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O 7 DE MARÇO DE 1975 – FOI NA CIDADE DO SADO…

No documento Setubal LILIA final (páginas 64-74)

Pela praia entra a maré.

VIGILÂNCIA REVOLUCIONÁRIA! CONTRATO VERTICAL PARA A RUA, JÁ!

3. O 7 DE MARÇO DE 1975 – FOI NA CIDADE DO SADO…

O 11 de Março em Setúbal começa a 7. Os acontecimentos decorrentes do boico- te a um comício do PPD marcado para o dia 7 de março iniciarão um dos períodos mais conturbados na cidade de Setúbal nos dezanove meses da Revolução. Por isso analisá-lo-emos com o detalhe que a economia desta investigação permite.

21 Entrevista de Fernando Ribeiro. Idem. Ibidem.

22 Depoimento de um elemento de uma Comissão de Moradores de um bairro da classe média. Dows. Op. Cit. p. 104.

23 Depoimento de um elemento de uma Comissão de Moradores de um bairro da classe média. Dows. Op. Cit. p. 108.

“Foi na cidade do Sado / No Pavilhão do Naval Havia uma bronca armada / pelas bestas do capital. Aos sete do mês de março / Quinta-feira já se ouvia Dizer à boca calada / Que o PPD era a CIA. Uma tarjeta laranja / Convite ao povo fazia Venham todos ao comício / da Social Democracia. Eram talvez quatrocentos / Gritando a plenos pulmões: Abaixo o capitalismo / Não queremos mais tubarões” 24.

Esta será certamente uma das canções menos conhecidas da discografia de José Afonso. Constitui um relato cronológico que segue de perto e descreve um dos episódios mais violentos ocorridos em Setúbal durante o período do PREC que opõe a esquerda radical à direita política e à Polícia de Segurança Pública. Esta canção do “Zeca” ilustra também, de uma forma particular, o seu empenho militante e a sua ação e intervenção políticas na cidade de Setúbal.

Ilustra, de igual modo, a forma como se assumia como compagnon de route dos jo- vens da esquerda revolucionária.

Atente-se na continuação do registo da canção feita no rescaldo dos aconteci- mentos de 7 de Março de 1975:

“Lá dentro sessenta manos / do PPD exibiam

Matracas e armas de fogo/ E o mais que os outros não viam. A um sinal combinado/ Já quente a polícia vem

Arreia, polícia arreia/ Que o Totta Açores paga bem. (…)

Cai morto João Manuel/De nascimento Algarvio Dezoito já eram feridos/ Ficou o Naval vazio”25.

No dia 5 de março de 1975 o jornal O Setubalense publicitava em anúncio pago “PPD – Grande Comício em Setúbal”. O evento deveria ocorrer no Pavilhão do Naval Setubalense e teria a presença, como figura central, de Magalhães Mota, um dos fundadores do partido e também Ministro sem pasta do Governo Provisório26. Face a este anúncio, os círculos da esquerda revolucionária (PRP-BR, LUAR, FEC –

24 “Viva o Poder Popular”, letra popular, música José Afonso, edição LUAR, reedição da Associação José Afonso, Setúbal, 2013.

25 Idem, Ibidem.

26 O Setubalense, 5 de março de 1975. Seriam ainda oradores Santos Silva e Carlos Macedo. Paulo Valdez da juventude local do PPD, seria outro dos oradores.

ml e FSP) iniciam também uma convo- catória informal com o objetivo de boi- cotar o Comício do PPD e constituem mesmo uma Frente Anti Fascista (FAF), que assinou o comunicado à população, com o objetivo de boicotar o comício. O comício, publicitado para a sexta-fei- ra seguinte, não chegou a realizar-se. Muito antes da hora marcada para o iní- cio da sessão, começa a concentrar-se grande número de pessoas à porta do Pavilhão do Naval, gritando “Abaixo o PPD”, “Morte ao PPD”, “Abaixo o capita- lismo”, “Viva o comunismo”.

Num segundo momento os contrama- nifestantes entram para o interior do Naval.

O confronto é inevitável. A PSP tinha preparado esta intervenção, tendo sido reforçada por um pelotão proveniente de Almada.

