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2. Botucatu e a reforma da instrução pública

2.1. De como Botucatu ganhou uma casa de ensino

Em 1895, decorridos três anos desde o início da Reforma da Instrução Pública Paulista, em uma sessão na Câmara Municipal da cidade de Botucatu, discutia-se sobre os custos de desapropriação de um terreno para a construção de um edifício destinado ao grupo escolar que seria criado no ano seguinte (Ata da sessão de 11 de jul. de 1895). Este, por sua vez, se instalaria provisoriamente em um edifício alugado. Nesta época, Botucatu fazia parte do 27º Distrito Escolar quando, pela Reforma, o Estado de São Paulo foi dividido em trinta distritos. A análise de um relatório deste ano mostra alguns fragmentos do cenário. O inspetor escolar à época, Liberato Martiniano de Alencar, solicitou ao Diretor da Instrução Pública, Arthur Guimarães, a urgente subdivisão do distrito, devido ao fato de sua abrangência (Botucatu, São Manoel do Paraíso, Piraju, Fartura, Santa Bárbara do Rio Pardo e Remédios do Porto Tietê) dificultar o trabalho de inspeção. Também pedia o valor de $ 1.800.000 para o aluguel do prédio onde iria funcionar o grupo escolar até que o novo edifício fosse construído, além dos vencimentos para oito professores, um diretor da seção masculina, uma diretora da seção feminina, dois adjuntos, um porteiro e um servente. O conteúdo do relatório revela certo entusiasmo por parte do inspetor com relação ao novo edifício:

Está em construção um bello edifício destinado ao Grupo Escolar: nelle deverão funcionar as escolas desta cidade. Convindo, desde já, reuni-las, faço figurar no orçamento a verba para o aluguel de um prédio durante um anno que é o prazo para a conclusão das obras do edifício (Rel., 1895. Ordem 4.973).

A resposta do Conselho Superior de Instrução Pública foi positiva:

Comunico-vos para os devidos efeitos que o Conselho Superior, em sessão do dia 10 do corrente resolveu autorizar-vos a formação de um grupo escolar com duas secções, na cidade de Botucatú na forma do Art. do Regimento Interno das escolas. Deveis, porem, aguardar as nomeações dos respectivos directores, já propostas ao Governo, para a installação deste novo estabelecimento de ensino. (Of., 1896. Ordem 4.973).

Assim, a reunião das escolas isoladas da cidade formando um grupo escolar ocorreu com certa expectativa quanto às suas futuras instalações. Seus primeiros diretores seriam os professores Benedito Maria Tollosa e Garibaldina Pinheiro Machado33, ambos normalistas. O primeiro ano de funcionamento do grupo se daria em condições um tanto difíceis; ao menos, é o que se interpreta do relatório do ano seguinte, do inspetor João von Atzingen, referente ao que se passou em 1896. Quando este enviou o relatório ao Secretário do Interior, em 1897, havia assumido recentemente o cargo de diretor interino do grupo escolar até que se designasse um novo nome. O relatório já se referia a Botucatu como parte do 38º Distrito Escolar, indício de que a solicitação do Inspetor Martiniano para a subdivisão teria se efetivado. Um dos trechos deste documento merece ser destacado, pois evidencia algumas questões relacionadas à demanda escolar de Botucatu. O inspetor alega que, no primeiro ano de funcionamento do grupo escolar, o número de inscritos foi maior do que este comportava:

[...] Imediatamente se apresentaram á matricula grande numero de meninos e meninas, matriculando-se apenas cerca de 100 daquelles e cento e poucas destas, porque a casa em que estava installado o grupo não comportava maior numero, deixando de admittir muitos dos pretendentes (Rel. 1897, Ordem 6.815).

Este problema irá aparecer em vários relatórios subseqüentes e em algumas notas no jornal, indicando a persistência, por um longo período, de uma demanda bem

