DO PROGRAMA PELA EMISSORA
1.3.1 Das interações face a face no gênero programa de auditório
Um dos objetivos do gênero programa de auditório assinalados por Aronchi de Souza (2004) é a aproximação entre apresentador e público, que se dá, principalmente, por meio das diversas interações face a face que acontecem no curso da gravação: no auditório, entre apresentador e convidados de palco e entre apresentador e alguns sujeitos da plateia; e/ ou nos quadros externos entre entrevistador e entrevistados.
Em ambos os contextos, interna ou externamente ao auditório, acreditamos que essas interações face a face, embora sejam conversações, não podem ser categorizadas genericamente como conversas espontâneas, como as cotidianas (GOFFMAN, 2002), embora em algumas situações possam até parecer em virtude da informalidade de alguns programas de auditório.
Em ambos os programas de auditório que constam do corpus deste trabalho-
Manos e Minas e Altas Horas - as interações face a face dizem respeito, na verdade, a
entrevistas nas quais interagem o apresentador do programa com vários convidados de palco e da plateia no auditório e o apresentador do programa (no Manos e Minas também há apresentadores de quadros específicos) e sujeitos nos quadros diversos. No gênero programa de auditório, portanto, temos o fenômeno da hibridização de que trata Kress (2003) apud Marcuschi (2005), por recorrer a outros gêneros para a sua produção.
Para Fávero et al. (2010), a entrevista televisiva é um evento particular de interação social, uma prática social complexa que combina dois frames interativos distintos: a entrevista e a mídia, nos quais os esquemas de participação e os objetivos dos participantes são sempre específicos.
Segundo Antona (1995), no artigo Typologie des trilogues dans le émissions
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(i) entrevista; (ii) debate; (iii) a interação face a face e (iv) a conversação/discussão. Sobre a entrevista, a autora explica que existem duas variantes de entrevistas: na primeira, há um apresentador e dois convidados para estabelecer relações complementares, mas o tipo de atividade (pergunta, resposta) e os papéis dos interlocutores a diferenciam da interação face a face; já na segunda, tem-se dois entrevistadores e um convidado, como em casos de entrevistas com políticos, visando a uma maior objetividade da entrevista. Tanto em Manos
e Minas quanto em Altas Horas a entrevista é feita por um apresentador/entrevistador com
vários convidados, inserindo-se, portanto, na primeira ―variante‖ de entrevistas televisivas. A fim de na análise proposta no capítulo 4 deste trabalho apresentarmos (i) como as temáticas dos programas são evidenciadas pelas entrevistas que se dão no curso da produção dos programas e (ii) como o papel definido a cada interactante nessas entrevistas também explicita uma coordenação das interações que pode afetar o gerenciamento tópico além de evidenciar como a estruturação de cada programa também se estende às interações, é necessário aqui nos valermos das teorizações da Sociolinguística Interacional e da Semântica da Enunciação que versam sobre as estruturas de participação em situações de fala (GOFFMAN, 2002a, 2002b, e KERBRAT-ORECCHIONI, 1995), e da teorização da Linguística Textual sobre a dinâmica das interações especificamente nas entrevistas televisivas (FÁVERO et al., 2010).
Sobre a noção de interação face a face, compartilhamos do entendimento de Fávero et al. (2010, p. 93) de que
―no sentido genérico de comunicação verbal realizadas entre interlocutores que se encontram in praesentia, pode ocorrer em situações diversas e, dependendo das particularidades dessas situações e dos propósitos comunicativos nelas envolvidos, consubstanciam-se diferentes gêneros textuais, mediados pela fala. No entanto, em pesquisas sobre língua falada, a expressão ‗interação face a face‘ tem sido empregada como equivalente à conversação, enquanto gênero prototípico de fala, por ser marcado acentuadamente por uma oralidade conceptual.‖
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Goffman (2002a, p. 20), ao chamar a atenção dos estudiosos da linguagem para
a situação negligenciada, a situação engendrada na interação face a face24, afirma que ―a interação face a face tem seus próprios regulamentos; tem seus próprios processos e sua própria estrutura, e eles não parecem ser de natureza intrinsecamente linguística, mesmo que frequentemente expressos por um meio linguístico‖. Para o autor, em uma dada
situação social de agrupamento25- de pessoas - em que os programas de auditório se inserem, embora a participação em um agrupamento sempre pressuponha limites e organização, ―existem certas combinações sociais, de todos ou alguns dos presentes, que
pressupõem uma maior ou mais extensa estruturação de conduta‖ (op. cit., p. 17).
