CAPÍTULO III – A IMPRENSA REGIONAL LUZ SOBRE O CAMPO DE TRABALHO
2. Contributos para um perfil do segmento
2.4. De 1995 ao presente
O período que se segue a 1995 inaugura claramente uma nova fase na vida da imprensa
regional, pelo menos no tocante ao manancial de dados estatísticos e estudos que, por
comparação com períodos prévios, se revela bem mais prolífero e possibilitador de uma
análise mais clara. No caso, o trabalho do "Projecto Mediascópio da Universidade do
Minho", aqui considerado leitura primaz, traça uma "radiografia geral do sector" transversal
a diversos estudos e informações sobre o momento44.
44 O estudo a que nos referimos é o relatório final “Avaliação da Política de Incentivo à Leitura (ex-Porte
Pago)”, apresentado a 31 de março de 2011 ao Gabinete dos Meios para a Comunicação Social (GMCS) e elaborado pela equipa do “Projecto Mediascópio – Estudo da reconfiguração do campo da comunicação e dos
171
O número de publicações regionais para o ano de 1998, pelos cálculos do então Instituto
para a Comunicação Social, pelas citadas palavras do seu presidente Assis Ferreira,
estimava-se nos já referidos "mais de 900" títulos distribuídos conforme as "assimetrias
socioeconómicas existentes entre as diversas regiões de Portugal" (Projecto Mediascópio,
2011, p. 32) com periodicidades sobretudo mensais (307, aprox. 34,1%), a que se seguem as
publicações semanais (211, aprox. 23,4%) e as quinzenais (163, aprox. 18,1%). Também
para este período se verifica um reduzido número de publicações diárias cifrado nos
assumidamente inflacionados 30 títulos (aprox. 3,3%). Para o ano anterior, e no encalço da
mesma fonte, encontramos tiragens médias de 4500 exemplares, ainda que 300 periódicos
incluídos nos 630 a usufruir de porte pago não alcançassem os 2500 exemplares. Apenas 8%
(cerca de 50 títulos) alcançavam valores acima dos 10.000 exemplares e apenas 1,5% (10
títulos) ascendiam acima das 30.000 unidades (Projecto Mediascópio, 2011, p. 32).
São ainda acessíveis, para o mesmo período, os dados relativos às suas estruturas
empresariais, sendo de realçar os baixos índices de receitas bem como reduzidos níveis de
profissionalização, o que indiciará um quadro de alguma permanência do descrito para os
períodos anteriores.
Para o ano de 2000, o relatório reporta-se aos dados de Feliciano Barreiras Duarte,
publicados em 2005, onde se revela que no Instituto da Comunicação Social estariam
registados, entre 4291 periódicos, cerca de 900 periódicos categorizados como imprensa
regional. Desses, 43% apresentariam periodicidade mensal, 30% semanal e 15% quinzenal.
media em Portugal” do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, constituída pelos seguintes elementos: Manuel Pinto, Helena Sousa, Felisbela Lopes, Joaquim Fidalgo, Luísa Teresa Ribeiro, Rui Passos Rocha e Marta Eusébio Barbosa.
172
O mesmo estudo aponta também a frágil organização empresarial, destacando que, à data,
"281 títulos que beneficiavam de 60% de porte pago pelo Estado não tinham «um único
profissional com contrato de trabalho»"45, notando-se, pela palavras de Barreiras Duarte, a
"ausência de políticas comerciais na área da distribuição, com vendas em banca residuais,
em média até 200 exemplares (cerca de 85% é distribuído por correio e só 15% é vendido
em bancas)" (Duarte apud Projecto Mediascópio, 2011, p. 34)46. Lugar de destaque à
ressalva sobre a profunda incerteza a respeito dos dados da tutela diagnosticada por António
Jacinto Costa, reportando-se a incoerências e problemas de registo. Tal não causará espanto
pela reportada mutabilidade do segmento e pela particularidade do período em análise.
Citando o OberCom, o estudo em análise refere que "a evolução do sector de imprensa
regional, em 2001 e 2002, decorreu sob o signo da crise" (Projecto Mediascópio, 2011, p.
35), sendo referidos 700 títulos para esse período, alguns sem periodicidade regular, "com
um tipo de propriedade que se divide ainda entre empresas do tipo unipessoal, entidades de
inspiração cristã, poder local ou regional, representando os grupos regionais e nacionais e as
médias empresas cerca de 2% do segmento" (OberCom apud Projecto Mediascópio, 2011,
p. 35). Constata-se também uma progressiva perda do volume de receitas, não sendo
colmatado pelo aumento das edições regionais eletrónicas.
