4 DA RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES PRÉ-CONTRATUAIS DE
4.2 Extensão da tutela reparatória
4.2.1 Danos materiais: lucros cessantes e danos emergentes
O dano patrimonial:
é susceptível de avaliação econômica e, consequentemente, mais fácil restabelecer o status quo ante pelo ressarcimento do dano emergente (o que se perde) e lucro cessante (o que verossimilmente podia o credor contar com o curso ordinário das coisas ou conforme as circunstâncias particulares, aos arranjos e disposições efetuadas).281
Segundo Récio Eduardo Cappelari:
O dano material (damnum factum), também conhecido como dano patrimonial é o prejuízo que atinge exclusiva e diretamente o bem patrimonial da vítima consistindo na perda ou deterioração da coisa diminuindo seu valor, restringindo a sua utilidade ou mesmo anulando- o.282
Para fins de responsabilidade civil, o dano, para ser indenizável, deve-se traduzir em prejuízo, perda, deterioração de um bem ou diminuição de patrimônio. Não é relevante se ele possui natureza contratual ou extracontratual.283
279 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Op. cit., p. 71. 280
CAPPELARI, Récio Eduardo. Op. cit., p. 130.
281 OLIVEIRA, Paulo Eduardo Vieira de. O dano pessoal... Op. cit., p. 37.
282 JORGE NETO, Francisco Ferreira; CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa. Responsabilidade e
relações do trabalho. São Paulo: LTr, 1998, p. 56.
283 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: v. 4: responsabilidade civil. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2012, p. 303.
A perda ou diminuição do patrimônio pode ser vislumbrada nas relações de trabalho e na fase pré-contratual.
Em caso de quebra das tratativas preliminares, as quais não desembocaram no contrato principal, ou seja, na contratação do emprego, conforme eventual promessa havida anteriormente à recusa injustificada, deve o contratante indenizar o não contratado nos termos do quanto dispõe a lei civil.
A garantia do pagamento das indenizações está no patrimônio do devedor, tanto que o art. 942 do Código Civil estabelece que os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado, De forma semelhante, prevê o art. 591 do CPC que o devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros.284
No Direito do Trabalho, é indiscutivelmente reconhecido o direito à reparação por danos patrimoniais, por força do quanto dispõe os artigos 402 e 403 do Código Civil,285 cuja aplicabilidade é respaldada por força do quanto disposto no artigo 8º da Consolidação das Leis do Trabalho.
Os danos patrimoniais ou materiais a serem ressarcidos englobam os danos emergentes e os lucros cessantes.
O dano material carrega em si a ideia de perda e prejuízo. Subdivide-se naquilo em que se deixou de ganhar em razão do efeito danoso ou ainda no que se efetivamente perdeu. Acresça-se, ainda, o novo conceito de perda de uma chance em razão de situações excepcionais que conduzem a um prejuízo.286
O dano emergente se traduz pela perda de patrimônio. É aquele que mais se realça e é de natureza objetiva, já que depende unicamente de danos concretos para apuração do
284 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Op. cit., p. 308. 285
“Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar.
Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual.” 286 STOCO, Rui. Tratado de responsabilidade civil. 8. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 1.393.
valor a ser ressarcido.287
Récio Eduardo Cappelari aduz que:
A reparação das despesas efetivadas nas negociações é evidente, uma vez que tais despesas representam uma diminuição efetiva do patrimônio do lesado. É direito inconteste do contraente em face de sua confiança lesada imotivadamente. Alocam-se, neste espaço, todas as despesas efetivamente realizadas, as quais tinham como escopo a realização do futuro contrato.288
Devem ser indenizados os gastos dos contratantes com os deslocamentos para realização das tratativas, hospedagem, alimentação e outras despesas que se fizeram necessárias para a celebração do contrato preliminar não cumprido de maneira voluntária pelo promitente-empregador.
Da mesma forma, também deve se falar em indenização pelos danos emergentes causados pelo promitente-empregado com a seleção, no caso deste deixar de comparecer aos serviços na data aprazada ou, ainda, não cumprir com alguma estipulação pré- contratual, como, por exemplo, não frequentar um curso necessário para a realização das atividades para as quais foi contratado, que fora custeado pela empresa, nos termos do pactuado previamente.
Em contrapartida, os lucros cessantes são traduzidos no conceito daquilo que a vítima razoavelmente deixou de lucrar. Deve ser considerado o que a vítima teria recebido caso não tivesse ocorrido o dano. O critério para seu arbitramento deve ter caráter iminentemente objetivo.
Segundo Enéas Garcia:
“No âmbito da responsabilidade pré-contratual, é o lucro cessante representado pela perda concreta de um outro negócio em razão da parte confiar na conclusão daquele contrato que estava em negociação.”289
287 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: v. 4: responsabilidade civil. Op. cit., p. 42. 288 CAPPELARI, Récio Eduardo. Op. cit., p. 130.
289
Nas relações de trabalho, verifica-se a ocorrência do lucro cessante quando o empregado deixa seu emprego atual para assumir novo emprego, que, embora prometido, não se efetiva. Para Alice Monteiro de Barros:
O que importa é reconhecer a possibilidade de lucros cessantes mesmo em matéria pré-contratual, não nos moldes da responsabilidade contratual, mas, pelo menos, numa proporção que venha a constituir, por um lado, uma admoestação para o pré-contratante infiel, que pagando tão simplesmente as despesas a que deu causa, não restabelece o desequilíbrio ocasionado pela sua incúria, e, ao mesmo tempo, um incentivo para que volte a trilhar o caminho que conduzirá à conclusão da avença: por outro lado, um modesto consolo para a outra parte que depositou suas esperanças na conclusão do negócio entabulado, contando com vantagens que muito justamente considerava como certas.290
Há de se ter em mente que lucro cessante tem natureza objetiva e não pode se confundir com um lucro hipotético ou dano remoto que seria apenas uma consequência indireta do dano que implicou nos lucros cessantes.291
Alice Monteiro de Barros pontua que, na fase pré-contratual, as partes devem agir obedecendo aos princípios da lealdade e boa-fé. A infringência desses deveres, ao causar danos, implica em ressarcimento, seja do dano emergente, seja do lucro cessante, que consiste naquilo que poderia ter se obtido em outra contratação que não se consumou em razão da frustração da negociação.292