2.1 Entrando no estado de São Paulo
2.1.2 Dani Lasalvia
Outra importante artista, Daniela Lasalvia, nasceu em 1974 na cidade de São Paulo/SP, onde reside. É artista plástica, programadora visual, produtora, arte-educadora, cantora, compositora e pesquisadora de cultura popular. Multi-instrumentista, Dani Lasalvia tem domínio em: voz, violão, violas de dez e doze cordas, piano e percussão.
Dani Lasalvia (2017) toca Viola Caipira há 18 anos, e conta que conheceu esse instrumento há 20 anos, em um show de Dércio Marques em 1996, e logo depois com Almir Sater, na sala Funarte em São Paulo. Tendo como principal referência o trabalho de Almir Sater, Dani começou a tocar viola de forma autodidata, com escalas ponteadas simples, e alguns fraseados de Tião Carreiro e outros violeiros como Braz da viola e Renato Andrade. Atualmente vem tocando alguns clássicos como Viola Quebrada de Mário de Andrade e
Luzeiro, de Almir Sater, além de outras composições de domínio público que utilizam a
linguagem ponteada e rasqueada da viola (Lasalvia 2017).
As músicas que Dani Lasalvia compõe, segundo ela, falam do que a sensibiliza no momento, “há quem rotule de música regional ou outros nomes, mas prefiro dizer que é música brasileira, que às vezes tem uma ‘cara’ mais regional, outras vezes mais erudita, outras de choro e por aí vai” (Lasalvia 2017).
Dani Lasalvia se relaciona intensamente com a natureza, e comenta que não vive sem dar um “pulinho pelo menos a cada dois meses em algum lugar mais amplo com verde, especialmente em lugares em que possa nadar e absorver toda a energia da água. Minha ligação com a água é bem forte” (Lasalvia 2017). Em relação ao Cerrado, Dani sente-se positivamente inspirada, chegando a compor melodias modais na viola:
Um lugar absolutamente perfumado cheio de vida por desabrochar. Por traz de uma vegetação aparentemente ressequida, sinto a imensa presença de água, numa paisagem que parece nos mostrar suas cartas na manga o tempo todo, uma paisagem que nos surpreende positivamente o tempo todo. [...] ao admirar a paisagem do cerrado tenho composto linhas melódicas modais que me vem de forma livre (Lasalvia 2017).
Apesar de gostar do Cerrado, Dani diz ir mais frequentemente à Mata Atlântica e Caatinga, onde acaba tendo vários insights musicais, mas que não considera bons o suficiente para registrá-los, assim afirma, “acabo sendo bem crítica com minhas composições preferindo em 90% dos casos gravar composições de amigos. Uma realidade que pretendo mudar em
breve” (Lasalvia 2017). Temas ambientais como água, flores, mata e o tema indígena estão presentes em seu CD duplo “Madregaia” (2007) em canções como Vida de Água (Amauri Falabella), Tietê Meu Rio (Loni Rosa e Jean Garfunkel), Meninos (Juraíldes da Luz), Quiquiô (Geraldo Espíndola), Água de Mani (Índios Tremembé), Ciranda Lunar (Amauri Falabella).
Dani Lasalvia explica que este trabalho foi pensado para homenagear as águas, e se chamaria “Caminho das águas.” Com a ampliação da abordagem, o nome mudou para “Madregaia,” cujo tema se refere à “Mãe Terra” (Lasalvia 2017).
Figura 13 – Capa do CD Madregaia
Fonte: Foto da autora
Abrindo o CD “Madregaia,” Dani canta Quiquiô, música composta pelo mato- grossense Geraldo Espíndola e que narra um pouco da luta dos povos Tupi e Guarani. Conforme os trechos abaixo, antes de cantar a letra em português, Dani canta uma tradução que adicionou em língua Tupi:80
Kykyô o’ar yby pyterype, ybytra amongoty Kykyô osepiak opá poranga, abá-etá anhõ iké [...]Tasy-etá oiporará ybypytera pupé
Tupi oiké Amazonas-pé / Guarani osenõi bé Kykyô iasy berab-eme oipotar Tupi Guarani Kykyô, ôôôôô...
80
Quiquiô nasceu no centro entre montanhas e o mar Quiquiô viu tudo lindo tudo índio por aqui
[...] E sofreram tantas dores acuados no sertão Tupi entrou no Amazonas / Guarani ainda chama Quiquiô na lua cheia quer Tupi quer Guarani
Quiquiô, ôôôôô... (Espíndola 2007).
