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CAPÍTULO I – Revisão da literatura

2. Dança na educação no 1.º Ciclo do Ensino Básico

2.2. Dança criativa e a abordagem interdisciplinar

A prática de ensino interdisciplinar é entendida como “(…) integração disciplinar (ou ensino integrado), isto é, de qualquer forma de ensino que estabeleça uma qualquer articulação entre duas ou mais disciplinas” (Pomba, Guimarães & Levy, 1993, p.11). Por outras palavras, a integração é fazer conexões entre coisas (Russel & Zembylas, 2007).

A dança integra-se facilmente com outras áreas de conteúdo, se não vejamos a vocação interdisciplinar que à dança é atribuída, com inúmeras ligações a outras áreas: “(…) relação ancestral com a música, que propõe contactos com o ritmo, a dinâmica e a matemática. Ou o caso das relações entre a dança e o espaço, podendo transitar para áreas como a geometria, a geografia e mesmo a arquitectura” (Ministério da Educação - Departamento da Educação Básica, 2007, p.185).

A abordagem interdisciplinar no processo ensino-aprendizagem “ajuda a compreender que os indivíduos não aprendem apenas usando a razão, o intelecto, mas também a intuição, as sensações, as emoções e os sentimentos” (Thiesen, 2008, p.552). Segundo Marques (2012b), é urgente “(…) que se reconheça que a dança pode/deve ser parte integrante real e enriquecedora da interdisciplinaridade da escola, podendo funcionar de forma ampla em que sem dúvida contribuirá para o desenvolvimento do aluno” (p.107). Esta ideia é sublinhada pela tutela, referindo que “a competência em dança implica, desde

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logo, a aptidão para integrar e traduzir diferentes linguagens, através do movimento” (Ministério da Educação - Departamento da Educação Básica, 2007, p.186).

Num currículo interdisciplinar o aluno aprende os conceitos de diferentes pontos de vista, cognitivo e experiencial. Espera-se, assim, que a criança aprenda a entender as informações estudadas numa área, conseguindo inferir esses conhecimentos para a outra área e vice-versa (Cosenza, 2005). Esta ideia é corroborada por Cone e Cone (2005): “(...) interdisciplinary perspective offers an opportunity to deliver knowledge and skills holistically to help children transfer what they learn in one subject area to another” (p.43). Por conseguinte, a aprendizagem interdisciplinar entre a dança e um conteúdo curricular levará que ambas as áreas contribuam para a compreensão dos temas/conceitos (Rhodes, 2006). A este propósito Leandro, Monteiro e Melo (2012a) evocam que na “(…) metodologia de trabalho interdisciplinar, a dança potencia experiências de aprendizagem que levam à exploração e à descoberta de noções/conceitos abstratos em concretos, conduzindo a novas descobertas que ligam, integram e assimilam os saberes no processo de ensino- aprendizagem” (p.84). Na dança criativa, a capacidade expressiva e comunicativa do corpo é sustentada por estímulos e temas específicos, em que o conhecimento se desenvolverá de uma forma criativa e lúdica (Marques, 2012b).

Desta forma, esta premissa interdisciplinar visa o cruzamento dos conteúdos de dança e dos temas/conceitos das áreas disciplinares. Cone e Cone (2005) defendem que nesta abordagem, a dança contribui para a aprendizagem com as dimensões corporal, criativa e estética. Desta maneira, as crianças demonstram o seu entendimento dos temas/conceitos através dos movimentos ou na criação de danças.

Overby, Post e Newman (2005) referem que a dança é uma disciplina com conteúdos específicos, mas é também uma ferramenta que sintetiza outras disciplinas. Consideram a dança, na abordagem interdisciplinar, como um veículo, ferramenta ou instrumento de aprendizagem de outros saberes, sendo esta ideia defendida por Joyce (1994) quando salienta que “(...) teach

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science lesson through movement, then dance will be used as a tool for learning. I call this a “reverse lesson plan” because science is the subject being taught and dance then becomes the “helper” ” (p.193). Embora este ponto de vista esteja correto, parece-nos um pouco redutor. Mesmo que a dança funcione como um meio para a aquisição de conhecimentos, a experiência de dança que proporciona por si, embora por esta via, também é uma mais-valia para o desenvolvimento da criança, pois como refere Hanna (1999) ao aprender outros assuntos através da dança, os alunos aprendem sobre dança. Bucek (1992) menciona, também, que a dança pode ser um veículo através do qual os temas/conceitos são expressos ou poderão ocorrer outros tipos de aprendizagem.

