Analisado de que se trata o dano moral coletivo no sistema jurídico brasileiro independentemente do ramo, passa-se a tratar como este se manifesta no Direito Ambiental, uma vez que referido campo foi pioneiro na abordagem da responsabilidade civil em sua dimensão social ao dispor sobre a proteção do meio ambiente (item 1.2.1), além de idêntica
análise quanto à manifestação deste dano peculiar também no Direito do Trabalho - outra área que tem tratado cada vez mais intensamente sobre este assunto (item 1.2.2).
1.2.1. Dano moral coletivo no Direito Ambiental - a lesão aos direitos de personalidade, aos valores intrínsecos e demais interesses difusos pertinentes ao direito fundamental do meio ambiente ecologicamente equilibrado
Segundo Édis Milaré, o meio ambiente compreende - num conceito jurídico em sentido estrito - o patrimônio natural, abrangendo o solo, a água, o ar atmosférico, a flora e a fauna. Em suma, a biosfera. E, em sentido amplo, vai além da ecologia tradicional e comporta o meio ambiente cultural formado pelo patrimônio artístico, histórico, turístico, paisagístico e arqueológico e o meio ambiente artificial integrado pelo espaço urbano construído, como
223 edificações, ruas, áreas verdes e equipamentos públicos.223
Além disso, e ainda em sentido jurídico, o meio ambiente é tido pela doutrina como um bem de uso comum do povo, ou seja, de titularidade difusa, pois pertencente à
224 225 226
coletividade e um bem jurídico autônomo de interesse público . Além disso, a sua proteção é vista como um direito fundamental intergeracional - porque é um direito das presentes e futuras gerações - e intercomunitário - porque extrapola o direito nacional de
227 cada Estado soberano.
Pela Lei de Política Nacional do Meio Ambiente - LPNMA (Lei n.° 6.938 de 1981) meio ambiente é “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” . Na Constituição Federal, vide enunciado do art. 225, caput, o meio ambiente é um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
223 MILARE, Édis. Direito do ambiente: doutrina, prática, jurisprudência, glossário. 4. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 99.
224 FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 14a ed. ver. ampl. atual. São Paulo: Editora Saraiva, 2013, p. 171.
225 Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Freitas fundamentam que o meio ambiente não pode ser tido só como um bem autônomo, sem qualquer finalidade para as pessoas, o que não quer dizer que o meio ambiente deva ser considerado como um bem usado para atender tão somente as vontades humanas. In: FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza. 9. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. p. 54.
226 Paulo de Bessa Antunes afirma que o meio ambiente é um bem jurídico autônomo, pois não se confunde com os tantos bens que o integram e não se trata de um mero somatório de flora e fauna, mas sim da integração ecológica de seus elementos. In: ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 11a ed. rev. atual e ampl. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 248-249.
O meio ambiente ecologicamente equilibrado se configura, portanto, como um direito fundamental, inerente inclusive à dignidade da pessoa humana, na medida em que sua proteção não só salvaguarda a vida nas suas várias dimensões (individual, coletiva e até das futuras gerações), mas as próprias bases da vida em razão de dar suporte para a manutenção da saúde.228
O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é também um direito inerente aos direitos de personalidade, uma vez que diz respeito à qualidade de vida e representa uma condição especial para um completo desenvolvimento da personalidade humana.
Para Morato Leite, é por esta razão que se justifica a fundamentação de um direito de personalidade ao meio ambiente. Pois o ser humano necessita deste para a sua própria sobrevivência e para o seu desenvolvimento, pelo que este bem jurídico é inseparável de sua personalidade. Ademais, este direito de personalidade ao meio ambiente é de dimensão difusa, embora em sua cota parte pertença singularmente ao indivíduo, mas de forma indeterminada.229
Morato Leite salienta ainda que os direitos de personalidade detêm uma cláusula aberta, pelo que os direitos citados no dispositivo constitucional acerca da personalidade são meramente exemplificativos, razão pela qual é possível considerar o direito de personalidade ao meio ambiente. 230
Percebe-se, assim, que há diferentes facetas deste direito fundamental vinculadas à dignidade (v.g., vida, saúde e personalidade), dado que a lesão a tal bem que resulte em um dano ambiental poderá causar um dano moral, tanto individual quanto coletivo. Sarlet chega a afirmar, inclusive, que há uma dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana que se consolida em torno de um bem-estar ambiental e um bem-estar social, exigindo a observância
231 de patamares mínimos de qualidade ambiental para uma vida digna.
