2.6 Da tipologia e aplicação das medidas reparatórias segundo a
2.6.4 Garantias de não-repetição
2.6.4.2 Das reformas estruturais e programas de capacitação
Ainda no bojo das medidas de reparação relacionadas às garantias de não-repetição também se destacam aquelas determinadas pela Corte que visam a promover reformas estruturais nos Estados de sorte a eliminar as condições que propiciaram as violações dos direitos e liberdades estabelecidos na Convenção Americana. Como adverte Pasqualucci452, a verificação de um padrão de violações de direitos humanos revela a existência de problemas sistemáticos nos Estados. Desse modo, acaso não sejam realizadas mudanças nessa realidade, muito provavelmente essas reiteradas violações se repetirão indefinidamente.
449 MALARINO, Ezequiel. "Ob.Cit.. Pp. 51-52 450
Adverte Álvaro Paul sobre a responsabilidade que sobre a própria Corte recai: “Es posible imaginar
que esta situación no mejorará si la Corte continúa aplicando algunas doctrinas que contravienen tanto normas tradicionales del derecho internacional, como la teoría de los pesos y contrapesos (v.gr., la doctrina del control de convencionalidad, que va mucho más allá de un simple exigir que los tribunales internos consideren la CONVENÇÃO AMERICANA al momento de fallar). Estas doctrinas pueden generar desconfianza entre los Estados, especialmente porque las interpretaciones de la Corte han entrado desde hace ya tiempo en el ámbito de lo legítimamente discutible. Lo anterior se agrava porque la Corte no da mayores muestras del llamado self-restraint o autocontrol.” DIAZ, Álvaro Paúl. Ob. Cit.
P. 304.
451 CONTESSE, Jorge. Ob. Cit.2016. P. 144. 452 PASQUALUCCI, Jo M. Ob. Cit. 2013. P. 212.
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Nessa linha, é de se registrar as observações de Cristian Correa, segundo o qual, não obstante se reconheça que as garantias de não-repetição podem produzir efeitos transformadores e corretivos para além do caso concreto, deve-se questionar qual o papel que um tribunal internacional pode determinar para minorar os desafios estruturais que assolam boa parte do continente453. Por outro lado, como já dito, a Corte Interamericana, ao dispor sobre políticas públicas a serem desenvolvidas pelos Estados, pode findar por invadir competências exclusivas dos Estados454, como agentes primários da efetivação dos direitos humanos, reduzindo-lhe sua margem de apreciação para resolver internamente, como melhor lhes aprouver, seus problemas estruturais455. A Corte, ao ordenar medidas dessa natureza, notadamente quando determina quais os seus destinatários, o modo e onde devem ser implementadas, de certo modo, despreza a competência primária do poder executivo nacional de estabelecer prioridades na alocação dos escassos recursos do qual dispõe para fazer face às necessidades da sua população como um todo456.
Veja-se o aludido caso Artavia Murillo vs. Costa Rica, no qual a Corte, para além de determinar que o estado costarriquense promovesse alterações legislativas a fim de permitir a fertilização in vitro, ordenou, ainda a título de medida de garantia de não-repetição, o oferecimento de dita técnica pelo sistema público de saúde457. Trata-se de medida, como se percebe, de imensa magnitude, uma vez que implica profundas alterações no funcionamento e prioridades do sistema público de saúde nacional, com inegáveis repercussões administrativas e orçamentárias. Ademais, por sua própria natureza, políticas públicas, a exemplo do oferecimento de melhores condições de saúde ou oferecimento de cursos de capacitação permanentes, são atividades de caráter continuado e multiforme. A determinação de medidas de reparação com tais características pode implicar, em última medida, a criação de uma obrigação sem termo, a colocar os Estados num infindável estado de monitoramento por parte da Corte Interamericana.
Quando da análise de casos relacionados às comunidades indígenas, comumente, a Corte Interamericana tem ordenado que, a par de eventuais
453 CORREA, Cristian. Ob. Cit. 2014. P. 841. 454
CORREA, Cristian. Ob. Cit. 2014. P. 838. 455
PIACENTINI Isabela. Ob. Cit. Pp. 309-310. 456 MALARINO, Ezequiel. Ob. Cit. P. 60. 457 DIAZ, Álvaro Paúl. Ob. Cit. P. 338.
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compensações financeiras, o Estados também promovam intervenções na região, a fim de melhorar as condições de vida dos indígenas. No caso Plan de Sánchez vs. Guatemala, por exemplo, determinou-se que o Estado (i) criasse um centro de estudo e difusão da cultura maya achi; (ii) promovesse melhorias nas vias de comunicação da comunidade; (iii) providenciasse encanamento e fornecimento de agua potável; (iv) promovesse educação primária, secundária e diversificada, com pessoal docente qualificado; e, (v) estabelecesse um centro de saúde na região458. Ainda nessa temática, a Corte, recentemente, ordenou que a Guatemala incorporasse ao currículo do sistema nacional de educação, em todos os seus níveis, a fim de refletir a natureza pluricultural e multilíngue da sociedade guatemalteca459.
