Moita Lopes (2009) destaca que o posicionamento é um construto teórico que possui usos similares em diferentes áreas de investigação. Contudo, o autor enfatiza que, no geral, o mesmo é utilizado para fazer referência a como as pessoas estão localizadas no discurso (ou na conversa) no momento em que estão engajadas na construção de significados com outros (p. 136).
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Para Moita Lopes (2009), o construto teórico de posicionamento parece incorporar os significados que são dados, tanto por aspectos sócio-históricos em um nível macro, quanto em um nível micro e local no discurso, pelos significados que eles próprios geram, podendo escapar de significados já postos. Nesse sentido: “Isso dá conta dos
posicionamentos cambiantes, dinâmicos e múltiplos que os participantes podem ocupar nas práticas discursivas ou nas práticas narrativas” (p. 136). Tal autor, seguindo Davies e
Harré (1999)79, enfatiza que, com o posicionamento, o foco se direciona para o modo pelo qual as práticas discursivas constituem os participantes de certos modos, enquanto elas também se estabelecem como recurso para que os participantes negociem novas posições.
Wortham (2001), em suas reflexões sobre posicionamento interacional, descreve como os participantes de práticas narrativas podem se posicionar e até se reposicionar por meio delas e no momento em que elas ocorrem. Contudo, para o autor, o posicionamento interacional extrapola os limites sintáticos dos enunciados e, nesse sentido, em seu estudo, a dedução dos posicionamentos assumidos foi realizada com base em cinco pistas linguísticas, encontradas nos eventos interacionais80 e utilizadas pelos participantes. Para o autor, tais pistas indicam aspectos do contexto que são relevantes para uma boa interpretação das narrativas e podem ser descritas da seguinte maneira:
Descritor metapragmático: inclui, basicamente, verbos de enunciação usados para referir e declarar a forma como algo foi dito e para avaliar o que foi falado.
Referência e predicação: refere-se a pistas que são utilizadas para a nomeação de coisas e pessoas no mundo. Pode ser feito por meio de adjetivos e outras formas de predicar um nome, situando personagens e comunicando as posições de sujeito assumidas.
Índice avaliativo: trata-se de expressões e modos de falar que são associados a grupos específicos. Pode ser feito por meio de escolhas lexicais, construções gramaticais, sotaque, etc.
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O autor refere-se à obra: DAVIES, Bronnyn; HARRÉ, Rom. Positioning and Personhood. In: HARRÉ, Rom; VAN LANGENHOVE, Luk (Ed.). Positioning Theory. Oxford: Blackwell, 1999. 80
É possível considerar como evento interacional, tanto as interações presenciais quanto as que ocorrem virtualmente, como por exemplo, nas trocas de e-mails, nas conversas em chats, mensagens de celular, etc.
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Citação: combina referência a um falante citado, verbo metapragmático e enunciação citada com o intuito de representar algum exemplo de fala.
Modalizador epistêmico: relaciona-se com o grau de certeza que o falante apresenta sobre o que está sendo falado, ou seja, com o quanto ele está comprometido com a verdade e a certeza dos fatos. Pode ser feito por meio do uso de verbos que expressam o tempo da ação ou por advérbios, modais, conjunções.
No caso específico desta tese, vale dizer que, embora as pistas discutidas por Wortham (2001) ajudem a observar os posicionamentos assumidos nas práticas discursivas entre surdos e ouvintes, elas parecem não ser suficientes, visto que deixam à parte alguns aspectos das interações que não são expressos por meio de palavras ou sinais.
Pode-se dizer que nas práticas da Pastoral de Surdos analisadas, as representações sobre os participantes não se dão apenas por ações verbalizadas, mas, principalmente, por outros meios que envolvem, por exemplo, as divisões de funções e os espaços que cada um é autorizado a ocupar.
