4 O BRASIL E O PROTOCOLO DE MADRI
4.1 DAS VANTAGENS E DESVANTAGENS
Como apresentado anteriormente, o Protocolo de Madri já vem sendo discutido no Brasil por anos e com o passar do tempo, ainda não existe uma resposta unânime quanto ao tema. Deste modo, são apontadas diversas vantagens e desvantagens sobre a sua incorporação no contexto atual.
Analisando o objetivo do Protocolo, é fácil pressupor que este acordo é muito vantajoso para os que dele fazem parte, isso porque, busca agilizar e desburocratizar o processo de registro internacional de marcas. Sousa (2018, p. 27) enfatiza este objetivo dizendo que,
[...] o Acordo de Madri visou estabelecer um procedimento de registro internacional válido entre os países signatários de forma única, mais barata e mais simples, quando comparada com o depósito individual em cada país desejado [...].
Contudo, a mesma faz ressalvas ao dizer que,
À primeira vista, os benefícios apresentados pelo Protocolo de Madri – em especial menor custo, menor tempo e menos burocracia –, em relação ao sistema tradicional de registro de marcas no exterior, são absolutos. Entretanto, ao se analisar casos concretos, é perceptível alguma relatividade dos mesmos. (SOUSA, 2018, p. 44)
Um dos principais aspectos apontados como vantagem do Protocolo de Madri no Brasil, é a delimitação de um tempo para uma devolutiva quanto a solicitação do registro de marca. Isso porque, o país costuma não estipular prazo para essas respostas, fazendo com que ocorra uma solicitação excessivamente longa para o processo.
Constatado isso, percebe-se que a incorporação do Protocolo viria de forma a acelerar o pedido de registro de marca, sendo de suma importância para empresas que desejam realizar o registro em território brasileiro. Como ressalta Carvalho (2009, p. 91),
[...] nos países onde o tempo necessário para exame do pedido de registro da marca é extremamente longo, o Protocolo pode resultar em pedidos de registro sendo examinados e registrados muito antes [...]
A Agência Senado [2019] enfatiza ainda que,
O Protocolo de Madrid habilita as empresas e pessoas físicas de um país-membro a solicitarem, através da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), ligada à ONU, o registro de uma marca já pedida ou registrada no seu país de
origem. Esse processo garante a prioridade da marca e simplifica o registro em todas as nações que fazem parte do acordo.
Outro fator importante a ser levantado como vantagem, é a desburocratização da solicitação de registro, já que a mesma ocorre apenas em um órgão previamente acordado, responsável por enviar a solicitação ao órgão internacional responsável, a OMPI. Esta por sua vez, será a responsável por conceder o registro nos demais países signatários do Protocolo.
Como cita Carvalho (2009, p. 91),
O benefício da simplificação burocrática advém: do fato de as empresas não precisarem preencher formulários de depósito de pedido de registro de marca em cada país de interesse e nas respectivas línguas de cada um desses países, bastando apenas o preenchimento de um único formulário (no qual deverão constar os países designados) [...].
Internacionalmente, uma das principais vantagens a serem apresentadas, é que, o Brasil sendo parte do Tratado, os solicitantes brasileiros se beneficiam com a possibilidade de realizar a solicitação nos demais país signatários do Acordo. Isto, gera mais competitividade para o solicitante nacional no cenário internacional.
Atualmente, o Protocolo já faz parte dos países mais bem desenvolvidos, sendo assim, fazer parte dele, quesito fundamental para desenvolvimento econômico e expansão das marcas brasileiras pelo mundo, assim como entrada de marcas estrangeiras no Brasil. Entende-se que “a marca agrega valor ao produto, assim como as tecnologias protegidas por patentes. Para ele, as ações serão mais um estímulo à inovação pelas empresas brasileiras” [INPI, 2019]. Carvalho (2009, p. 84) concretiza isso, trazendo como exemplo que,
Os países em desenvolvimento também têm utilizado cada vez mais o sistema de Madri. Em 2007, apresentaram 2.108 pedidos de registro internacional, o que representa 5,3% do número total de pedidos e um aumento de 10,5% em relação a 2006. A Coréia do Sul é o país onde o aumento foi mais significativo, 73,7% de crescimento em relação a 2006 (o país apresentou 330 pedidos em 2007).
