3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL POR ABANDONO AFETIVO
3.1 Da Responsabilidade Civil e dos Elementos que a Compõe
3.1.4 O Dano Moral
O dano é o centro gravitacional, elemento essencial a responsabilidade civil, é em razão da sua existência que se pauta o dever de indenizar. Este dever somente existe com a constatação da existência de um dano causado.
Sérgio Cavalieri conceitua o dano da seguinte forma:
“Conceitua-se, então, o dano como sendo a subtração ou diminuição de um bem jurídico, qualquer que seja a sua natureza, quer se trate de um bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria personalidade da vítima, como a sua honra, a imagem, a liberdade etc. Em suma, dano é lesão de um bem jurídico, tanto patrimonial como moral, vindo daí a conhecida divisão do dano em patrimonial e moral.”100
Silvio de Salvo Venosa acrescenta:
“O dano ou interesse deve ser atual e certo; não sendo indenizáveis, a princípio, danos hipotéticos. Sem dano ou sem interesse violado, patrimonial ou moral, não se corporifica a indenização. A materialização do dano ocorre com a definição do efetivo prejuízo suportado pela vítima.”101
Este conceito pode ser dividido em dano material e dano extrapatrimonial (também chamado de dano moral ou imaterial).
No passado tanto a doutrina quanto a jurisprudência encontravam dificuldade de visualização e quantificação do dano moral, motivo pelo qual a sua reparação era alvo de muitos debates e divergências.
A Constituição de 1988 contribuiu com a evolução do ordenamento jurídico brasileiro ao pacificar a sua aplicação, visto que não só reconheceu a existência do dano imaterial como também o tornou passível de reparação.
Cumpre destacar a edição da súmula nº 37 do STJ 102 que reconheceu a possibilidade de incidência de dano material e dano moral sob um mesmo fato e pôs um ponto final nas dúvidas e discussões sobre essa perspectiva.
Diante disso Flávio Tartuce dispõe que em relação a este tipo de dano não se quer determinar o valor do sofrimento, mas sim atenuar os efeitos do ato, a seguir:
“Constituindo o dano moral uma lesão aos direitos da personalidade (arts.11 a 21 do CC), para a sua reparação não se requer a determinação de um preço para a dor ou sofrimento, mas sim um meio para atenuar, em parte, as consequências do prejuízo imaterial, o que traz o conceito de lenitivo, derivativo ou sucedâneo. Por isso é que se utiliza a expressão reparação e não ressarcimento para os danos morais, conforme outrora foi comentado.”103
Desse modo é importante ressaltar o caráter compensatório do mal sofrido como dano moral, sendo incompatível com o instituto a alegação de acréscimo patrimonial, qual seja o enriquecimento da vítima. Nesse contexto, observa-se a não aplicação do imposto de renda sobre o valor recebido à título de indenização por danos morais. O Superior Tribunal de Justiça,
101VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. 13. ed., v. 4. São Paulo: Atlas, 2013, p.38. 102Súmula nº 37 do STJ: "São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do
mesmo fato" Disponível em: <https://scon.stj.jus.br/SCON/sumanot/toc.jsp>. Acesso em 25 jun 2019.
103 TARTUCE, Flávio. Direito Civil: Direito das obrigações e Responsabilidade Civil. 12ª Ed. Rio de Janeiro:
no ano de 2012, editou a súmula nº 498, publicada no informativo 501 do STJ, sendo esta: “Não incide imposto de renda sobre a indenização por danos morais”.
