Reunidas essas formas variadas de pensar na "invisibilidade", silêncio, cegueira, miragem, invisibilização, silenciamento, 'neutralidade' e deslocamento dos privilégios da branquitude, minha abordagem parte de duas vertentes principais. A primeira é o trabalho de Bento (2003 a, 2003b), em que a pesquisadora não usou o termo 'invisibilidade', mas sim 'silêncio', 'omissão', 'distorção' e 'cegueira' para descrever a forma que brancos se relacionam com privilégios e seus papéis na sociedade estruturalmente racista. Como apontei anteriormente, Bento destacou a agência das pessoas brancas na produção e reprodução das suas posições de privilégio. Indiquei ao longo deste capítulo como o termo "invisibilidade" implica numa característica da branquitude, como se a própria branquitude não fosse capaz de ser vista. Evidentemente, esse não é o caso, pois enxergar ou não a racialização branca e seus privilégios tem a ver com olhar e ponto de vista. O que alguns 'não enxergam' é bastante óbvio para outros, como Frankenberg (2004) apontou. Os termos “silêncio", "omissão" e "distorção" destacam o papel dos atores sociais no momento da representação e comunicação sobre o mundo que percebem. Junto ao “silêncio", Bento também usou o termo "cegueira", que destaca o papel da pessoa branca no ato de não enxergar; mais uma vez, a 'cegueira' seria produto do olhar.
A segunda vertente que mais influi na minha abordagem é a distinção entre 'invisibilidade' e 'neutralidade' feita por Miranda (2015). Essa distinção possibilita pensar como pessoas brancas se relacionam com seus privilégios de diversas formas. Indica como pode haver privilégios que uma pessoa branca não enxerga, por estarem tão naturalizados (invisibilidade), e que pode haver outros privilégios que a mesma pessoa branca enxerga, sem explicitamente criticar ou lutar contra. São dinâmicas diferentes, mas interconectadas.
Ora, a meu ver, mesmo que não tenha sido a intenção de Miranda, as palavras 'invisibilidade' e 'neutralidade' poderiam implicar que essas seriam características da branquitude. Mas a branquitude nem é invisível, nem neutra. Como Miranda bem apontou, a 'invisibilidade' e 'neutralidade' têm a ver com os olhares e ações de pessoas brancas em relação aos seus privilégios, e não com os privilégios em si.
Cardoso (2014), também, propôs a metáfora do branco Drácula, que superficialmente implicaria que o branco não apareceria no espelho, mas modifica a metáfora para argumentar que os brancos têm atitude de Drácula, não se olhando no espelho. E Piza (2003) descreve a porta de vidro como transparente (portanto difícil de enxergar), mas também pensa no processo da pessoa branca não enxergar os aspectos altamente visíveis da porta. Nos três casos, de Piza, Miranda, e Cardoso, a escolha da metáfora/terminologia aparentemente implicaria que a 'transparência' ou invisibilidade seriam características da branquitude, mas nos três casos argumentam que tem a ver com o olhar das pessoas brancas.
Para mim, isso representa uma aparente contradição entre os argumentos apresentados e os termos analíticos escolhidos. Nesse caso, por que não escolher uma terminologia que destaca o olhar como objeto de análise, em vez de usar termos que implicam características falsas e acabam necessitando de discussões mais complexas? Se o branco Drácula não aparece, de fato, no espelho, e só existe a 'atitude' de Drácula, por que chamar de Drácula? Se o branco Narciso não está olhando para um espelho, mas para uma imagem, será que Narciso, personagem da mitologia grega que se afogou em seu próprio reflexo, é a melhor metáfora? Se a branquitude não é nem invisível nem neutra, por que chamar de invisibilidade e neutralidade? Por que não escolher termos que destacam o não-enxergar e não-falar, em vez de começar com um falso não-aparecer para depois ser conceitualmente desconstruído?
Tanto a metáfora de Drácula quanto os termos 'invisibilidade' e 'neutralidade' parecem, talvez, privilegiar o ponto de vista da pessoa branca metafórica. No caso do Drácula, a pessoa branca não se enxerga no espelho, daí pode pensar que não tem reflexo; é Drácula, vampiro, a partir da sua própria perspectiva como pessoa branca. No caso da invisibilidade e neutralidade, a pessoa branca pode enxergar os privilégios invisíveis ou não se ver
responsável quanto a eles (estar, afinal, numa posição de neutralidade).