Assim, numa aula de dança criativa considera-se que se aborda os conteúdos de outras disciplinas com a exploração e criação de movimento e, em simultâneo, desenvolve-se a perceção, observação, imaginação e sensibilidade (Marques, 2012b).

As sessões de dança com esta matriz interdisciplinar envolvem a compreensão e vivência de temas/conceitos das áreas disciplinares pelo corpo e pelos movimentos através dos elementos da dança (Brehm & Mcnett, 2008; Gilbert, 2002; Overby, Post & Newman, 2005).

No Projeto de Educação Artística para Um Currículo de Excelência, referenciado anteriormente, Marques (2012a) refere que “a interdisciplinaridade entre a matéria da dança, áreas curriculares genéricas e outras expressões artísticas, possibilita novas formas de aprendizagem e novas abordagens de comunicar utilizando o movimento” (p.68).

Brehm e Mcnett (2008) , tendo por base esta abordagem, sugerem dois tipos de sessões de dança criativa: “(...) extension lessons devoted to pure movement lesson, which further address that element’s movement vocabulary; and curricular lesson, which show many ways to integrate other curricular themes into creative dance” (p.168).

Esta metodologia de trabalho da dança criativa, como mencionam Leandro, Monteiro e Melo (2012b) “(…) poderá ser utilizada nas aulas de dança pelo professor de dança. Podendo desenvolver, desta forma, também um

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ensino interdisciplinar articulado com o professor de outra área disciplinar, tendo como premissa uma aprendizagem globalizante” (p.152-153).

Acerca desta forma de ensino, Cone e Cone (2005) apresentam três modelos de ensino interdisciplinares, apoiando-se o nosso estudo no modelo intitulado Share Model. Este caracteriza-se pela integração de duas ou mais disciplinas através de temas, conceitos ou habilidades semelhantes que fazem parte dos conteúdos das disciplinas. A articulação entre as disciplinas está ilustrada no exemplo dado pelos autores: “a dance lesson might be shared with a math lesson on fractions. In dance, the students are learning about quarter, half, three-quarter, and full turns, and in the math class children are introduction to the concepts of fractions” (p.42). Este modelo conecta os elementos da dança com as temáticas disciplinares, estabelecendo ligações entre as matérias e articulando os conteúdos.

No projeto educativo da Escola EB1 n.º 3 de Alcoitão foi integrada a dança criativa, tendo como principal objetivo “(…) a interdisciplinaridade – exploração de matérias curriculares em articulação como os conceitos básicos de dança – de forma a possibilitar a experimentação e consequentemente aprendizagem de matérias leccionadas… Sentindo e Experimentando, Questionando e Reflectindo, interiorizando e APRENDENDO” (Coelho & Martins, 2004, p.30).

Condessa (2006) enaltece a importância da dança criativa no contexto escolar, referindo que “a Escola é de facto um local onde está previsto que se recorra aos movimentos expressivos, como processo de desenvolvimento da criatividade, fazendo-o com o intuito de levar a criança a conhecer e sentir o seu corpo, como agente máximo da sua expressão (…)” (p.79). Este ponto é enfatizado por Hanna (2008) quando refere que a dança criativa facilita a aprendizagem ao articular os conceitos abstratos em movimentos concretos e ao promover a criatividade, na medida em que as crianças, através das experiências de movimento, resolvem as situações-problema, usando o corpo de variadíssimas maneiras (Gilbert, 2002).

A dança pode ser considerada como “(…) um instrumento de aprendizagem interdisciplinar de conteúdos das áreas curriculares e em

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simultâneo desenvolver a capacidade criativa e da imaginação” (Marques, 2012b, p.107). Faz assim sentido analisarmos, de seguida, duas características que, de forma consensual, são apontadas às artes, em geral, e à dança em particular: a criatividade e a imaginação.