Fabrício e Moita Lopes (2010), seguindo o exposto por Wortham (2001), defendem que o discurso: “[...] é uma prática social que leva à construção e à atribuição
de significado à experiência e aos atores sociais por meio dos posicionamentos interacionais que eles ocupam no uso da linguagem” (p. 288). Para os autores, o discurso é
situado sócio-interacionalmente, visto que, quando nele as pessoas se engajam, estão localizadas em uma prática discursiva particular, num processo influenciado por seus interlocutores e pelos contextos e que possibilita a produção e a interpretação dos significados. Nesse sentido, é tal situacionalidade que torna possíveis posicionamentos particulares através das diferentes escolhas semióticas que os interlocutores fazem. Assim:
É a análise de posicionamentos interacionais que possibilita compreender como os participantes constituem uns aos outros nas práticas discursivas, com base em significados convencionalizados sócio-historicamente, e como novos posicionamentos interacionais podem negociar significados novos ou alternativos (FABRICIO e MOITA LOPES, 2010, p. 289). De qualquer forma, ainda que a discussão sobre “identidades” tenha sido feita com maior afinco nos itens anteriores, nesse ponto ela é retomada, pois interessa dizer que
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os eventos interacionais (e os posicionamentos e reposicionamentos inerentes a eles) trazem fatores que se relacionam intimamente com o processo de construção identitária, principalmente, pelo jogo de representações em que se inserem.
Para Sá (2010), toda identidade é construída com o outro e a partir do outro, por meio da linguagem em um processo dialético.
É por isso que se diz que as identidades são formadas/conformadas/deformadas nas lutas que se travam no território das representações e nas práticas de significação, e esta formação/conformação/deformação é grandemente influenciada pelas práticas discursivas (SÁ, 2010, p. 126).
Tratando mais especificamente da surdez, a autora defende que as identidades dos surdos se formam no encontro com os pares e a partir do confronto com novos ambientes discursivos. Para a autora:
No encontro com os outros, os surdos começam a narrar-se, e de forma diferente daquela através da qual são narrados pelos que não são surdos. [...] Estabelecem, então, contatos entre si e, através destes, fazem trocas de diferentes representações sobre a(s) identidade(s) surda(s) (SÁ, 2010, p. 126).
Considerando, ainda, o encontro dos surdos com os ouvintes, pode-se dizer que o modo como a surdez é representada socialmente, por meio das inúmeras práticas discursivas, também influencia a constituição das identidades das pessoas surdas e, de certa forma, também é por elas afetado. Skliar (1998) ressalta que o problema não é a surdez, não são os surdos, não são as identidades surdas, não é a língua de sinais, mas sim as representações dominantes, hegemônicas e “ouvintistas” sobre as identidades surdas, a língua de sinais, a surdez e os surdos. Nesse sentido, torna-se importante, para este estudo, sublinhar o que estou compreendendo por “representação”, visto que tentarei destacar como os participantes da pesquisa – que deu origem à presente tese – se posicionam e são posicionados em suas práticas sociais pautadas em diferentes formas de representar fatos, pessoas e, principalmente, manifestações linguísticas.
Com base nas idéias de Silva (2000), é possível perceber que o conceito de representação pode assumir uma multiplicidade de significados, devido à sua longa história.
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Contudo, interessa-me aquela perspectiva na qual a representação incorpora as características de indeterminação, ambiguidade e instabilidade atribuídas à linguagem.
Aqui, a representação não aloja a presença do “real” ou do significado. A representação não é simplesmente um meio transparente de expressão de algum suposto referente. Em vez disso, a representação é, como qualquer sistema de significação, uma forma de atribuição de sentido. Como tal, a representação é um sistema lingüístico e cultural: arbitrário, indeterminado e estreitamente ligado a relações de poder (SILVA, 2000, p. 90).
Favorito (2006) demonstra estar em comunhão com tal perspectiva ao enfatizar em suas discussões que: “A representação tal como um sistema lingüístico e cultural é uma
forma de atribuição de sentido, de produção de significados” (p. 52). Ou seja, para a
autora, os significados são criados. Portanto, faz-se necessária a desnaturalização dos processos de representação a partir de uma análise cuidadosa, afinal:
Nos diversos modos de representar o mundo social estão implicadas perguntas sobre quem está autorizado a conhecer e representar o mundo, isto é, o vínculo entre conhecer e representar se constrói na base de relações de poder. Claro está, portanto, que a concepção de representação aqui utilizada não se associa às idéias de mimese, reflexo ou representação do real, nem de representação mental (FAVORITO, 2006, p. 55).