Por isso, unindo Bento (2003a, 2003b) e Miranda (2015), proponho uma distinção não entre 'invisibilidade' e 'neutralidade', mas entre 'cegueira' e 'silenciamento'. Minha intenção é destacar o papel do ator social branco na invisibilização e não-responsabilização pelos privilégios. A intenção é deixar evidente que os privilégios não têm características de invisibilidade ou neutralidade. São as pessoas brancas que se engajam em processos para invisibilizar e neutralizar os privilégios em suas próprias perspectivas.10
Cegueira, como a 'invisibilidade' de Miranda (2015), significa os processos pelos quais pessoas brancas conseguem não enxergar seus privilégios ou sua posição racializada na sociedade. Isso se refere a momentos em que pessoas brancas realmente não percebem ser privilegiadas, por causa, por exemplo, do privilégio ser tão naturalizado em suas perspectivas. Pode também resultar da falta de interação não-hierárquica com pessoas não brancas.
A questão colocada dessa forma não é se a branquitude pode ou não ser vista. A questão é como atores sociais olham, veem, enxergam (ou não) as dinâmicas e privilégios da branquitude a partir de sua posição social e perspectiva. A cegueira pode envolver uma filtragem do que se vê, para não ter que incorporar certas visões na experiência consciente.
Silenciamento, como a 'neutralidade' de Miranda, é um processo consciente pelo qual pessoas brancas não explicitam e não lutam contra os privilégios que enxergam. Produzir silêncio significa não falar, não comunicar, não explicitar, enquanto cegueira significa não ver, não perceber. Cegueira envolve a prevenção da manifestação da consciência, e silenciamento envolve a prevenção da consciência se manifestar na vida social. Mas silenciamento vai além de não falar, pois não é um silêncio passivo, e sim a produção do silêncio, com caráter ativo, como os outros termos “omissão" e “distorção", também utilizados por Bento (2003a, 2003b). Silenciar como processo ativo pode significar, por exemplo, a deslegitimação da fala de pessoas que apontam os privilégios.
Profundamente imbricado na escolha dessa terminologia, especialmente entre pessoas que visam lutar contra racismo, é a questão da responsabilidade dos indivíduos brancos pela perpetuação do racismo. Se uma pessoa branca realmente não percebe o racismo e o privilégio, isso poderia, em tese, tirar a 'culpa' do indivíduo, e colocar a culpa na sociedade por produzir o sistema de símbolos que ensinou as pessoas a não ver. Mas se a pessoa vê e enxerga o racismo, bem como o privilégio, significa que tem plena responsabilidade para lutar
10 Outra opção, que seria mais similar à distinção feita por Miranda (2015), talvez poderia ser "invisibilização" e “neutralização” em vez de “invisibilidade" e "neutralidade", para destacá-las como processos, em vez de traços. Mesmo assim, a branquitude não se torna invisível, nem neutra; só se veste como tal, e só na perspectiva de determinadas pessoas.
contra esses processos, para não ser a eles conivente. No seu texto falando sobre experiências e técnicas de formação sobre relações raciais e privilégio, Bento (2003b) colocou como um dos pontos principais a serem abordados nos cursos:
O fato de que não se pode responsabilizar as pessoas pelo que aprendem sobre racismo e preconceito na família, na escola, nos meios de comunicações. No entanto, ao adquirir uma maior compreensão sobre esse processo, as pessoas têm a responsabilidade de tentar identificar, interromper este ciclo de opressão e alterar seu comportamento. (p. 156)
A divisão conceitual entre cegueira e silenciamento visa pensar um pouco nessa diferença de responsabilidade. Acabar com a cegueira significaria, na metáfora de Piza (2003), chocar contra a porta, mas vemos que existem diversos processos de silenciamento que permitem a perpetuação do "não enfrentamento" (BENTO, 2003, 2003b), da "não- transformação" (HUIJG, 2011), mesmo para quem percebe privilégios. O indivíduo não seria responsável pelo que foi ensinado pelos pais, pela escola ou pela televisão, mas a partir da conscientização surge a responsabilidade de agir contra esse ciclo de opressão, senão o silêncio é conivente à opressão. Em que medida o indivíduo branco é responsável por seu papel no privilégio e na produção do racismo? Em que medida o indivíduo poderia lutar contra esse privilégio?
