Seção III Das Obras e Serviços
1.9 Das compras públicas
Esta Seção dispõe sobre a forma de se proceder às compras para a Adminis- tração Pública e em especial sobre o Sistema de Registro de Preços (SRP), que é uma forma de aquisição de compras públicas que se caracteriza por uma compra e entrega parceladas.
Art. 14. Nenhuma compra será feita sem a adequada caracterização de seu objeto e indicação dos recursos orçamentários para seu pagamen- to, sob pena de nulidade do ato e responsabilidade de quem lhe tiver dado causa.
Art. 15. As compras, sempre que possível, deverão:
I - atender ao princípio da padronização, que imponha compatibilidade de especificações técnicas e de desempenho, observadas, quando for o caso, as condições de manutenção, assistência técnica e garantia oferecidas;
II - ser processadas através de sistema de registro de preços;
III - submeter-se às condições de aquisição e pagamento semelhantes às do setor privado;
veitar as peculiaridades do mercado, visando economicidade;
V - balizar-se pelos preços praticados no âmbito dos órgãos e entidades da Administração Pública.
§ 1º O registro de preços será precedido de ampla pesquisa de mercado. § 2º Os preços registrados serão publicados trimestralmente para orien- tação da Administração, na imprensa oficial.
§ 3º O sistema de registro de preços será regulamentado por decreto, atendidas as peculiaridades regionais, observadas as seguintes condi- ções:
I - seleção feita mediante concorrência;
II - estipulação prévia do sistema de controle e atualização dos preços registrados;
III - validade do registro não superior a um ano.
§ 4º A existência de preços registrados não obriga a Administração a firmar as contratações que deles poderão advir, ficando-lhe facultada a utilização de outros meios, respeitada a legislação relativa às licitações, sendo assegurado ao beneficiário do registro preferência em igualdade de condições.
§ 5º O sistema de controle originado no quadro geral de preços, quando possível, deverá ser informatizado.
§ 6º Qualquer cidadão é parte legítima para impugnar preço constante do quadro geral em razão de incompatibilidade desse com o preço vi- gente no mercado.
§ 7º Nas compras deverão ser observadas, ainda:
I - a especificação completa do bem a ser adquirido sem indicação de marca;
função do consumo e utilização prováveis, cuja estimativa será obtida, sempre que possível, mediante adequadas técnicas quantitativas de estimação;
III - as condições de guarda e armazenamento que não permitam a de- terioração do material.
§ 8º O recebimento de material de valor superior ao limite estabelecido no art. 23 desta Lei, para a modalidade de convite, deverá ser confiado a uma comissão de, no mínimo, 3 (três) membros.
Na sequência, vamos esclarecer melhor os artigos 14 e 15 que tratam das compras públicas.
O artigo 14 dispõe sobre a caracterização adequada do objeto a ser licitado, seja um bem, um serviço ou uma obra, ressaltando que o mesmo deve ser descrito de forma clara e objetiva com todas as características desejadas pela Administração, a compra deve ainda conter a indicação dos recursos orçamentários para o respectivo pagamento, ou corre-se o risco de nulidade do ato.
O artigo 15 ao dispor que “sempre que possível”, quer dizer, na interpre- tação de grande parte da doutrina, que as compras deverão observar estes preceitos, só não os aplicando quando não for viável, ou seja, deve-se inter- pretar este “sempre que possível” como uma obrigação ao administrador, devendo ser justificada a sua não observação.
O inciso I cita o princípio da padronização, que é um procedimento admi- nistrativo um tanto quanto complexo, que ocorre quando a Administração, mediante uma série de medidas e atos devidamente documentados decide por adquirir um produto de determinada marca, que foi padronizada, aplica- -se basicamente nas compras de bens.
O inciso II menciona o Sistema de Registro de Preços (SRP) que é uma forma de aquisição por meio das modalidades de Concorrência ou Pregão, que serão analisadas posteriormente.
O inciso III ressalta que as condições de aquisição e pagamento assemelhem- -se às do setor privado, no intuito de que as compras primem pela agilidade e eficiência que são características do setor privado, eliminando burocracias
desnecessárias e agilizando os pagamentos, com o objetivo de tornar as compras públicas mais econômicas.
O inciso IV trata do fracionamento das aquisições com o objetivo de auferir vantagens para a Administração, ampliar a competitividade, com o pressu- posto que licitações de menor porte atrairiam um maior universo de licitan- tes, com a participação de pequenas e médias empresas.
O inciso V prevê que os preços ofertados numa licitação devem ter como parâmetro aqueles praticados nos demais órgãos e entidades da Administra- ção, além daquele responsável pela realização da licitação. Devem ser ana- lisadas certas condições como: local de entrega, condições de pagamento, especificações diferenciadas.
Trataremos agora, mais detalhadamente, sobre o Sistema de Registro de Preços.
• O Sistema de Registro de Preços (SRP)
É uma das alternativas mais úteis nas contratações colocadas à disposição da Administração Pública, conceituado como
Um contrato normativo, constituído como um cadastro de produtos e fornecedores, selecionados mediante licitação, para contratações su- cessivas de bens e serviços, respeitados lotes mínimos e outras condi- ções previstas no edital. (JUSTEN FILHO, 2010, P. 189)
No SRP há uma relação de empresas juntamente com a especificação dos produtos que podem ser objetos de futuras contratações, devem ser realiza- das mediante as modalidades de Concorrência e Pregão (modalidades que serão posteriormente analisadas).
Pelo SRP a Administração recorrerá aos fornecedores que possuem os preços registrados sempre que precisar dos produtos ou serviços previstos na lici- tação, será então elaborado o respectivo empenho e/ou contrato para cada fornecimento, sem qualquer compromisso em contratações futuras.