Entretanto, o problema inicial desta proposição de ser possível um dano moral coletivo em razão da lesão ao meio ambiente é indicar primeiramente quais lesões e impactos ambientais são considerados como danos ambientais.
228 BENJAMIN, Antônio Herman. Responsabilidade Civil pelo Dano Ambiental. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, vol. 3, n. 9, p. 5-52, jan./mar. 1998, p. 48-49.
229 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p. 287 - 292. 230 LEITE, José Rubens Morato. Idem, ibidem.
231 SARLET, Ingo Wolfgang. FENSTERSEIFER, Tiago. O Direito Constitucional Ambiental: Constituição, Direitos Fundamentais e Proteção do Ambiente. 4a ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 38-39.
O dano ambiental ora é concebido como uma alteração nociva ao meio ambiente, ora como uma alteração ambiental que possa prejudicar a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Em sentido estrito, refere-se ao dano ecológico, ou seja, aquele dano que atinge os bens próprios da natureza. Em sentido amplo, o dano ambiental pode atingir outros patrimônios ambientais, como o cultural. Ademais, pelo patrimônio ambiental ser comum à coletividade, em regra o dano ambiental atinge um interesse difuso, ou seja, traz prejuízo para um número
232 indeterminável de pessoas, inclusive para as futuras gerações.
Neste contexto, o dano ambiental coletivo se refere à lesão ao macrobem ambiental 233
difuso, cuja titularidade pertence à coletividade.233 Ou seja, o dano ambiental coletivo, cuja vítima é difusa, refere-se à afetação aos recursos naturais que prejudique a saúde, a segurança e o bem estar da população, ou crie condições adversas às atividades sociais e econômicas, afete o equilíbrio ecossistêmico ou lance matérias em desacordo com os padrões
234 estabelecidos.
No entanto, o dano ambiental pode causar um dano reflexo sobre os indivíduos, 235
atingindo a pessoa e sua personalidade singular.
Mirra dispõe, por sua vez, sobre um dano causado “por intermédio” do meio ambiente, que para o jurista é o dano ricochete que surge como consequência da agressão ao meio. E este dano pode ser material (v.g., diminuição dos ganhos pela redução de turistas em decorrência da poluição da praia), moral (v.g., em decorrência da morte de um animal doméstico ou comprometimento de uma imagem turística pelo impacto ambiental) e corporal (v.g., doença respiratória decorrente da poluição atmosférica).236
Em outras palavras, o dano ambiental pode ser individual na medida em que atinja interesse próprio do indivíduo ao microbem ambiental, o que se relacionava inicialmente com a noção de direito de vizinhança e a questão de não se poder prejudicar o vizinho. Dentro da legislação jurídica privada, o direito de vizinhança era um dos mecanismos instituídos antes da crise ambiental, e o qual impôs observância aos limites ordinários de tolerabilidade
237 referente à poluição sonora e de gases poluentes.
Ou seja, construiu-se a tutela de direitos de personalidade pela via dos direitos de vizinhança elaborando-se um direito de personalidade à salubridade ambiental. Assim, até a
232 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p.103-110. 233 LEITE, José Rubens Morato. Idem, p. 162.
234 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade civil ambiental... Op. Cit., p. 99- 134. 235 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p.103-110.
236 MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública... Op. Cit., p. 74-75. 237 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p. 162.
Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (LPNMA), apenas os danos referentes aos direitos de personalidade ou de vizinhança por intermédio do meio ambiente eram suscetíveis
238 de tutela jurídica.
Em razão da previsão do art. 14, §1° da LPNMA, foi instituída a responsabilidade objetiva para os danos ambientais ou danos ecológicos, a partir da qual estes foram
239 considerados como uma categoria autônoma de prejuízo.
