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das pessoas que vivem na zona de amorteCimento do parque

No documento Ebook Caminhos do Itapeti (páginas 129-134)

natural muniCipal franCisCo

affonso de mello

Moacir Wuo

Camila Raquel da Silva Oliveira

A Zona de Amortecimento constitui uma área destinada a proteger a Unidade de Con- servação na qual são permitidas a utilização de recursos naturais e atividades voltadas para a subsistência. As legislações regulamentam os tipos de atividades econômicas e os usos possíveis na Zona de Amortecimento.

As atividades econômicas e os usos são permitidos desde que não causem im- pactos ou riscos à Unidade de Conservação. Embora existam instrumentos e dis- positivos legais com objetivos de monitorar a gestão ambiental, controlar e incen- tivar práticas sustentáveis na Zona de Amortecimento, a preservação e a prevenção de impactos ainda não se consolidaram no Brasil.

As práticas e políticas de preservação devem ser guiadas a partir de um conjun- to de informações e estruturas conceituais adequadas e acessíveis aos mais diversos segmentos da sociedade. Devem ser utilizadas informações e conhecimentos tanto dos fatores ecológicos como também dos fatores sociais das pessoas que dependem dos recursos da Zona de Amortecimento para a subsistência.

As preocupações com os fatores sociais envolvidos na conservação e preserva- ção não são recentes e foram previstos e apresentados por Aldo Leopold em 1949. Ele propõe que as relações entre os seres humanos e a natureza devem ser pautadas por uma ética e moral comunitária de respeito às comunidades bióticas. A par- tir de 1980, os estudos de Michel Soulé, quando propõe a ciência da Biologia da

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Conservação, buscam equacionar e responder a urgência das demandas do mundo real sobre a perda da biodiversidade. Michel Soulé responde a ativistas, políticos e técnicos e envolvidos com a conservação e preservação como também estabelece a Biologia da Conservação como um fórum mundial de debates incluindo a ética, a filosofia, a economia, e as diversas e amplas áreas das ciências sociais. Assim, a conservação se estabelece como princípio sensível aos mais variados grupos, cul- turas e necessidades sociais e é inserida como valorização, além do patrimônio natural associada à natureza como percepção e valor intrínseco.

As análises sobre a Zona de Amortecimento do Parque Natural Municipal Francisco Affonso de Mello, portanto, exigem atenção sobre os conhecimentos dos moradores em relação aos seus próprios ambientes, seus valores, suas fontes de informações e diversidade de formas de comunicação entre as diferentes comuni- dades do local. A comunicação estabelece vínculos que propiciam ou predispõem à construção de conhecimentos, preocupações e valores intrínsecos com o meio ambiente, a biodiversidade e a conservação.

Os valores são construídos a partir das prioridades das pessoas. São estruturas cognitivas que proporcionam estabilidade aos seres humanos para construir metas. Transferir ou transformar valores considerando a “ética da terra”, é uma das etapas no caminho para estabelecer metas para a sustentabilidade, conservação e preservação. Todos os segmentos sociais preocupados com a preservação e conservação, especial- mente aqueles envolvidos diretamente nessas questões, devem voltar suas atenções para os conhecimentos e valores atribuídos à natureza, redes sociais e de comunicação e para as instituições que influenciam as tomadas de decisões. As ações devem ocorrer numa abordagem transdisciplinar priorizando as partes interessadas, estimulando a aprendizagem social, criando redes diversificadas com habilidades para entender os benefícios da conservação, defender e valorizar a natureza.

Nesse sentido as pesquisas do projeto “Caminhos do Itapeti” buscaram infor- mações sobre os conhecimentos dos moradores em relação aos objetivos da Zona de Amortecimento, sua importância e relevância para a preservação do Parque Na- tural Municipal Francisco Affonso de Mello. Os resultados mostraram que 40% dos moradores não sabem quais os objetivos da Zona de Amortecimento, 26% in- dicaram que o objetivo é a preservação, 13% indicaram lazer e educação ambien- tal, respectivamente, e 8% declararam que a Zona de Amortecimento é destinada à pesquisa. Estes resultados são preocupantes em relação à verdadeira função da Zona de Amortecimento, especialmente quando se analisa o rápido crescimento

urbano que a Zona de Amortecimento do Parque Natural Municipal Francisco Affonso de Mello está sofrendo.

