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O complexo carbonífero de Arroio dos Ratos é uma destas estruturas industriais que resistiu parcialmente ao arrasamento. Porém, resistir sob a forma de um bem tombado e musealizado não garante que ao longo do tempo, por diversos fatores, tais como uma gestão ineficiente, o patrimônio não venha sofrer alguns reveses. Assim, se faz necessário realizar a apresentação deste importante espaço histórico que consideramos o maior exemplar do período áureo da industrialização do carvão no Rio Grande do Sul16. Deste local era extraído do subsolo o carvão

mineral que abastecia as locomotivas, as indústrias, a usina termoelétrica local e de outras regiões até a década de 1950, inclusive a sua irmã mais nova, a Usina do Gasômetro (1928-1974), hoje Centro Cultural Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.

16 O estudo inédito deste patrimônio industrial do Rio Grande do Sul está disponível na dissertação de

FREITAS (2015). Além de abarcar a busca pela compreensão das memórias do trabalho e da organização social da comunidade mineradora, é uma forma de conhecer, proteger, conservar e promover os vestígios de uma cultura industrial ainda tão pouco valorizada no Brasil.

Uma breve descrição do surgimento do Poço 1, a partir do acervo documental da mineração, está disponível na obra Museu Estadual do Carvão: guia do Arquivo

Histórico (1891-1936):

Chegado o ano de 1908, a CEFMSJ suspendeu a exploração de carvão, e arrendou a mina de Arroio dos Ratos, por um período estipulado em trinta anos, à Companhia Minas Sul-Riograndense, pertencente a Manoel Buarque de Macedo & Cia.

[...]

Utilizando mão de obra estrangeira e nacional, acrescentou-se aos trabalhadores da Companhia Minas Sul-Riograndense, um grupo de mineiros espanhóis que chegou com suas famílias à região. A partir daí a Companhia intensificou os trabalhos de sondagem na área, abrindo o Poço1, também conhecido como ‘Poço Fraternidade’, e continuando com a exploração do Poço Fé, de propriedade da CEFMSJ (VIVAR et. al., 2016, p. 34-35).

Figura 7 – Reprodução de fotografia do Poço 1 na década de 1910.

Fonte: Acervo do Museu Estadual do Carvão (2018).

O Poço Fraternidade ou Poço 1 foi a primeira estrutura instalada neste complexo. Posteriormente, concomitantemente com a construção e instalação da Usina Termoelétrica de Arroio dos Ratos, em 1924, ao espaço agregou diversas outras novas estruturas arquitetônicas (oficinas, almoxarifado, laboratório, lavador, depósitos, escritório, etc.).

Figura 8 – Fotografia parcial do Poço 1, Usina, estrada de ferro e oficinas em 1935.

Fonte: Acervo do Museu Estadual do Carvão (2018).

Seus remanescentes hoje formam o Museu Estadual do Carvão (MCAR), órgão da Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC/RS). O equipamento cultural tem como missão básica preservar o patrimônio histórico-cultural da mineração de carvão. Seu objetivo é proporcionar a interação das comunidades da região carbonífera do Baixo Jacuí com a sua produção técnica, científica e cultural. É ainda responsável por promover a transformação do patrimônio em herança cultural. O Museu do Carvão é essencialmente um museu histórico e um patrimônio industrial a ser preservado. É também um espaço reflexivo onde se desenvolvem atividades voltadas para a comunicação, preservação patrimonial, pesquisa, pluralidade cultural, educação, cidadania, trabalho e meio ambiente, etc. (MUSEU, 2014; WITKOWSKI; FREITAS, 2015).

Conforme a professora Maria Luiza Flores Chaves Barcellos (198-?), primeira diretora do Museu do Carvão (1984-1991), a iniciativa da criação do museu no local das ruínas da antiga usina termoelétrica surgiu com em 1980 com Antônio Augusto Fagundes, então diretor do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul, ao apresentar o espaço a um grupo de professores(as), do qual Maria fazia parte.

Prontamente, ela iniciou as tratativas para a criação do museu, inclusive conseguindo a doação da área de 2.126,70m² (dois mil, cento e vinte e seis e sete décimos de metros quadrados) das ruínas da antiga usina termoelétrica junto à empresa Copelmi em 1983. Dois anos após é iniciado administrativamente o processo de tombamento do espaço e criação do Museu do Carvão.

Após o encerramento das atividades (1956), gradualmente a usina termoelétrica teve suas estruturas dinamitadas. Vários são os motivos levantados pela população arroio-ratense para tal ação, mas foi a própria companhia que viabilizou a implosão, pois desejava desmantelar a estrutura em desuso. O resultado foi parcial, pois boa parte da estrutura permanece estável (FREITAS, 2015).

De qualquer maneira, por cerca de trinta anos, este espaço esteve à mercê tanto da ação humana, que dilapidava a antiga construção tirando-lhes os tijolos e tudo o que poderia aproveitar da estrutura, quanto do tempo que se encarregava de oxidar as estruturas metálicas e cobrir com vegetação daninha o espaço outrora dinâmico.

