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CAPÍTULO III  RESPONSABILIDADE CIVIL DO AGENTE DE STALKING

2. A Responsabilidade Civil

2.1. Pressupostos da Responsabilidade Civil

2.1.4. Dano

Para haver responsabilidade civil é necessário, além da existência de um facto ilícito e culposo, a ocorrência de um dano. Sem este, não há lugar a responsabilidade civil, não havendo obrigação de indemnizar sem a existência de dano ou prejuízo a ressarcir na esfera da personalidade alheia violada176.

RIBEIRO DE FARIA considera o dano como “toda a perda causada em bens jurídicos, legalmente tutelados, de carácter patrimonial ou não”177

. Para LUÍS MENEZES LEITÃO, dano será “a frustração de uma utilidade que era objecto de tutela jurídica”178

.

No conceito de dano é possível fazer mais do que uma classificação, destacando-se, desde logo, a distinção entre danos patrimoniais e danos não patrimoniais ou morais179. Enquanto os primeiros correspondem à frustração de utilidades suscetíveis de avaliação pecuniária – podendo ser reparados ou indemnizados, senão diretamente (restauração natural ou reconstituição específica da situação anterior à lesão), pelo menos indiretamente (por meio de equivalente ou indemnização pecuniária) – os segundos não são suscetíveis de tal avaliação, pelo que, apenas podem ser compensados com a obrigação pecuniária imposta ao agente e não exatamente

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Assim se exprimiu a Comissão Europeia na sua comunicação sobre os conteúdos ilegais e nocivos na Internet no ano de 2000.

176 Este ponto é pacífico na doutrina e jurisprudência. A título de exemplo, veja-se o Acórdão do TRP, de

09/07/69, in JR, ano 15.º, pág. 781, que num caso de declarada ilicitude de uso de nome e de imagem, negou a atribuição de indemnização civil pela não verificação concreta de prejuízos. Ressalvamos a questão da função punitiva da responsabilidade civil defendida por alguns autores, que entendem que haverá lugar a indemnização quando o infrator tirou proveito económico da violação, e que abordaremos mais à frente.

177

Ob. cit., págs. 480 e 481.

178 Ob. cit., pág. 314. Vide ainda A

NTUNES VARELA, ob. cit.. págs. 597 e segs.

179 A qualificação dos danos como “não patrimoniais” é mais rigorosa e até mais abrangente do que como

danos “morais”, uma vez que aqueles englobam estes, mais os danos biológicos, afetivos, estéticos, etc. – neste sentido também ALMEIDA COSTA, ob. cit., pág. 484.

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indemnizados. No entanto, atualmente, ambos os tipos de danos são ressarcíveis, nos termos do disposto no artigo 496.º, n.º 1, do CC180, sendo certo que, relativamente aos danos não patrimoniais, apenas serão ressarcidos os que, pela sua gravidade, mereçam a tutela do direito181.

Os danos causados mediante a violação de direitos de personalidade – os que mais nos interessam para o assunto em causa – podem revestir uma natureza patrimonial, não patrimonial, ou ambos em simultâneo, apesar de estarmos perante direitos não patrimoniais182. Serão danos patrimoniais, por exemplo, as despesas hospitalares, os custos com tratamentos, e a perda de salários e/ou lucros183; e serão danos não patrimoniais ou morais, entre outros, o sofrimento ou dor, a humilhação, o constrangimento, a diminuição da saúde, a diminuição da liberdade, a reputação e o bom nome. Em vários casos, os danos podem ser simultaneamente patrimoniais e morais, como nos casos de atentado à integridade física, de violação do direito ao descanso de forma a que a vítima fique impedida de trabalhar, ou até da perda de vida.

Uma questão que consideramos pertinente, dada a importância e proliferação do mundo virtual, é a de o dano vir a ocorrer no seio da Internet.

Efetivamente, se o assédio ou perseguição forem praticados no âmbito de um blogue, rede social ou num outro qualquer site de armazenamento de conteúdos aberto à visualização por todo e qualquer internauta, o dano pode assumir uma dimensão maior consoante a difusão que o mesmo tiver. Na Internet, face à interatividade e partilha de

180 Debateu-se na Doutrina a questão da ressarcibilidade dos danos não patrimoniais. Em sentido negativo

argumentava-se que os danos em causa eram irreparáveis por natureza; que seria muito difícil, ou praticamente impossível fixar as compensações sem larga margem de arbítrio. Para maior desenvolvimento vide, por exemplo, ANTUNES VARELA, ob. cit., págs. 625 e 626. Chegou até a afirmar-se que apenas numa conceção grosseiramente materialista da vida se poderia admitir o ressarcimento de danos não patrimoniais com dinheiro – “Repugna permitir ao pai exigir dinheiro pela morte do filho”, cfr. a argumentação do representante da Companhia de Seguros “O Alentejano” na ação decidida pelo STJ em 12/02/1969, RLJ, 103.º, pág. 169.

181 Os simples incómodos ou contrariedades não justificam a indemnização por danos não patrimoniais. 182 Segundo M

ENEZES CORDEIRO, Tratado de Direito Civil Português I, Parte Geral, Tomo III, Pessoas, Almedina, Coimbra, 2004, págs. 97-98, devem ser feitas diversas distinções dentro dos direitos de personalidade. Nesse sentido, teríamos, num primeiro grupo, direitos não patrimoniais fortes – por não admitirem a permuta por dinheiro – como o direito à vida e à integridade corporal; num segundo grupo, os direitos não patrimoniais mais fracos – que, não podendo ser permutados por dinheiro, podem ser objeto de negócios com algum alcance patrimonial – como o direito à saúde ou à integridade física; e, por último, teríamos direitos patrimoniais, avaliáveis em dinheiro e negociáveis no mercado, como, por exemplo, o direito ao nome ou à imagem.

183 Os danos patrimoniais englobam não só o dano emergente (ou perda patrimonial), ou seja, o prejuízo

causado nos bens ou direitos do lesado, mas também o lucro cessante, isto é, o benefício que o lesado deixou de obter por causa do facto ilícito – artigo 564.º do CC.

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ficheiros entre utilizadores, a potenciação do dano torna-se uma realidade na medida em que a dimensão dos danos que possam ser suportados por uma determinada esfera jurídica estará sempre dependente da difusão que exista do conteúdo. Isto é, o dano será tanto maior quanto maior for a capacidade de difusão do conteúdo ilícito a partir do local onde este foi colocado.

Pense-se no exemplo do Facebook, a maior rede social do mundo. Qualquer conteúdo que um utilizador coloque na sua página irá ser visualizado pelos seus “amigos”, os “amigos dos amigos”, ou até pelo público em geral, consoante as opções de privacidade que o utilizador em questão escolha. Assim, no caso de conteúdos ilícitos – que consubstanciem, por exemplo, ofensas à honra, ao bom nome, à intimidade da vida privada, ou ao crédito – a visualização por parte de todos os sujeitos referidos irá potenciar manifestamente o dano sofrido184.

Dessa forma, devem ser tidas em consideração todas as manifestações da potenciação do dano no momento de fixação da indemnização, de forma a que seja atribuído ao lesado um montante proporcional à referida potenciação, desde que, claro está, tal potenciação seja enquadrável na causalidade adequada do comportamento do agente, sob pena de não se verificar o necessário nexo de causalidade185.