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2. ANTIÉTICA DO CAPITALISMO DA VIGILÂNCIA

2.2 DANOS PARA O INDIVÍDUO E PARA A SOCIEDADE

pessoas, os utilizadores têm tendência a compararem a sua vida com a dessas pessoas, o que pode acarretar determinados riscos.

5) Os cérebros dos seres humanos não são apenas sensíveis à comparação social, mas também à exclusão social. Processam a rejeição e a dor física utilizando alguns dos mesmos caminhos neuronais, isto é, os sentimentos que provocam

“dor” são processados de forma idêntica à dor física. Esta vulnerabilidade é explorada pelos algoritmos das redes sociais que selecionam as informações que recebemos de acordo com as nossas preferências, criando feeds personalizados para cada indivíduo, isolando-os em perspetivas limitadas onde lidam sozinhos com o medo da rejeição (Social Media and the Brain. Why is persuasive technology so hard to resist?, 2021).

2.2.1 Vícios Digitais

A dependência do ser humano por dispositivos e aplicações é cada vez maior (Zanatta &

Abramovay, 2019). As plataformas das redes sociais utilizam as mesmas técnicas que as empresas de jogos para criar dependências psicológicas e tais métodos são tão eficazes que podem ativar mecanismos semelhantes aos da cocaína no cérebro, criando desejos psicológicos e até invocar ‘notificações fantasma’, quando os utilizadores ouvem o som das notificações no telemóvel sem que estas tenham ocorrido (Busby, 2018).

“A arquitetura destas redes é viciante e a estrutura é uma estrutura de jogo e, portanto, nós acabamos presos. Isto é uma espécie de slot machine, estamos sempre à espera de colocar a moeda, a carregar no botão, à espera que nos saia um grande prémio (...).” (Saúde e bem-estar, 2021)

Anna Lembke, especialista líder mundial em vícios e chefe da clínica de dependência de diagnóstico duplo da Universidade de Stanford, onde já tratou pacientes viciados nomeadamente em heroína, videojogos, sexo e botox, refere-se ao smartphone como uma ‘agulha hipodérmica moderna’ à qual os indivíduos recorrem para procurar atenção, validação e distração (Waters, 2021). Para se perceber o vício, é necessário compreender a dopamina, “(...) um neurotransmissor envolvido na motivação para a ação, através da antecipação de como nos sentiremos depois de os nossos desejos serem satisfeitos” (Véliz, 2022, p. 73). A dopamina leva as pessoas a fazer coisas que acham que lhes vão trazer prazer e quanto maior a libertação de dopamina, mais viciante se torna o comportamento.

As redes sociais podem estimular a expressão e construção da identidade, mas geram também um fenómeno chamado FOMO ou ‘Fear of Missing Out’ (Zanatta &

Abramovay, 2019), isto é, a necessidade dos indivíduos de acederem constantemente às redes sociais para verificarem o que está a acontecer, com medo de perderem alguma coisa (The Social Dilemma – Bonus Clip: The Mental Health Dilemma, 2021).

Se a relação com as redes sociais se tornar viciante, assim que uma experiência acaba existe uma diminuição de dopamina no cérebro e a sensação de satisfação diminui cada vez mais, o que pode conduzir à depressão (Waters, 2021). A má qualidade do sono também pode ser um fator relevante. Um estudo realizado pelo departamento de psicologia da Universidade de Basileia confirmou que a utilização de dispositivos

eletrónicos antes de dormir se encontra relacionado com a depressão na adolescência, uma vez que estes provocam uma má qualidade do sono, com influência no estado depressivo (Lemola et al., 2014). O estudo “Social Media Use and Adolescent Mental Health: Findings From the UK Millennium Cohort Study” prova que, para além da má qualidade do sono, também o assédio online, a baixa autoestima e o descontentamento com a aparência, provocados pela utilização das redes sociais, contribuem para a existência de sintomas depressivos (Kelly et al., 2019). O facto de a tecnologia permear cada vez mais a vida dos seres humanos tem vindo a provocar diversas consequências na sua felicidade, autoimagem e saúde mental (Ledger of Harms, 2021).

2.2.2 Importância da privacidade

As operações inerentes aos métodos capitalistas são projetadas para evitar que as pessoas se apercebam que os seus comportamentos estão a ser vigiados e manipulados, fazendo com que a sua privacidade, mas também as democracias, estejam a ser colocadas em risco pelos abusos de poder, tanto dos governos como das grandes empresas (Zuboff, 2019).

