(1) Confira-se, a este propósito, capítulo 2, Parte 1.
(2) Cf. Oliveira Salazar, Discursos, I, Coimbra, Coimbra Ed., 1934, p. 316.
(3) «A União Nacional nunca será um partido porque tem uma aspiração mais alta: organizar a Nação» (Oliveira Salazar, in António Ferro, Salazar – O Homem e a sua Obra, Lisboa, Empresa Nacional de
Publicidade, 1933, p. 39).
(4) Cf. Oliveira Salazar, op. cit., pp. 172-177. Ver também Ibidem, p. 384: «[…] compreende-se que seja
incompatível com o princípio da unidade nacional, a eficiência dos órgãos da soberania e o espírito anti- partidário da revolução, o reconhecimento de maiorias ou minorias e de representações particulares de interesses, questões, regiões ou correntes doutrinárias».
(5) Cf. a este propósito, Oliveira Salazar, Discursos, IV (Coimbra, Coimbra Ed., 1951): em coerência
com a pretensão de «curar a sociedade portuguesa do regime de partidos que a degradava», sofrem limi- tações a associação, as reuniões e a imprensa.
Consideremos, finalmente, os sistemas de valores ou dispositivos de normaliza- ção salazarista. Estes sistemas de vigilância e sujeição constituem, como dissemos, a fase derradeira da introdução e da difusão de uma moralidade de origem reli- giosa (católica) num sistema jurídico que ignorava por definição a moral e aspirava a romper os laços com a religião1.
Será todavia legítimo imaginar uma estratégia global e única, que incida de modo uniforme sobre todas as manifestações da vida em sociedade, se o conjunto das técnicas de controlo e de vigilância (éticas, eugénicas e aléticas) está, em mui- tos aspectos, em descontinuidade com o dispositivo de recristianização?
À primeira vista poder-se-á pensar que no salazarismo se joga apenas uma aposta contra a política democrática e parlamentar. Poder-se-á pensar também num golpe de mão, coroado de êxito, com o único propósito de assegurar o con- trolo da nação, isto é, com o único intuito de filtrar ou ocultar o que nesta possa haver de excessivo (a curiosidade, a imaginação, a indocilidade). Poder-se-á mesmo pensar que o salazarismo é uma fórmula política na sua mais austera acepção, uma vez que só é aceitável e útil uma «política sem política»2.
Aliás, é um facto que a legalidade salazarista censura os discursos e a nação emudece no exílio da política de partidos. É um facto que se reserva à União Nacional a tarefa de organizar sozinha as «forças vivas» da nação3. E por outro
lado, somente a palavra política dita na Assembleia Nacional é utilitária e fecunda. Não negamos também que o que faz lei é a Assembleia Nacional, órgão político circunscrito pelo «interesse nacional» e representante legítimo dos interesses morais e culturais da nação, que não dos interesses «desregrados» dos partidos4. Ela impõe-
-se como modelo político unitário, necessariamente antidemocrático (os partidos, esses, instauram a divisão, o fraccionamento da pátria lusitana). Além disso, a Assem - bleia Nacional faz valer a norma, detém a verdade e o direito à palavra, reservando-se o princípio do segredo político. Quer isto dizer que não há outra sede onde o debate nacional possa ser feito, que só aí a nação está verdadeiramente representada e que a censura impede o exercício noutros sítios do direito de falar politicamente5.
Aquilo que não é circunscrito pelo «interesse nacional», nem é por ele transfi- gurado, não tem legalidade nem linguagem, isto é, não só não existe como não deve existir. Mas poder-se-á considerar uma verdadeira novidade que, por exem- plo, no tocante às associações de classe, partidos e sindicatos, o discurso salaza- rista funcione não só sob a forma de interdito legal, mas também como repressão? Quer dizer, não apenas como condenação a desaparecer, «mas também como injun- ção ao silêncio, afirmação de inexistência e, por conseguinte, como constatação que de tudo isso nada há a dizer, a ver ou a saber»6?
