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CAPÍTULO 1 ESCOLA, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE

1.2 Das especificidades do conceito de periferia

A periferia (também subúrbio) é uma fragmentação do espaço urbano, apresenta- se como margem e remete a um território impreciso e não consolidado. A periferia enquanto subúrbio pode emergir da espontaneidade da ocupação popular, caso em que se consagra, com frequência, uma região carente de infraestrutura, o que colabora para o

23 caráter negativo que lhe está associado. Nesse sentido, Domingues (1994) refere que é o grau de afastamento do centro que condiciona a posição periférica, numa relação em que quanto maior é a visibilidade, o poder e a clareza dos atributos das condições centrais, maior é o estatuto de periferia.

No que se refere à questão do espaço suburbano enquanto dicotómico, Van Zanten (2001) observa que a desqualificação dos subúrbios em França, por exemplo, decorre da conjunção da crise do emprego com a imigração em massa de sujeitos provenientes de antigas colónias do país. Combinados, estes fenómenos colaboram para uma desqualificação do espaço geográfico, que sofre efeitos de uma degradação social em maior escala, a das cidades. Com a escalada no número de desempregados, constrói-se então um cenário em que se relega aos subúrbios o caráter de indesejado, de repulsa, o que também contribui para uma explosão da violência e do racismo.

Ocorre que, num segundo momento, a revitalização de centros históricos nas regiões suburbanas vem a despertar o interesse das classes médias por estas áreas, fazendo com que as classes desfavorecidas sejam empurradas para locais ainda mais distantes, ocasionando uma nova periferia. Nesses lugares, observa Van Zanten (ibid.), é notável a escassez de recursos em termos de transportes e nas esferas desportivas e culturais. É um momento de crise em que as políticas locais passam a privilegiar ações de prevenção, inserção social e profissional, bem como um trabalho contra a exclusão, explica a autora. Este processo de reconfiguração suburbana também se repete nos Estados Unidos, país onde o subúrbio fora, por longa data, parte incipiente do projeto de vida da classe média americana (cf. Domingues, 1994), razão pela qual devemos estar atentos para não usar deliberadamente os conceitos de periferia e subúrbio, como se fossem espaços sinónimos. É preciso prestar atenção, todavia, para o facto de que o conceito de periferia, bem como sua relação com um centro podem ser pensados em planos distintos, do local ao regional, do micro ao macro. Se por um lado, as cidades em si podem constituir um núcleo de estudo dos sentidos da periferia, por outro, os blocos geográficos alargados face a um mundo globalizado, também, podem emergir como fontes poderosas para se pensar os significados e a coerência de zonas intituladas marginais, sensíveis. Na Europa, segundo Heikkinen (2001), a questão do centro e da periferia volta a ser relevante e atual, em virtude dos fluxos migratórios que se observam entre as diferentes cidades e os distintos países, sejam eles países membros da União Europeia ou não. De acordo com a autora, os referidos fenómenos têm promovido a emergência de novas culturas de classes sociais

24 e formas de vida, de modo que as distinções feitas a partir do ponto de vista étnico remetem apenas a um aspeto singular.

A propósito das questões de organização urbana e possíveis movimentos de segregação face a processos de escolarização, Van Zanten (2005) também refere que muitas cidades europeias passaram por mudanças profundas nos últimos quarenta anos, destacando a questão da mobilidade e da mistura étnica e social. No caso dessas duas mudanças, aponta dois desdobramentos. O primeiro relaciona-se com o ambiente social dos bairros e escolas onde as crianças crescem, que pode ser lido sob a forma de capital social individual ou coletivo, no sentido de que a composição social e étnica tem impactos na socialização da criança. A segunda questão se refere ao acesso a diferentes instituições educativas, de acordo com a localização. A autora chama a atenção para o facto de que a localização é bastante importante porque os pais tendem a matricular seus filhos próximos de casa e, ainda, porque em muitos países as crianças devem ser matriculadas de acordo com o seu local de residência. Nesse sentido, Van Zanten (ibid.) demarca a ocorrência de dois fenómenos, a segregação, e a agregação, que acontece quando as classes mais altas se associam em determinadas zonas, gerando uma acumulação de capital cultural e económico, o que produz capital social valioso para as vizinhanças e escolas de seus membros.

No seio de uma abordagem micro, Silva (2010) aponta a possibilidade que a periferia tem de ela própria também se tornar um espaço de centro, a partir de dinâmicas que constituam um foco que não o da localidade. É o caso das relações dinamizadas num espaço específico. Uma determinada instituição periférica pode se tornar um centro a partir do sentido de núcleo que adquire nas relações constituídas com os sujeitos que com ela interagem e os arredores que a cercam. A autora, ao evidenciar este movimento, demonstra uma clara intenção de destacar o facto de que a periferia não é singular ou uniforme (cf. Domingues, 1994). Há um número de dinâmicas que se passam no seio da periferia que permitem que ela própria desenvolva outras, de caráter local e, portanto, definido em contexto. Das questões educativas, entretanto, não podemos negar que, até certo ponto, o meio sociocultural é regulador e, inclusive, disciplinador das expetativas juvenis, conforme afirma Costa (2013). Para a autora, os meios socioculturalmente mais desfavorecidos seriam, se não preditores, pelo menos condicionadores do tipo de expetativa que o jovem pode conceber face à escola (ver Keddie, 2012).

Em contraposição aos centros e numa posição afastada da semiperiferia, observamos que nos países periféricos, definição relativa à ordem económica, o

25 desenvolvimento desigual entre regiões e a concentração dos meios de produção e de renda são fenómenos imperativos. Heikkinen (2001) relata que tanto na produção de políticas como nas pesquisas em educação, as noções de centro e periferia são fundamentadas numa interpretação da educação e formação e seus respetivos impactos económicos. A autora destaca que a teoria do capital humano ainda é uma perspetiva habitual no desígnio das relações de marginalização, de modo que os países de centro são assim determinados mediante a sua atuação superior em mercados globais enquanto as periferias se definem em função da marginalidade que representam nos mercados e dos baixos índices de produtividade.