Assim, gestões urgentes voltadas para esclarecimentos e orientações sobre os ob- jetivos da Zona de Amortecimento e suas relações com a Unidade de Conservação devem ser implementadas. Esses esclarecimentos devem assumir um cunho educa- tivo adequado aos níveis de escolaridade dos moradores e devem incluir elementos sobre as legislações pertinentes. As indicações dos objetivos da Zona de Amorteci- mento para lazer e educação ambiental também é preocupante, e devem ser objeto das ações educacionais, uma vez que indica a permanência da ideia do “Parque da Serra do Itapeti” aberto ao lazer da população nos idos da década de 1980.

resultados das entrevistas a moradores das adjacências do parque natural municipal Francis- co Affonso de mello sobre a função de uma Zona de Amortecimento.

O estabelecimento das redes sociais e de comunicação entre os moradores assume relevância pelo fato de influenciar e estabelecer vínculos, predispor a conhecimentos e permitir a construção e a circulação de valores para a construção de um bem comum – a conservação e a preservação da biodiversidade. As indicações sobre as fontes e meios utilizados para circulação de informações foram a Imprensa, principalmente TV, indicada por 60% dos moradores; seguida das conversas com Pessoas do Convívio com 24% das indicações, Órgãos Públicos – Prefeitura e Câmara Municipal – com 6%, e Internet com 5%. O fato de a imprensa televisiva ser o principal veículo de in-

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formação é preocupante sob dois aspectos: (1) normalmente apresenta um carácter unidirecional e (2) as informações são fragmentadas, sem necessariamente assumir um caráter educativo. Por outro lado, a circulação de informações entre as Pessoas do Convívio é muito positiva, pois é um indicador da construção de uma rede que con- tribui para a inclusão social na proteção da biodiversidade. Este resultado mostra que trabalhos que envolvam educação ambiental nestas comunidades terão chances de alcançarem bons resultados na proteção da Unidade de Conservação e na construção de práticas relacionadas ao desenvolvimento sustentável.

resultados das entrevistas a moradores das adjacências do parque natural municipal Fran- cisco Affonso de mello indicando certo grau de isolamento uma vez que a principal fonte de informação é imprensa televisiva, que tem caráter unidirecional e a veiculação de informações nem sempre é voltada para as reais necessidades e objetivos de uma Zona de Amortecimento. Persistem dúvidas e desconhecimentos entre os moradores sobre as responsa- bilidades e gestão da Zona de Amortecimento do Parque Natural Municipal Fran- cisco Affonso de Mello. Para 63,3% dos moradores a responsabilidade de gestão é da Prefeitura, 31,7% indicaram a Universidade, que somam 95% das indicações, enquanto referências à ONGs, IBAMA ou Não Sabem somam 5%. As indicações à Prefeitura estão relacionadas a questões de ordem legal como documentações e impostos ou mesmo no atendimento a serviços urbanos. As referências creditadas à Universidade provavelmente se devem a constante presença de pesquisadores, professores e alunos da área da Biologia, envolvidos em projetos de pesquisas am-

bientais e conservação, a proximidade e aos relacionamentos positivos construídos com os moradores. Essas indicações revelam também a confiabilidade, respeito e confiança as pesquisas voltadas para a preservação e manutenção da Zona de Amortecimento e do Parque.

Por outro lado, esses desconhecimentos e dúvidas sobre os objetivos da Zona de Amortecimento e do Parque e sobre as responsabilidades de gestão devem pro- vocar inseguranças e confusões entre os moradores como, por exemplo, a quem recorrer em busca de orientações ou mesmo para soluções de questões emergências e de crucial significado e importância para os moradores e para as questões de pre- servação. Notadamente urge ações de comunicação social fidedigna para sanar tais dúvidas e evitar o alienamento dos moradores.

A maioria das pessoas (63,3 %) que vive na Zona de Amortecimento do parque natural muni- cipal Francisco Affonso de mello indicou a prefeitura municipal como responsável pelo geren- ciamento da unidade de Conservação.

A inclusão social tem caráter de participação proativa que permite o desenvol- vimento de capacidade local e a autoconfiança. A interatividade das redes de co- municação pode conduzir as pessoas às aprendizagens sociais, aquisição de conhe- cimentos para analisar e desenvolver planos e propostas de ações, tomar iniciativas pró-ambiente, mobilizar e reforçar grupos locais e instituições.

Os conhecimentos sobre a Zona de Amortecimento e as ações positivas para a conservação da biodiversidade não surgem da passividade, mas da capacidade das comunidades aprenderem sobre a complexidade ecológica na interação com seus ecossistemas.

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