No que se refere às estruturas de participação discutidas por Goffman (2002b), interessa-nos a discussão acerca das diversas maneiras como os participantes se inter- relacionam, ou seja, os papéis que assumem na interação, definidos, pelo autor, como
footing, o alinhamento, a postura, a posição, a projeção do ―eu‖ de um participante na sua
relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção. Interessa-nos, também, a distinção de Goffman (2002b) relativa a contextos de fala em tribunas, nos quais quem escuta é uma plateia fisicamente mais afastada do falante que um ouvinte em uma conversa cotidiana.
Para o autor, entre a plateia que escuta do rádio ou da televisão e a que testemunha a fala ao vivo reside uma diferença importante: esta é co-participante numa mesma ocasião social, suscetível a toda estimulação mútua que a ocasião oferece, e aquela só pode se unir à plateia do programa na estação difusora de modo secundário e intermediado; além de os interlocutores que compõem essa plateia serem imaginados e não visíveis para o falante. Essa explicação será bastante produtiva no sentido de não negligenciarmos o papel de cada participante, ainda que não visível, nas interações de cada programa de auditório aqui analisado – Manos e Minas e Altas Horas. Isso porque, nas
24 A definição mais extensiva de situação social para o autor é: ―um ambiente que proporciona possibilidades
mútuas de monitoramento, qualquer lugar em que um indivíduo se encontra acessível aos sentidos nus de todos os outros que estão ―presentes‖, e para quem os outros indivíduos são acessíveis de forma semelhante (op. cit., p. 17)
25 Esse agrupamento, nas palavras de Goffman (2002, p. 17), diz respeito a uma ―referência coletiva às
pessoas em uma dada situação‖. Nos programas de auditório, há esse agrupamento de sujeitos cujos papéis são diferenciados, considerando-se as interações que ali ocorrem: apresentador, convidados de palco e de plateia e sujeitos entrevistados nos quadros.
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palavras de Fávero et al. (2010, p. 137) ―todos os destinatários têm papel importante na
interação, não se podendo negligenciar nenhum deles, mesmo os indiretos‖.
A linguista Kerbrat-Orecchioni (1995), por sua vez, também trata das estruturas de participação em situações de fala ao teorizar sobre o trílogo, que se difere do dílogo, interação que envolve somente dois sujeitos em uma dada situação. Kerbrat-Orecchioni (1995) concebe o trílogo como uma troca comunicativa que se desenvolve no seio de uma tríade, isto é, de um conjunto de três locutores. Tendo em vista a participação dos sujeitos posicionados no palco e na plateia e dos sujeitos que assistem de outro lugar ao programa26, no curso de todas as interações no auditório, entendemos que nessas interações tanto em
Manos e Minas como em Altas Horas há, portanto, trílogos.
