Nesse nosso passeio pelas dobras do tempo, temos considerado as principais implicações políticas e religiosas que envolveram a Igreja e nações da Europa, durante o século XIX.
Vimos também a figura de Afonso, o desenvolvimento de sua obra, a Congregação Redentorista, os principais traços de sua espiritualidade e, por último, a finalidade da Congregação : as missões.
Ficou claro que a Congregação Redentorista resultou da convicção forte de um santo que quis dedicar sua vida e a de seus seguidores, à salvação das “ almas mais abandonadas” através do exercício das missões.
Não podemos negar que os Redentoristas que vieram para o Brasil em 1893, embora marcados por essa espiritualidade e formados dentro dos princípios da moral alfonsiana, não incorporassem o espírito da época. Por certo estavam plenamente conscientes das lutas da Igreja contra o Liberalismo de então e haviam recebido sua formação dentro dos ditames impostos pelo Concílio Vaticano I.
Entretanto isso não os impedia de seguir os passos de seu fundador o que fica claro ao invocarem seus princípios e os ditames da Regra por ele estabelecida.
O único fim de seus trabalhos era dedicar-se a pregar o Cristo em suas terras, em suas famílias, difundindo as orientações e os traços marcantes da espiritualidade alfonsiana : encarnação, paixão e morte, ressurreição de Cristo, eucaristia e o amor à virgem Maria.
Quando moveram-se para o Brasil, foram esses os seus explícitos motores. Entretanto, não podemos negar que eram homens sintonizados com o espírito da época, buscavam uma reforma da Igreja e queriam ser, por certo, seus protagonistas.
O primeiro convento redentorista na Holanda86 estabeleceu-se na cidade de Wittem, na Província da Limbúrgia, em 1835. 87
No convento de Wittem, ( um antigo convento de capuchinhos, situado à beira da estrada entre Maastricht e Aix-la-Chapelle , ou Aachen, como dizem os alemães), estabeleceu-se um Seminário Maior para a formação de padres.
Esse Seminário tornou-se o mais importante centro de formação dos Redentoristas na Europa e nele lecionaram professores como : o padre Vitor Augusto Deschamps, futuro Cardeal e arcebispo de Malines, o padre Bernardo Hafkeascheid, colega de estudos de Joaquim Pecci ( Leão XIII), bem como o Padre Joseph Aertnys, cujo manual de Teologia Moral tornou-se famoso e adotado por quase todos os seminários maiores, na primeira década do século XX .88
Nesse convento e Seminário Maior, formaram-se todos os padres redentoristas holandeses que vieram para o Brasil.
Como se vê, principalmente pela presença do padre Aertnys entre os professores de Wittem, um autêntico herdeiro do pensamento do fundador, a formação dos padres redentoristas holandesas era solidamente marcada pela espiritualidade e moral
86
A Holanda ( Hollow-land = terra ôca), tem 2/5 de sua superfície tomados do mar ; “Deus criou o mundo, mas o holandês criou a Holanda.” Nessas áreas drenadas, encontram-se as mais ricas terras cultivadas. Essa luta constante contra o mar, conquistado palmo a palmo, através de diques, marca a tenacidade do holandês. A configuração atual do país remonta a 1830. Em 1890 o trono foi ocupado por Guilhermina que permaneceu até 1948, quando sucedeu-lhe a filha Juliana. ENCYCLOPAEDIA BRITÂNICA – Vol.VII , ed. 1971
87
À época, a região pertencia à Bélgica e somente foi anexada à Holanda em 1839, pelo Tratado de Londres.
88
O Manual de Teologia Moral do Padre J. Aertnys, discípulo e seguidor de Santo Afonso, incorporou conceitos mais avançados no campo moral, mantendo entretanto a linha alfonsiana do equiprobabilismo.
Falecido em 1915, seu manual foi adaptado em 1943, aos cânones do novo Codex Iuris Canonici ( promulgado em 1917 pelo Papa Bento XV) pelo confrade Cornélio A .Damen,, doutor em Direito Canônico e
Professor de Teologia Moral em Roma.
Tal manual, conhecido como AERTNYS – DAMEN, escrito segundo a doutrina de Santo Afonso, foi substituído, na década de 1950, pelo célebre "A Lei de Cristo" de outro redentorista e moralista famoso, BERNHARD HÄRING . Antes de falecer, em 3 de julho de1998, Bernhard Häring reformulou seu manual de Teologia Moral e alterou-lhe o título para “Livres e Fiéis em Cristo”. A Obra está editada no Brasil : São Paulo : .Paulinas, 1984, em três volumes: 1O. – Teologia Moral Geral, 2o. A verdade vos libertará 3o. - Vós sois a Luz do mundo.