Nesse sentido, a autora adverte que os processos de representação são perpassados por relações de poder. Argumenta ainda que, na medida em que os significados não são fixos, estáveis, há um espaço de luta para que tais significados possam ser questionados, desconstruídos, disputados e refeitos.
Do mesmo modo, Silva (2006) aponta que a indeterminação é o que caracteriza tanto a significação quanto a representação. Para ele, a representação não é um campo passivo de mero registro ou expressão de significados existentes, nem um campo equilibrado de jogo, pois, por meio dela, “[...] travam-se batalhas decisivas de criação e de
imposição de significados particulares: esse é um campo atravessado por relações de poder” (p. 47). Com isso, o autor remete ao questionamento sobre quem está autorizado a
representar o mundo, a si mesmo e aos outros.
É possível transpor esse questionamento para o campo da surdez e refletir sobre a maneira como ele pode ser respondido, quando são consideradas as relações que se
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estabelecem entre o grupo de surdos e o grupo de ouvintes. E ainda, quando são percebidas as relações que se constituem entre os subgrupos que se encontram no interior de cada um deles. Por ora, interessa-me trazer as ideias de Cuche (2002), no intuito de enriquecer a indagação que agora se propõe, visto que, para o autor: “Nem todos os grupos têm o mesmo
“poder de identificação”, pois esse poder depende da posição que se ocupa no sistema de relações que liga os grupos. Nem todos os grupos têm o poder de nomear e de se nomear”
(p. 185-186).
Em alinhamento ao autor, enfatizo que somente aqueles que dispõem de autoridade conferida pelo poder têm a possibilidade de impor suas próprias definições de si mesmos e dos outros. Contudo, enfatiza-se que, também no campo das representações, há a presença de mecanismos de resistência que permitem que os significados sejam sempre contestados e influenciam diretamente os processos de construção identitárias.
Para Woodward (2000), é por meio dos significados produzidos pelas representações que as pessoas podem dar sentido às suas experiências e àquilo que são ou podem se tornar. A autora destaca ainda que:
A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar (WOODWARD, 2000, p. 17).
Conforme as considerações de Hall (1997) sobre o conceito de representação, um uso comum sobre o termo é o seguinte: “Representação significa usar a linguagem
para dizer algo significativo sobre, ou representar, o mundo para outras pessoas” (p. 15).
Mas, para o autor, isso não é tudo. Para ele, a representação é uma parte essencial do processo pelo qual o significado é produzido e trocado entre membros da cultura. Ela envolve o uso da linguagem, de signos e imagens que significam ou representam coisas. Contudo, isto está distante de ser um processo simples e claro.
Seguindo o apresentado pelo autor, percebe-se que o conceito de representação tem adquirido muita importância nos Estudos Culturais. Silva (2000) destaca que alguns teóricos ligados, sobretudo, aos Estudos Culturais, como é o caso do próprio Stuart Hall,
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“recuperaram” o conceito de representação, desenvolvendo-o em conexão com teorias sobre identidade e diferença. E ainda, com base em Skliar (2003), pode-se dizer que:
Desde a perspectiva de uma das correntes mais difundidas dos assim chamados Estudos Culturais, a representação é entendida como práticas de significação e sistemas simbólicos por meio dos quais se produzem significados que nos posicionam como sujeitos (SKLIAR, 2003, p. 70). Contudo, vale dizer que não há uma relação natural entre o signo e seu significado ou conceito, o que nos permite dizer que o significado é “relacional” (HALL, 1997, p. 27). O autor enfatiza ainda, a existência de uma “arbitrariedade”, pois a relação entre o signo (significante) e o significado depende de uma construção social convencionada e compartilhada por determinada cultura em determinado momento. Assim, o autor nos alerta para o fato de que os significados não são transparentes.
