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2. DA CRISE PARADIGMÁTICA DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.1. BREVE APANHADO ACERCA DA TEORIA CLÁSSICA DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.1.2. Pressupostos da responsabilidade civil

2.1.2.4. Dano

Não existe obrigação de indenizar sem dano, sem prejuízo não há ressarcimento. A indenização sem dano caracterizaria enriquecimento sem causa, algo que não é admitido no ordenamento pátrio. Vale, neste sentido, colacionar a lição de Sérgio Cavalieri Filho acerca do tema:

O dano é, sem dúvida, o grande vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em ressarcimento, se não houvesse o dano. Pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano. Na responsabilidade objetiva, qualquer que seja a modalidade do risco que lhe sirva de fundamento – risco profissional, risco-proveito, risco criado, etc. -, o dano constituí o seu elemento preponderante. Tanto é assim que, sem dano, não haverá o que reparar, ainda que a conduta tenha sido culposa ou até dolosa.37

Pelo exposto, percebe-se que o dano é essencial para a responsabilidade civil, sendo este caracterizado pela ofensa a um bem jurídico. A depender da espécie de bem jurídico ofendido o dano pode ser classificado como patrimonial ou extrapatrimonial, também conhecido como moral.

É patrimonial quando a lesão afeta bens patrimoniais, ou seja, quando atinge bens que podem ser apreciados economicamente. É o caso da batida de um carro ou de uma bola que quebra uma vidraça, em ambos os casos o bem lesionado facilmente se traduz em dinheiro.

Divide-se em dano emergente e lucro cessante. Aquele “corresponde ao efetivo prejuízo experimentado pela vítima do evento danoso, ou seja, o que ela perdeu”38. A

37 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade Civil. 9a edição. Brasil: Malheiros, 2010, p.88. 38 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. Volume III. 4a edição.

quantificação do presente dano não apresenta dificuldades, pois será sempre o resultado da subtração do valor do bem antes pelo valor após a lesão.

O lucro cessante, por sua vez, se traduz como sendo reflexo do dano no patrimônio futuro da vítima, é aquilo que o mesmo deixou de lucrar. No dizer de Sérgio Cavalieri Filho, consiste “na perda do ganho esperável, na frustração da expectativa de lucro, na diminuição potencial do patrimônio da vítima”.39

O cálculo do lucro cessante demonstra uma dificuldade maior do que o dano emergente, pois se refere a um prejuízo futuro, que ainda não ocorreu efetivamente. Em regra, o valor a ser indenizado a título de lucro cessante é aferido através de uma média dos ganhos da vítima nos meses precedentes ao evento danoso.

É imperioso fazer uma ressalva a fim de diferenciar o lucro cessante da chamada “perda de uma chance”. Aquele é o dano certo e definido, no qual não pairam dúvidas de que a vítima viria a agregar este ganho futuro ao seu patrimônio. Já neste não há certeza do ganho, sendo impossível garantir que a vítima viria a ter determinado lucro, contudo, a mera perda da possibilidade de consegui-lo já gera dano. Sinteticamente, pode-se dizer que o lucro cessante é o dano que afeta o patrimônio futuro e certo, enquanto a perda de uma chance atinge um patrimônio futuro e incerto. Basta, por ora, que o leitor saiba que estes dois tipos de dano não se confundem, haja vista que a análise detida deste tipo de dano foge dos objetivos a que se propõe o trabalho em tela.

A outra espécie de dano é o extrapatrimonial. Este seria, segundo a melhor doutrina, a violação da dignidade da pessoa humana em qualquer de seus aspectos (honra, imagem, integridade, etc)40. Entende-se que a dignidade humana, princípio base de nosso Estado Democrático de Direito, instituiu uma “cláusula geral de tutela da pessoa humana”, pelo qual as situações jurídicas não-patrimoniais merecem a mais ampla proteção, devendo todo o dano a ela causado ser devidamente reparado. Quanto a isso dispõe Maria Celina Bodin de Moraes:

O dano moral tem como causa a injusta violação a uma situação jurídica subjetiva extrapatrimonial, protegida pelo ordenamento jurídico através da cláusula geral de tutela da personalidade, que foi instituída e tem sua fonte na Constituição Federal, em

39 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade Civil. 9a edição. Brasil: Malheiros, 2010, p.90. 40 Neste sentido é o posicionamento de Maria Celina Bodin de Moraes na obra Danos à pessoa humana: uma leitura

particular decorrente do princípio (fundante) da dignidade da pessoa humana (também identificado com o princípio geral de respeito à dignidade humana).41

Na presente espécie, em contradição ao patrimonial, a lesão ao bem jurídico não se traduz em pecúnia, não pode ser monetariamente aferido. Em verdade, a indenização do dano moral através da compensação monetária, deveria ser a última solução, haja vista que não é hábil a indenizar, ou seja, a restituir a vítima ao status quo ante.

A forma de calcular o quantum indenizatório decorrente de ofensa a um bem extrapatrimonial é deveras intrincada, todavia, em razão do objetivo a que se propõe o presente trabalho, não cabe discorrer acerca de todas as teorias que cercam a sua quantificação. Limitar- se-á a expor os critérios adotados pelo STJ por serem os mais adotados.

O Superior Tribunal de Justiça estabelece quatro critérios para a quantificação do dano moral: i) grau de culpa e a intensidade do dolo do ofensor, ii) situação econômica do ofensor, iii) a natureza, a gravidade e a repercussão da ofensa, iv) condições pessoais da vítima.

O primeiro critério analisa a dimensão da culpa do ofensor, ou seja, quanto maior esta for, maior deve ser o valor da indenização. O segundo, por sua vez, estabelece que a indenização deve ser balizada de acordo com o poder econômico do ofensor, quanto maior o seu patrimônio, mais elevada é a indenização. No terceiro critério, analisa-se o dano em si e os reflexos do mesmo na dignidade da vítima. Por fim, o quarto critério leva em consideração o poder econômico do ofendido como forma de cálculo da indenização, este é um critério extremamente criticado na doutrina, pois pode levar a situações absurdas, como, por exemplo, duas crianças morrerem em um mesmo acidente e a indenização aos pais de uma delas ser muito superior ao da outra por serem aqueles ricos e estes pobres.

Estes são os critérios de quantificação mais utilizados pela jurisprudência. Devendo o magistrado, através de uma confrontação dos referidos critérios com o caso concreto, chegar a um valor que entenda satisfatório para a reparação do dano.

Estes são, em síntese, os pressupostos da responsabilidade civil, havendo a presença destes, deve o autor do evento danoso ser obrigado indenizar a vítima. Contudo, a presente afirmativa não reflete a verdade, pois eles se encontram em desprestígio, existindo a

41 MORAES, Maria Celina Bodin de. Dano à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais.

possibilidade de haver obrigação de indenizar mesmo na ausência destes critérios no caso concreto.42

Passa-se agora a analisar o cenário atual no qual está inserida a responsabilidade civil, demonstrando o grande abismo que separa a teoria aqui apresentada da aplicação cotidiana das cortes.