5 QUATRO TRONCOS DA MÚSICA MISSIONEIRA
5.5 SELEÇÃO DE DISCOS E ANÁLISE
5.5.6 De igual pra igual (2010), de Pedro Ortaça
De igual pra igual foi lançado em 2010, produzido pela ACIT, com direção
artística de Édison Campagna175, Pedro Ortaça e Gabriel Ortaça176. Edison produziu boa parte dos discos de Pedro Ortaça e em De igual pra igual tocou contrabaixo em todas as faixas. O baixo é um instrumento presentes nos discos de Pedro Ortaça, embora não esteja em apresentações ao vivo. Outros músicos que participam são Juliano Trindade177. No disco de Ortaça, Bonitinho toca violão em quase todas as faixas, geralmente fazendo fraseados, e também o guitarrón178. No disco também está presente o trabalho percussivo de Fernando do Ó179, percussionista que já gravou muitos trabalhos de diferentes concepções na música do Rio Grande do Sul. Gabriel Ortaça, filho de Pedro, além de produzir o disco, também toca o guitarrón, canta e toca acordeom, e também assina parcerias com o pai. A capa traz Pedro Ortaça empunhando seu guitarrón, tendo ao fundo a imagem das Ruínas de São Miguel. No disco não constam informações sobre gêneros das canções gravadas.
175 Músico e produtor, diretor da gravadora ACIT.
176 Cantor, compositor, gaiteiro e violonista. Filho de Pedro Ortaça, desde cedo acompanha o pai em
gravações e shows. Com apenas 15 anos gravou seu primeiro disco instrumental, em parceria com o irmão Alberto (fonte: ww.pedroortaça.com.br).
177 Conhecido como Bonitinho, natural de Itaqui, guitarrista do grupo Eco do Minuano e Bonitinho, banda
com atuação em bailes e com muitos discos lançados
178 Guitarrón...
179 Percussionista e baterista, natural de Santa Maria-RS (fonte: www.dicionariompb.com.br/fernando-
Figura 23 – Capa do CD De igual pra igual (2010), de Pedro Ortaça
Fonte: arquivo pessoal de Iuri Daniel Barbosa
De igual pra igual (ORTAÇA; DARDE, 2010a) dá nome e também abre o disco.
Uma parceria de Ortaça com Vaine Darde180. Fala do dom de cantador, que já nasceu com Ortaça, que também se afirma “taura, mescla de bugre e povoeiro”. O refrão é uma referência pela igualdade, onde diz: “pra mim não tem maioral”. Talvez seja uma reposta a algum desafeto, ou uma referência a alguma rixa em torno de ser um “maioral”. Muito centrada na sua auto afirmação. Termina com frases bonitas como “Se a vida numa manobra passa por cima de mim/ É do pedaço que sobra que eu recomeço do fim”.
Outra parceria de Vaine Darde e Ortaça é Cerne e pedra de Taipa (ORTAÇA; DARDE, 2010b). Faz referência ao Tratado de Tordesilhas, do qual afirma não ter participado da partilha: “me deixaram fora dos riscos de Tordesilhas”. Vai falar do Rio Grande, da odisseia Farrapa, “Nas reduções, nas aldeias por esta pampa infinita”.
A segunda faixa é Potro gatiado (ORTAÇA; GRANDE, 2010), parceria de Ortaça com Quide Grande181. Fala da vida de um ginete, que a convite dum fazendeiro vai a uma estância com o desafio de domar um potro gateado. Mais uma música falando sobre cavalos e lides campeiras. No fim da música, o potro fica amansado, pra rodeio e marcação. Mais do que isso, virou “montaria de confiança para filha do patrão”. Tema constante na identidade gaúcha, o cavalo, aqui relacionado a atividade da doma.
180 Compositor e poeta, natural de Uruguaiana-RS, tem parcerias com Gaúcho da Fronteira, Luiz Carlos
Borges, Élton Saldanha, entre outros (fonte: www.dicionariompb.com.br/vaine-darde acesso em agosto de 2014).
