2. Por entre os meandros de uma narrativa fílmica
2.3 De Lisboa à Cova da Serra: uma viagem para a morte
Ora as nossas personagens fílmicas movem-se por entre espaços, lugares grandes ou pequenos, abertos ou fechados. Neste caso, e como a acção decorre, essencialmente, em Lisboa, um lugar geograficamente identificável, e em um outro não localizável geograficamente, mas que, por aproximação a um espaço real, nós conseguimos adivinhar, podemos dizer que Mário Barroso não se afastou da obra de que se inspirou, O Milagre Segundo Salomé.
Com efeito, à semelhança do que acontece no romance, a acção passa-se na cidade, querida e amada, de Miguéis: Lisboa. Apesar de as cenas de exterior serem poucas, aquelas que aparecem compravam isso mesmo: a procissão decorre num Bairro de Alfama e na ida ao banco, as meninas são filmadas perto da Praça do Comércio. Faz todo o sentido Mário Barroso ter conservado este macro espaço, porque ele é de grande importância, não só na obra, mas também na vida de Miguéis.
Neste sentido, espreitaremos o Bordel da dona Rosa, onde Salomé começara por viver; depois, acompanhá-la-emos pelo palacete de Sertório; partiremos também com ela à sua terra, a Cova da Serra; e iremos com ela, para a casa de Gabriel. Como o podemos verificar, estes espaços já foram caracterizados na primeira parte deste trabalho, o que significa que foram guardados no filme, contudo, resta-nos saber se os locais que descobrimos nas fantásticas descrições de Miguéis, pela voz do narrador e das personagens, correspondem ao que encontramos no filme.
O espaço do bordel corresponde à primeira fase da vida de Salomé no filme, e é o local de onde ela partirá para uma nova fase, junto de Sertório Cerqueira. O bordel do romance é uma casa grande, com mais de dois andares, um local de perdição, mas, no fundo, onde morava também alguma decência. A casa apresentada no filme também é grande, visto que, na procissão, as meninas estão a assistir à procissão de várias varandas e que a extensão da fachada se estende pela rua fora. As meninas estão de
162 varandas abertas, a imensa parede vermelha escura sobressaindo sobre todo o espaço envolvente.
No filme, são-nos mostrados várias divisões desta casa: a sala onde se recebem os convidados, o quarto de Salomé e o escritório da dona Rosa, estes sendo, por nós, considerados os mais significativos. Os interiores são, predominantemente, mantidos na escuridão, as roupas das prostituas sobressaindo sobre os tons escuros das paredes.
Na sala onde são recebidos os convidados, damos destaque aos reposteiros, que, tentam dar um certo ar de classe, que se perde logo com os vermelhos dos cadeirões e dos sofás e os verdes escuros, os azuis escuros e os vermelhos das paredes. Como não podia deixar de ser, o vermelho é a cor predominante no bordel. As paredes, de papel verde, azul e vermelho escuro têm estampadas flores com um tom ligeiramente mais escuro e reflectem muito pouca luminosidade, criando, assim, um ambiente intimista e erótico.
No escritório de dona Rosa, onde esta chama Salomé para lhe fazer a proposta de Sertório, vemos uma cama de ferro, por fazer, com uma colcha vermelha, um cadeirão, onde a dona da casa se encontra sentada e uma mesa redonda também com uma toalha vermelha; atrás de dona Rosa, um roupão, também ele vermelho.
Para além destas duas divisões, a acção também decorre, em várias ocasiões, no quarto de Salomé: inicialmente, quando Natacha lhe fura as orelhas, depois quando Salomé recebe a visita surpresa do tenente e até à noite, quando o conselheiro parece ter morrido na sua cama. A primeira imagem que temos do quarto de Salomé mostra um oratório. Natacha quer queimar a agulha na vela da Virgem e Salomé diz-lhe: “Não, na lamparina não”. Em primeiro plano temos, pois, Natacha, debruçada sobre o oratório, quando ouvimos a voz de Salomé a repreendê-la. O facto do realizador ter começado por filmar o oratório foi, claramente, intencional, o objectivo sendo, certamente, de ligar a personagem à fé, à crença, como se quisesse dizer logo que Salomé é uma personagem especial.
Estes aspectos foram, igualmente, evidenciados no romance, sendo que, já na primeira parte deste trabalho, tínhamos referido que o bordel do romance era um local onde alguma decência ainda imperava e isto não deixa de acontecer no filme. Como o pudemos verificar, o realizador, em nenhuma ocasião, mostrou uma cena explícita de sexo, precisamente porque não queria que a vulgaridade, a promiscuidade destruísse a história de Miguéis. Mas, como se trata, de facto, de um bordel, a caracterização do espaço incide sobre o lado íntimo e secreto das várias divisões.