A reparação por dano moral não ocorre somente com o pagamento em pecúnia mas também admite-se a reparação in natura, conforme o disposto no Enunciado nº 589 aprovado na VII Jornada de Direito Civil: “A compensação pecuniária não é o único modo de reparar o dano extrapatrimonial, sendo admitida a reparação in natura, na forma de retração pública ou outro meio”. Como exemplo de uma reparação sem caráter pecuniário tem-se o direito de resposta no caso de ocorrência de crime contra a honra em veículo de comunicação, regulamentado pela Lei nº 13.188104 de 2015
No estudo do direito moral existe uma classificação do instituto em próprio e impróprio. A primeira é baseada no sentimento de dor, sofrimento, perda que uma pessoa sente em decorrência do dano sofrido. Denomina-se também de dano moral in natura. No entanto, o dano moral não é caracterizado pela obrigatoriedade desses sentimentos negativos, tendo a V Jornada de Direito Civil editado o Enunciado nº 445 abordando o assunto: “O dano moral indenizável não pressupõe necessariamente a verificação de sentimentos humanos desagradáveis como dor ou sofrimento”. Isto pode ser comprovado através do dano moral na pessoa jurídica, pacificado pela súmula 227 do STJ105, que não possui sentimentos.
Nesse diapasão cumpre mencionar a decisão do Recurso Especial nº 1.245.550/MG de 2015 que reconheceu o dano moral sofrido por absolutamente incapaz, segue ementa:
EMENTA: RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. SAQUE INDEVIDO EM
CONTA-CORRENTE. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO.
RESPONSABILIDADE DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. SUJEITO ABSOLUTAMENTE INCAPAZ. ATAQUE A DIREITO DA PERSONALIDADE. CONFIGURAÇÃO DO DANO MORAL. IRRELEVÂNCIA QUANTO AO
ESTADO DA PESSOA. DIREITO À DIGNIDADE. PREVISÃO
CONSTITUCIONAL. PROTEÇÃO DEVIDA. 1. A instituição bancária é responsável pela segurança das operações realizadas pelos seus clientes, de forma que, havendo falha na prestação do serviço que ofenda direito da personalidade daqueles, tais como o respeito e a honra, estará configurado o dano moral, nascendo o dever de indenizar. Precedentes do STJ. 2. A atual Constituição Federal deu ao homem lugar de destaque entre suas previsões. Realçou seus direitos e fez deles o fio condutor de todos os ramos jurídicos. A dignidade humana pode ser considerada, assim, um direito
104BRASIL.Lei nº 13.188. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2015/lei/l13188.htm>. Acesso em 25 jun 2019.
105Súmula nº 227 do STJ: A pessoa jurídica pode sofrer dano moral. Disponível em:
constitucional subjetivo, essência de todos os direitos personalíssimos e o ataque àquele direito é o que se convencionou chamar dano moral. 3. Portanto, dano moral é todo prejuízo que o sujeito de direito vem a sofrer por meio de violação a bem jurídico específico. É toda ofensa aos valores da pessoa humana, capaz de atingir os componentes da personalidade e do prestígio social. 4. O dano moral não se revela na dor, no padecimento, que são, na verdade, sua consequência, seu resultado. O dano é fato que antecede os sentimentos de aflição e angústia experimentados pela vítima, não estando necessariamente vinculado a alguma reação psíquica da vítima. 5. Em situações nas quais a vítima não é passível de detrimento anímico, como ocorre com doentes mentais, a configuração do dano moral é absoluta e perfeitamente possível, tendo em vista que, como ser humano, aquelas pessoas são igualmente detentoras de um conjunto de bens integrantes da personalidade. 6. Recurso especial provido. (STJ - REsp: 1245550 MG 2011/0039145-4, Relator: Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Data de Julgamento: 17/03/2015, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 16/04/2015)
Com relação ao dano moral classificado como impróprio, significa qualquer ofensa aos direitos da personalidade, como por exemplo a opção religiosa. Assim, compreende-se o dano moral latu sensu, com sentido amplo, não sendo necessário provar-se o sofrimento.
É importe mencionar também que logo após a promulgação da Constituição de 1988 o dano moral era considerado presumido, em regra. No entanto, a partir do que a imprensa denominou de “Indústria do dano moral”, com a percepção de abusos no instituto em diversos casos, passou-se a defender a necessidade de prova do dano moral, pois este não deveria ser confundido com o mero aborrecimento.106