CAPÍTULO 3 – DO MODELO NORMATIVO DE FINANCIAMENTO POLÍTICO E
3.3 Do financiamento público
3.3.4 Das vantagens e desvantagens do financiamento público
3.3.4.1 Vantagens
A instituição do financiamento público decorreu, basicamente, da existência de três problemas: um alto grau de desigualdade econômica entre os candidatos e os partidos; a incapacidade financeira dos partidos e candidatos para enfrentar os altos custos das campanhas eleitorais; e um perigoso nível de dependência dos partidos e candidatos em relação às respectivas fontes privadas de receitas, especialmente, das pessoas jurídicas de direito privado, facilitando as práticas abomináveis de corrupção política.
Como forma de minorar essas problemáticas, o Estado destina um fluxo regular de recursos públicos tanto para as atividades ordinárias das agremiações partidárias como para os gastos de campanha eleitoral.
Com base nos estudo realizados, podemos citar como vantagem deste modelo de financiamento: garantir recursos financeiros para que as campanhas eleitorais sejam disputadas de forma mais igualitária; fazer com que a arrecadação e os gastos tenham maior publicidade; e, ainda, assegurar que os partidos disponham do apoio e recursos necessários para o funcionamento, considerando que as siglas são essenciais no sistema democrático representativo.
Sob este ângulo, em termos de custo/benefício, pode ser bem menos oneroso o financiamento público do que o custo para a obtenção de recursos para campanhas eleitorais.
Assim, como ponto positivo, poderíamos mencionar o aspecto igualitário que envolveria as disputas eleitorais, desde que houvesse uniformidade nos critérios de distribuição dos recursos. Citemos como exemplo a redução dos gastos na propaganda, já que os efeitos da utilização das técnicas de marketing, extremamente sofisticadas, seriam reduzidos, contribuindo para que os debates ideológicos e programáticos entre os candidatos não seriam prejudicados por estes recursos de forte apelo mercantil.
3.3.4.2 Desvantagens
A proposta do financiamento público exclusivo encontra subsídio no trabalho de alguns importantes teóricos políticos, em especial John Rawls, segundo o qual a influência da economia na política deve ser limitada a fim de se garantir o valor equitativo das liberdades políticas, associado ao princípio de justiça.
Para o autor, o financiamento público é uma forma de assegurar o valor equitativo das liberdades públicas:
[…]
não tenho como analisar aqui qual a melhor maneira de realizar esse valor eqüitativo nas instituições políticas. Apenas parto do princípio de que existem modos institucionais viáveis de tornar isso compatível com o âmbito central de aplicação das outras liberdades básicas. Reformas nesse sentido costumam envolver coisas como o uso de fundos públicos para eleições e restrições às contribuições de campanhas, a garantia de um acesso eqüitativo aos meios de comunicação, e algumas regulamentações da liberdade de expressão e de imprensa (mas não restrições que afetem o conteúdo da expressão). [...] Um dos objetivos do ajuste dessas liberdades básicas é dar a legisladores e partidos políticos independência em relação a grandes concentrações de poder econômico e social privado numa democracia de propriedade privada. 228
Conquanto existam vantagens decorrentes do financiamento público, esta forma de financiamento também apresenta desvantagens, conforme os estudiosos da matéria, sendo desprovida de corroboração empírica suficiente. Nesse sentido, Delia Ferreira Rubio:
[...]
de fato episódios de corrupção associados ao financiamento da política verificam-se tanto em países que preveem o financiamento público quanto naqueles que não o contemplam. Casos como o do chanceler alemão Helmut Kohl, o dos ‘Amigos de Fox’ no México e os que redundaram nos processos da operação Mãos Limpas (ManiPulite) na Itália se deram em contextos de sistemas com financiamento público de partidos e campanhas.
229
Delia Ferreira Rubio também aponta duas consequências negativas desta forma de financiamento, a saber:
228
RAWLS, John. .Justiça como Eqüidade – uma Reformulação. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003, p. 212.