163 Avancemos, então, agora para a nova residência de Salomé: o palacete. Vimos, na primeira parte deste trabalho, que o palacete era um local elegante, solene, luxuoso e confortável. Na verdade, no filme, estes aspectos também são visíveis. Contudo, se, na primeira parte pudemos proceder a uma caracterização minuciosa desta grande casa, no filme, apenas são focadas algumas das suas divisões: a sala de jantar, o patim, a sala de estar, o jardim e o quarto de Salomé. Numa perspectiva geral, podemos dizer que as principais linhas de caracterização deste espaço, e que são a riqueza e a opulência, foram respeitadas pelo realizador. De facto, todas as divisões nos parecem enormes e excessivamente decoradas – apesar do realizador afirmar que eram pequenas e que teve imensa dificuldade em dar a ilusão de que eram grandes. Abundam os quadros nas paredes, os ornamentos decorativos são, de facto, bastante trabalhados e até o relógio e a mesa de mármore são opulentos. Cerqueira explica a Salomé:
Este palacete foi construído por um novo-rico da Monarquia, um Barão… quem iria dizer que viria para as mãos de num novo-rico da República. (Barroso: 2004)
Contudo, falta um dos locais mais importantes da casa: a marquise, que encontrávamos no romance. Este espaço foi, desde o início, o eleito de Salomé: pelo sossego, pela paz e pela vista de Lisboa que proporcionava. Parece-nos que, no filme, a marquise foi “substituída” pelo jardim, visivelmente, bem tratado, com muito verde e é lá que encontramos Salomé quando a Judite a vem visitar, o que nos leva a crer que é um local onde Salomé se sente bem. Também podemos interpretar este facto de uma outra forma: Salomé é, como já vimos, uma personagem distinta no filme e no livro, por isso, não demonstrará a mesma necessidade de paz e de sossego.
Apesar da personagem de Miguéis não ter passado pelos mesmos momentos complicados, a Salomé de Mário Barroso decide, também ela, regressar ao passado, depois do episódio bombástico da festa. Encontramos neste regresso ao passado mais um espaço físico importante da acção. Pensamos que, de uma maneira geral, a Cova da Serra, nome que foi atribuído ao lugar, em detrimento de Lapa d‟Ursos, corresponde à descrição que é feita da Lapa d‟Ursos. Mantém-se, como cor predominante, o verde, característico das regiões do interior, e vêem-se, inclusive, os montes ao longe. O silêncio referido na obra, característico destes locais, é igualmente respeitado, sendo que, a certa altura, a banda sonora desaparece completamente e conseguimos ouvir o maravilhoso silêncio da natureza envolvente. Além disso, é característica do ambiente filmado a aridez, visto que são poucas as árvores, os arbustos e as ervas são rasteiras.
164 Talvez o silêncio tenha tornado o Milagre mais credível; talvez o Milagre e o silêncio sejam os causadores das estrondosas e fantásticas mudanças que ocorrerão na vida de Salomé e que nos levarão a mudar de vida e de espaço com ela.
Da simplicidade da serra, passamos para a simplicidade da casa de Gabriel, onde Salomé irá viver e permanecer. Uma diferença impõe-se logo à partida: no romance, depois do primeiro encontro, os dois ficam, desde logo a morar juntos, depois de se terem encontrado, ocasionalmente, nas ruas de Lisboa. A primeira casa onde eles ficam a morar pertence a Salomé e não a Gabriel como no filme. No entanto, e apesar desta diferença, o espaço em si, independentemente da propriedade, é igualmente, simples, pobre e humilde o que agrada aos dois. Na versão de Mário Barroso, só lhe conhecemos a sala que tem estantes com livros, uma mesa coberta de flores artificiais, uma secretária cheia de papéis e uma máquina de escrever, um sofá, um cadeirão, um aparador e quadros de imagens nas paredes
Apesar de, no romance, o casal ter morado em duas casas, tendo mudado depois da visita de Severino. A segunda casa é velha e eles reconstroem-na na base do seu amor, mas pensamos que a casa que encontramos no filme está mais próxima da primeira casa onde eles moraram, está mais próxima da simplicidade e da humildade tão apreciadas pelo casal.
Do espaço em que acção decorre, passamos, seguidamente, à análise do tempo por elas vivido.