Xucra (ORTAÇA; ORTAÇA; RETAMOZZO, 2010) é uma parceria de Pedro e
Gabriel com José Hillário Retamozzo182. Xucra fala de amores, mais precisamente da saudade da caborteira. Compara a saudade com uma potranca, que não há quem dome, “é bicho que não se amansa / nunca serve pra encilha”.
Já Pau Ferro (ORTAÇA; ORTAÇA; CARDINAL, 2010) tem letra de Carlos Cardinal e música de Pedro e Gabriel Ortaça. Nessa canção o diferencial é a interpretação vocal de Gabriel Ortaça. Também tem letra de Cardinal a canção Viver em paz, essa musicada somente por Pedro Ortaça, que fala do tropeiro que está ficando velho e precisa largar a tropa
Sabedoria do tempo (ORTAÇA; VILLAGRAN, 2010) é parceria de Ortaça com
Edílson Villagran183. Zaino requeimado (ORTAÇA; FONTELLA, 2010), parceria de Ortaça com Júlio Fontella fala de seu cavalo, que veio contrabandeado das bandas do Alvear (cidade vizinha de Itaqui). A amizade é tanta, que “o macanudo conhece meu pensamento”. Termina valorizando o zaino requeimado, “este cavalo para mim vale um tesouro / muito mais que prata e ouro por que o zaino é meu amigo / não vendo, não alugo, mas empresto / pra china que passar o resto da vida comigo.” Outra canção sobre a identidade gaúcha e o cavalo, aqui se vincula a uma história amorosa.
Para ti (ORTAÇA; ORTAÇA; SAMPAIO; MULLER, 2010) “Canto Cambá”,
parceria de Pedro e Gabriel Ortaça com João Sampaio e Diego Muller. Um chamamé a duas vozes, com letra em espanhol e vocábulo em guarani. Aqui presente a relação com a identidade guarani dos países vizinhos, misturando duas línguas (espanhol com guarani)
Pago vago (ORTAÇA; ORTAÇA; RILLO, 2010) é parceria da dupla Gabriel e
Pedro Ortaça com Apparício Silva Rillo. Provavelmente é uma parceria póstuma, já que o poeta faleceu em 1995. Traz a letra que “vago é o meu pago” e qual o destino do cantor é a cruz de sustentá-lo “nos alicerces de vento do meu canto”
Namoro de grosso (ORTAÇA; GRANDE; SAMPAIO, 2010) traz parceria de
Pedro Ortaça com dois poetas de Itaqui, Quide Grande e João Sampaio. Fala do namoro de um grosso, xirú lá da campanha com uma mocinha metida a finória.
182 Retamozzo, nascido em São Borja, em 1940, faleceu em 2004, em Porto Alegre. Era coronel da
reserva e Poeta, foi autor do Hino de pelo menos três municípios: Rosário do Sul, São Luiz Gonzaga e São Miguel das Missões.
Já Costeiro (BICCA, 2010), de Pedro Bicca184, retrata a vida do homem que vive à beira dos rios. Própria de uma identidade costeira, ou ribeirinha,
Para terminar o disco, Lobisome esperto (SANTANA, 2010), de José Daltro Santana, mesmo compositor de Deixa de arte Nicolau, do primeiro disco de Ortaça. Essa foi recolhida e adaptada por Pedro Ortaça, tem melodia que as vezes se assemelha a um Romance do pala velho. A letra, em tom satírico fala da luta de diária de quem não tem dinheiro. No caso do personagem da música, acaba se transformando em lobisomem para não pagar a conta do bolicho a mulher do bolicheiro.
O que se depreende de predominante nesta obra é a ideia de familiaridade e herança, que de Ortaça (Pedro) para Ortaça (Gabriel), segue em família a Música Missioneira.