Os elementos da PSP entram no inte- rior do sala com o intuito de dispersar o grupo que se opunha à realização do comício, conseguindo depois de al- guns confrontos evacuar o recinto.

No entanto, esta intervenção vai ainda acirrar mais os ânimos e às palavras de or- dem contra o PPD juntam-se agora outras contra a polícia.

Mais tarde, por volta das 23,30, a polícia irá disparar rajadas de metralhadora da sua sede sita na Avenida Todi, coincidindo esta ação com a saída do cinema, situado do outro lado da avenida. Destes incidentes vão resultar cerca de duas dezenas de feridos, e um morto, um jovem que acabava de sair do Grande Salão Recreio do Povo.

3.1. Ação de indignação contra a PSP

A intervenção violenta da polícia vai provocar na população uma onda de indig- nação contra a PSP, permitindo que os partidos da esquerda radical promovam e reforcem a mobilização popular. Serão feitos apelos ao cerco da esquadra da po- lícia e às Forças Armadas para que intervenham. Uma delegação da esquerda irá ao quartel do 11, pedindo à tropa que atue, pedido que não é inicialmente aceite pelo comandante.

A intervenção das Forças Armadas, através do COPCON, far-se-á, contudo, mais tarde, pelo envio de tropas dos Fuzileiros, da Escola Prática de Artilharia de Ven-

Cartaz do Comício do PPD de 7 de Março de 1975 que não chegou a realizar-se.

das Novas, de Cavalaria 7 e do RICOQ de Queluz. A esquadra da polícia será ocupada pela tropa, que se irá assumir como força de interposição entre os manifestantes e a própria polícia. O corpo policial autor dos disparos, aca- bará por ser evacuado para Lisboa, de- pois de ter estado cercado quase 24 ho- ras. A evacuação/expulsão dos polícias é feita sob a proteção das Forças Armadas. Os polícias serão metidos em duas chaimites e num camião Berliet. A presença dos militares é vista de uma forma contraditória. Objetivamente, es- tes vão funcionar como uma força de interposição entre os manifestantes e a po- lícia, evitando que a esquadra fosse assaltada.

Mas os manifestantes viram também a presença das tropas enviadas pelo COPCON como seus aliados contra a polícia. De resto, a polícia havia recusado a entrega das armas aos militares. Ricardo Botas, oficial miliciano no Regimento de Infantaria 11, e que terá chamado os primeiros reforços militares, lembra que: “os polícias não fo- ram castigados mas apanharam uns bons safanões. Cerca de duas horas depois de termos tomado conta da esquadra, chegaram reforços com o pessoal da Marinha e com unidades blindadas. Durante a madrugada a polícia foi tirada de dentro da es- quadra mas, por seu lado, o número de manifestantes tinha engrossado. Os militares fizeram um corredor para que os polícias passassem mas os manifestantes pressiona- ram o corredor, pelo que os polícias ainda apanharam uns pontapés. Lembro-me perfeitamente que alguns militares também fizeram o gosto ao dedo” 27.

3.2. Diferentes leituras dos acontecimentos

As leituras divergentes feitas pelos diversos protagonistas ajudar-nos-ão a perce- ber melhor os acontecimentos. A intervenção da polícia é considerada excessiva por parte de quase todos os atores políticos à exceção do PPD e do PS. O primeiro partido a pronunciar-se sobre os incidentes vai ser o PPD. Às 5 da manhã de dia 8, a sua Comissão Política Distrital lança um comunicado, responsabilizando, em tom dramático, os elementos da extrema-esquerda pelo sucedido: “Estamos na nossa sede de Setúbal e à angústia que sentimos ao vermos as nobres intenções dos valorosos capitães de Abril tão vilmente atingidas, junta-se a dor de que esta- mos a ser possuídos ao sabermos que a desgraçada iniciativa, daqueles que pode- rão ser os coveiros da democracia portuguesa, já fez vítimas”28.

Ainda na manhã de sábado, a Comissão Concelhia do PCP divulgou um primeiro

27 Entrevista de Ricardo Botas, oicial miliciano no Quartel do 11. Pedro Brinca e Etelvina Baía,

Op.Cit. vol. 1 p. 211.

28 Comunicado da Comissão Política Distrital do PPD de 8 de março de 1975.

Panfleto da LUAR.

comunicado acusando “grupos de provocadores de se atirarem contra as forças policiais”.