Sobre este aspecto o discurso salazarista não é de modo algum original, uma vez que não há discurso que não funcione enquadrado por sistemas complexos de restrição da palavra, seguindo as linhas ditadas pelas distâncias, pelas oposições e pelas lutas sociais. Mas o verdadeiro problema não se coloca a este nível. Res trin - gindo o poder a uma função repressiva, ficamos a saber muito pouco da sua mecâ- nica. Dizer que o que é próprio do poder é «ser repressivo e reprimir com particu- lar ênfase as energias inúteis, a intensidade dos prazeres e as condutas singulares»7
reduz o poder a um mero efeito de defesa, à trinomia soberania, lei, interdito, em suma, à sua representação jurídica8. Neste contexto, a política apareceria como
uma espécie de fenómeno da natureza que o poder procuraria domar, ou então como um domínio obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvendar.
Não é, pois, a repressão da vida política que aqui nos vai ocupar. Interessar-nos- -emos antes com a sua própria produção, isto é, com aquilo que nos é dado como produto de um dispositivo histórico. Daí que não seja nossa primeira preocupação saber se o discurso salazarista diz sim ou não à política partidária, se formula inter- ditos ou permissões a seu respeito, se afirma ou nega a sua importância, enfim, se censura ou não as palavras de que se serve para a designar. Visando nós a produ- ção da própria vida política, vamos antes de mais considerar o facto de esta ser objecto de discurso, vamos ter também em atenção aqueles que o pronunciam, e ainda as instituições que o recolhem, difundem e instigam. Por outras palavras, vamos considerá-la como «facto discursivo global»9.
Nesta perspectiva, pensamos que não é particularmente fecunda, por exemplo, a identificação da vida social e política dos anos 30/40 em Portugal a uma função nacionalista e clerical, a uma forma autoritária antidemocrática e a uma legitimidade corporativista. Em nosso entender, tal identificação só parcialmente dá conta dos
(6) Esta distinção entre repressão e interdito legal é feita por Michel Foucault,Histoire de la Sexualité: I. La Volonté de Savoir, Paris, Gallimard, 1976, p. 10.
(7) É um argumento para uma teoria do poder que faz do direito o seu sistema e da lei e da soberania a sua grelha de leitura. Foucault refere-se-lhe para de seguida o refutar (Ibidem, p. 17).
(8) Sobre os modelos de representação jurídica e estratégica do poder, veja-se o capítulo 1 da Intro du ção. (9) Cf. no capítulo 2 da Introdução a concepção do discurso como prática discursiva.
múltiplos objectivos visados e dos múltiplos meios utilizados nas tácticas políticas relativas aos diferentes sectores de intervenção (económicos, sociais, políticos e cul- turais), às diversas classes sociais e instituições (Igreja e Estado, por exemplo)10.
É verdade que, a partir dos anos 30, os portugueses foram privados de uma certa maneira de falar da política, então desqualificada como falsa, anárquica, anti- nacional. Mas tal facto constitui apenas a contrapartida, e talvez a condição de fun- cionamento de outros discursos, discursos esses complexos, entrecruzados, subtil- mente hierarquizados e articulados à volta de um feixe de relações de poder: a tec- nologia de uma vigilância e de um controlo ético, eugénico e alético.
Os dispositivos ético, eugénico e alético constituem «disciplinas», no sentido em que Michel Foucault as define11. Trata-se de um conjunto de métodos de análise e
de tácticas políticas que permitem um controlo minucioso das operações do corpo nacional (força dos órgãos, ordem hierárquica das funções, solidariedade dos inte- resses). Além disso, tais métodos e tácticas asseguram a sujeição constante das suas forças: pelos mecanismos da recta razão, das tendências virtuosas, da rituali- zação ortodoxa e douta, a nação é conformada à sua própria individualidade. Este conjunto de tácticas de vigilância e controlo impõe, por fim, às forças nacionais, uma relação de docilidade-utilidade: pela recta razão a unidade; pelas tendências virtuosas a regeneração; pela ritualização ortodoxa e douta a verdade.