maior do que a oferta, o que levou a se estabelecer a prática de sorteio como critério para as matrículas quando o número de solicitações excedesse o número de vagas no grupo escolar (Correio de Botucatu, 30 de jan. 1908; 30 de jan. 1909). Ao que tudo indica, o principal critério de seleção era a localidade da residência do estudante; entretanto, devido ao prestígio do grupo escolar em comparação às escolas isoladas, as solicitações para a matrícula vinham também de bairros mais distantes, o que acarretou a escolha da “prática de sorteio” das vagas excedentes para as crianças de outras localidades. Os dados disponíveis não permitem saber se esta forma de seleção teria possibilitado um acesso às vagas melhor distribuído entre as classes mais ricas e as menos favorecidas, pois não há indícios de como se elaborava tal prática, ou ainda, se os interessados eram inscritos através de uma lista, quais eram os responsáveis pelo sorteio e como, de fato, este se concretizava, ainda que se possa sugerir que a disposição geográfica tenha se constituído como o principal critério de acesso. Como mencionado anteriormente, a implantação dos grupos escolares em edifícios especialmente construídos para eles constituía-se em um evento muito importante para um município, pois poucas localidades eram contempladas nos primeiros anos posteriores à Reforma: aliás, o alto custo de tal empreendimento fez com que sua expansão fosse lenta no início do século XX. De acordo com Souza (1998a, p. 107), em muitas cidades, quando criado um grupo escolar, o número de solicitações geralmente era bem maior do que o de oferta de matrículas, principalmente com relação ao primeiro ano. Deste modo, o sorteio teria sido comumente utilizado, embora, muitas vezes causasse desagrado à população. Na realidade, o crescimento demográfico, associado ao processo de imigração em muitas localidades do interior do Estado de São Paulo, irá se constituir como um grande obstáculo ao projeto republicano34, exigindo mais e mais escolas (MARCÍLIO, 2005). De acordo com o censo de 1920, 67,9% das crianças em idade escolar (de sete a doze anos) não freqüentavam qualquer escola (SOUZA, 1998a, p. 101). Para resolver, em parte, este problema, algumas medidas paliativas foram tomadas em anos posteriores, como o desdobramento de turnos nos grupos escolares, duplicando o número de classes e matrículas, e, conseqüentemente, diminuindo o período de funcionamento das aulas de cinco para quatro horas diárias. Muitos professores se opuseram à medida. Na

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Seria interessante ressaltar que, embora o projeto republicano tivesse como objetivo a expansão do ensino e enfatizasse o papel civilizador da escola, não chegou a pregar a sua universalização.

capital, o desdobramento atingiu a maioria dos grupos escolares: em 1910, dezessete dos vinte e quatro grupos funcionavam em dois períodos (SOUZA 1998a, p. 102). O grupo escolar de Botucatu, a partir da primeira década do século XX, também passaria a duplicar o turno de funcionamento das aulas: o período da manhã para as classes de meninos, e o período da tarde para as classes de meninas (Correio de Botucatu, 14 de maio de 1910).

Voltando às origens do grupo escolar, seria interessante destacar do relatório de João von Atzingen, as dificuldades de funcionamento desta instituição enquanto ainda se encontrava no antigo edifício: o inspetor expõe algumas delas, alegando que as salas (com 66, m2 ) não possuíam o espaço adequado para o funcionamento das aulas Também expõe a má conservação da casa no geral que, “sendo encravada no meio de outras só tinha ar e luz por 4 janellas da frente e por outras tantas do fundo.” [...] e “além disso era pouco asseiada” (Rel., 1897. Ordem 0.473). De acordo com seu relato, a falta de espaço e de luminosidade teria dificultado em muito o trabalho dos professores e o interesse dos alunos pelas aulas. João von Atzingen foi o responsável pela transferência dos alunos para o novo edifício. Este foi inaugurado em março de 1897, não totalmente pronto, pois ainda faltava a cobertura dos galpões de ginástica, mas em meio a muitas solenidades (FIGUEIROA, 1999); (O Botucatuense, 28 de mar. de 1897).

O inspetor ainda relata os pedidos de demissão do grupo escolar por parte de vários professores ao mesmo tempo: o próprio Liberato Martiniano de Alencar, antes inspetor de distrito; um adjunto, Flamínio Pinheiro Machado e os ex-professores e diretores Benedito M. Tollosa e Garibaldina P. Machado (Rel., 1897. Ordem 0.473). João von Atzingen teria interpretado o ocorrido como conseqüência das péssimas condições em que se encontrava a casa alugada para as aulas do grupo escolar. Entretanto, considerando que este estava em vias de se transferir para o novo edifício, não seria necessário indagar se teria havido outros motivos? Ainda neste mesmo ano, outros três professores também teriam pedido demissão, conforme notifica o jornal “O Botucatuense”, em 24 de outubro de 1897. Já outras notas nos jornais e alguns relatórios irão mostrar que também em anos posteriores algumas disputas políticas na cidade de Botucatu interferiram na contratação e exoneração de professores do grupo escolar. Em 1902, o inspetor Mário Arantes, em um relatório enviado ao Diretor Geral da Instrução Pública, Mário Bulcão, afirmou que o jornal “O Botucatuense” teria noticiado de modo exagerado uma contenda entre o diretor do