Não se pode aqui omitir uma referência ao já citado pe. JAIME SNOEK, um dos quais a quem dedico essa tese, por seu relevante trabalho como moralista em Juiz de Fora, destacando dentre suas publicações a obra Ensaio de Ética Sexual, 1981
alfonsiana e, mais uma vez ressalte-se, a moral alfonsiana opôs-se com veemência ao rigorismo jansenista de sua época.
Em 1869, a Província holandesa já possuía cinco conventos ( Amsterdam, s’Hertogenbosch, Roermond, Roosendaal e Wittem).
Atendendo a um pedido da Sagrada Congregação da Propaganda Fidei, e do primeiro Vigário Apostólico do Suriname, o redentorista Padre João Batista Swinkels, a Província holandesa constituiu a Vice-Província do Suriname, em 1866.
Com isto, à época da vinda dos primeiros redentoristas para o Brasil, os holandeses já tinham uma experiência missionária na América do Sul, embora fosse em uma colônia holandesa, com a mesma língua e muitos dos costumes da pátria.
A situação da Província holandesa, em 1893, era a seguinte : Conventos : seis ( acrescido Rotterdam) Padres : 80
Irmãos : 58
Estudantes maiores : 27
Total de membros professos : 165
A Vice-Província do Suriname, constituída em 1866 e dependente da Holanda, contava com 20 padres e 16 irmãos.
Na época, a religião, na Holanda, era um misto de rígido calvinismo, protestantismo tolerante e catolicismo. O país contava com cerca de 5 milhões de habitantes dos quais 40% eram católicos.
O Catolicismo na Holanda experimentou, no último quadrante do século XIX e inícios do século XX, um período vigoroso, coincidindo com a florescência dos redentoristas em suas comunidades.
Numerosas eram as vocações para a vida religiosa, muitas vezes advindas de famílias rurais que não encontravam fáceis perspectivas de realização em um país pouco industrializado, de área restrita e com acentuadas características agrícolas. 89
89
A grande florescência de vocações religiosas, masculinas e femininas, no final do século XIX em vários países europeus, deu-se, muitas vezes, por força de circunstâncias sociais e de acomodação familiar. As dificuldades de absorção da mão de obra nas indústrias e o desmantelamento da atividade rural proporcionaram a busca de realização pessoal no meio religioso.
Muito antes de se chegar à decisão holandesa de enviar missionários ao Brasil, várias tentativas fracassaram:
Ainda em pleno período imperial, no dia 11 de setembro de 1843, o recém designado bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso, endereçou ao Imperador D. Pedro II correspondência em que lhe suplicava a intermediação junto a D. Fernando II, Rei de Nápoles e irmão da imperatriz Teresa Cristina Maria, visando a vinda dos redentoristas para sua diocese:
Peço a V. Majestade remédio pelo amor de Deus. Lembro um remédio que me parece eficaz e fácil a V. Majestade. Há em Nápoles uma respeitável Comunidade que vem a ser os Filhos de Santo Afonso Maria de Ligório, há pouco canonizado. – 1839 - Uma palavra sua a S. Majestade o Rei de Nápoles, seu cunhado, fará vir para Minas seis Ligoristas, Teólogos, Missionários, que me ajudem no Santo Ministério, por alguns anos, ficando a meu cargo sua viagem e manutenção. 90
De tal carta não existe qualquer registro de resposta.
Insistente em seu pedido, o bispo escreve, dias depois, em 19 de setembro, ao redentorista napolitano, Celestino Cocle, então confessor e conselheiro do rei de Nápoles.
Também sem resposta.
Em 25 de setembro, uma semana depois, resolveu dirigir-se, diretamente, ao superior geral dos redentoristas, Pe. Giovanni Camillo Ripoli.
Dele obteve, como resposta, a promessa de que, dependendo da anuência do Rei de Nápoles, iria selecionar alguns missionários para atendê-lo.
A verdade é que o pequeno número de redentoristas na Província napolitana o impediu de concretizar a promessa. Apelou aos redentoristas da Bélgica e deles obteve o compromisso de que uma expedição de padres seria enviada à diocese de Mariana, no verão de 1844.
Tal não aconteceu, não se sabe bem por quê.
A realidade na Holanda era bem patente. Um país predominantemente protestante abrigava famílias numerosas, onde as vocações religiosas eram muitas vezes bem vindas, face às poucas possibilidades de trabalho.
