Parte I Revisão da Literatura 15
3. Os sistemas de Analytics para apoio à gestão da atividade de ensino 49
3.1. Dando sentido aos dados numa perspetiva holística e multidisciplinar 49
Vannevar Bush no seu artigo “As we may think”, publicado na revista “The Atlantic Monthly”, em 1945, problematizou a questão da gestão da informação num quadro em que se verificava o seu crescimento exponencial: “but rather that publication has been extended far beyond our present ability to make real use of the record” (Bush, 1945, p. 281). Bush temia que o progresso científico fosse limitado pela incapacidade dos cientistas se manterem atualizados sobre informação relevante para o seu trabalho.
David L. M. Levy (2005), decorridos sessenta anos desde a publicação do “As we may think”, revisita o artigo e faz uma análise crítica, argumentando que, apesar das enormes inovações tecnológicas, a sobrecarga de informação não só se mantém como se exacerbou, sendo fundamental criar condições para existir tempo e espaço para reflexão sobre ela:
“This paper revisits the article in light of current technological and social trends. It notes that Bush’s argument centered around the problem of information overload and observes that in the intervening years, despite massive technological innovation, the problem has only become more extreme. It goes on to argue that today’s manifestation of information overload will require not just better management of information but the creation of space and time for thinking and reflection, an objective that is consonant with Bush’s original aims” (Levy, 2005, p. 281).
A figura 3.1 é uma criação artística (M. Carvalho, 2014), elaborada especificamente para esta tese de doutoramento, que pretende ilustrar esta visão de Bush e Levy da sobrecarga de informação.
50 Figura 3.1. O grito da ubiquidade da informação
Todavia, existe uma outra visão do assunto, fundamentada no aproveitamento das vantagens da tecnologia, nomeadamente o armazenamento e análise de dados – incluindo modelos de previsão – que permite, através da definição de algoritmos complexos, extrair informação útil de conjuntos muito grandes de dados. De seguida, apresenta-se três casos que ilustram esta ideia:
- No ocaso do milénio passado, a “PC Magazine” escreveu que o Google tem a capacidade inesgotável de devolver resultados de pesquisa extremamente relevantes (Google, 2013; PC Magazine, 2007);
- As sugestões de compras que empresas como a Amazon ou a eBay enviam para o e-mail dos potenciais compradores, ou as que aparecem indicadas na área de cliente dos respetivos websites, apresentam produtos com potencial interesse muito elevado;
- Quando alguém lê um e-mail no Gmail, abre-se uma barra lateral com publicidade, fazendo-se uma breve análise ao seu conteúdo pode-se verificar que uma parte significativa dos anúncios se relaciona com o teor dos e-mails do cliente.
51 Estes são três, entre n exemplos, reveladores do conhecimento profundo que algumas empresas e serviços online têm sobre as nossas preferências e o que cada um de nós procura. Alguns de nós já se depararam com a dificuldade em escolher um livro para ler nas férias. Contudo, este dilema parece ser um não-assunto para as empresas e serviços online. De facto, baseadas em informação deixada pelos nossos cliques ao longo dos trilhos do espaço virtual, apresentam uma série de sugestões que, porventura, revelam um conhecimento muito maior sobre o que procuramos e os nossos gostos do que um amigo próximo.
Os três casos apresentados nas linhas anteriores são exemplos do potencial da aplicação prática dos grandes volumes de dados que cada um de nós deixa registado sempre que entra no mundo virtual – estamos no campo do Analytics.
Conforme o exposto no capítulo 2, inseridas no contexto da Sociedade da Informação, as IES têm investido em plataformas tecnológicas com base de funcionamento online para suporte da atividade letiva e das demais áreas de ação – e.g. investigação, administrativa, gestão da qualidade,… – que assumem uma importância crescente na concretização da política e da estratégia destas organizações. Estas plataformas recolhem um imenso volume de dados, com potencial para a gestão, contudo, na linha do diagnóstico feito Bush (1945) há mais de seis décadas, o crescimento dos dados ameaça a capacidade das organizações para lhes dar sentido, nomeadamente as IES (Swan, 2012).
Com efeito, a temática do Analytics em educação é complexa, agregadora de múltiplos domínios, cobrindo todo o espectro que se estende das áreas de cariz mais tecnológico aos campos da teoria social da aprendizagem, onde se incluem disciplinas como a ciência da computação, sociologia, ciências da educação, estatística e Big Data. Utilizando a metáfora do espectro da luz: se se aplicasse o prisma de Newton ao Analytics seria possível ver a sua decomposição por as várias disciplinas (figura 3.2).
52 A encruzilhada do Analytics entre o campo tecnológico e o campo social requer, por um lado, um trabalho muito especializado ao nível programação de algoritmos e personalização de modelos; por outro, a capacidade dos atores das áreas de gestão e das ciências da educação em definir as suas necessidades de informação e conseguir compreender e potenciar o uso dos algoritmos na transformação da realidade. (Siemens & Gasevic, 2012).
A conferência Learning Analytics and Knowledge (LAK12) sobre a temática do Analytics foi apresentada como “multidisciplinary conference for: “learning scientists, (computer) scientists and data/knowledge engineers; (…), researchers in education, sociology, psychology, information science, (educators at all levels, (…) course management system developers and leaders.” (SoLAR, 2012). Na mesma linha, Siemens e Gasevic escrevem “Coalescing as a field will require leadership, openness, collaboration, and a willingness for researchers to approach learning analytics as a holistic process that includes both technical and social domains” (Siemens & Gasevic, 2012, p. 1).