Ora, a questão da responsabilidade é central, mas também é importante lembrar que tanto o silenciamento quanto a cegueira produzem benefícios concretos para pessoas brancas. Tanto Bento (2003a, 2003b) quanto Huijg (2011) apontaram isso em profundidade, como demonstrei acima. Os brancos se beneficiam dos privilégios independente de estar conscientes deles ou não. Ou seja, tanto a cegueira quanto o silenciamento produzem esse “não enfrentamento dos conflitos e a manutenção do sistema de privilégios" (BENTO, 2003b, p. 147). Por isso sugiro o uso dos termos “cegueira estratégica" e "silenciamento estratégico", para enfatizar que ambos os processos ajudam ativamente a manter o sistema de privilégios e, portanto, o racismo.
Nesse caso, utilizo a palavra 'estratégico' para descrever traço ou ação que beneficia o ator, como parte de um plano ou sistema. Mais do que um julgamento sobre as intenções conscientes de cada ator individual, meu uso do termo 'estratégico' visa enfatizar os privilégios materiais e simbólicos produzidos por meio dessa cegueira e silenciamento. Independente de se uma pessoa branca "entende" que sua brancura proporciona mais recursos e direitos, como fruto do racismo, o fato de não 'enxergar', não 'reconhecer' e não 'falar' desses privilégios é estratégico no sentido que permite um não-questionamento do racismo, ao mesmo tempo que permite ao indivíduo se declarar não-racista. Dessa forma, escolho o termo "estratégico" para enfatizar os resultados sistêmicos das ações, e não para implicar que todas
as pessoas brancas produzem cegueira e silenciamento de forma consciente, racional e instrumental.
Ainda assim, o termo 'estratégico' pode implicar em algum tipo de consciência, de percepção. Por exemplo: me sentindo culpado por ter traído meu amante, acabo evitando seu olhar. Podemos entender isso como uma estratégia para não ter que comunicar minha culpa pelos olhos, ou não ter que enfrentá-lo através das minhas ações, ou não ter, ainda, que aceitar e materializar minha traição frente a ele. Evitar o seu olhar não é, necessariamente, uma ação que faço de forma totalmente intencional ou consciente; pode ser que nem perceba que estou fazendo. Porém, se fundamenta na percepção (do olhar dele, pois eu não poderia evitá-lo se não conseguisse vê-lo), e também na culpa (como reconhecimento de que tenho furado valores, sejam os meus, os dele ou de ambos). Nesse exemplo, a 'estratégia' de desviar o olhar é simultaneamente produzido pelo sentimento da culpa, e produtor de um silêncio: a evasão do confronto com meu amante e com minhas próprias ações. Também é possível entender como minha estratégia de evitar o olhar pode des-visibilizar seu rosto da minha percepção (quando olho para qualquer lugar menos para seu rosto), ao mesmo tempo que visibiliza minha culpa, na percepção dele.
Dessa forma que defino a estratégia, a 'cegueira estratégica' implica que nós, brancos, até vemos as desigualdades e os privilégios, mas nem sempre reconhecemos o que vemos como racismo e como privilégio. Cegueira estratégica é ver sem necessariamente perceber, sem necessariamente enxergar, mas ainda assim se beneficiar. Ou, se percebermos e enxergarmos num primeiro momento, o processo de silenciamento estratégico significa virar a cabeça, justificar, esquecer, negar, naturalizar, para que essa percepção não tenha como se manifestar. E com a negação repetida, pode voltar a ser "não visto".