A incorporação do Protocolo traz inúmeras vantagens para o contexto brasileiro, isso porque, busca dar prazo a processos intermináveis e tornar mais fácil a todos o acesso ao registro da marca. Barcellos [2019] analisa que,
O Protocolo de Madri é um avanço e é assim que deve ser compreendido pelo ambiente empresarial, acadêmico e dos profissionais prestadores de serviços envolvidos. Cria uma alternativa para brasileiros e estrangeiros protegerem seus ativos expressos através de marcas em todos os países signatários (mais de 100 países).
Que é complementada por Carvalho (2009, p. 92), dizendo que,
Esses benefícios são toda a razão de ser do sistema de registro internacional de marcas instituído pelo Acordo de Madri e aperfeiçoado pelo Protocolo de Madri. Isto porque, como o objetivo do sistema é facilitar a obtenção de registro de marcas no exterior, nada mais coerente do que apresentar benefícios em relação ao Sistema Tradicional, justamente nos pontos críticos do registro de marcas no exterior, quais sejam: burocracia, tempo e custo. Se assim não fosse, não haveria porque existir.
Outra importante vantagem para oriunda do Protocolo de Madri a ser citada, diz respeito aos aspectos financeiros, já que propõe o pagamento de uma única taxa que possibilita a solicitação do registro em diversos países membro do Tratado. No aspecto econômico, isso torna-se muito vantajoso, não apenas pelo pagamento de uma única taxa, mas pela ideia da solicitação ser feita em apenas um país e resultar no registro em diversos.
A OMPI (2014) ressalta que o registro internacional oferece diversas vantagens ao titular da marca. A respeito das taxas cobradas, a INTA (2014) afirma que o Protocolo elimina o custo alto das aplicações que são feitas separadamente em cada país em que se busca a proteção, e ainda aponta que a economia de custos também são perceptíveis na fase pós-registro. Deste modo, a OMPI (2014, p. 14) explica que após ter o registro da marca de base ou apresentar um pedido de registro junto à Administração de origem, o titular terá que simplesmente apresentar o seu pedido internacional em um idioma e pagar uma taxa, “ao invés de ter de apresentar pedidos independentes em Administrações de Marcas diversas em países e idiomas diferentes e pagando uma taxa distinta (em moedas distintas) à cada Administração”. (BEN, 2014, p. 61)
Além das vantagens financeiras apontadas, Ejnisman e Gomes (2007) lembram ainda que, no que diz respeito ao comércio exterior, o Protocolo “também facilita o acesso das pequenas e médias empresas brasileiras exportadoras a novos mercados”. Tal ponto, coloca o país no mesmo nível de grandes potências mundiais, somando ainda ao fato de incentivar o lado empreendedor dos empresários brasileiros.
Apesar de possuir inúmeras vantagens para realização de registro de marca do exterior para os Estados e dos Estados para o exterior, o Protocolo não argumenta sobre como será tratado o nacional que deseja fazer registro apenas no território brasileiro. Isso tornou-se umas das principais críticas ao Protocolo, já que, presumindo os prazos delimitados pelo menos, percebe-se que haveria um acumulo dos pedidos brasileiros para o Brasil.
