dependência/Grau de parentesco com o dependente

Kruskal-Wallis 10,849 3 0,013

Legenda: df- grau de liberdade; p- probabilidade

Através da análise da tabela anterior, verificamos que não existem diferenças estatisticamente significativas entre a variável média de localização do grau de dependência dos utentes e o

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grupo de variáveis relativas às características sociodemográficas do utente e à escolaridade do PC, rejeitando-se assim a hipótese.

Constatamos que existe uma diferença significativa entre o grau de dependência dos utentes e o sexo dos PC (MW: p=0,027), verificando-se que os PC do sexo feminino têm a seu cargo utentes com maior grau de dependência (84,39) contrariamente ao sexo masculino que têm a seu cargo utentes com menores graus de dependência (66,22). Aceita-se assim a hipótese de que existem diferenças entre a média da localização do grau de dependência do utente com o sexo dos PC.

Comprovamos que existe uma diferença altamente significativa entre o grau de dependência dos utentes e a classe etária dos PC (MW: p=0,000), confirmando-se que os PC com idade compreendida entre os 20 e os 64 anos têm a seu cargo utentes com maior grau de dependência (90,75), ao contrário dos PC com idade superior a 65 anos que têm a seu cargo utentes com menor grau de dependência (68,00). Confirma-se assim a hipótese de que existem diferenças entre a média da localização do grau de dependência do utente com a classe etária dos PC.

Confirmamos que existe uma diferença significativa entre o grau de dependência dos utentes e a condição perante o trabalho do PC (MW: p=0,026), verificando-se que os PC que exercem uma atividade profissional têm a seu cargo utentes com maior grau de dependência (92,41), por seu lado os PC não ativos têm a seu cargo utentes com menor grau de dependência (76,57). Verifica-se assim a hipótese de que existem diferenças entre a média da localização do grau de dependência do utente com a situação perante o trabalho do PC.

Verificamos que existe uma diferença significativa entre o grau de dependência dos utentes e o grau de parentesco do PC com o utente (KW: p=0,013), constatando-se que os PC que têm outros parentescos com o utente têm a seu cargo utentes com maior grau de dependência (89,85). Por seu lado os cônjuges têm a seu cargo utentes com menor grau de dependência (67,68). Aceita-se assim a hipótese de que existem diferenças entre a média da localização do grau de dependência do utente com o grau de parentesco do PC com ele.

Não nos foi possível encontrar estudos que analisem o grau de dependência dos utentes relativamente às características sociodemográficas dos PC. Verificamos que os utentes com maior grau de dependência estão a ser cuidados por mulheres com idade compreendida entre os 20 e os 64 anos, ativas e com outro parentesco com o utente. Como a literatura refere e já anteriormente discutimos, as mulheres são as principais cuidadoras, com idade compreendida

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entre os 20 e os 64 anos, em princípio, têm maior vigor físico para cuidar de utentes muito dependentes. Ainda têm uma atividade profissional ativa concomitante com o papel de prestadoras, pois ainda estão em idade ativa para desenvolverem uma atividade profissional. Constatamos que os cônjuges são os que têm os dependentes com menor grau de dependência, uma vez que a sua idade será aproximada à idade dos dependentes, seria mais difícil serem cuidadores de dependentes com maior grau de dependência, ficando estes a serem cuidados pelos familiares com outros parentescos.

4.3. Conhecimento do Prestador de Cuidados sobre o Autocuidado e

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