Ademais, enquanto a responsabilidade civil tradicional trabalha com o dano já ocorrido, com nexo causal direto e com a culpa e dolo ou mesmo com o ilícito, a responsabilidade ambiental é objetiva e adapta-se, pois trata de um dano incerto e futuro (com dificuldades inclusive científicas de sua comprovação); com um reexame do nexo causal (que pode ser relativizado); com a desnecessidade de se aferir a culpa, o dolo ou ilícito; e com uma postura de responsabilização preventiva imputando sanção e prudência diante dos novos riscos, e, por outro lado, com a análise de questões como a tolerabilidade e a aceitabilidade de alguns prejuízos.240
Portanto, a questão inserida nesta responsabilidade civil ambiental bastante controvertida e singular é saber quais parâmetros devem ser considerados para se verificar a existência de significativas modificações no meio ambiente a ponto de se considerar um dano ambiental, como por exemplo um dano ecológico. Isso porque a “poluição zero”, sustentada nos ditames de “economia verde”, não existe: toda e qualquer atividade humana gera impacto no meio ambiente.241
Saber o limite desta alteração no meio para que se considere configurado o dano ambiental indenizável é bastante controverso. Isso porque a lei, ressalvados alguns poucos casos (v.g., poluição hídrica atmosférica), não apresenta parâmetros que permitam uma verificação objetiva de quais modificações ao meio ambiente são consideradas como antijurídicas242
Ademais, ainda para os casos em que há previsão legal de parâmetros, respeitá-los não enseja a conclusão imediata de que não ocorreu dano, posto que, para a configuração
243 deste, não é necessário que a atividade seja ilícita, ou que haja culpa ou dolo.
238 stEIGLED ER, Annelise Monteiro. Responsabilidade civil ambiental... Op. Cit., p. 53-99. 239 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Idem, ibidem.
240 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Idem, p. 99- 134; LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op.
Cit., p.124-127.
241 MILARE, Édis. Direito do ambiente:... Op. Cit., p. 759. 242 MILARE, Édis. Idem, p. 959.
É o caso, por exemplo, da construção de uma usina hidrelétrica, a qual, mesmo com o devido licenciamento e o estudo de impacto ambiental - operando, portanto, uma atividade lícita -, acarretará sem sombra de dúvida um dano ambiental expressivo (ecológico, cultural e artificial), havendo controvérsia se este impacto é passível244 ou não245 de determinação de reparação por danos morais e materiais, individuais e coletivos.
Em que pesem tais controvérsias acerca do que configura o dano ambiental e quais são os limites de tolerância e aceitabilidade de impacto e degradação do meio ambiente, restando reconhecido o dano - o que, portanto, depende casuisticamente da análise de cada caso concreto -, poderá haver a determinação de reparação integral que compreende, além da restauração natural ou compensação ecológica ou cultural, também a reparação do dano moral e patrimonial, sejam estes individuais ou coletivos. Também poderá haver a respectiva apuração de responsabilização administrativa e criminal.246
244 Jurisprudência com fundamentação de possibilidade de reparação do dano material ambiental em razão da construção de hidrelétrica: “DIREITO AMBIENTAL E CIVIL. DANOS MATERIAIS OCASIONADOS POR CONSTRUÇÃO DE HIDRELÉTRICA. O pescador profissional artesanal que exerça a sua atividade em rio que sofreu alteração da fauna aquática após a regular instalação de hidrelétrica (ato lícito) tem direito de ser indenizado, pela concessionária de serviço público responsável, em razão dos prejuízos materiais decorrentes da diminuição ou desaparecimento de peixes de espécies comercialmente lucrativas paralelamente ao surgimento de outros de espécies de menor valor de mercado, circunstância a impor a captura de maior volume de pescado para a manutenção de sua renda próxima à auferida antes da modificação da ictiofauna. Não há dúvida de que mesmo atos lícitos podem dar causa à obrigação de indenizar. Segundo a doutrina, "Tratando-se de um benefício à coletividade, desde que o ato administrativo lícito atende ao interesse geral, o pagamento da indenização redistribui o encargo, que, de outro modo, seria apenas suportado pelo titular do direito. [...] Não é, porém, absoluto, nem geral. A compensação é limitada ao dano especial e anormal gerado pela atividade administrativa. Generalizar a noção a todo e qualquer prejuízo, decorrente do funcionamento do serviço, seria a própria denegação da supremacia do interesse público e da destinação social da propriedade. A atividade discricionária da administração condiciona, legitimamente, o exercício de direitos individuais, podendo atingi-los em seu valor econômico, sem obrigação de indenizar". In: BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n.° 1.371.834-PR, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 5/11/2015, DJe 14/12/2015. Informativo n° 0574, Período: 26 de novembro a 18 de dezembro de 2015.