Segundo Kerbrat-Orecchioni (1995), recuperando os conceitos de destinatário direto e destinatário indireto27 discutidos por Goffman em Forms of Talk (1981), pode-se estabelecer, três esquemas de elocução no trílogo:
Além das formas de interação a três apresentadas acima, Kerbrat-Orecchioni (1995) admite, ainda, a possibilidade de que o trílogo divide-se, formando a interação do tipo ―dois +um‖, que pode, aliás, tomar várias outras formas, quais sejam:
(i) duo consensual: em que o terceiro permanece voluntariamente fora da interação ou é excluído dela pelos demais dois, ou ainda ser a vítima de um complô;
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A exibição dos programas se dá tanto pela televisão quanto pela internet, embora não seja ao mesmo tempo e, na internet, haver somente alguns dos principais trechos. Ainda assim, não podemos desconsiderar aqui essa possibilidade.
27 O destinatário indireto corresponde a terminologia de Goffman (1981, p. 76) sobre ouvinte ratificado, cuja
participação está autorizada pelo encontro social, e ouvinte não ratificado, o circunstante que, intencionalmente ou não, acompanha a conversa.
Esquema 1: o trílogo
1) L1 → L2 = D (L3: destinatário indireto) 2) L1 → L3 = D (L2: destinatário indireto) 3) L1 → L2 e L3 (destinatário coletivo)
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(ii) duo conflituoso: em que o terceiro desempenha o papel de árbitro, ou procura tirar algum proveito pessoal da situação, ou ainda toma partido de uma das outra partes, com quem estabelece uma coligação, e
(iii) coligações: normalmente instáveis e flutuantes, cuja existência deve ser negociada entre os participantes da interação.
Para a autora, se no dílogo o locutor L1 só pode intervir após o outro locutor L2, sendo a interrupção com sobreposição a única ―fantasia‖ possível, já no trílogo não há regras fixas, nem seleção prévia do sucessor e o locutor L3 pode tomar a palavra sem que essa lhe seja dirigida.
Para Fávero et. al. (2010, p. 132), esse esquema triangular de que trata Kerbrat- Orecchioni (1995) é comum nas entrevistas, ―que pode se desenrolar entre entrevistador e
entrevistado, associando-se a eles o público telespectador, ou que pode se desenrolar entre entrevistador e dois entrevistados‖.
Pensando especificamente a respeito dos destinatários coletivos e indiretos nessa tríade (KERBRAT-ORECCHIONI, 1995), nos programas de auditório, para cada uma das entrevistas, que se dão na mesma situação social (GOFFMAN, 2002a), o destinatário coletivo e o indireto poderão, portanto, ser o estatuto de vários dos participantes do programa, a depender, portanto, a interação que se instaurará.
Ao reconhecer a possibilidade de instabilidade no estatuto do trílogo nas interações televisivas, Antona (1995) diferencia quatro estatutos possíveis28:
(i) o da macroestrutura homogênea (macro-structure homogène): que corresponde a um macro-trílogo permanente, estável, como as interações face a face entre políticos ou especialistas, podendo ser instável em alguns casos como o de quando há três jornalistas entrevistando um político e este dirigi-lhes uma pergunta;
(ii) o da macroestrutura mista (macro-structure mixte): que corresponde a um micro-trílogo estável como em programas em que três locutores apresentam as atualidades da semana por meio de imagens ou de reportagens, porém, no geral, é instável, como em situações em que a discussão entre o apresentador e dois especialistas estende o que foi abordado nas reportagens;
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(iii) o da macroestrutura fragmentada em tópicos/seções (macro-structure
fragmentée en rubriques): que corresponde a dois casos de micro-trólogos instáveis. No
primeiro, os colaboradores previamente instalados ao redor da mesa central à espera de sua vez de falar, assim o trílogo é uma troca "espontânea" entre os dois pilares do programa: o apresentador e o convidado e o co-apresentador. No segundo, mais dinâmico, os colunistas estão ao redor de uma mesa central.
