Foto 15 Apresentação da roda do Samba Vai de Virá na comunidade Tabua Grande
3 A SINGULARIDADE DA DANÇA: CORES, CANTO E RITMO NA RODA
3.3 DAS CORES
“A ema pisou na vereda Cadê o meu lenço de seda”.
De acordo com os participantes, não existe uma regra na roda do samba do Vai de Virá em relação à vestimenta, aos adereços e às cores da roda. A indumentária e os enfeites são usados para as apresentações fora da comunidade de Tabua Grande, enquanto que durante as apresentações na comunidade, as pessoas participam da roda do samba com roupas do próprio cotidiano, aquelas usadas no próprio trabalho ou para passear, conforme constata Neguinho:
No início não usava a roupa como uma farda do Vai de Virá, o uso da roupa colorida foi uma influência da Fundação45, Dona Nice, que falou que era pra nós usar a farda, aí mandou fazer a roupa colorida, a farda. Mas não tinha farda não, nóis dançava com a roupa nossa mesmo, era assim. Dançava com a roupa nossa e não dançava com sapato não, era com os pés no chão, descalce mesmo (Neguinho).
Como já citado, o uso de adereços não é uma regra para o grupo do Vai de Virá. Não havia uma preocupação com a vestimenta, pois o samba constituía uma manifestação cotidiana e espontânea, não seguia uma prática cultural que exigisse roupas adequadas. O Vai
de Virá fazia parte das atividades de lazer da comunidade de Tabua Grande, era dançado nas
casas e nos terreiros, com roupas comuns. Mas, como o samba passou a ser apresentado em locais públicos, o grupo, junto com a Fundação Joaquim Dias Guimarães, na pessoa de Dona Nice Amaral, sentiu a necessidade de um vestuário para o grupo.
Assim, eles passaram a fazer uso de roupas coloridas, semelhantes às características do samba de roda do Recôncavo baiano, onde as mulheres usam saias compridas, franzidas na cintura com elástico e rodadas, que transmitem os movimentos e as expressões do corpo e proporcionam a mobilidade aos quadris, principalmente, quando elas giram na roda. Dentre os participantes de Vai de Virá, como Dona Maria é conhecida pelos movimentos de sua saia, segundo o relato de Dona Nice:
É a coisa mais linda o Vai de Virá, todo mundo fica dançando, cada um apresentando mais solto. Aquela Maria, irmã de Otelino, hoje ela não aguenta mais, a roda dela, ela fazia assim com a saia (ela levanta e roda a saia), ia na cabeça. Esse Meneses que era o Secretário de Cultura de Salvador se encantou com a nega Maria, era bonito demais! (D. Nice).
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Para Sandroni, “a imagem do corpo das sambadeiras em movimentos simultâneos, sacudindo os ombros, remexendo os quadris, girando e segurando a saia rodada, produz no espectador uma sensação estética de vitalidade e bem-estar” (2006, p.60). Assim, sambar é uma demonstração de que o corpo está vivo, expressando alegria, habilidade e vontade. Arriscamos dizer que sambar não requer apenas gostar de samba, vai muito além do gostar, é preciso se entregar ao samba de corpo e alma. Ao participar de uma roda de samba, quem gosta de sambar não se questiona se vai sambar ou não, simplesmente, samba. O samba pertence ao corpo, o samba é o corpo e se faz presente nos movimentos espontâneos do corpo, no sorriso e no olhar, transformando a roda de samba em um espaço onde a linguagem exercida é a linguagem corporal. Na roda é o corpo que fala, que expressa alegria, o belo, a habilidade e a técnica, mas também a dor e o cansaço do trabalho, das marcas da história e do tempo, revestido pelas roupas coloridas e pelos adereços, que dão cores e forma ao samba de roda.
O uso das saias compridas, franzidas na cintura, com várias camadas de babados e rodadas, confeccionadas em tecidos estampados em cores vivas e contrastantes, nos apresenta traços de uma cultura tradicional baiana. De acordo com Sandroni (2006), é um traje típico baseado na simbologia da baiana, ou seja, trajes que carregam em si traços de uma identidade, de um lugar, de uma história, de um tempo, ou, quem sabe, de uma classe.
As saias grandes, né, eles sabiam que pra poder (pausa) oh, “Arriba a saia muié, não deixa a saia moiar, a saia custa dinheiro, dinheiro custa ganhar. Arriba a saia muié, não deixa a saia moiar, a saia custa dinheiro, dinheiro custa ganhar.” É a vida, não é? E aquela saionar rastando no chão, porque eles viam lá dentro aquelas saias, a mais linda das, das garotas, das senhoras, das sinhás-moças, das sinhás...aquelas roupas mais lindas (D. Nice).
De acordo com o relato de D. Nice, o uso das saias longas e rodadas pelas sambadeiras, além de proporcionar beleza e leveza aos movimentos, nos reportam a uma realidade histórica e cultural, na qual se inscreve a história de escravidão no Brasil, quando as mulheres, ou melhor, as sinhás vestiam as saias longas e volumosas, que acentuavam as curvas do corpo. Enquanto isso, nas senzalas as mulheres escravas reproduziam o modelo das roupas usadas pelas sinhás; mesmo sem disporem de tecidos mais sofisticados, confeccionavam suas roupas com tecidos de algodão, que muitas vezes, eram resultado do trabalho da produção do próprio algodão, cultivado por elas. Dessa forma, as roupas saíram das casas grandes e das senzalas e ganharam as rodas de samba. Com o tempo, as sambadeiras passaram a utilizar as saias compridas, confeccionadas em tecidos estampados, com cores
vivas e alegres, a fazer uso de babados, bordados, rendas e adereços, apresentando características da cultura africana.
As mulheres também utilizam brincos e colares coloridos e, além das saias coloridas, geralmente, com tecidos estampados,usam blusas folgadas, com ou sem babados no decote e nas mangas, de cor lisa ou cores contrastantes com o tecido da saia.
Assim como as mulheres, os homens também se apresentam com o uniforme ou com a “farda”, expressão usada pelo próprio grupo. As camisas, geralmente, são em tecido liso, da mesma tonalidade do tecido das blusas das mulheres, ou em forma de contraste com o tecido das saias. As calças usadas são confeccionadas em tecido de algodão, são franzidas na cintura. Em relação aos calçados, observamos que tanto os homens quanto as mulheres aparecem calçados e descalços na roda do samba. Não importa o lugar da apresentação, não há regras para o uso de calçados, podendo os foliões optarem ou não por esse acessório.
As cores da roda do Vai de Virá são cores fortes, alegres e de contraste, como o azul e o amarelo, o vermelho e o verde. As combinações das cores, aparentemente, não seguem nenhum padrão estético especial, e também não seguem nenhuma tendência de moda atual.
Foto 12: A presença das cores vibrantes da roda do samba do Vai de Virá. Fonte: PAUDARQUE, Armando Ladeia. Junho, 1993.