O PCP não deseja ser confundido com os partidos que boicotaram o comício: “Os métodos de trabalho do Partido da classe operária, o PCP, nada têm a ver com os métodos arruaceiros, provocatórios e irresponsáveis” 29.

O Partido Comunista critica igualmente a atuação da polícia não só por ter “dis- parado rajadas sobre o povo” mas também por não ter prendido “os provocado- res” no pressuposto de que deveria “pedir-lhes contas pelos seus atos”30.

Para o Partido Socialista estes acontecimentos enquadram-se nas ações promovi- das pelos “agrupamentos extremistas”, que fomentariam a insegurança, com o “objetivo de impedir a realização de eleições para a Assembleia Constituinte”. A secção de Setúbal do MDP/CDE centra a sua condenação na intervenção da polícia: “A metralha que caiu sobre Setúbal, por muito que se diga que ela visava apenas pretensos provocadores, manifesta um estado de espírito marcadamente, contra o qual nos devemos prevenir ainda, mais uma vez, vigiando, organizando, lutando”31.

Por sua vez, o núcleo de Setúbal do MES responsabiliza o PPD e a PSP pelo ocor- rido: “Houve de facto à boa maneira fascista uma atitude provocatória da parte do PPD, onde aliás se acoitam elementos notoriamente fascistas que ainda há um ano militavam na Ação Nacional Popular (ANP), Legião Portuguesa (LP), Moci- dade Portuguesa (MP).”32.

Também o núcleo da UDP de Setúbal toma posição: “A polícia de choque alugada pelo PPD massacrou com cassetetes e gases lacrimogéneos vários companheiros”33. Num outro comunicado acaba por exigir “a dissolução imediata das polícias fas- cistas PSP e GNR”34.

A LUAR considera que “houve na realidade uma expressão maioritária e popular que sob a palavra de ordem “morte ao capitalismo” se opôs à realização do anun- ciado comício do PPD, expressão esta que devia ser aceite pelos promotores da sessão”35.

Para O Setubalense que, de alguma forma, se constitui como porta-voz dos contra- manifestantes, o boicote ao comício do PPD era a prova de que o povo rejeitava a direita e queria a revolução socialista. Esta ação deveria constituir-se como um exemplo de intervenção para os militantes revolucionários de outras localidades.

29 Comunicado da Comissão Concelhia do PCP de 9 de março de 1975, reproduzido no jornal

O Setubalense de 10 de março de 1975

30 Idem, Ibidem.

31 Comunicado da Secção de Setúbal do MDP/CDE, reproduzido no Notícias de Setúbal de 15 de março de 1975.

32 Comunicado do núcleo de Setúbal do MES, reproduzido no Notícias de Setúbal de 15 de março de 1975.

33 Comunicado do núcleo da UDP de Setúbal, reproduzido no Diário de Lisboa de 10 de março de 1975.

34 Idem, Ibidem.

O Notícias de Setúbal, jornal da Igreja Católica, através de um artigo do seu diretor,

Mário Moura, condena as três formas de violência que terão ocorrido. A violência policial, a violência política dos que se opuseram à realização do comício a dos que de uma forma oculta instigaram também à violência por não se conforma- rem: “com a ideia de perder privilégios de muitos anos”.36

Para Vitor Zacarias, Presidente da CA, a situação vivida em Setúbal é o reflexo de “uma verdadeira escalada que se vem verificando na vida política nacional”. Sem explicitar culpados acaba por afirmar que “Além do mais há a comentar que a ci- dade de Setúbal tivesse sido eleita para nela se desenrolarem incidentes a que só foi possível pôr termo com a intervenção das Forças Armadas”37.

A leitura dos comunicados das diferentes forças políticas e sociais é bastante elu- cidativa. Em relação aos partidos há três posições distintas.

3.3. A tese da conspiração. Ligações com o 11 de Março?

O 7 de Março em Setúbal é visto por vários sectores da esquerda como estando associado a uma conspiração mais vasta, preparada para inverter o curso revolu- cionário iniciado em Abril de 1974.

A maioria das pessoas que entrevistámos, ligadas ao boicote do comício, continua convicta de que se tratou de uma provocação orquestrada entre sectores do PPD, polícia e elementos pró fascistas que queriam fazer regredir a revolução.