229
RUBIO, D.F. Financiamento de partidos e campanhas – Fundos públicos versus fundos privados. In RAMOS, André de Carvalho (coordenador). Temas de direito eleitoral no século XXI. Brasília, DF: Escola Superior do Ministério Público da União, 2012, p. 257-258.
1) como sempre, haverá grupos ou indivíduos interessados em apoiar partidos ou candidatos e que, em face da proibição, encontrarão meios eficazes de ocultar a rota do dinheiro por meio de contas bancarias no estrangeiro, pessoas interpostas ou triangulação de fundos; 2) o Estado deverá aumentar os valores dos recursos públicos para o financiamento da campanha eleitoral. 230
Conforme Daniel Zovatto231, sustentar os partidos políticos com recursos exclusivamente públicos pode provocar também o fenômeno da estatização, burocratização, dependência econômica crônica dos recursos públicos (ossificação dos partidos políticos), e a perda de contato com a sociedade, a qual, nos países subdesenvolvidos ou propensos a crises econômicas severas (com altos índices de pobreza e amplos setores da população insatisfeita), questiona a alocação de recursos do orçamento público aos partidos políticos.
Em nosso ordenamento jurídico, o art. 17, § 1º da Constituição Federal232 assegura aos partidos políticos “autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais [...]”, rompendo, assim, com o sistema partidário de dependência do Estado, previsto no regime político anterior (1964-1985).
Pois bem, outra crítica muito comum que se faz ao financiamento público de campanhas eleitorais refere-se ao deslocamento de escassos recursos estatais para a propaganda política. Para muitos, isso deveria ser um “luxo” reservado, apenas, aos países mais ricos e com pouco histórico de corrupção eleitoral.
Consoante Marcelo Passamini Machado,
[...]
os custos estratosféricos de nossas campanhas eleitorais drenam importantes recursos que deixam de ser investidos em programas sociais e serviços públicos (no caso do financiamento público) e em pesquisa e desenvolvimento tecnológico (no caso do financiamento privado). Essa observação ganha especial relevância à luz dos dados apresentados anteriormente, os quais mostram que os gastos brasileiros com propaganda eleitoral superam aqueles de um país com um PIB quase 10 vezes maior. [...] a necessidade de arrecadação de recursos para o custeio de
230
RUBIO, D.F. Financiamento de partidos e campanhas – Fundos públicos versus fundos privados. In RAMOS, André de Carvalho (coordenador). Temas de direito eleitoral no século XXI. Brasília, DF: Escola Superior do Ministério Público da União, 2012, p. 258.
231
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762005000200002>. Acesso em: 26 jul. 2016.
232
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 17 ago. 2015.
campanhas cada vez mais dispendiosas levaria os candidatos a buscar junto às fontes privadas um volume cada vez maior de recursos. Entretanto, essa obtenção de recursos ficaria, evidentemente, atrelada ao atendimento, pelo candidato, de reivindicações de grupos bastante restritos, cujos interesses particulares comumente se chocam com o interesse coletivo. 233
Nesse sentido, também, o Ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Velloso:
[...]
o financiamento público já ocorre em grande parte, que é o horário eleitoral gratuito: gratuito para o partido político, para o candidato, mas não para a União. Imaginem vocês, se não tivéssemos o horário gratuito, quem iria para a televisão? Somente o ricaço. Quantos e quantos estariam, portanto, em situação de total desequilíbrio. Então, já existe essa participação do poder público no financiamento das campanhas políticas. Agora, jogar dinheiro vivo na campanha para financiar, eu acho que não é possível. Nós temos inúmeras outras prioridades. O financiamento de uma campanha não ficaria por menos de um bilhão de reais. Quantas casa populares poderiam ser construídas com um bilhão de reais? Quantas favelas poderiam ser urbanizadas? Quantas crianças poderiam ser retiradas das ruas, da escola do banditismo? Quantos deixariam de morrer nas filas do SUS? 234
Enfim, o financiamento público exclusivo tem como ponto negativo a possível dependência financeira dos partidos políticos para com o Estado, em prejuízo da sociedade, pondo em risco a liberdade de atuação das agremiações.