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3. A narrativa histórica 1. Diálogos e conexões

3.3. Diálogos contemporâneos

3.4.1. David Harlan e o debate nos Estados Unidos

3.4.1. David Harlan e o debate nos Estados Unidos

David Harlan entende que o retorno da literatura para as ciências humanas foi orquestrado, em princípio, por Ferdinand de Saussure “com sua insistência em que a linguagem constitui e articula a realidade, ao invés de

refleti-la ou expressá-la”, e explica também que “o significado tornou-se uma função do sistema linguístico, com suas regras fixas e pares de oposições, ao invés de algo a ser descoberto na natureza ou no passado”. Tal perspectiva teve domínio até os anos 1960 com o surgimento do chamado pós-estruturalismo, que representava uma tentativa de mudança, uma tentativa de alteração do paradigma linguístico saussureano, substituindo um sistema

“firme, estável e fechado, por uma concepção de linguagem instável, aberta e proteica”. Os pós-estruturalistas, representados principalmente pelos seus expoentes Derrida, Foucault e Barthes, direcionaram suas críticas primeiramente para o entendimento saussureano do signo como a união entre uma palavra (o significante) e a ideia ou objeto por ela representado (o significado), para esses teóricos “esta unidade presumida não passa de uma ficção: os significantes não estão ligados aos significados; eles meramente apontam para outros significantes” (HARLAN, 2014: 14).

Se o signo e a referência foram as primeiras vítimas do pós-estruturalismo, a narrativa foi a segunda, é o que entende Harlan, tendo em Hayden White a base para esse pensamento. O autor explica que os historiadores por muito tempo acreditaram em uma narrativa histórica que apresentava um sentido fixo e determinável, e que era possível adentrar à narrativa e “experienciar toda a concretude e particularidade do autor”, pensando que a investigação do contexto fosse a chave para decifrar o texto.

Contudo, segundo Harlan, “essa noção tradicional de narrativa foi fatalmente comprometida pela fuga dos significantes de seus significados controladores e de seu sistema de oposições subjacente” (2014: 15).

Havia um grande medo por parte dos historiadores de que a inserção da crítica literária nos estudos históricos lhes tirasse a autonomia da investigação e epistemologia, e principalmente, acabasse por arrancar de vez a história do seu posto de ciência e a colocasse como um mero gênero literário, e consideravam, obviamente, aquele como um campo superior a este. Harlan escancara esse medo dos historiadores com uma passagem que chega a ser irônica – tendo aqui a concepção do termo em seu sentido mais raso. O autor diz:

Historiadores são pessoas céticas. Para eles cada um deveria guiar-se confiando no próprio nariz, como um cão de caça. Eles receiam que, uma vez deixando-se distrair por uma teoria, eles passarão seus dias a vagar por um labirinto cognitivo do qual não encontrarão o caminho que os conduza à saída. A crítica literária é certamente o pior destes labirintos, especialmente em sua versão pós-moderna.Os historiadores desviam seus olhos, mas o pouco que veem confirma seus mais terríveis temores: a teoria literária é esotérica, subversiva, anarquista – algo que se deveria evitar como uma questão de higiene intelectual (HARLAN, 2014: 16).

A forma caricata que Harlan delineia a aversão dos historiadores americanos em relação à crítica literária chega a provocar o riso. Mas a despeito disso, Harlan tinha plena consciência da seriedade de suas afirmações, e informa ainda que esse medo era em parte por considerarem a crítica literária como um modismo e uma invasão estrangeira.

[...] pessoas de senso comum tipicamente consideram a teoria literária como profissionalmente indecorosa, politicamente sem efeito, moralmente niilista, cognitivamente inconsequente, estilisticamente hedionda e intelectualmente perigosa. Ela é percebida como uma invenção estrangeira (especialmente francesa), uma moda passageira, uma sacola de truques facilmente domesticável, e uma tentação inexplicável para os jovens (HARLAN, 2014: 16).

A despeito de toda ojeriza dos historiadores americanos pela crítica literária, Harlan identifica, também, que “a crítica literária pós-moderna tornou-se tão poderosa e influente numa série tal de disciplinas, e levantou um número tão grande de questões perturbadoras acerca dos fundamentos conceituais da própria história, que os historiadores não podem mais ignorá-la” (2014: 17), e essa força teve especial presença na história intelectual. O autor apresenta a continuidade no debate e os principais entraves sendo protagonizados pelo lado dos estruturalistas, ou ainda, contextualistas, por Skinner e Pocock, enquanto do lado oposto, Harlan põe Ricoeur, Gadamer e LaCapra como intelectuais que deram continuidade ao pensamento pós-estruturalista. José Antonio Vasconcelos, em Quem tem medo de teoria? A ameaça pós-modernismo na historiografia americana, publicado em 2005, descreve com primazia o embate na American Historical Review acerca da teoria da história e a ascensão da crítica literária que pôs a questão narrativa em destaque do debate da historiografia.

David Harlan sugere uma abordagem do passado que possa servir como uma alternativa ao que ele identifica como “contextualismo radical”. Porém não como “algum novo paradigma disciplinar que fundamentaria e legitimaria uma metodologia universal, mas meramente como uma abordagem entre outras”.

Sabendo que a ideia não é exatamente inovadora, ele indica que ela se justifica porque entende que não tenha sido bem compreendida nas discussões recentes. Harlan propõe “uma abordagem que abandonasse a tentativa de recuperar a intenção do autor, que fosse comparativa e não contextualista, que dissesse respeito não à busca das origens textuais, mas à recolocação de textos históricos” (2014: 51). A influência da crítica de Nietzsche continua presente, e Harlan evoca Aby Warbug para ressaltar a importância de uma história voltada para o presente e para o futuro, e não para o passado – por mais paradoxal que isso possa parecer. Harlan informa que para o historiador da arte alemão “o significado desdobra-se em frente ao texto, e não detrás dele. Textos não apontam para trás, para o contexto histórico ou para as intenções putativas de seus autores já mortos; eles apontam para frente, para as possibilidades ocultas do presente” (2014: 52).

Para Harlan, os historiadores deveriam aceitar que a história, assim como as demais ciências humanas, não detém uma formalização metodológica hegemônica e demonstrável, e a tentativa de empreender tal formalização não resulta em nada de útil. O autor justifica esse entendimento com base nos

“recentes desenvolvimentos em crítica literária e filosofia da linguagem”, que por sua vez, “têm de fato solapado a crença num passado fixo e determinável, negado a possibilidade de recuperação da intenção do autor, e desafiado a plausibilidade da representação histórica” (2014: 59). A conclusão de Harlan é enfática, e, além de evidenciar a relação de débito com a crítica nietzschiana, é a passagem mais conhecida da posição do autor frente ao debate em questão:

Se nos perguntarmos “o que é uma escrita histórica?”, a resposta só pode ser “há este tipo de escrita da história, e este tipo, e então novamente este tipo”. Se tal entendimento pudesse alcançar uma aceitação, ainda que relutante, da profissão histórica, poderia ser aberto um espaço no qual um outro tipo de história intelectual pudesse ser escrita, uma história que dissesse respeito não a autores mortos, mas a livros vivos, não a um retorno de escritores antigos a seus contextos históricos, não à reconstrução do passado, mas fornecendo um meio crítico

pelo qual os trabalhos valiosos do passado possam sobreviver a seu passado – possam sobreviver a seu passado de modo a falar-nos sobre nosso presente. Pois é somente assim que poderemos esperar algum dia vermos a nós mesmos e a história de outra forma (HARLAN, 2014: 60).