E, com base nas ideias de Silva (1995), é possível dizer, ainda, que tais significados também não são neutros. Pois, como defende o autor: “Os significados não são
criados e colocados em circulação de forma individual e desinteressada – eles são produzidos e são postos em circulação através de relações sociais de poder” (p. 200). Tal
autor também faz referência às relações de poder ao enfatizar que elas estão envolvidas na criação e manutenção de identidades sociais. Ao apresentar essa discussão, o autor propõe os seguintes questionamentos:
1. Quais grupos sociais têm o poder de representar e quais grupos sociais podem
apenas ser representados?
2. Que diferença faz ser sujeito da representação, em vez de seu objeto?
3. Como essas representações fixam as posições desses sujeitos em posições
subalternas e posições dominantes?
4. Como o “outro” é “fabricado” através do processo de representação?
Tais questões são de extrema importância para as discussões que aqui se estabelecem, pois o grupo de surdos, ainda que seja reconhecida sua diferença linguística e cultural, acaba sendo fixado, geralmente, em posições subalternas. Com isso, aos surdos não é concedido o direito de serem sujeitos da representação, permanecendo sempre como objetos de representação, sobretudo no que se refere às questões educacionais e, ainda, naquilo que diz respeito às suas formas de participação em contextos religiosos. O que,
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certamente, tem implicações para o processo de construção de suas identidades – embora seja reconhecida, como explicitado anteriormente, a presença de tentativas de resistência.
Contudo, como defende Silva (1995), os significados, produzidos e transportados por narrativas, não são nunca fixos, decididos de uma vez por todas.
O terreno do significado é um terreno de luta e contestação. Há, assim, uma luta pelo significado e pela narrativa. Através das narrativas, identidades hegemônicas são fixadas, formadas e moldadas, mas também contestadas, questionadas e disputadas (SILVA, 1995, p. 205).
Nesse sentido, percebe-se, nas atividades desenvolvidas pela Pastoral de Surdos, um movimento de muita luta e algumas conquistas refletindo um reposicionamento dos surdos, com um deslocamento de uma situação de total passividade e dependência dos ouvintes para uma atuação cada vez mais autônoma, apoiada, principalmente, por alguns intérpretes que trabalham com o grupo. Assim, como será visto de forma mais detalhada no Capítulo de Análise, os surdos da Comunidade Éfeta começam a ser representados e a se representarem como pessoas capazes de assumir posições importantes no grupo e, principalmente, de decidir os rumos do trabalho pastoral.
Vale dizer, de uma forma mais ampla e considerando o contexto mundial, que a possibilidade desse reposicionamento dos surdos também decorre da abertura da própria Igreja Católica para a criação da Pastoral dos Surdos (e de outras) – em busca de novas “metodologias” em prol de uma evangelização mais eficaz que buscasse a “inclusão” de todas as pessoas. Abertura que se deu em resposta às modificações políticas, econômicas e culturais advindas da sociedade.
Na tentativa de uma possível “atualização” diante do desafio de compreender sua natureza num período de rápidas transformações, a Igreja Católica estabelece algumas iniciativas como a convocação do Concílio Vaticano II – realizado em quatro sessões que se deram entre 1962 e 1965, e tiveram como resultado a elaboração de alguns documentos de orientação para a Igreja. O próprio papa João Paulo II, ao fazer referência a tal Concílio, classifica-o como “[...] um momento de reflexão global da Igreja sobre si mesma e sobre
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suas relações com o mundo”, e acrescenta que tal reflexão também teve como impulso as
grandes mudanças do mundo contemporâneo81.
Até o presente momento, focalizei as questões ligadas ao processo de constituição das identidades, sem perder de vista que este acontece, também, entrelaçado aos aspectos que dizem respeito ao espaço, ao território e às territorialidades, configurando- se em diferentes representações e posicionamentos que só são possíveis a partir de e nas práticas discursivas. Construções identitárias que refletem, ainda, as relações de poder em jogo na dinâmica das novas configurações sociais presentes na atualidade. E é justamente sobre essas grandes mudanças de repercussões globais e locais que passo a discorrer, considerando o processo de globalização como sua principal marca.