O SRP possui várias vantagens a começar da eliminação de sucessivas licita- ções cujo objeto seja semelhante, com isso, evitam-se o desgaste de muitos processos licitatório e recursos administrativos. Outra vantagem seria a agili-
dade na contratação, no que tange aos recursos financeiros, que podem ser liberados a posteriori. Estando a licitação pronta, não é necessário reservar a dotação orçamentária, esta será liberada na medida da solicitação dos bens ou serviços.
O prazo de validade das propostas de preços é outra vantagem do SRP, en- quanto neste é estipulado o prazo de um ano, nas licitações, quando não utilizam o Registro de Preços, geralmente, possuem prazo de validade de 60 dias (art. 64, § 3º), na prática significa que a Administração possui o prazo de 60 dias para a contratação, findo esse prazo, o licitante não possui mais obrigação com a Administração, no SRP este problema é eliminado, com o prazo de validade bem dilatado.
A quantidade estipulada na licitação também é uma vantagem do SRP em relação à licitação “comum”, nesta, deve-se estimar os quantitativos e estes são limitados pelo art. 65, § 1º da Lei 8.666/93 (25% a mais ou a menos do quantitativo previsto na licitação), no SRP os quantitativos são estimados, porém, a Administração pode solicitá-los na quantidade que necessitar (sem limite mínimo, porém limitada a 25% de acréscimo do quantitativo).
O SRP pode ser adotado também para a prestação de serviços, consagrado pelos Decretos Federais 3.931/2001 e 4.342/2002, que só possuem compe- tência para regulamentar a matéria nos órgãos da União, os demais entes (Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios) deverão elaborar seus pró- prios regulamentos para aplicação do art. 15, ou aplicá-lo como se encontra. O SRP é aplicado geralmente para contratações frequentes (material de es- critório, material de limpeza, alimentação escolar, etc.) onde se exigiriam vá- rias licitações para atendimento das necessidades; aqueles produtos/serviços de execução parcelada; produtos de quantitativos imprevisíveis (combustível, medicamentos, etc.); participação conjunta de entidades administrativas (li- citação realizada para atendimento de mais de um órgão).
Órgãos não integrantes do SRP podem utilizar-se deste, é o chamado “caro- na”, basta que se manifestem junto ao órgão que realizou o procedimento, a intenção desta utilização, posteriormente comunicará à empresa detentora do registro, se esta concordar em fornecer o produto nas condições avença- das no SRP formaliza-se o procedimento. Não obstante, há um limite que é 100% do quantitativo previsto no SRP, ou seja, o “órgão carona” não pode adquirir quantidade superior que a prevista no edital do Registro de Preços,
parte da doutrina considera tal prática como ilegal, mas o próprio TCU já se utilizou do método.
Para empregar o Sistema é imprescindível uma pesquisa ampla de mercado para definição do estimativo. Os valores obtidos pelo SRP deverão ser devi- damente publicados na imprensa oficial (Diário Oficial da União, dos Esta- dos ou dos Municípios, onde houver). Se houver alteração nos preços para baixo ou para cima, caberá à Administração realizar as pesquisas e alterar, se considerar que os novos valores apurados encontram-se dentro daqueles cobrados no mercado.
• Demais exigências para as compras
O § 7º veda a indicação da marca no objeto a ser adquirido, este objeto deverá ser especificado de forma clara, precisa, mas sem qualquer indicação de seu fabricante ou marca, não obstante, o TCU admite que sejam citadas algumas marcas, como forma de parâmetro de qualidade mínima exigível, as indicações das marcas devem ser seguidas dos termos “similar” ou “equi- valente”, “ou de melhor qualidade” (Acórdão nº. 1.146/2010 - 2ª Câmara). A definição das unidades e quantidades é outra condição essencial na ela- boração das compras, contratação de serviços ou na execução de obras, é inconcebível que a Administração elabore um instrumento convocatório sem a explicitação da unidade e quantidade daquilo que se almeja adquirir, ficando os interessados sem parâmetros para elaboração das propostas. A capacidade de armazenamento que o órgão dispõe deve ser igualmente considerada, não podendo comprar produtos que não se tem onde guardar. O art. 8º prevê que o recebimento de material com valor superior à modali- dade convite (R$ 80.000,00) será de responsabilidade de uma comissão de no mínimo 3 membros. Na prática sabemos que isso não ocorre devido à escassez de servidores, fato comum na Administração Pública, geralmente, este recebimento fica a cargo de um almoxarife ou outro servidor treinado para conferir os produtos.
Art. 16. Será dada publicidade, mensalmente, em órgão de divulgação oficial ou em quadro de avisos de amplo acesso público, à relação de todas as compras feitas pela Administração Direta ou Indireta, de ma- neira a clarificar a identificação do bem comprado, seu preço unitário, a quantidade adquirida, o nome do vendedor e o valor total da operação,
podendo ser aglutinadas por itens as compras feitas com dispensa e inexigibilidade de licitação.
Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos de dispensa de licitação previstos no inciso IX do art. 24.
Esta regra pouco é cumprida pelos órgãos públicos, a uma porque possui efi- cácia reduzida, vez que não existe qualquer penalidade pelo seu descumpri- mento, a duas porque com o avanço dos meios tecnológicos, grande parte das compras é publicada na internet (pregão, p. ex.) e mesmo na imprensa oficial, desta forma, a aplicação deste artigo na prática se mostra pratica- mente inexistente.
Continuando nossa aula, vamos tratar das alienações.