Ganha agora maior validade o traçar esteios para um delinear do perfil das publicações de
proximidade em Portugal em meados do primeiro quartel do século XXI. O relatório da ERC
45 Os números do GMCS relativos às publicações beneficiadas pelo Porte Pago (até 2006) e pelo Incentivo à
Leitura (a partir de 2007) na nossa janela temporal são os seguintes: 1999 – 668; 2000 – 717; 2001 – 554; 2002 – 570; 2003 – 518; 2004 – 537; 2005 – 532; 2006 – 434; 2007 – 343; 2008 – 274; 2009 – 229; 2010 – 233; 2011 – 223 (GMCS, 2014).
46 Relembre-se que Feliciano Barreiras Duarte, à data, ocupava cargo governativo, pelo que o tom de aparente
menorização das vendas por assinatura não surgirá de forma inocente, sendo plausível que o governo se revele parte interessada na redução das despesas que o Incentivo à Leitura naturalmente acarretaria.
173
assume como definição de imprensa, de acordo com a já citada Lei de Imprensa (Lei n.º
2/99, de 13 de janeiro, artigos 9º e 12º), "todas as reproduções impressas de textos ou
imagens, disponíveis ao público, quaisquer que sejam os processos de impressão e
reprodução e o modo de distribuição utilizado", considerando como publicações periódicas
todas as "editadas em série contínua, sem limite definido de duração, sob o mesmo título e
abrangendo períodos determinados de tempo" (ERC, 2010, p. 31).
À data do estudo, em 2009, constavam dos registos da entidade reguladora 2942 publicações
periódicas com registo ativo, 438 empresas jornalísticas (317 sociedades por quotas, 40
unipessoais, 51 sociedades anónimas, 6 associações e 24 cooperativas de responsabilidade
limitada). São dotadas da designação de empresa jornalística as empresas proprietárias de
publicações que têm como atividade principal a edição de publicações periódicas. Do registo
constavam ainda 12 empresas noticiosas, assim entendidas aquelas que, ao abrigo do artigo
8º da supracitada Lei de Imprensa, têm como objeto principal a recolha e distribuição de
notícias, comentários ou imagens.
O estudo veio demonstrar a já salientada mutabilidade do segmento, tanto pelo constante
surgimento de novas publicações e empresas noticiosas e jornalísticas, como pela cessação
de edição ou de atividade de outras. Reforçando este facto, salienta-se a inscrição de 230
novas publicações e o fim de 430, a inscrição de 18 novas empresas jornalísticas e o cessar
de atividade de outras 17, isto apenas no ano do estudo considerado.
De forma a apurar o campo das publicações locais e regionais incluídas nos números atrás
expostos, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social socorreu-se da sua base de
174
considerando-se como "publicações de âmbito regional" aquelas "que, pelo seu conteúdo e
distribuição, se destinem predominantemente às comunidades regionais e locais" (Lei n.º
2/99 de 13 de janeiro, 1999). A seleção foi aberta também aos "títulos de carácter informativo – excluindo-se aqueles que foram classificados como doutrinários47 –, tendo sido também opção metodológica não contemplar publicações com periodicidades mais espaçadas que a
mensal" (ERC, 2010, p. 32). Deste modo, à data de 7 de dezembro de 2009, foram apuradas
as referidas 728 publicações periódicas de âmbito local e regional nos 18 Distritos de
Portugal Continental e nas duas Regiões Autónomas. Será essencial salientar que "a
classificação de «imprensa regional» é feita pela ERC a pedido do editor, havendo
publicações que não apresentam este pedido" (Projecto Mediascópio, 2011, p. 37), o que,
por si só, fará antever discrepância e fragilidades dos números apresentados. Ainda assim,
de acordo com a ERC, será possível, com os dados disponíveis, traçar o seguinte quadro:
QUADRO 8 – Distribuição das publicações locais e regionais por Distrito e regiões autónomas.
Distrito n.º de títulos percentagem nacional
Aveiro 67 9.2 Beja 9 1.2 Braga 56 7.7 Bragança 11 1.5 Castelo Branco 16 2.2 Coimbra 35 4.8 Évora 15 2.1 Faro 54 7.4
47 Tal opção contribuirá também para a perceção da redução substancial do número de títulos, na medida em
que exclui diversos periódicos que até então vinham sendo contabilizados e, desse modo, revelando também o peso que a imprensa católica continua a ter no contexto da imprensa regional.
175 Guarda 28 3.8 Leiria 56 7.7 Lisboa 28 3.8 Portalegre 22 3 Porto 85 11.7 Santarém 45 6.2 Setúbal 47 6.5 Viana do Castelo 39 5.4 Vila Real 22 3 Viseu 54 7.4 R.A.A. 28 3.8 R.A.M. 11 1.5
Fonte: Projecto Mediascópio (2011, p. 39).
