2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.6 DAS RESPONSABILIDADES EM BAKHTIN: ESPECIALIZADA E MORA
(ÉTICA)
Relativamente ao conceito de ato responsável desenvolvido por Bakhtin (1997), em Por uma filosofia do ato, estão ligados os conceitos de responsabilidade especializada e responsabilidade moral, como dois aspectos que devem estar presentes no ato, compondo a bilateralidade unitária do ato ético. Aplicando os mencionados conceitos do filósofo russo ao presente trabalho, verifica-se a responsabilidade especializada através das leis, enquanto que a responsabilidade moral coincide com a proteção que se dá aos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro, por meio, sobretudo, da atividade exercida pelos intérpretes do Direito.
No presente estudo, a lei seria o que Bakhtin (1997) chama de produto teórico, traduzindo-se em uma estrutura formal e objetiva, localizada no mundo da cultura, oposta ao mundo da vida. Esta unidade objetiva é repetível, estável, imutável; que, no entanto, é constantemente posta em questão diante da unicidade irrepetível do mundo da vida, quando são opostos o pensamento e a razão (BAKHTIN, 1997, p. 8). Todavia, não se pode negar a importância da teoria; o ato ético, pois, concebido como um pensamento, leva em consideração o momento da cultura, a importância teórica, sendo este um dos momentos constituintes do ato ético. Este momento inicial não é tudo, nem é suficiente, devendo ser observada a totalidade, isto é, por inteiro, com todas as suas circunstâncias, como faz o Jano Bifronte em Bakhtin (1997).
Neste sentido, existe, pois, uma responsabilidade moral, ética, de proteger o Direito, em sua essência, no dever ser, que é alcançada pelo pensamento da totalidade, e não apenas pela consideração da teoria, cujo acesso se dá pela razão. Se assim não fosse, se não existisse esta responsabilidade moral, o STF poderia ter aceitado a tese da defesa, de cunho formalista, que alegava que, porque não existe raça no sentido genético, o crime seria impossível de se consumar, o que seria apenas uma responsabilidade especializada, destituída de ética, senão, eis o que explica Bakhtin (1997, p. 8):
para poder projetar-se fazia ambos aspectos – em seu sentido e em seu ser -, o ato deve encontrar um plano unitário, adquirindo a unidade da responsabilidade bilateral tanto em seu conteúdo (responsabilidade especializada) como em seu ser (responsabilidade moral), de modo que a responsabilidade especializada deve aparecer como momento adjunto da responsabilidade moral única e unitária. É a única maneira
como poderia ser superada a incompatibilidade e a impermeabilidade recíproca viciosa entra a cultura e a vida (BAKHTIN, 1997, 8).
Para Bakhtin (1997), há uma distinção entre dever ser do pensamento e dever ser da razão. Consoante o filósofo russo, apenas o pensamento pode abarcar a totalidade do acontecimento/evento, estando este pensamento precisamente contextualizado, de acordo com determinadas condições de historicidade concreta. “O momento da verdade teórica é necessário” (BAKHTIN, 1997, p. 10), como uma das etapas do pensamento, não é suficiente, pois comporta um caráter meramente técnico, formal, sem relação entre a vida e a cultura (BAKHTIN, 1997, p. 10).
Outrossim, acerca da verdade, Bakhtin (1997) não a define como produto da razão e, consequentemente, de um dever ser teórico especial, mas como fruto do pensamento, ou seja, o dever ser surgiria apenas a partir de um ato cognitivo autêntico, que se dá em um momento historicamente único, sendo este um ato ético responsável, “imputável no contexto único da vida única e real do sujeito” (BAKHTIN, 1997, p. 10). Seguindo este raciocínio, Bakhtin (1997) defende que:
Em geral, nenhuma definição teórica, ou um postulado, podem incluir em si o momento do dever ser, nem ser deduzidos a partir deles. Não existe um dever ser estético, científico, nem um dever ser ético, senão existem a estética, a teoria, socialmente significativas, e o dever ser, para o qual todas essas significações são de caráter técnico, aos quais se pode agregar. Estes postulados adquirem sua significação na unidade estética, científica e sociológica; o dever ser, na unidade da minha singular e responsável vida. (BAKHTIN, 1997, 11)
O conteúdo jurídico, portanto, positivado em um ordenamento (sistema) fechado, abstrato e universal, de normas; seria, portanto, uma orientação formal, dogmática, sem penetração no acontecimento vivido, sendo mero conceito lógico- normativo. O direito, contudo, não se resume a este sistema lógico, que, por sua vez, consiste apenas em uma das etapas do juízo sobre o dever ser, demandando, por isso mesmo, uma atividade de interpretação eticamente responsável, a fim de se alcançar a verdade em sua totalidade, e não um recorte desta.