Também no Brasil pode-se constatar que, quando da expansão dos seminários, tal forma de ascensão social despertou “vocações”, muitas vezes, de pura conveniência..
90
Nesse ínterim, Dom Viçoso conseguiu na França, o envio de alguns missionários lazaristas, mas isso não o fez esquecer-se dos redentoristas.
Em 27 de abril de 1857, voltou ao assunto e escreveu ao Pe. Nicolau Mauron,91 novo superior geral, oferecendo-lhe condições mais concretas :
Naquele tempo não conhecia a situação desta diocese. Os desejos eram maiores do que os recursos. Mas agora, com a ajuda de Deus, possuo duas casas, nada pequenas, bem colocadas na cidade para sua Congregação; além disso uma boa propriedade rural, com uma pequena casa, que, se bem cultivada, dotada como é de várias árvores frutíferas, bom clima e nascentes, poderá alimentar a muitos. Com alegria e muito afeto as ofereço aos filhos de S. Afonso de Ligório.
Saiba V. Rev.ma que, de acordo com a taxa da diocese, o estipêndio de uma missa é de 3 francos, ou ( penso) de meio ducado, a qual taxa pode sustentar bem dois homens.
Peço-lhe, insistentemente, que movido de misericórdia por minhas ovelhas, queira enviar-me ao menos seis sacerdotes e quatro leigos coadjutores, entre os quais alguém que entenda de agricultura. Logo que receber sua carta, enviar-lhe-ei o dinheiro para a viagem marítima e terrestre, e prepararei os recursos necessários para os sacerdotes e leigos quanto à alimentação e vestuário, de acordo com a sua determinação.
O Senhor o conserve e lhe dê muitos anos de vida, é o que lhe deseja,
O seu servo
+ Antônio, Bispo de Mariana – Brasil 92
O Superior Geral e seus conselheiros recusaram a oferta alegando falta de pessoal, desconhecimento da língua e distância da fundação numa época em que a Congregação começava a se consolidar na Europa. As razões fundavam-se no pouco conhecimento da realidade brasileira e pela quase inexistente comunidade de língua portuguesa. 93
Outras tentativas, uma por parte de Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leon, bispo de Goiás e outra de Dom Luigi Matera, Internúncio no Brasil em 1878, também fracassaram.
91
O padre Nicolau Mauron fora eleito Superior Geral em 2 de maio de 1855. Foi o mais longo governo geral. Durante seu generalato ocorreram as negociações para a vinda dos redentoristas para o Brasil. Finalmente, quando tudo estava decidido e os dois pioneiros desembarcavam no Rio de Janeiro, faleceu, no mesmo dia, 2 de julho de 1893.
92
SPICILEGIUM HISTORICUM . Anno XXI, 1973, fasc. I, p.23 93
Em 1889, proclamava-se a República no Brasil.
Com o Império caía também o regime do padroado, o regalismo que atrelava a Igreja ao Estado, tolhendo-lhe a liberdade.
D. Antônio Viçoso que tanto lutara pela vinda dos redentoristas para a diocese de Mariana, morrera em 7 de julho de 1875.
Seu sucessor foi Dom Antônio Maria Correia de Sá Benevides, homem muito enfermo a quem foi dado, como auxiliar, Dom Silvério Gomes Pimenta.
Dom Silvério, menino pobre e negro de Congonhas, levado ao Seminário pelo próprio Dom Viçoso, dele herdou o amor a Santo Afonso e a determinação de trazer seus filhos para as Minas Gerais.
Em 1890, D. Silvério queixou-se da falta de padres a Dom Francisco Spolverini, Internúncio que deixava o Brasil . Esse alto dignitário da Igreja exercera, anos antes, a mesma função na Holanda, ocasião em que se fizera amigo dos redentoristas.
Os fatos seguintes são narrados, em correspondência, datada de 6 de janeiro de 1909, pelo Padre J. van Asten, testemunha ocular, e dirigida ao então superior redentorista no Brasil, Pe. Augusto Beukers :
Pelo ano de 1886, mais ou menos, um certo ‘monsignore’, ( Spolverini ), era internúncio na Holanda e hospedava-se, às vezes, em nosso convento no Keysersgracht.
Transferido da Holanda para o Brasil, foi chamado e volta para Roma. Não sei que função tinha no Brasil, nem sei se ainda está vivo. Esqueci-me do nome dele.