245 Jurisprudência com fundamentação de que inexiste responsabilidade civil para fins de reparação do dano moral ambiental em razão da construção de hidrelétrica:“(...) Consta dos autos que a autora, artesã, residente em Rondônia desde 1988, desenvolvia sua arte por meio de matéria-prima peculiar, denominada cedro-bolado, que somente era encontrada às margens do Rio Madeira, na Cachoeira do Teotônio e Santo Antônio. Em sua inicial, ela narra que a referida matéria era fornecida naturalmente no período de cheias, contudo, em razão das atividades desempenhadas pela requerida, deixou de ter acesso ao produto, o que consequentemente prejudicou suas atividades. (...) Nesse contexto, em que realizadas e suficientes as medidas mitigadoras dos efeitos da construção da barragem, não há falar em dano moral indenizável, acima de tudo por que o material utilizado pela parte autora é proveniente das margens do Rio Madeira, área de domínio público, o qual a concessionária detêm autorização para utilização. Ora, não se desconhece que a Construção da Usina de Santo Antônio ocasionou o barramento dos galhos e troncos utilizados pela requerente e, assim, dificultou o acesso pela antiga cachoeira ao material utilizado. Entretanto, tal situação não tem força necessária a causar um dano moral à parte, na medida em que o material continua disponível em diversos outros pontos do rio anteriores à barragem, podendo ser enquadrada como aborrecimento, dissabor ou incômodo, justificável, inclusive, em razão do bem gerado à coletividade com a construção da usina, sendo, portanto, insuficiente para configurar dano moral indenizável”. In: BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo em Recurso Especial n.° 1.129.391 - RO, Ministro Marco Aurélio Bellizze, DJe 11/09/2017.
Neste contexto, segundo Steigleder, o dano ambiental impõe a reparação civil: (i) do dano autônomo e sinônimo de dano ecológico ou de toda lesão intolerável ao meio ambiente
lato sensu; (ii) do dano material; (iii) do dano moral em razão dos prejuízos a direitos de
personalidade, à qualidade de vida e à saúde; (iv) do dano decorrente da privação imposta pela coletividade de fruição do equilíbrio ambiental, que durante um tempo deixará de exercer funções ecossistêmicas e/ou culturais importantes (dano interino), o que pode gerar tanto um dano moral - pela redução da qualidade de vida e do desenvolvimento da personalidade neste período - quanto material - em razão da privação econômica do bem ambiental ou
247
correspondente a perda do valor do uso, uma espécie de lucro cessante247 -, e, por fim, (v) do 248
dano ao valor intrínseco do meio ambiente.
Ou seja, repita-se que há tanto a necessidade de reparação do dano ambiental autônomo (v.g., o prejuízo ecológico) quanto dos danos morais e materiais, que podem ser individuais e coletivos, decorrentes tanto do dano interino quanto do dano residual e permanente.