O espectro de distribuição nacional é então compreendido entre um máximo no Distrito do
Porto com 85 títulos (11,7% do total nacional) e um mínimo no Distrito de Beja com apenas
9 títulos (1,2% do total nacional).
Verifica-se que a esmagadora maioria das publicações são mensários (37,5%), semanais
(29,4%) e quinzenários/bimensais (23,9%). "Apenas 18 títulos de imprensa local e regional
são diários (2,5%), existindo ainda alguns com periodicidades menos comuns, como é o caso
dos bissemanais, trissemanais ou trimensais (2,5%)" (ERC, 2010, p. 34). De referir ainda
que apenas 4,3% das publicações são de edição exclusiva online, como se pode conferir no
176
QUADRO 9 – Periodicidade do universo das publicações locais e regionais (em %).
Distrito Periodicidade Diário Online Bissemanal Trissemanal Semanário Quinzenário (e/ou Bimensal) Mensal Trimensal e outros Total Aveiro 1.5 1.5 1.5 34.3 23.9 34.3 3.0 100.0 Beja 1.1 55.6 11.1 22.2 100.0 Braga 3.6 1.8 1.8 32.1 25.0 35.7 100.0 Bragança 18.2 27.3 27.3 27.3 100.0 Castelo Branco 12.5 37.5 12.5 37.5 100.0 Coimbra 5.7 42.9 25.7 22.9 2.9 100.0 Évora 6.7 6.7 13.3 20.0 53.3 100.0 Faro 9.3 18.5 27.8 44.4 100.0 Guarda 25.0 17.9 50.0 7.1 100.0 Leiria 1.8 10.7 23.2 21.4 42.9 100.0 Lisboa 3.6 39.3 25.0 28.6 3.6 100.0 Portalegre 4.5 4.5 13.6 31.8 45.5 100.0 Porto 1.2 4.7 31.8 31.8 28.2 2.4 100.0 Santarém 4.4 33.3 20.0 42.2 100.0 Setúbal 6.4 4.3 38.3 19.1 31.9 100.0 Viana do Castelo 2.6 5.1 20.5 30.8 41.0 100.0 Vila Real 31.8 36.4 31.8 100.0 Viseu 1.9 18.5 20.4 59.3 100.0
177
R.A.A. 21.4 35.7 14.3 21.4 7.1 100.0
R.A.M. 27.3 27.3 36.4 9.1 100.0
País 2.5 4.3 1.0 29.4 23.9 37.5 1.5 100.0
Fonte: ERC (2010, p. 35).
Pelos dados apresentados verifica-se também estarmos perante um decréscimo do número
de jornais e um predomínio dos jornais mensários (onde continuamos a encontrar muitos
periódicos doutrinários).
Podem ainda acrescentar-se elementos no que às estruturas empresariais diz respeito,
relativamente aos anos de 2006, 2007 e 2008. Verifica-se "um sector deficitário, (…) revelado por resultados líquidos negativos (…), além de um baixo desempenho pela maioria das empresas em termos de volume de negócios, facturação média, receitas e número de
trabalhadores" (ERC, 2010, p. 24). É possível ainda apurar que o sector é constituído
essencialmente por micro-empresas (80%) com um número de trabalhadores inferior a dez
e por pequenas empresas (19%), sendo a percentagem restante ocupada por médias empresas
(ERC, 2010, p. 202).
Considerando a constatada importância do segmento e, esteando pragmaticamente os nossos
pilares essenciais para a sua caracterização nos estudos apresentados, reveladores de
evidências macroscópicas da necessidade de reconhecimento do terreno, poderemos concluir
um perfil alargado. Assim, destes estudos se materializarão as circunstâncias previamente
178
"A imprensa local e regional, não obstante desempenhar um importante papel no sistema mediático português, enfrenta enormes problemas, entre os quais, o
escasso investimento publicitário e outras fontes de receitas (sobretudo em áreas geográficas económica e empresarialmente pouco consolidadas), o reduzido
índice de leitura nas zonas do interior, a diminuição do número de assinantes, as dificuldades na distribuição, e, consequentemente, o seu impacto diminuto na
vida política, económica, social e cultural, a nível nacional, ao contrário do que sucede nas zonas de circulação, onde o seu impacto é significativo (ERC, 2010,
179
Notas conclusivas do capítulo
Verifica-se que a imprensa regional e local surge dotada de uma faceta de repositório e
expressão do pensar e do sentir das sociedades. Tal dimensão torna-a terreno fértil de estudo,
pelo que convirá traçar bem as medidas das suas margens e das suas grandes linhas
caracterizadoras. Nesse sentido, para o caso português, foi possível perceber alguma
dificuldade em caracterizar clara e consensualmente o segmento. Tal obstáculo é verificável,
logo à partida, pela dificuldade de uniformidade numa definição clara e suficientemente
abrangente dos seus vários vieses. De facto, as grandes linhas orientadoras dos tentames
definidores surgirão em duas grandes dimensões: a frequentemente associada a critérios de
delimitação geográfica, numa aceção de território enquanto espaço físico bem delimitado e
a que resulta do conceito de pacto comunicacional (mais focado no lado relacional e no papel
social da imprensa onde intervêm num mesmo plano as instituições, as práticas sociais e os
media).