Ao deixar o Brasil, um dos bispos de lá, ( talvez o bispo de vossa diocese), pediu-lhe que conseguisse em Roma, alguns religiosos para sua diocese. O núncio prometeu cumprir a promessa. Visitou alguns superiores gerais, mas sem resultado. Também visitou o Pe. Mauron ( Superior Geral dos Redentoristas) em 1889 ou 1890, fazendo o mesmo pedido. Padre Mauron consultou no catálogo a situação das diversas províncias e respondeu : ‘ Creio que não há nenhuma província que possa se encarregar deste assunto ’ . Aí o Núncio perdeu toda a esperança e não se falou mais no assunto.
No ano seguinte este Monsignore tirou uns dias de folga, em 1891, e foi para Amsterdam onde se hospedou em nosso convento de Keysersgracht. No dia de sua partida, achava-se no corredor do andar térreo e eu, por acaso, estava a sós com ele. Contou-me seu esforço para conseguir padres para o Brasil, e como o padre Mauron o informara que não havia nenhuma província nessas condições. Imediatamente me entusiasmei e sem refletir coisa alguma, respondi com toda convicção : ‘Monsenhor, aqui na Holanda temos padres jovens, nós poderíamos aceitar esta Missão com facilidade’
Ótimo, disse ele, logo que estiver de volta a Roma, procurarei de novo o Geral. Dito e feito. Padre Geral aceitou de boa vontade a proposta e imediatamente consultou o Padre Provincial Jacob Meeuwissen, perguntando se a Holanda poderia aceitar esta Missão. Este convocou os consultores , mas apenas um ( eu mesmo) estava a favor; o padre provincial e os outros contra. Assim também o Padre Aertnys e demais padres consultados não a aprovaram.Pouco tempo depois o Padre Provincial foi a Roma. Ao chegar ali o Padre Mauron tocou no assunto da Missão no Brasil.
A informação foi negativa, conforme o resultado da consulta ao conselho provincial e comunicada ao Geral em visita pessoal..
O Geral concordou com a decisão holandesa e disse que arquivaria o pedido. Mas, no dia seguinte, pela manhã, encontrando-se novamente com o Provincial, disse-lhe :
Padre Provincial, aquela Missão no Brasil não me sai da cabeça, pensei nela a noite toda. Eu não queria abandonar essa idéia. Será que o senhor não pode aceitá-la ?
- Pois bem, Padre Geral, terei coragem para isso. 94
Esta correspondência de Van Asten foi redigida em janeiro de 1909, com
a finalidade específica de registrar, por testemunha ocular, os fatos relativos à vinda dos redentoristas para o Brasil.
É claro que as coisas não foram assim tão simples mas, o caminho inicial envolveu de perto os personagens acima.
O pedido tomou melhor forma por correspondência do Mons. Spolverini, ao Padre Geral, Mauron, datada de 21 de maio de 1892:
O bispo de Cômaco D. Silvério Pimentel ( sic) que administra a diocese de Mariana, na qualidade de Coadjutor do bispo diocesano, há algum tempo doente, a mim se dirige para que obtenha a vinda de alguns Padres Redentoristas aos quais confiará um célebre Santuário da S. Cruz ( Congonhas), para onde ocorrem cerca de 50 mil peregrinos todo ano, e o exercício das Missões ao povo, ele está disposto a custear as despesas da viagem, uma casa e as coisas necessárias para a primeira fundação.
A diocese de Mariana encontra-se no estado de Minas Gerais, unido por uma ferrovia à capital do Brasil. O clima é excelente o solo elevado a mais ou menos 1.000 metros sobre o nível do mar, é quase todo montanhoso e coberto de matas.
94
O povo é o mais religioso de todo o Brasil, inclinado à piedade, generoso e dócil mas, sem instrução. O clero secular na sua maior parte bom, porque há lá um bem freqüentado seminário diocesano eficientemente dirigido pelos Padres Lazaristas. 95
Já se pode vislumbrar nesse pedido que a finalidade da vinda dos redentoristas está ligada às atividades missionárias e que, a diocese garantiria seus meios de sobrevivência .Entretanto o pedido deixa claro os ideais reformistas do prelado que acena com a entrega aos missionários da administração do Santuário de Congonhas, centro de devoção popular.
Tal informação foi logo repassada ao Provincial da Holanda, donde se entende que, anteriormente, já se havia conversado informalmente sobre o assunto .