(iv) o da macroestrutura fragmentada em sequências (macro-strucuture
fragmente em séquences): que corresponde a um micro-trílogo instável, princípio de muitos
programas de variedades, por intercalarem várias apresentações no curso do programa. Para explicitar a instabilidade característica do trílogo – correspondente ao estatuto da macroestrutura fragmentada em sequências - (ANTONA, 1995) nos programas de auditório a serem analisados no presente trabalho, adotaremos o esquema de Kerbrat- Orecchioni (1995), considerando separadamente plateia e telespectador, em virtude de este não ter a possibilidade de participar como falante na interação, como os integrantes da plateia. Essa distinção entre a plateia do auditório e o telespectador é apontada por Antona (1995) quando a autora afirma que ―toda a interação conversacional televisiva se inscreve em um contrato midiático televisual que atribui às três instâncias do triângulo (televisão, convidados e telespectadores) uma posição variável de acordo com as políticas de programação‖.
Nos programas de auditório, é comum o telespectador deixar de ser um destinatário coletivo e/ou indireto para ser o destinatário direto29, fato este que não poderia ser desconsiderado. Para os esquemas de elocução (Esquema 2 abaixo) possíveis de serem empreendidos nos programas de auditório, portanto, consideraremos L1, L2, L3 e L4 da seguinte maneira30: L1 para entrevistador; L2 para entrevistado; L3 para os integrantes da plateia e L4 para os telespectadores.
29 Essa mudança é bastante comum principalmente quando os apresentadores dos programas de auditório
interpelam os telespectadores principalmente a participarem de concursos pela internet, de campanhas pelo telefone ou pela internet.
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Nas seções do capítulo 4 que versam sobre a progressão tópica de Manos e
Minas e Altas Horas, objetivamos evidenciar o estatuto de cada participante nas interações
analisadas.
Vale ressaltar que, nas análises a serem vislumbradas no capítulo 4, nosso objetivo é o de explicitar como se estruturam esses esquemas de elocução e em que medida essa estruturação de participação em diversas interações estão determinadas pelos objetivos de cada programa, já que, sendo um elemento do gênero programa de auditório, supomos que os atores sociais também farão parte de uma estruturação específica do programa que só poderia estar assentada sobre o papel que desempenham: interactantes (GOFFMAN, 2002a).
Essa visada, embora breve, sobre o gênero programa de auditório possibilita que tenhamos como foco da descrição e que também contemplemos na análise do corpus – nos capítulos 3 e 4 respectivamente – os seus principais elementos: (i) apresentador, (ii) banda, (iii) convidados, (iv) elementos de palco, (v) plateia31 e (vi) quadros internos e externos ao auditório; os quais, a nosso ver, são responsáveis pela natureza relativamente ―estável‖ desse gênero. No entanto, acreditamos que, embora os programas Manos e Minas e Altas horas apresentem estrutura composicional semelhante - sejam organizados a partir desses ou de alguns dos elementos acima elencados -, é também nas diferentes características dos elementos de cada programa que podem estar delineados os aspectos de inovação, manipulação e mudança (HANKS, [1987] 2008) desse gênero.
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Para Aronchi de Souza (2004), plateia diz respeito ao grupo de pessoas que estão no auditório do programa. Esquema 2: Esquemas de elocução no programa de auditório
1) L1 → L2 = D (L3 e L4: destinatário indireto) 2) L1 → L3 = D (L2 e L4: destinatário indireto) 3) L1 → L4 = D (L2 e L3: destinatário indireto) 4) L1 → L2 e L3: D (L4: destinatário indireto) 5) L1 → L2, L3 3 L4 (destinatário coletivo)
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Em virtude de nosso interesse em vislumbrar as semelhanças e diferenças entre os programas Manos e Minas e Altas Horas no que diz respeito à temática e à estrutura composicional (BAKHTIN, [1953] 2003; HANKS, [1987] 2008) com vistas à compreensão da natureza relativamente estável do gênero programa de auditório, no capítulo a seguir descrevemos ambos os programas, considerando os elementos constitutivos desse gênero, anteriormente discutidos na seção 1.3 deste capítulo.
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Capítulo 2
Da constituição do corpus e da metodologia de transcrição dos dados