grupo, Liberato Martiniano de Alencar, e um professor, Fidêncio Lopes Trigo. O professor Lopes Trigo, recusando-se a ministrar a aula de canto com a sua classe, por estar de luto há cerca de seis meses, teria sido substituído, nesta aula, por outro professor, seguindo as ordens do diretor Liberato Martiniano. O jornal, com base em poucas informações, teria, então, agido de má fé e, mal informado, teria publicado “o seu artigo alarmante sem visar consequencias” (Rel., 1902. Ordem 5.002), embora o inspetor reconhecesse que havia entre o diretor e o professor certa rivalidade, pelo fato de Fidêncio Lopes Trigo ter sido também diretor do grupo escolar. Infelizmente, não foi possível encontrar esta nota do jornal e, portanto, não se sabe exatamente o que foi veiculado. Mais adiante, em seu relatório, o inspetor procura caracterizar o desentendimento como algo sem “muita importância”, afirmando que ambos estariam prestes a se “harmonizar” novamente. Entretanto, ao final, relata que o Professor Lopes Trigo cogitava pedir sua transferência para outra cidade. (Rel., 1902. Ordem 5.002). No mesmo ano, em outro relatório, o inspetor Mário Arantes antecipa ao Diretor Geral de Instrução Pública algumas explicações acerca de uma nova contenda ocorrida no grupo escolar de Botucatu. O professor Eloy Tobias Ferreira de Aguiar, responsável pelas atividades de educação física35 da seção masculina, teria se desentendido com um aluno durante os exercícios militares. O inspetor procura detalhar o ocorrido:

Levo ao vosso conhecimento que hontem, no Grupo Escolar desta cidade, o professor Eloy Tobias Ferreira de Aguiar, no exercício militar a que procedia, maguou involuntariamente o alumno Sebastião Campos, pelo que foi por mim reprehendido. Sendo também o alumno castigado com reclusão por acto de indisciplina. Apesar de ser tal facto de mínima importancia, entendo que devo comunicar-vos, com o fim de prevenir denuncias em que a contra a directoria do Grupo, em vista da tensão que reina aqui entre facções políticas que pretendem influir na vida do Grupo.

Saúde e Fraternidade.

Mario de Arantes.

Inspector Escolar (Rel., 1902. Ordem 5.002).

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A disciplina de educação física, denominada “ginástica e exercícios militares”, foi instituída no final do século XIX nas escolas primárias e consistia de marchas, corridas e jogos ginásticos. O objetivo era o de tornar os corpos ágeis e vigorosos, além de desenvolver, no aluno, a coragem e o patriotismo. A partir de 1920, o programa de educação física foi redefinido de modo a minimizar os sofrimentos dos exercícios físicos, incluindo, na disciplina, jogos, corridas e brincadeiras do universo infantil, dentre outras atividades. Souza (2001, p. 96-97).

Por que a preocupação em justificar a atitude do professor? Em que medida este professor exercia sua autonomia com relação à classe? O que teria dito ao professor este aluno? Que espécie de tensão vivia o corpo docente do grupo escolar? Que facções políticas eram estas e como se interpunham à vida escolar do grupo? Talvez as respostas a estas questões remontem ao modo como foi composto o Conselho de Intendentes36 da Câmara de Botucatu, logo no início da República: segundo Figueiroa (2006, p. 47), em 1890, teriam sido nomeados pelo governo paulista, dentre outros membros, o Cel. Amando Amaral de Barros e Antonio Joaquim Cardoso de Almeida. Ambos os comerciantes possuíam bastante prestígio na cidade e elaboraram, juntamente com os outros intendentes nomeados, alguns projetos com vistas à modernização do município de Botucatu. Antonio Joaquim Cardoso de Almeida, à época, era sócio e proprietário da casa “Cardozo e Alfredo”, onde se comercializavam ferragens, louças e “molhados”, principalmente para a população que vivia na área rural da cidade, e Amando de Barros era proprietário da “Casa Amando”, que comercializava praticamente os mesmos produtos. A modernização do plano viário, a organização dos quarteirões do centro da cidade e a abertura de várias ruas constam como resultado dos projetos elaborados pelo Conselho de Intendentes. Alguns anos mais tarde, o Partido Republicano Paulista teria se dividido em alas na cidade, colocando “em campos opostos duas fortes lideranças: o Cel. Amando de Barros e José Antonio Cardoso de Almeida (filho de Antonio Joaquim Cardoso de Almeida)” (FIGUEIROA, 2006, p. 53). Uma polarização de forças que, segundo a historiografia da cidade de Botucatu, acarretaria a disputa entre “cardosistas” e “amandistas” até quase o final da Primeira República. De acordo com os relatos de moradores da cidade, o posicionamento político dos habitantes de Botucatu gravitava entre estas duas “facções” que se revezavam no poder. O Jornal “Correio de Botucatu” criticava explicitamente a atuação de José Antonio Cardoso de Almeida, enquanto o jornal “O Botucatuense” elogiava as suas ações. O “Correio de Botucatu”, pertencente a uma outra família de sobrenome Almeida - também proprietária da Casa Editorial Irmãos Levy - já havia, há tempos, tornado público seu agravos com o