Na carta ao Provincial holandês, fica claro que Mons. Spolverini já esclarecera, pessoalmente, outros pontos duvidosos com referência ao Brasil, principalmente as relações entre a Igreja e o Estado :
Contudo o ex-núncio colocou a situação em luz tão favorável, principalmente com a separação da Igreja e do Estado que, conforme disse, foi introduzida agora. 96
O Padre Jacob Meeuwissen não conseguiu uma aprovação unânime por
parte do conselho e retorna ao Geral :
No momento não tenho mesmo o número suficiente de padres para atender aos numerosos pedidos de Missões e Retiros em nosso país, de modo que tenho dificuldades de ter nossos trabalhos apostólicos à altura em que estão atualmente.
A Missão do Suriname continua exigindo novos súditos e até agora não os pude mandar .
Essa posição, de 12-06-1892, foi contestada em carta do Pe. Van Asten ao Pe. Mauron :
Damos conta no momento de todos os trabalhos; não recusamos, durante todo o ano, um só pedido, nem mesmo um tríduo ... 95 Idem, p. 29 96 Idem, p. 30
Além disso é preciso observar que aceitamos uma multidão de pequenos trabalhos, que poderíamos deixar, por exemplo tríduos, dias de Adoração, sermões de circunstâncias, etç,.
Aceitamos esses trabalhos porque sem isso não haveria bastante trabalho...
O assunto não morrera. O Geral insistia com o Provincial holandês : “Quem sabe Deus quer ? Não perca de vista o Brasil. Vamos rezar muito ! ”
Padre Jacob Meeuwissen consultou o Provincial alemão, Padre J. Spoos, que se encontrava em visita canônica à Vice-Província de Buenos Aires, em fevereiro de 1893.
Dele não recebeu muitos incentivos :
Rev.mo, é bom ter um pouco de cuidado ao aceitar os pedidos aqui na América do Sul. Isso é muitas vezes, ‘muito barulho e pouca lã ’, como diz um provérbio alemão.
Consultou também ao Padre Bartolomeu Sipolis, Vice Provincial dos Lazaristas no Brasil.
Sipolis, em carta de 25 de fevereiro de 1893, esclarece que o Santuário referido por Spolverini, como “Da Santa Cruz” tem como nome “Santuário do Bom Jesus do Matosinhos”.
Informa ainda que sua Congregação estivera à frente do dito Santuário até 1856, quando em vista dos impasses havidos com a Irmandade que o administrava, tornou- se impossível sua permanência.
Esse aspecto torna patente um dos conflitos enfrentados pelo clero reformador com as Irmandades da época, marcadas pela autonomia que agora a Igreja queria restringir.
Disse ainda que, sem a propriedade ou ao menos a administração livre das rendas e esmolas do Santuário, não seria viável e não se poderia garantir o futuro e os recursos necessários à comunidade.
Por fim, o lazarista, conhecedor da finalidade dos redentoristas , concluiu: “ Sim, há muito bem a fazer no Brasil, sobretudo nas missões.”
Nesse momento entra em cena o próprio Dom Silvério Gomes Pimenta que, em carta dirigida ao Superior Geral , datada de 7 de fevereiro de 1893, implora :
...Portanto de novo rogo pelas entranhas de Vossa Misericórdia e peço-vos o mais insistentemente possível que não tardeis vir em auxílio de nossa gente. Aqui a seara é copiosíssima, mas poucos, pouquíssimos até os operários. Podereis aqui fundar grandes colégios para a educação da juventude, ou seminários menores para a formação do clero, ou dedicar-vos às sagradas missões nas cidades e vilas, ou dedicar-vos a quais quer outras tarefas que mais vos agradem.
Finalmente, a 12 de maio de 1893, aceitando o convite, o então Provincial
da Holanda, Pe. Jacob Meeuwissen é claro ao fixar os objetivos da atividade dos redentoristas:
Eu, abaixo assinado, Superior da Província Holandesa da Congregação do Santíssimo Redentor, desejo comunicar algo sobre a futura entrada da nossa Congregação na diocese de Mariana.
Como ficou claro das cartas ao Ilmo. Núncio Spolverini, V. Excia. rogou instantemente para que se enviasse os filhos de Santo Afonso para salvar as almas.
Nosso Superior Geral se dirigiu a mim para que assumisse essa missão. Tendo implorado as luzes divinas, e ouvido o parecer de meus conselheiros, persuadi-me que a Divina Providência nos chama para cultivar essa longínqua vinha do Senhor. Já foram designados os padres , R.P. Matias Tulkens e R.P. Francisco Lomeyer.
Ao aceitar a missão não tenho nem eu nem os meus