Vários estudos sobre branquitude no Brasil visam tornar visíveis os privilégios dessa, especialmente para os brancos, para interromper o ciclo de produção na hierarquização racista da sociedade. O trabalho de Piza (2003, 2005) é um bom exemplo disso, visando o estudo dos brancos como caminho para ação antirracista. Porém, vale a pena perguntar: se explicitarmos a branquitude e os privilégios na identidade dos brancos, será que todos os brancos vão lutar contra o racismo estrutural e os próprios privilégios deles? A suposição de que os brancos mantêm os privilégios por não enxergá-los, como vimos na metáfora da 'porta de vidro' escrita por Piza (2003), parece carregar também a suposição de que os brancos, ao perceber os privilégios, tomariam ações contra esses privilégios. Eu chamaria isso de "suposição da ingenuidade dos brancos", a ideia de que pessoas brancas têm boas intenções, uma ideia de que realmente não entendem que são produtores do racismo e das desigualdades frutos dele.
Por um lado, parece ser o caso que em determinadas situações, determinadas pessoas brancas realmente não estão conscientes dos seus privilégios. Charles Mills (2007), na sua discussão da "ignorância branca" enquanto uma produção epistêmica ativa e estrutural, argumenta que “a ignorância branca nem sempre tem base na má fé”, devido à supressão social e estrutural de conhecimento pertinente (p. 21). A ignorância branca, da forma que é analisada por Mills, tem a ver com os aspectos estruturais do racismo e o caráter social da epistemologia, e por isso a ignorância nem sempre é resultado de processos individuais de pensamento e raciocínio.
Em certos casos, a conscientização da branquitude leva indivíduos a iniciar processos antirracistas. A própria Edith Piza é um exemplo, pois começou a buscar uma visão crítica sobre a branquitude a partir do momento que começou a entender seu lugar racializado na sociedade. Também, Maria Aparecida da Silva Bento (2003b) fez cursos de formação em relações raciais justamente para conscientizar pessoas brancas e negras, além de estimular o enfrentamento aos privilégios. Na minha própria pesquisa, todas as pessoas que entrevistei relataram mudanças significativas de perspectiva e orientação política a partir da convivência com pessoas negras, sugerindo que seus posicionamentos anteriores (por exemplo, de silenciamento da branquitude no caso de Alice) podem ter realmente surgido da 'cegueira' e limitações de perspectiva.
No entanto, é evidente também, como tenho apontado ao longo deste capítulo, especialmente com trechos da dissertação de Miranda (2015), que a consciência de ser privilegiado não necessariamente produz ação contra esse privilégio. Por isso que é necessária a ideia de 'neutralidade', 'silenciamento' e outros termos para descrever táticas coniventes a privilégios conscientemente enxergados. Inclusive, mostrarei na parte empírica deste estudo como certas pessoas brancas, ao começar a enxergar seus privilégios, ficam desconfortáveis e se separam de contextos em que são questionadas e desafiadas. Durante minha defesa, a professora Suzana Maia chamou isso de "re-segregação" e comentou que tem observado no trabalho dela também.
A questão da "suposição da ingenuidade dos brancos" se relaciona também com a branquitude sendo pensada erroneamente como 'invisível'. Para quem pressupõe que a manutenção do privilégio é fruto da 'invisibilidade' desse, faria, então, sentido que a consciência desse privilégio naturalmente proporcionaria a sua desconstrução. Porém, com a abordagem da cegueira e do silenciamento estratégico, é possível questionar se a conscientização realmente seria suficiente para estimular os brancos a agirem contra seus privilégios.
CAPÍTULO 2
INTERSECCIONALIDADE E DESLOCAMENTO ESTRATÉGICO DO
PRIVILÉGIO BRANCO
O “deslocamento estratégico", que descrevi como um tipo de silenciamento dos privilégios, é uma questão interseccional. "Interseccionalidade" significa a interação entre múltiplos eixos de opressão e privilégio, por exemplo, as relações raciais, relações de gênero e relações de classe social. Kimberlé Crenshaw, pesquisadora negra estadunidense, explica como interseccionalidade é uma 'conceituação metafórica', usando a metáfora da intersecção. A definição elaborada por Crenshaw (2002) é:
A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as conseqüências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. (p. 177)
Acho importante aqui notar que essa definição focaliza no desempoderamento, e na interação entre múltiplos eixos de subordinação. Crenshaw visa examinar como "as desvantagens interagem com vulnerabilidades preexistentes, produzindo uma dimensão diferente do desempoderamento" (p. 177). Ou seja, o foco é na interação entre opressões e na forma que essas opressões podem, por meio dessa interação, se intensificar.