Na sequência, Dani Lasalvia toca Viola Caipira acompanhada de Dércio Marques no Charango,81 e canta uma canção indígena que ela adaptou intitulada Água de mani, um antigo
torém dos índios Tremembé de Almofala - Ceará: Água de mani / Ô Manina cerecê / Água de mani / Ô Manina cerecê / Ô jamidê, ô jamidê. O encarte do CD explica que mani significa
mandioca, e Torém é uma dança em que um homem vai ao centro da roda, com uma espécie de maraca, imitando animais (Lasalvia 2007).
Em Feixe (Chico César), Dani canta e toca Viola Caipira, Violão de aço e Violão de nylon, essa canção que se refere à sobrevivência do Peixe-boi e das águas dos rios:
Há dias que acordo tão pacífico / Mas há manhãs em que me atlântico E a mim mesmo com o dedo indico / Peixe-boi, feixe-luz / Quem foi que fui Nas tardes nilistas destes dias / Quando não mais me amazônico
Nada me mississipa / Nem as lágrimas que são / São e Franciscoam Peixe-boi, feixe-luz / Quem foi que fui / [...] (César 2007).
Finalizando essa música, Dani Lasalvia interpreta trechos de outras canções abordando o tema água: Incidental Água que Correu (Almir Sater / Paulinho Simões) - Tanto que choveu,
tanto que molhou / Coração se encheu de amor e transbordou / Água que correu, ribeirão levou / Foi pro oceano e lá se evaporou; Incidental: Estrelas d’Água (Hilton Aciolli) - Água, cada gota um rio / Rio, estrelas d’água no olhar... Incidental: Água é Vida (Doroty Marques)
- Vida é água / Água é vida.
Compondo também o CD “Madregaia,” a canção Manacá da Serra (Luís Perequê), interpretada por Dani Lasalvia e Dércio Marques, fala das cores e perfumes das flores, de vaga-lumes e ao final compara o canto a um perfume do pensamento voando lento, reforçando de forma poética, a importância do canto como transmissor de ideias:
Manacá da serra, maninha / Deu dois tipos de flor
Uma bem lilás e a outra mais / Pro lado do branco / Quase cor de rosa Mas quem mais me atrai é a perfumosa dama da noite
Que no açoite do vento / Vai perfumando o mato
81
De tamanho aproximado de 60 centímetros, o Charango é um instrumento musical de 10 cordas, originalmente feito da carapaça do tatu, e atualmente, devido a preocupações ambientais, são confeccionados em madeira. O Charango foi bastante difundido nos anos 70, principalmente na Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Disponível em: http://www.todosinstrumentosmusicais.com.br/conheca-o- instrumento-charango.html. Acesso em: 27 jul. 2017.
O mato escuro onde causa espanto / Ouvir-se o canto da Mãe da lua Onde flutua o zigue-zague fosforescente
Que mais parecem estrelas cadentes /Iluminadas pelo perfume / Mas não é nada É só a cantiga da Mãe-da-lua / E a dança louca dos vaga-lumes
[...] Manacá da serra, maninha / Deu dois tipos de flor E a dama da noite / Preferiu a noite, caiu no açoite do vento Me ensinou que o canto é o perfume do pensamento voando lento E o perfume é a asa da flor (Perequê 2007).
Dani Lasalvia esclarece que há mais de 20 anos realiza um trabalho de conscientização ambiental por meio da música, na qual utiliza violão, viola e principalmente a voz, para passar essa mensagem em shows por meio do SESC (Serviço Social do Comércio) à escolas, teatros e espaços culturais, tratando dos temas abordados em seu CD, com foco principal na água (Lasalvia 2017).
O Cerrado e todas as paisagens brasileiras mais conhecidas são abordados nos espetáculos de Dani. Mas, a cantora diz que muitas vezes focaliza bastante o Cerrado por saber ser ele, o mantenedor das águas emendadas que alimentam outras paisagens. Dani afirma que, o Cerrado esteve presente em todas as oficinas ambientais sobre água e preservação que ministrou, “sozinha e com Dércio Marques, a grande estrela sempre foi o Cerrado, por sabermos de sua importância para as outras paisagens” (Lasalvia 2017). Dani se sente magnetizada pela força e as várias aberturas que o Cerrado lhe proporciona:
Para mim o Cerrado tem uma misteriosa força que parece movimentar meus projetos de vida todas as vezes que vou pra lá. Quando viajo e piso no Cerrado, tenho a sensação que o universo me abre portas, onde conheço trabalhos incríveis de outros músicos, ambientalistas, artistas plásticos e especialmente a imagética do Cerrado me inspira e fica impregnada nas minhas retinas de forma definitiva (Lasalvia 2017).
E ainda afirma que, sem dúvida, a força inspiradora do Cerrado é uma das mais fortes que já conheceu (Lasalvia 2017).