Shivam Sinha (2020) refere dois tipos de razões, ideológicas e práticas, pelas quais os indivíduos se devem preocupar com a sua privacidade, mesmo que não tenham nada a esconder. Ideologicamente, a privacidade é um direito humano e, tal como o direito à liberdade de expressão, nem sempre existiu. Não devemos confundir privacidade com segredo, pois um indivíduo pode não ter nada a esconder, mas continua a ter direito à sua privacidade. Por exemplo, ações como fechar a porta quando se vai à casa de banho ou colocar uma palavra-passe no telemóvel são decisões que os indivíduos tomam porque querem privacidade e não necessariamente por terem algo a esconder. Em termos práticos, a informação que chega às mãos erradas torna-se perigosa. Os cidadãos podem não se importar que determinadas plataformas tenham acesso aos seus dados pessoais, mas se porventura tais plataformas forem hackeadas e outras pessoas ou empresas tiverem acesso a essa informação, os indivíduos podem ficar em situações vulneráveis, tanto no momento presente como no futuro. Tal como refere McFarland (2012), se forem reveladas informações pessoais confidenciais sobre determinado indivíduo, tais como registos médicos, judiciais, financeiros ou de bem-estar, testes psicológicos, entrevistas ou sites visitados na internet, este pode ficar vulnerável a diversos abusos e ser prejudicado de variadas formas. “É esse vínculo orgânico entre a vanguarda da inovação

democrática que está a fazer da privacidade o tema mais importante da defesa dos direitos humanos pelo mundo” (Zanatta & Abramovay, 2019, p. 423).

A ausência de privacidade significa que outros têm na sua posse informação pessoal, o que lhes confere poder sobre eles e coloca em causa as democracias. Para que as democracias funcionem é necessário que os indivíduos sejam autónomos, mas para que a sociedade tenha indivíduos autónomos é necessário existir privacidade para proteger os cidadãos de pressões e abusos de poder (Véliz, 2022). A autonomia faz parte da questão mais ampla da dignidade humana e, para a salvaguardar, os indivíduos não devem ser tratados como meios utilizados para atingir um fim (McFarland, 2012). Não são os segredos dos cidadãos que se encontram no cerne da inovação tecnológica contemporânea, mas sim a autonomia de cada indivíduo e o controle que este exerce sobre a sua própria vida (Zanatta & Abramovay, 2019).

2.2.3 Enfraquecimento das democracias

Segundo o Grupo de Assessoria Ética da Autoridade Europeia de Proteção de Dados, ameaças à autonomia dos indivíduos na era digital atual incluem a desinformação e práticas de marketing político, as quais influenciam as suas escolhas, comportamentos e emoções, não lhes permitindo tomar decisões autónomas (“Towards a digital ethics,”

2018). A desinformação enfraquece as democracias na medida em que compromete a tomada das decisões bem informadas pelos indivíduos (Mesquita et al., 2019). O termo

‘fake news’ pode ser enganador na medida em que uma notícia, por definição, não é falsa:

as suas narrativas é que podem conter “(...) conteúdos ou informações falsas, imprecisas, enganadoras, concebidas, apresentadas e promovidas para intencionalmente causar dano público ou obter lucro” (idem: 1), para além de que a "[d]emocracia não se restringe à opinião para votar no candidato A ou no candidato B, é sobre estar bem informado acerca do que os candidatos realmente defendem” (The Social Dilemma – Bonus Clip: The Democracy Dilemma, 2021).

Os governos utilizam cada vez mais as redes sociais para manipular a opinião pública para seu próprio benefício, nomeadamente para propagar a desinformação e a publicidade ou para incitar ao ódio ou a oposição política. A criação de anúncios personalizados e direcionados para grupos pequenos e específicos de pessoas permite a determinadas campanhas manipular pequenos segmentos da população a tomar determinadas decisões, tais como votar num determinado candidato (ou não exercer o

direito ao voto), para além de gastar dinheiro em determinado produto ou serviço (The Social Dilemma – Bonus Clip: The Democracy Dilemma, 2021).

Figura 4: A ponta do iceberg: os danos visíveis da tecnologia. Adaptado de Carlton & Bridge, 2022.

É a interação da tecnologia com determinadas forças motrizes que provoca danos visíveis na sociedade. Estas forças motrizes são os modelos mentais, as estruturas e os comportamentos da sociedade que “(...) fazem parte de um sistema dinâmico e mutável com ciclos de feedback entre as próprias forças, bem como os danos que estas geram”

(Carlton & Bridge, 2022).

Estamos perante uma sociedade em que o foco na comunicação digital curta prejudica os relacionamentos, provocando menos empatia, mais confusão e más interpretações. Enquanto isso, a política e as eleições são cada vez mais polarizadas pelos diálogos distorcidos por algoritmos que promovem desinformação, conspirações e notícias falsas, mais do que pela publicidade generalizada.

CAPÍTULO III

3. PAPEL DO DESIGN DE COMUNICAÇÃO NA DEFINIÇÃO DAS REDES

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