Constatadas as dificuldades de definir um segmento de forte mutabilidade e
heterogeneidade, o seu entendimento a partir do conceito de pacto comunicacional
vislumbra-se como possibilidade que permitirá ultrapassar as limitações de definições
assentes em critérios geográficos, em lugar de missão ou no papel centrado na especificidade
do medium. Mais, deverá atender-se à inevitável inclusão do segmento no conjunto dos
mass-media¸ não aceitando teorizações que o coloquem fora do seu lugar na interação
180
Assim, foi possível encontrar alguma pacificação da problemática, entendendo-se a
imprensa regional e local à luz do "pacto comunicacional" estabelecido em cada momento
entre os seus intervenientes, emissores e recetores. A especificidade do segmento resultará
da sua articulação e posicionamento nos diversos territórios onde se move, aceitando a
importância da localização, mas, neste caso, no que concerne ao "espaço geográfico de
implantação", ao "espaço da difusão privilegiada e estratégica", aos "conteúdos partilhados",
à "informação disponível" e à "seleção do ou dos públicos" (Camponez, 2002, p. 108). Deste
modo, o jornalismo regional será entendido como articulado em "torno de conceitos como
território, comunicação e comunidade" e que a sua definição deve partir do "conceito de
pacto comunicacional realizado no contexto de comunidades de lugar", entendidas como
"comunidades que se reconhecem com base em valores e interesses construídos e recriados
localmente, a partir de uma vivência territorialmente situada" (Camponez, 2002, pp. 36-37).
Ou seja, não se tratará de um tipo de imprensa que se caracteriza em larga escala por uma
delimitação geográfica imobilista que o constrange e o limita. Trata-se antes de uma
imprensa que se define pela relação estabelecida a cada instante entre si e os leitores numa
profunda relação com um território que será entendido à luz das novas geometrias do espaço
e do tempo, não se estancando em supostas delimitações "naturais".
A especificidade desta imprensa regional surge revestida de particularismos de tal forma
evidentes, que permitirão o seu estudo particular, não se constituindo como especialidade.
Antes se poderá definir como segmento da imprensa escrita dotado de particularidade
suficiente e de um específico conceito de proximidade, entendido a partir do pacto
comunicacional estabelecido na esfera das comunidades de lugar e co-interveniente no
181
Apesar de imersa nesse oceano da surmodernité, da breve análise da história da imprensa
regional e local portuguesa, foi ainda possível perceber o seu carácter de profunda ligação a
uma perceção do espaço pré-moderna, arreigada a perspetivas geográficas tradicionais que
encontrarão eco no próprio definir legislativo. De facto, o segmento da imprensa tido como
regional evidenciou a aceitação tácita de dimensões identitárias regionais vinculadas a
demarcações geográficas também encontradas na ação legislativa demarcatória já analisada
no nosso segundo capítulo. A discussão em torno das características do segmento, estaca
frequentemente nesse entendimento do território em dimensões herméticas, olvidando
frequentemente as dinâmicas sobremodernas de liquidez conceptual entre local e global.
Trata-se aparentemente de um tipo de inércia cognitiva que constrange uma visão mais clara
sobre o fenómeno da imprensa em Portugal, tradutor também da visão discursiva sobre o
território. Esse entendimento dos media para o caso português pode eventualmente ser
subsidiário desse percecionar do espaço nacional assente numa narrativa identitária de matriz
de lenta evolução, fortemente tradicionalista, nem sempre correspondendo às dinâmicas
coevas. Por outras palavras, o frequente e tradicional entendimento da imprensa em Portugal
a partir da sua vinculação à geografia poderá corresponder a um certo pensamento das
populações que assim constroem também a sua narrativa identitária. Deste modo, a ação
demarcatória do Estado, frequentemente deixando de lado as dinâmicas culturais das
comunidades e esboçando discursos auto-legitimadores resultantes da sacralização autoral,
apresenta-se como coerente com a própria história da imprensa regional, quase sempre
entendida mais à luz dessa geografia estanque e imóvel do que de qualquer tipologia de pacto
comunicacional. Assim, e indo além do reconhecimento das características do segmento,
também será aqui possível verificar alguma corroboração da nossa suspeita relativamente à
hipotética possibilidade de se encontrarem vincados traços identitários de matriz geográfica
183