De resto, esta perspetiva é clara nos comunicados das organizações da esquerda revolucionária após os acontecimentos de 7 de março.

Um dos participantes da conferência de imprensa no Círculo Cultural afirma que, antes de ir para o comício, “um polícia de nome Coelho” lhe havia dito “não vás, porque a polícia tem ordem para disparar sem qualquer problema”38.

Não são só as organizações que promoveram o boicote ao comício que defendem esta perspetiva. Há outras forças sociais e políticas que o fazem.

O Diário de Lisboa é o primeiro a suscitar esta questão logo em 8 de março, afir- mando que a realização do Comício do Partido Social Democrata teria sido “o pretexto para o desencadear de uma série de acontecimentos de extrema gravida- de que parecem enquadrar-se numa manobra mais vasta que ultrapassa em muito aquilo que foi considerado, à primeira vista, como, apenas, mais um boicote a um comício”39.

O PCP, não obstante a sua posição inicial, vai trazer vários argumentos para sus- tentar a tese de que foram “a reação e os seus aliados” os responsáveis por terem desencadeado esta manobra provocatória: “Há motivos sérios para pensar que alguns elementos da PSP, de conluio com a reação, organizaram deliberadamente

36 Notícias de Setúbal, 15 de março de 1975.

37 Intervenção de Vitor Zacarias. Ata da reunião da CA da CMS de 10 de março de 1975. 38 O Setubalense, 12 de março de 1975.

as cenas de tiroteio, disparando friamente contra os populares”40.

Quem deu ordem de fogo permitindo que a PSP disparasse contra a população indefesa “ferindo a torto e a direito, encurralando pessoas que saíam pacifica- mente do cinema”? pergunta o PCP. Como se explica que a primeira página do jornal Expresso de 8 de março “publicado meia dúzia de horas depois dos aconte- cimentos também já soubesse de tudo”?

Todas estas dúvidas levam à conclusão de se ter estado em presença de um “con- luio provocatório a que elementos do PPD e alguns elementos fascistas da PSP não são alheios”41.

Enquanto no 1.º comunicado a enfâse é colocada nos métodos dos arruaceiros irresponsáveis da esquerda radical, num segundo comunicado, bastante bem ela- borado, enfatiza-se o conluio entre a polícia e o PPD.

Como já vimos, também a canção de Zeca Afonso estabelece a ligação entre o 7 e o 11 de Março:“ Aos onze do mesmo mês/ às onze horas do dia/ Enquanto João passava/ Enquanto João jazia.

Perspetiva diferente defende Paulo Valdez, atual dirigente do PSD, que na altura seria o jovem orador do comício no Pavilhão do Naval.

“A única provocação que houve era nós existirmos”.

Nega a existência de qualquer provocação ou qualquer ligação aos sectores que quisessem desestabilizar a situação política. Sustenta que a maior parte dos mili- tantes do PPD de Setúbal eram estudantes, elementos da classe média (professo-

40 Comunicado da Comissão Concelhia do PCP de 9 de março de 1975. 41 Idem, Ibidem.

intervenção de francisco lobo na manifestação de 12 de março de 1975

Viam-se bandeiras do P.C.P., P.S.P. e MDP/CDE, além de muitos dísticos com frases alusivas, assim como “Fuzilamento aos traidores”, “O Povo tem direito aos traidores fuzilados”, “Pena de Morte aos reacionários”. “Abaixo a reação”, etc...

Em primeiro lugar usou da palavra Francisco Rodrigues Lobo da C.A da Câmara de Setúbal, dizendo: “A reação mais uma vez não passou. Também anteriormente Setúbal, terra muito procurada pelos reacionários para a sua ação destruidora, viu morrer um militante que tentava travar a sua escalada, e muitos outros feridos. Também já anteriormente mostrou a raiva de que é investida, tirando a placa duma rua que no dia anterior passava a perpetuar a memória de um homem notável desta terra, Jaime Rebelo, o «homem da boca cerrada». Mas o tempo repõe as coisas nos seus devidos lugares e hoje e não podem mais restar dúvidas quanto às intenções daqueles que tentam reter o passo à democratização deste país com calúnias e as mais obscuras intenções à luta aberta e ao terror. Eles voltarão, fomentando dificuldades económicas e desemprego, situações possivelmente a enfrentar. É preciso neutralizar os fascistas, desencapotar os falsos democratas e aumentar a vigilân- cia. A reação não passou, a reação não passará.

res, médicos, bancários) que tinham gosto pela intervenção política e que em Setúbal essa intervenção era muito condicionada pela esquerda”42. Lembra que durante todo o período após o 25 de Abril toda a propaganda partidária afixada era destruída de imediato: “passámos a ter que colar os cartazes depois da meia- -noite para que se aguentassem pelo menos um dia”43.