Os argumentos que foram apresentados pela ABPI14 na época, sustentavam, entre
outras coisas: (a) a inconstitucionalidade do Protocolo e sua consequente incompatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro; (b) a ofensa do Protocolo ao Princípio da Isonomia, que prevê a igualdade entre nacionais e estrangeiros; (c) a violação ao Português como idioma oficial do Brasil, (d) a concessão automática do registro caso não seja examinado dentro do prazo de 18 meses, (e) a situação passada pelo INPI, sobrecarregado de demandas, sem condições, assim, de prestar seus serviços de forma eficaz, pelo que estava levando cerca de 5 (cinco) anos para deferir um pedido de registro de marca e (f) o déficit arrecadatório do INPI, que deixaria de receber por alterações de nomes, endereço e titular, uma vez que para tanto seria paga uma taxa única não repassada aos INPIs locais.
Sousa (2018, p. 38), também cita a ABPI, dizendo que,
Resolução n. 23 da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), aprovada em 2002, que concluiu que o Protocolo de Madri seria incompatível com o ordenamento jurídico brasileiro e sua adoção acarretaria mais prejuízos do que vantagens para os usuários residentes no Brasil, levantando possíveis afrontas constitucionais, as quais serão exploradas nos tópicos seguintes.
Mesmo sendo citado anteriormente como fonte de vantagem, o tempo também pode ser visto como fonte de desvantagem, e também como fonte de diferencial no que diz respeito ao tratamento recebido por nacionais e estrangeiros. Isso porque,
[...] a situação passada pelo INPI, sobrecarregado de demandas, sem condições, assim, de prestar seus serviços de forma eficaz, pelo que estava levando cerca de 05 (cinco) anos para deferir um pedido de registro de marca; a inconstitucionalidade do Protocolo que fere o princípio constitucional da isonomia, na medida em que promove um tratamento desigual entre brasileiros e estrangeiros detentores de marcas a serem registradas e por fim, o déficit arrecadatório do INPI, que deixaria de receber por alterações de nomes, endereço e titular, uma vez que para tanto seria paga uma taxa única não repassada aos INPIs locais. (CARVALHO, 2009, p. 1008)
Ejnisman e Gomes (2007) trazem ainda que em relação ao Protocolo de Madri, por anos, “alega-se que marcas estrangeiras, originárias do sistema, virão para o nosso país e congestionarão ainda mais o INPI”, porém, os mesmos afirmam que isto é um equívoco. Entende-se que, o sistema de solicitação de registro de marcas brasileiro já possui falhas e que de fato, não seria inserção do tratado que tornaria o sistema lento.
Outro ponto apontado por alguns como problema diz respeito a relação entre o Registro-Base (aquele realizado no país de origem) e o Registro Internacional, já que como lembra Mesquita (2016, p. 35),
14Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), “é uma entidade sem fins lucrativos voltada para o
estudo da Propriedade Intelectual, notadamente o direito da propriedade industrial, o direito autoral, o direito da concorrência, a transferência de tecnologia e outros ramos afins” (SOUSA, 2018, p. 38)
Um ponto preocupante à prática da proteção marcaria internacional recai sobre a insegurança jurídica conferida pela dependência do Pedido ou Registro Internacional ao Pedido ou Registro-Base, vez que para encaminhar a proteção de marca através do Sistema de Madri, se faz necessário, primeiramente proteger a marca na Administração de Origem.
Este, por sua vez, diz respeito a regra encontrada no Protocolo de Madri que delimita que o pedido internacional só estará oficialmente desvinculado do Registro-Base após 5 anos, desde que o mesmo não seja expirado, anulado, revogado ou invalidado dentro destes 5 anos iniciais do Pedido Internacional. Caso ocorra algo do tipo, a perda de registro de estende-se ao exterior, fazendo com que seja de suma importância vigiar também, a validade das solicitações no âmbito nacional.
É importante compreender que, mesmo sendo vantajoso para muitos, o Protocolo não possui em suas diretrizes o tratamento igualitário para nacionais e estrangeiros, sendo este o motivo pelo qual muitos se mostram incomodados com a sua incorporação.
Visto isso, algumas alterações se fazem necessárias a fim de atingir este objetivo, estas serem discutidas a seguir, sendo tema central de discussão do presente trabalho.