Ademais, já está consolidada na jurisprudência a possibilidade de reparação integral, ou seja, de reparação de todos os danos causados - seja o dano ambiental autônomo, sejam os danos materiais ou morais. Tanto que, na publicação Jurisprudência em Teses, do Superior Tribunal de Justiça, a tese n.° 1, de 2015, referente ao tema de Direito Ambiental (teses de n.° 30), dispõe que “admite-se a condenação simultânea e cumulativa das obrigações de fazer, de não fazer e de indenizar na reparação integral do meio ambiente”.249
Neste sentido, a função da responsabilidade civil no Direito Ambiental é principalmente preventiva, dado que a noção de reparação não é de mera compensação mediante atribuição do equivalente em dinheiro, mas sim de necessidade de restauração do equilíbrio ambiental. Ou seja, de necessidade de reparar o dano ambiental autônomo por meio de obrigações de fazer ou não fazer que restabeleçam o equilíbrio ambiental. Somente em caso de irreversibilidade a reparação ganhará caráter de compensação, sendo a verba dirigida a fundos sociais. Esta responsabilização singular é baseada, portanto, na prevenção, pois estimula a contenção dos riscos e prejuízos, como a utilização de equipamentos que reduzam
247 Steigleder denomina este dano de “dano social”, contudo esta nomenclatura utilizada pela jurista não se relaciona com o atual uso do termo - aquela utilizada nos termos da doutrina de Azevedo. Por conseguinte, entende-se que esta privação imposta pela coletividade trata-se, no fim, também de um dano moral ou material, o qual será coletivo acaso atinja um número determinável ou indeterminável de pessoas. In: STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade civil ambiental... Op. Cit., p. 99-156.
248 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Idem, ibidem.
as emissões nocivas, além de ver as atividades potencialmente poluidoras com desconfiança - 250 ao invés de serem concebidas como inevitáveis para o desenvolvimento econômico. 250
Para Steigleder, porém, a reparação civil ambiental ultrapassa as funções punitiva, preventiva e compensatória, especialmente por lidar tanto com atos ilícitos como com atos lícitos, tendo, portanto, também uma função social, uma vez que o objetivo primordial desta
251 responsabilidade é garantir a conservação e a proteção dos bens ambientais protegidos.
Especificamente quanto à reparação do dano moral coletivo decorrente do dano ambiental - o objeto da presente pesquisa -, Morato Leite destaca que este deve ser analisado
252 de acordo com as características próprias dos interesses difusos e coletivos.
Por conseguinte, considerando as características próprias destes interesses, e independentemente dos prejuízos individuais e também patrimoniais que podem estar presentes, para haver dano moral coletivo decorrente de impacto ambiental é necessário que se preencham os quatro requisitos anteriormente expostos: elemento material, quantitativo (prejuízo coletivo no mundo concreto, para além da tolerabilidade e aceitabilidade do dano ambiental, portanto), formal e qualitativo (lesão desproporcional a bem jurídico indivisível - o meio ambiente - que comprometa algum fim de proteção deste bem conexo a dignidade).
Ou seja, entende-se que há dano moral coletivo decorrente de dano ambiental quando a lesão a este bem jurídico protegido indivisível (o meio ambiente) resulta em prejuízo antijurídico e desproporcional no mundo concreto de uma coletividade a ponto de comprometer o fim da proteção jurídica deste bem (no caso, por exemplo, a vida, a saúde, a qualidade de vida e o desenvolvimento da personalidade - elementos conexos à vida digna).
É por esta razão que resta configurado dano moral coletivo, por exemplo, quando do dano ambiental em decorrência de armazenamento incorreto de material poluidor que afeta a
253
saúde de uma coletividade (REsp n.° 706.449 ) e por degradação de área de preservação quando da construção irregular em razão da privação coletiva do equilíbrio ecológico e da redução da qualidade de vida (REsp n° 1328753254).
Este dano moral ambiental é fundamentado normativamente nos arts. 5°, V e X e 225, caput da Constituição Federal, além do art. 6°, VI do CDC e do art. 1° da LACP, cuja análise sistemática resulta na conclusão de que o Direito protege tanto os bens materiais
250 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p. 138-158, 162.
251 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade civil ambiental... Op. Cit., p. 157-168. 252 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental... Op. Cit., p. 303.
253 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n.° 706.449/PR, Rel. Ministro Fernando Gonçalves, Quarta Turma, julgado em 26/05/2008, DJe 09/06/2008.
254 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n° 1328753/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 28/05/2013, DJe 03/02/2015.
quanto os imateriais associados ao meio ambiente, como a qualidade de vida e os direitos de 255
personalidade.255
Steigleder, entretanto, fundamenta que, para além da visão antropocêntrica de que o