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Em 1890, logo após a Proclamação da República, as Câmaras de Vereadores foram dissolvidas e substituídas pelos Conselhos Municipais, os quais possuíam funções legislativas, cujos presidentes assumiam, ao mesmo tempo, o cargo executivo de Intendente Municipal. O Conselho de Intendentes de Botucatu, neste período, foi composto pelos seguintes membros: Rafael Ferraz de Sampaio, Antonio José da Costa Leite, João Ribeiro de Carvalho Braga, Alberto de Araújo, Amando Amaral de barros, Francisco Antunes de Souza e Antônio Joaquim Cardoso de Almeida (FIGUEIROA, 2006, p. 47).

irmão de José Antonio Cardoso de Almeida, Antonio Cardoso de Amaral, o qual por sua vez, havia sido deputado estadual em mais de uma ocasião e, posteriormente, em 1924, prefeito da cidade. Segundo Figueiroa (2006, p. 54), tal agravo chegou aos extremos de custar o afastamento de Antonio Cardoso do Amaral da Prefeitura, pois teria sido acusado de organizar uma “emboscada” para o jornalista do “Correio de Botucatu”, Eurico Levy de Almeida, numa quarta-feira de Carnaval, em que estavam “ambos os lados litigantes armados de punhais e bengalas, em plena praça do bosque” (ibid). Com relação ao jornal “O Botucatuense”, não foram encontradas notas contendo críticas explícitas a atuação do Cel. Amando de Barros. Entretanto, seu proprietário, o Sr. Avelino Carneiro, ao que tudo indica, mantinha boas relações com José Antonio Cardoso de Almeida. Com relação à contenda, foi possível encontrar alguns indícios no “Correio de Botucatu”. Em 1902, quando a Câmara resolveu homenagear José Antonio Cardoso de Almeida, atribuindo a uma das ruas da cidade (a Rua da Caixa D’água) o seu nome, o “Correio de Botucatu” não “mediu palavras” em protesto:

A projectada denominação porem, será apenas, quando muito, prova de camaradagem pessoal, de amizade política, mas nunca uma recompensa significativa a um acto de benemerência de um cidadão (...) Que fez aquelle ex-secretario do Interior, para agora, receber esta homenagem? (...) Não se poderá responder a estas interrogações a menos que não se deseje equiparar o sr. dr. Cardoso de Almeida a um coronel qualquer, cabo eleitoral ou mandão político, desses que a bajulação converte, de repente, em beneméritos da Pátria. (Correio de Botucatu, --, 1902).

Nesta outra nota, o jornal mostra explicitamente seu apoio a Amando de Barros:

Seguiu para São Paulo, donde regressará brevemente, o Sr. Amando de Barros, nosso estimado chefe político. (Correio de Botucatu, 24 de out. de 1907).

Houve, ainda, quem declarasse à imprensa sua adesão a uma ou outra facção política:

DECLARAÇÃO

O abaixo assinado faz publico que nesta data deixa de ser cardosista para alistar-se nas fortes e disciplinadas fileiras do partido amandista. Esta sua resolução é motivada por fortes e justíssimas razões. Botucatu, 16 de novembro de 1909.

Nicolau Ciffoni. (Correio de Botucatu, 30 de nov. de 1909).