No caso do presente estudo, viso estudar o privilégio branco de forma interseccional. Wildman (1995), na sua definição do privilégio, também apontou como a análise de Crenshaw focalizou nas interseções da subordinação, e observou que o privilégio pode entrar em interseção com subordinação ou também com outros sistemas de privilégio (p. 898).
Quando aqui proponho uma abordagem que visa analisar as interações entre opressões e
privilégios, a princípio, poderia parecer que vou contra a abordagem interseccional, definida
por Crenshaw, que focaliza nas subordinações. Em resposta a essa crítica em potencial, gostaria de apontar, primeiro, que mesmo sem o foco nas subordinações, minha análise ainda segue com o objetivo mais amplo, sugerido por Crenshaw, de estudar diferentes sistemas de poder que "se sobrepõem e se cruzam, criando intersecções complexas nas quais dois, três ou quatro eixos se entrecruzam" (p. 177). Se há pessoas que enfrentam múltiplas opressões, por exemplo mulheres negras e indígenas, também há pessoas que são privilegiadas de forma múltipla e multiplicadora, por exemplo, homens brancos.
fundamenta, de fato, na análise interseccional das opressões. Por exemplo, quando faço uma discussão sobre os 'deslocamentos estratégicos' a seguir, viso justamente apontar que as pessoas brancas estão negando e silenciando a interseção entre eixos de poder. Como discutirei aqui, há diversos exemplos na literatura acadêmica brasileira da branquitude em que pessoas brancas focalizam nas suas posições subordinadas de gênero e classe para argumentar que não são privilegiadas enquanto brancas. Com a análise de "deslocamento estratégico" enquanto silenciamento que reforça o privilégio racista, pretendo apontar como se usa a negação da interseccionalidade de opressões para manter posições de poder. Dessa forma, a ideia da interseccionalidade é o ponto de partida, e é a partir dele que aponto os silenciamentos dessa multiplicidade. Muitos dos brancos que se deslocam da branquitude parecem estar mobilizando uma conceituação em que "discriminação" seria um processo linear, e não a conjuntura de múltiplos processos de identidade que abordagens interseccionais visam estudar.
A perspectiva pautada aqui é que toda 'inferiorização' acarreta também numa 'superiorização', e que não existe oprimido sem opressor. Portanto, minha abordagem à interseccionalidade examina o entrecruzamento entre diferentes eixos de poder com o intuito de desmascarar como esse cruzamento envolve não só subordinação, mas também “super- ordinação”.
O termo “subordinar”, com o prefixo "sub", implica colocar numa posição inferior num sistema hierárquico de classificação (ordenação). Por definição, a existência de um subordinado significa a existência de um "superordinado", pois são posições relativas numa escala hierárquica. Uma ótica que examina somente a subordinação pode acabar naturalizando o superordinado como se ele se constituísse o normal em relação ao que é subordinado. No caso da branquitude, essa ótica significaria ver 'o negro' e 'o índio' como subordinados e 'o branco' como norma. Minha análise, como parte do campo emergente da tematização crítica dos privilégios e dos privilegiados, visa analisar a "super-ordinação" implicada por definição na subordinação. O ato de 'subordinar' o Outro significa 'superordinar' si mesmo(a).
No meu caso, como homem branco estrangeiro, a interseccionalidade significa que ninguém nunca interage comigo somente ou puramente como "branco". Inclusive porque a própria palavra “branco” já está atrelada a um gênero (masculino). Os aspectos da minha identidade heteroclassificada não existem independentemente uns dos outros na vida cotidiana. Não existem momentos que sou branco sem também ser estrangeiro, 'homem' e com as condições socioeconômicas que permitiram meu acesso ao ensino superior.
especificamente o privilégio da branquitude. Ou seja, não viso fazer um estudo sobre privilégio/opressão de gênero e classe social de pessoas brancas, e sim das situações em que gênero e classe social são processos constituintes ou modificadores do privilégio da branquitude.