Um outro interveniente nos acontecimentos do 7 de Março, por nós entrevista- do, Pedro Nunes, está convicto de que “existiam ligações entre os sectores spino- listas e o PPD”44. Este interveniente, ainda hoje militante do PSD, refere que vá- rios elementos do PPD local se teriam oposto ao comício em Setúbal porque temiam a confrontação. Nesta versão “o comício teria sido imposto por Lisboa”, sendo que, depois, os oradores nem chegaram a aparecer”45. Este facto seria a prova de que se pretendia provocar os elementos da esquerda revolucionária. Não dispomos de elementos suficientes para afirmar de forma inequívoca que o 7 de Março sucedeu na sequência de um conluio entre as forças golpistas do 11 de Março e alguns elementos da polícia.

Nesta perspetiva tratar-se-ia de criar um ambiente de confrontação e instabilida- de políticas que propiciaria o golpe que viria a suceder quatro dias depois. Entre a tese de um boicote feito por elementos da esquerda revolucionária na tur- bulência dos dias que corriam e a tese de uma provocação da direita, acolitada pela polícia, subsiste, pois, um mar de dúvidas. O que é inegável é que grande parte dos protagonistas da época relaciona estes dois acontecimentos. Todos os partidos po- líticos, excetuando o PPD e o PS estabelecem relações de causalidade entre os dois factos históricos.

42 Entrevista concedida por Paulo Valdez em 9 de abril de 2014. 43 Idem, Ibidem.

44 Entrevista concedida por Pedro Nunes, em 11 de abril de 2014 45 Idem, Ibidem.

intervenção de odete santos na manifestação de 12 de março de 1975

«Acabámos de viver uma inesquecível jornada, mas a reação, qual víbora peçonhenta, não está morta. É preciso, imperioso e urgente, esmagar-lhe de vez a cabeça. O 28 de Setembro não foi suficiente, a reação continua à espreita, construindo intrigas, tecendo teias onde nós iríamos cair sem apelo nem agravo, se não fosse a resposta pronta do MFA, a resposta do povo português. (…). Esta campanha reacionária que agora se desenha com nitidez e da qual todos estamos já convenci- dos, tinha como finalidade se o golpe desse resultado, essa minoria de criminosos surgiria como salvadora do país. O general António de Spínola queria tornar-se um novo Salazar, que criou à volta de si o mito do salvador. Mas a esses oficiais traidores, caiu-lhes finalmente a máscara. O discurso de renúncia do general Spínola, após o 28 de Setembro, indicava já quais eram as suas verdadeiras intenções. Muita gente não acreditou, mas agora devem estar convencidos. A máscara caiu e na sua cara, como em tantas outras, não há mais nada senão o esgar de ódio e de sangue.

O “rigoroso inquérito” apara apurar as responsabili- dades dos graves incidentes ocorridos em Setúbal, prometido pelo Governo Provisório, acaba por ser realizado pelo EMGFA.

As respetivas conclusões incriminam os grupos da es- querda radical na ação do boicote ao comício do PPD e ilibam a atuação da PSP.

Os sectores da esquerda revolucionária nunca se con- formaram com as conclusões deste inquérito. O Secretariado de Setúbal da FUR repudia o relató- rio do EMGFA sobre os acontecimentos do 7 de Mar- ço. Considera que foi um “relatório forjado à pressa pelo EMGFA”.

O Comité de Luta, em conjunto com as organizações que integram a FUR, decide fazer um “Inquérito Po- pular” aos acontecimentos do 7 de Março que acaba- rá por não se concretizar.

O próprio inquérito ao 11 de Março também ficou in-

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