Os dispositivos ético, eugénico e alético não visam simplesmente o crescimento das capacidades da nação, nem apenas a intensificação da sua sujeição. Visam, sim, a formação e a fixação de uma relação, a relação crente. Através do mesmo meca- nismo, esta relação torna tanto mais obediente a nação quanto mais útil ela é, e inversamente12. Com efeito, estabelecendo o controlo minucioso das operações do
corpo nacional e a sujeição permanente das suas forças, o mecanismo da fixação da crença multiplica a utilidade destas, em termos económicos, e redu-las à obediên- cia, em termos políticos.
Estas técnicas disciplinares, minuciosas por natureza e quase sempre modestas, como progressivamente o iremos mostrar, definem um certo modo de investimento político do corpo, aquilo a que Michel Foucault chama uma nova «microfísica» do
(10) Numa outra linha de investigação, com opções epistemológicas e metodológicas diferentes das nossas, M. Braga da Cruz tem desenvolvido a ideia de que o salazarismo «implantou em Portugal um nacionalismo antiliberal, um autoritarismo antidemocrático e um corporativismo anticapitalista» (Cf. M. Braga da Cruz, «Notas para uma Caracterização Política do Salazarismo», in Análise Social, 72/73/74,
Abril-Dezem bro de 1982, p. 794).
(11) As disciplinas são uma «arte do corpo humano», isto é, uma «anatomia política» e, ao mesmo tempo, uma «mecânica do poder» (cf. Michel Foucault, Surveiller et Punir – Naissance de la Prison, Paris,
Gallimard, 1975, pp. 139-140).
Ver também, neste sentido, a nota 39 do capítulo 2 da Introdução. (12) A formação e a fixação desta relação crente é, como vemos, disciplinar.
poder13. À fragmentação, à degenerescência e à falsidade da nação, responde a
ordem ética, eugénica e alética da disciplina salazarista, que investe, intensiva e pormenorizadamente, o corpo nacional. Ela tem como função prevenir todas as anormalidades: a da doença, que se transmite quando os corpos se misturam (a fragmentação nacional – violência dos órgãos, luta das funções, confusão dos inte- resses); a do mal, que se multiplica quando os valores da pátria se apagam (a irra- cionalidade); e a da apostasia certa, quando a nação não obedece à sua razão nem à sua natureza (as necessidades ilusórias e as tendências viciosas).
Contra a fragmentação, a degenerescência e a falsidade, que são mistura, as dis- ciplinas ética, eugénica e alética impõem o seu poder de análise. Sob a forma de um funcionamento que toma o duplo modo de separação binária e de inscrição de uma marca (saúde/doença, unidade/fragmentação, recta razão ou simples bom senso/irracionalidade, necessidades reais/necessidades ilusórias, degenerescên- cia/regeneração, tendências virtuosas/tendências viciosas, verdade/falsidade), a disciplina salazarista determina separações múltiplas, distribuições individualizan- tes, uma organização em profundidade, vigilâncias e controlos, uma intensificação e uma ramificação do poder.
Fixando-se naquilo que é designado como a «crise dos valores ocidentais», a técnica disciplinar salazarista impõe-na como objecto de discurso à economia, à administração pública, à sociedade, à Igreja, à imprensa, à cultura. E uma vez sujeita à dobadoira incessante da palavra disciplinar, a teoria da crise vai, por sua vez, constituir uma trama discursiva a que ficam submetidos todos os sectores da vida nacional, acabando mesmo por estar na origem de um saber que lhe escapa: a superação do Estado liberal por uma via oposta ao socialismo revolucionário.
Sintetizando, podemos dizer que as disciplinas ética, eugénica e alética corres- pondem a uma intensificação dos poderes e a uma multiplicação dos discursos.