O Supremo Tribunal, pois, acima do formalismo com que se defendia o réu, busca a justiça. Se a Suprema Corte julgasse apenas com base na cognição teórica, ou seja, no que está escrito na lei restritivamente, estaria excluída realidade de fato vivida, restando endossada pelo Supremo - órgão da justiça - uma gritante injustiça.
Consoante Bakhtin (1997), o dever ser tem natureza ética, e não meramente teórica, afirmando ainda que o ato responsável não pode ser encontrado no conteúdo teórico e, consequentemente, em relação ao presente trabalho, na lei,
porque, neste caso, ela é uma abstração, e não um fato vivido. A lei não consegue dar conta de todas as situações, devendo, o intérprete, verificar se determinado caso particular corresponde ao dever ser objetivado pela lei.
Segundo sugere Bakhtin (1997), em Por uma filosofia do ato, o objeto do conhecimento teórico, que, no presente trabalho é representado pela lei, não pode pretender ser suficiente em todas as situações, uma vez que é geral e abstrata, com configuração unificada e total. Contudo, em diversas situações, como esta do HC 82424 RS, a lei é irrompida pela singularidade. Sendo assim, diante dos fatores extralinguísticos mencionados e das vozes sociais sobre preconceito, foi necessário se distanciar da técnica e do formalismo, para julgar como realmente o fato da publicação dos livros se deu, em sua particularidade realmente vivida e se este fato, de acordo com o contexto social, histórico e ideológico do momento julgamento, estaria em consonância com o dever ser pretendido pela norma.
Como pressuposto do ato responsável, está a participação do eu no ato, como acontecimento vivido, do qual não pode se escusar (não álibi do ser). O pensamento, pois, em sua totalidade, é a instância responsável pela reunião do conteúdo semântico do teórico, com a historicidade singular e eventual, que deverá ser abarcada para se encontrar o sentido completo da verdade. Sendo assim, quando da assunção desta responsabilidade, o eu posiciona-se axiologicamente, através de sua tonalidade afetiva, contribuindo para a construção de sentido (BAKHTIN, 1997, p. 16-17).
A tonalidade afetiva e emocional, que são expressões do sujeito eticamente responsável, só podem ser observadas no mundo da vida, através da linguagem, da interação verbal, quando a construção de sentido é realizada de forma participativa e ativa, considerando - igualmente - o conjunto de vozes sociais heterogêneas subjacentes. A representação de um acontecimento, como um texto, não é o evento, a verdade (totalidade), por isso pode ser discutida, negada, valorada, enfim.
A ressignificação de um acontecimento através de um texto não pode ser vista, com ingenuidade, ou intenção de mascarar, como uma atividade alheia à realidade e isenta de tonalidade emocional e afetiva. Esta tonalidade é consciente, responsavelmente ativa e carrega uma certa significação moral, da qual o sujeito não pode se eximir de assumir, consoante o que Bakhtin (1997) chama de não-álibi da existência. A mencionada tonalidade, enquanto elemento da linguagem, deve ser observada tanto nas edições publicadas pelo réu-editor, quanto na construção da decisão ora em análise do STF, conforme veremos a seguir.
(1997),são importantes os conceitos de pravda e istina, para a compreensão do que se entende por verdade.
Sendo assim, a istina, conforme o filósofo russo explica, em Por uma Filosofia
do Ato, é uma verdade fruto de uma abstração lógico-formal, afirmando que:
Triste mal-entendido, herança do racionalismo, o fato de que a verdade (pravda) só pode ser uma verdade universal (istina) quando composta de momentos gerais; o fato de que a verdade de uma situação consista justamente no que nela se encontra de repetível e permanente, de tal modo que o geral e o idêntico o seja por princípio (logicamente idêntico), enquanto que uma verdade individual se considere artisticamente irresponsável (BAKHTIN, 1997, P. 45).
Bakkhtin (1997), portanto, chama de triste mal-entendido o fato de se acreditar que a istina seja uma verdade responsalvemente considerada porque fruto da razão abstrata e universal. Sendo assim, a esta verdade formal, Bakhtin (1997) opõe a verdade real e concreta, a verdade como justiça: pravda. No presente estudo, a tentativa de restringir o conceito de racismo, através da racionalização, foi um “triste mal-entendido”, pois defendeu-se, como herdeiro do racionalismo, a istina, buscando o que havia de permanente no conceito de racismo, afastando este evento único, da realidade viva.