O Museu Estadual do Carvão foi oficialmente criado através do decreto estadual nº 32.211, de 31 de março de 1986, publicado no Diário Oficial do Estado (fl. 2). A portaria nº 01/1986, de 10 de março de 1986, determinou o tombamento de parte dos remanescentes da antiga usina termoelétrica de Arroio dos Ratos. Posteriormente, através da portaria nº 14/1993, de 13 de outubro de 1993, foi tombado o restante da área onde estão localizados os demais remanescentes (estruturas anexas e entorno).17

De parte do município de Arroio dos Ratos, a Lei municipal nº 639/89, de 18 de abril de 1989, decretou o tombamento dos remanescentes históricos da mineração (ARROIO DOS RATOS, 1989a). E, alguns meses depois, a Lei municipal nº 646/89, de 26 de junho de 1989, instituiu as normas de proteção para o entorno da área tombada, onde se localiza parte dos remanescentes da antiga Usina Termoelétrica de Arroio dos Ratos – Poço 1 (ARROIO DOS RATOS, 1989b). Hoje, o Museu do Carvão possui uma área de aproximadamente onze hectares18. Nesse espaço

17 Os bens foram inscritos no Livro do Tombo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul. O primeiro

tombamento contém a inscrição número 34 (1986), e o segundo é o número 73 (1994). Disponível em: <http://www.iphae.rs.gov.br/Main.php?do=BensTombadosAc&Clr=1>. Acesso em: 02 mai. 2018.

18 O complexo cultural do Museu possui 107.894,10m² (cento e sete mil, oitocentos e noventa e

destacam-se os antigos prédios do escritório, das oficinas, do almoxarifado, do laboratório e dos geradores da usina, outrora pertencentes à principal empresa responsável pela mineração de carvão em Arroio dos Ratos: a Companhia Estrada de Ferro e Minas de São Jerônimo (CEFMSJ), hoje Copelmi Mineração Ltda.

No local também se encontram outros remanescentes (ruínas) das galerias das caldeiras (subsolo), frontão, chaminé e resfriador da usina termoelétrica, as ruínas da boca do poço 1, carregadora, lavador de carvão e vestígios diversos de pisos e estruturas da época de funcionamento desse complexo industrial carbonífero.

Figura 9 – A usina termoelétrica e poço 1 do complexo de Arroio dos Ratos (1935).

Fonte: Acervo do Museu Estadual do Carvão (2018).

Figura 10 – Hoje, o complexo cultural do Museu Estadual do Carvão (2014).

O equipamento cultural possui um importante acervo museológico e arquivístico, que registra a história da mineração e dos mineiros de carvão no Rio Grande do Sul. Encontram-se neste acervo diversos utensílios, ferramentas e materiais utilizados no interior das minas, nas oficinas, laboratório, escritório, etc. Além destes objetos, é destaque o acervo documental da mineração, isto é, a documentação produzida ou acumulada pelo antigo Consórcio Administrador de Empresas de Mineração (CADEM) e pelas antigas empresas mineradoras da região. Conforme a pesquisa detalhada de Freitas (2015), apesar da inscrição do bem ter sido feita no livro do tombo histórico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do RS (IPHAE/RS), os dossiês apontam que os estudos históricos acerca dos remanescentes durante os dois processos foram escassos e superficiais. Aspectos detalhados, por exemplo, sobre o funcionamento das máquinas e ferramentas que hoje compõem o acervo museológico e o cotidiano dos saberes e fazeres dos trabalhadores (ofício de mineiro) não foram enfatizados.

Estes, assim como os diversos outros aspectos – sociais, econômicos, tecnológicos etc. –, constituem uma lacuna a respeito da história do local. É importante destacar que são poucas as referências que apresentam os detalhes sobre o funcionamento da antiga usina e do complexo como um todo, sendo a principal obra Monografia de São Jerônimo (1943), de Carlos Alfredo Simch, que ainda assim revela poucas informações. O acervo documental da mineração tem muito a contribuir neste processo investigativo.

Ainda em relação aos aspectos históricos é importante ressaltar que, durante os dois processos de patrimonialização, carecia-se de trabalhos acadêmicos que abordassem o mundo do trabalho nas minas de carvão da região do Baixo Jacuí (as greves, o emprego de menores, os acidentes etc.), que pudessem confrontar os discursos até o momento existentes em torno da indústria do carvão naquele lugar e o que representou tanto em termos econômicos quanto sociais. Avançando em sua proposta de atuação como equipamento cultural multifacetado, em fevereiro de 2011, o Museu Estadual do Carvão acolheu o projeto Uma luz no fim do túnel. O projeto foi criado em 2009 e era constituído de universitários voluntários vinculados à Faculdade Porto-Alegrense (FAPA) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), coordenados pelo Professor Benito Schimdt da UFRGS.

