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de James Cone

No documento PauloFreireOK (páginas 104-107)

Genebra – 1972

Há livros que, iniciada a sua leitura, nos desafiam e fascinam, a tal ponto que se nos torna difícil deixá-los antes de chegar, com seu autor, às suas últimas palavras. A

Black Theology of Liberation é um desses livros.

Recebi-o em Genebra, em 1970, quando recém-aparecia nos Estados Unidos, de um jovem amigo, aluno de Cone, em Nova York, e que havia participado regularmente do seminário que coordenei na Universidade de Harvard, em 1969. Cone não era, porém, para mim, um desconhecido. Havia lido o seu primeiro livro que, mesmo sem a força do segundo, já o anunciava. Foi esta a sensaçâo que tive ao terminar a leitura de A

Black Theology and Black Power, em 1969, em Cambridge.

Este livro, disse entào eu a mim mesmo, promete algo mais vigoroso que deve estar vindo.

Dest a forma, recebi a A Black Theology of Liberation como quem recebe algo já esperado. A lucidez de Cone, a seriedade de suas análises, seu compromisso com os oprimidos, nada me surpreendia. Tudo era, pelo contrário, a confirmação do anúncio referido.

Recordo perfeitamente que o livro me chegou na véspera de uma viagem a Roma, onde deveria coordenar, por uma semana, um seminário sobre educaçâo e libertação. À noite, em casa, depois do jantar, aceitei o convite que o livro me fazia e comecei a minha intimidade com ele. Atento, impactado, página após página, cheguei à ante- manhã com o livro nas mãos, terminando sua primeira leitura, horas depois, no percurso Genebra-Roma. Voltando à Genebra, voltei ao livro também para a segunda leitura, após a qual escrevi a Cone, dizendo-lhe da impressão que seu livro me havia causado e da importância de sua imediata publicação na América Latina. É que a “black theology”, de que Cone é uma das melhores expressões nos Estados Unidos, se identifica, indiscutivelmente, com a “teologia da liberta-ção” que hoje floresce na América Latina. O profetismo de ambas não significa somente um falar em nome dos que se encontram proibidos de fazê-lo, mas, sobretudo, em lutar lado a lado com eles para que, transformando revolucionariamente a soc iedade que os reduz ao silên-cio, possam dizer, efetivamente, sua palavra. Dizer sua palavra, por isso mesmo, não é apenas dizer "bom-dia” ou seguir as prescrições dos que, com seu poder, comandam e explorarh. Dizer a palavra é fazer história e por ela ser feito e refeito. As classes dominadas, silenciosas e esmagadas, só dizem sua palavra quando, tomando a história em suas mãos, desmontam o sistema opressor que as destrói. É na práxis revolucionária, com uma liderança vigilante e critica, que as classes dominadas aprendem a “pronunciar” seu mundo, descobrindo, assim, as verdadeiras razões de seu silêncio anterior.

Dai o caráter eminentemente político da “black theology” nos Estados Unidos, como da teologia da libertação na América Latina.

O fato, porém, de que esta e aquela sejam e tendam a ser, cada vez mais, teologias que privilegiam o político, não significa serem elas distorções da “pureza” teológica, como se pudesse existir uma teologia neutra.

A “teologia branca”, para usar uma expressão ao gosto de Cone, é tão política quanto a “black theology” ou a “teologia da libertação” na América Latina. A única diferença está em que a política oculta, mas facilmente perceptível, dessa “teologia branca”, se orienta no sentido da defesa dos interesses das classes dominantes. Esta é a razão por que, simulando neutralidade, essa teologia se preocupa tanto com a conciliação dos inconciliáveis, nega tão insistentemente a existência das classes sociais e sua luta e, em suas incursões pelo social, não vai mais além dos re formismo modernizantes, que são uma forma de preservar as estruturas de dominação.

Pensando desde o ponto de vista das classes dominantes os teólogos da neutralidade impossível usam uma linguagem mistificadora. Empenham-se em amenizar a dureza da realidade opressora e conclamam as classes dominadas, que invariavelmente chamam de “pobres” ou de “menos afortunadas”, a encarar, com resignação, o seu sacrifício. A dor que sofrem, a discriminação aviltante, a existência, como morte em vida, tudo isso deve ser assumido pelas classes dominadas – pelos “pobres”, em sua linguagem – como meio de purificação de seus pecados. No fundo, deveriam agradecer aos “ricos” pela oportunidade que lhes dão de salvar-se...

Na verdade, porém, as classes doniinadas precisam, ao contrário, transformar o sofrimento de não ser no sofrimento que a luta por ser lhes impõe. Enquanto o primeiro constitui uma forma de aniquilamento, o segundo se converte na esperança que as move. Só a esperança que nasce do hoje e no hoje desta luta confere sentido ao futuro, não como vaguidade alienada ou como algo predeterminado, mas ao futuro como tarefa de construção, como “façanha da liberdade”.

O que fazem aqueles teólogos é propor às classes oprimidas uma passividade maior ainda, na medida em que rompem a unidade entre reconciliação e libertação. Para eles, reconciliação não é outra coisa senão a adaptação dos dominados aos apetites das classes dominantes. Tudo se passa como se fosse possível reduzir a reconciliação a um pacto entre as classes dominantes e as classes dominadas – “ricos” e “pobres”. Pacto no qual estas últimas, aceitando a continuidade da realidade opressora, recebessem, em contrapartida, uma eficiente e modernizada assistência social.

Uma tal concepção elitista da reconciliação não encontra abrigo na teologia da libertação na América Latina nem tampouco na “black theology” de que James Cone, repitamos, é um dos mais agudos representantes. Em verdade, a reconciliação entre opressores e oprimidos enquanto classes sociais, pressupõe a libertação destes, que tem de ser forjada por eles mesmos, através de sua práxis revolucionária.

É necessário, contudo, que você, leitor ou leitora, inicie imediatamente sua “convivência” com o pensamento de James Cone. Para concluir esta breve introdução, acrescento apenas que seu pensamento, que emerge de uma realidade incrível, a “diabólica” realidade do racismo nos Estados Unidos, tem uma força singular. Suas reflexões teológicas sobre tal realidade, ele não as propõe como se fosse um ser do outro mundo, uma espécie de estrangeiro curioso. James Cone é um homem comprometido, “molhado” desta realidade que ele analisa com a autoridade de quem nela se experimenta.

A Black Theology of Liberation é, por isso mesmo, um livro apaixonado, escrito

apaixonadamente. Alguns tremerão de raiva frente a ele; outros, de medo. Muitos, contudo, encontrarão nele um estimulo para sua luta. James Cone não pretende mais do que isto.

Conscientização e libertação:

No documento PauloFreireOK (páginas 104-107)