É possível que a demissão de outros três professores do grupo escolar em 1897 (mencionada anteriormente) logo após a saída de seus primeiros professores, também esteja relacionada de algum modo com estas questões políticas. O jornal “O Botucatuense” noticia o fato de modo pesaroso:

Rettiraram-se daqquelle estabelecimento de ensino os professores Augusto Moraes, Dª Carlota Moraes e Domingos Marcondes. E’ pena que o nosso grupo, que tantos serviços tem prestado à instrucção da infancia desprotegida fique privado dos serviços de tão hábeis e intelligentes professores. (O Botucatuense, 24 de out. de 1897).

A respeito destas questões, seria interessante ter em conta que, já no ano de 1896, o Conselho Superior de Instrução Pública teria sido extinto pelo Governo do Estado de São Paulo e, considerando-se que aquele representava as aspirações do magistério paulista, sua representatividade irá sofrer alguns abalos devido à concentração de poderes nas mãos do Secretário do Interior. Esta concentração se intensificaria a partir de agosto de 1897, quando a Lei nº. 520 viria a estabelecer a fiscalização das escolas como responsabilidade de representantes dos municípios, o que, segundo Reis Filho (1981, p.24.), passaria a colocar, a partir de então, o funcionamento da vida escolar nas mãos de grupos político-partidários. As fontes consultadas permitem considerar estas mudanças como possíveis motivos para os pedidos de demissão, pois havia a possibilidade de agravos entre o representante incumbido da fiscalização do trabalho docente no grupo escolar e os professores. Por outro lado, também seria importante compreender este período como um momento de reorganização de hierarquias, programas, horários, métodos e de definição de poderes dentro do próprio grupo escolar. Tudo era extremamente novo, ainda mais quando se leva em consideração as diferenças entre este e as escolas isoladas, onde os professores, de certo modo, possuíam mais liberdade para exercer seu trabalho. A organização da escola

primária graduada, que instituiu, além de toda uma hierarquia de poderes até então inédita, um expressivo controle burocrático, introduzindo novos elementos de trabalho como os diários de lições, os diários de classe e as inspeções, dentre outros, também gerou alguns problemas e tensões em seu interior (SOUZA, 1998a, p. 82).

Ainda é possível destacar do relatório de von Atzingen mais alguns fragmentos do cenário daquela época: o inspetor comenta a chegada do diretor que veio a substituir Benedito Maria Tollosa, Arthur Goulart. A seguir, reproduzem-se algumas notas referentes à atuação de Goulart em 1897:

‘[...] Amante apaixonado do desenvolvimento da instrucção da nossa Pátria, presenciei com satisfacção a boa ordem e a organização dos trabalhos escholares no grupo desta cidade o que prova não serem sido infructiferos a dedicação, zelo e esforços de seu disctincto diretor Arthur Goulart [...]’.37

‘Botucatu’

Com este título, o nosso ex-redactor e amigo, o tenente Arthur Goulart, compoz um hymno escolar, dedicado ao Grupo Escolar Dr. Cardozo de Almeida. [...] E assim os alumnos do Grupo, quando cantarem, essa patriótica composição lembra-se-ão de seu estimado e querido ex-diretor Arthur Goulart. (O Botucatuense, 09 de maio de 1897).

Logo após a sua chegada, Arthur Goulart passaria a escrever em todas as edições semanais do “O Botucatuense”, pelo fato de ter assumindo a redação literária deste jornal logo em fevereiro de 1897. Goulart exerceu o cargo de diretor comissionado do grupo escolar de Botucatu entre os meses de fevereiro e maio daquele ano (O Botucatuense, 10 de jan. 1897; 09 de maio de 1897). Suas notas apontam as vantagens do novo edifício, a sua beleza, os materiais e móveis que chegavam, o trabalho dos professores, enfim, indícios de sua forte atuação neste momento em que se institui uma escola graduada primária na cidade de Botucatu. As suas descrições e a de outros colaboradores do jornal permitem entrever a importância que o grupo representou para a cidade: são visitas de autoridades e

37 Trecho retirado da entrevista do Sr. Manoel Albernaz, um reconhecido clínico à época, ao jornal “O

Botucatuense”, a respeito de uma visita às dependências do edifício escolar (O Botucatuense, 21 de mar. de 1897).

de outras pessoas da região às dependências do novo edifício (O Botucatuense, 15 de jan. 1897; 21 de mar. de 1897; 28 de mar. de 1897; 05 de out. 1898), são notas dos alunos sobre