O objetivo era a preservação da massa documental da mineração que estava em avançado estado de degradação, depositado em um antigo engenho de arroz, no município de Butiá. Em 1996, graças a ação da comunidade, especialmente da Associação Cultural Butiaense (ACUB), foi impedido que essa massa documental fosse descartada pela Copelmi, empresa responsável pela documentação das antigas empresas mineradoras que foram incorporadas em 1964.

A partir dessa iniciativa, criaram-se novos projetos, termos e acordos de cooperação técnica. Foi assinado Termo de Doação com Encargos entre a Secretaria de Estado da Cultura e a Copelmi Mineração Ltda., com a finalidade de realizar oficinas de higienização de documentos, incluindo a doação da documentação das antigas empresas de mineração ao acervo do Museu, isto é, milhares de documentos: fichas, correspondências, ofícios, memorandos, carteiras de trabalho, registros do cotidiano da mineração e das empresas, etc.

Portanto, a baliza temporal da pesquisa está justamente embasada nos anos que correspondem ao início do processo efetivo de salvaguarda da outrora massa documental, a partir do projeto Uma luz no fim do túnel (2009), até a disponibilização pública da primeira parte do acervo documental da mineração à pesquisa (2016), no Arquivo Histórico da Mineração, localizado no Museu Estadual do Carvão.

A importância da pesquisa da trajetória do acervo documental salvaguardado no MCAR justifica-se pelo seu conjunto inédito de fontes primárias que possibilitarão a produção de conhecimento sobre o cotidiano das antigas empresas mineradoras e dos operários, especialmente dos mineiros do subsolo, para que possamos conhecer melhor sobre seus saberes e fazeres, desconstruindo estereótipos e preconceitos, valorizando a história dos trabalhadores e suas famílias.

O complexo cultural do Museu reforça, ainda, o papel dos museus na sociedade ao se aproximar continuamente das comunidades onde está inserido, valorizando a sua relevante participação no desenvolvimento científico/cultural, estimulando o debate e ações, apontando – em conjunto com as comunidades – novos horizontes para o desenvolvimento regional, pois o museu deve ser entendido como instituição a serviço da sociedade e com importante papel (função social) na formação da consciência das comunidades.

3 UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

No ano de 1996, a Associação Cultural Butiaense19 (ACUB) foi comunicada

acerca de um ato desfavorável à preservação do patrimônio histórico da região carbonífera gaúcha: a ameaça de incineração de aproximadamente dez toneladas de documentação pela própria empresa que a gerou. Tratava-se do acervo do antigo Consórcio Administrador de Empresas de Mineração (CADEM). De 1936 a 1964, este consórcio administrou as duas grandes empresas privadas de exploração do carvão mineral no Estado: a Companhia Estrada de Ferro e Minas de São Jerônimo (Arroio dos Ratos/RS) e a Companhia Carbonífera Minas de Butiá (Butiá/RS). Quando o CADEM foi extinto, as duas mineradoras foram incorporadas pela atual Copelmi Mineração Ltda., que continua as atividades de extração de carvão no Rio Grande do Sul.

A massa documental do CADEM foi salva, parcialmente, e esteve por doze anos sob a guarda da ACUB, em local desfavorável à sua preservação20. Entre 2004

e 2008, com o importante apoio dos docentes do curso de História da Faculdade Porto-Alegrense (FAPA), nós, Alexsandro e Tassiane, então acadêmicos de graduação, participamos de seminários, fóruns, eventos, encontros, congressos, reuniões, etc., e neles apresentamos diversos trabalhos, inclusive a publicação de artigo e livro com o objetivo de promover a trajetória da documentação e também despertar nos demais pesquisadores o interesse pela história dos trabalhadores da mineração carbonífera no Rio Grande do Sul21.

Era o alerta necessário para a salvaguarda das fontes primárias que estavam em local inadequado, sem catálogo e não organizadas conforme os diversos assuntos a serem abordados sobre a mineração e o cotidiano do mineiro nas décadas iniciais do século XX.

19 Esta associação cultural tem sede em Butiá/RS.

20 A massa documental após ter sido recolhido pela ACUB, em 1996, ficou sob a guarda dessa

associação até junho de 2010. Durante esse período (1996-2010), esteve em diversos prédios de Butiá (cada mudança representava uma perda) e, por último, ficou acondicionada no prédio de um antigo engenho de arroz (engenho Novak), de propriedade da professora de história Gertrudes Novak Hoff, associada da ACUB.

21 Ver as obras de Witkowski e Freitas (2005 e 2006). Destacamos a oportunidade dos autores em

promover a documentação do CADEM no VIII Encontro Estadual de História: História e Violência, realizado em 2006 na Universidade de Caxias do Sul (UCS), com a apresentação do pôster A

fundação do sindicato dos mineiros de Butiá. Lá mantivemos o primeiro contato com os professores

Figura 11 – Antigo engenho Novak, Butiá/RS, em 2009.

Figura 12 – Interior do antigo engenho Novak e a massa documental, em 2009.

Fonte: Acervo do Museu Estadual do Carvão (2018).

Figura 13 – Interior do antigo engenho Novak e a massa documental, em 2009.