Nos casos relacionados a desaparecimentos forçados ou execuções extrajudiciais, a Corte, não raro, tem determinado que os Estados promovam alterações, de forma generalizada, em seus protocolos investigativos, periciais, bem como judiciais, adotando parâmetros internacionais460. Ainda determina a criação de bancos genéticos com dados dos familiares das vítimas a fim de facilitar a identificação dos restos mortais dos desaparecidos461.
Em relação às notórias más condições do sistema carcerário no continente americano, a Corte Interamericana, com fundamento no art. 5° da Convenção Americana, tem assentado algumas premissas, sintetizados no caso Pacheco Teruel y otros Vs. Honduras462, nos seguintes moldes: (i) a superlotação constitui violação à integridade pessoal; (ii) deve ser realizada separação por categorias de presos; (iii) deve ser garantido acesso à agua para consumo e asseio; (iv) a alimentação deve ser de boa qualidade, com suficiente valor nutritivo; (v) deve ser proporcionada atenção médica regular, com pessoal qualificado; (vi) deve ser oferecido programas de educação,
458 CIDH. Caso Masacre Plan de Sánchez vs. Guatemala. Parágrafo. 105. No mesmo sentido: CIDH.
Caso de la Comunidad Moiwana vs. Surinam. Parágrafos. 214-215. CIDH. Caso Comunidad Indígena Yakye Axa vs. Paraguay. Parágrafo 202
459 CIDH. Caso Miembros de la Aldea Chichupac y comunidades vecinas del Municipio de Rabinal Vs.
Guatemala. Parágrafo 319.
460 CIDH. Caso Gutiérrez Soler Vs. Colombia. Parágrafos 109 -110. CIDH. Caso González y otras
(“Campo Algodonero”) Vs. México. Parágrafo 502.
461 CIDH. Caso Molina Theissen Vs. Guatemala. Reparaciones y Costas. Sentencia de 3 de julio de 2004. Serie C No. 108, Parágrafo 91. CIDH. Caso de las Hermanas Serrano Cruz Vs. El Salvador. Parágrafo 193. CIDH. Caso Servellón García y otros Vs. Honduras. Sentencia de 21 de septiembre de 2006. Serie C No. 152. Parágrafo 203.
462 CIDH. Caso Pacheco Teruel y otros Vs. Honduras. Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia de 27 de abril de 2012. Serie C No. 241. Paragrafo 67.
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trabalho e recreação e reguladas visitas aos presos; (vii) as celas devem possuir iluminação, ventilação e higiene adequadas; e, (viii) devem ser proibidos as medidas disciplinares que constituam trato cruel, desumano ou degradante, incluso os castigos corporais e isolamento por tempo prolongado.
Tal entendimento sobre a situação carcerária vai ao encontro de uma série de normativos internacionais sobre as condições dos reclusos, com especial destaque ao Conjunto de Princípios para Proteção de Todas as Pessoas sob Detenção ou Aprisionamento, forjada pela Organização das Nações Unidas463 e aos Princípios e Boas Práticas sobre a Proteção das Pessoas Privadas de liberdade nas Américas464. De se registrar que, na realidade, a Corte Interamericana, com esse tipo de decisão baseada em normas principiológicas alheias à Convenção Americana, finda por conferir um caráter vinculante a normas, originariamente, tidas por soft law, em mais uma mostra de sua postura proativa quanto à implementação dos direitos humanos na região.
Por fim, ainda como garantias de não-repetição, reiteradamente, a Corte tem ordenado que os Estados promovam cursos de capacitação de servidores públicos e a população em geral, especialmente os relacionados à temática dos direitos humanos. A título exemplificativo, a Corte, somente no ano de 2016, ordenou a adoção de programa de formação para estudantes e profissionais de saúde relacionados ao consentimento informado para fins de esterilização e discriminação e violência de gênero465; criação de cursos para disseminar as atividades dos defensores dos direitos humanos466; e, capacitação das forças militares sobre a proibição da discriminação por orientação sexual467. Claramente a intenção dessas medidas é o de fomentar a disseminação do conhecimento sobre o trato dos direitos humanos e com o fito de prevenir a ocorrência novas violações.
463 ONU. Body of Principles for the Protection of All Persons under Any Form of Detention or Imprisonment. A/RES/43/173 76th plenary meeting. 9 December 1988. Disponível em
http://www.un.org/documents/ga/res/43/a43r173.htm Acesso em 17.03.2017.
464 OEA/Ser.L/V/II.131.Doc.38. 13 março 2008. Disponível em
https://cidh.oas.org/pdf%20files/PRINCIPIOS%20PORT.pdf Acesso em 18.04.2017. 465
CIDH. Caso I.V. Vs. Bolivia. Parágrafo 342. 466
CIDH. Caso Yarce y otras Vs. Colômbia. Parágrafo 350.
467 CIDH. Caso Flor Freire Vs. Ecuador. Excepción Preliminar, Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia de 31 de agosto de 2016. Serie C No. 315. Parágrafos 238 e 239.
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2.6.5 Do dever de investigar, processar e, se for o caso, punir os responsáveis por